4 Empirical Analysis
4.2 Investor bets on Quality
A classificação das obras literárias em gêneros foi apresentada pela primeira vez, como afirma o crítico Anatol Rosenfeld (2010), pelo filósofo grego Platão (427 a 347 a.C). No 3º livro da República, escrita em forma de diálogos, Sócrates (469 a 399 a.C), de quem Platão foi discípulo, afirma que as obras se dividem em três tipos. No entanto, é Aristóteles (384 a 322 a.C) que, no 3º capítulo da Poética, classificou os genêros literários de acordo com sua forma e conteúdo. Todavia, de acordo com Rosenfeld (2010), a divisão em gêneros, os quais não existem em forma pura na multiplicidade das manifestações artísticas, não deve ser concebida como um conjunto de regras às quais a criação artística deve se submeter. Segundo o autor, a classificação dos gêneros é indispensável por possibilitar a organização e a comparação das obras. Além disso, tal classificação, aceita desde os gregos da Antiguidade, nos é importante por definir os pressupostos com os quais Brecht se deparou desde o início de sua trajetória artística. Na obra O Teatro Épico, Rosenfeld explica as características fundamentais dos três gêneros literários, sendo eles o lírico, o épico e o dramático, os quais veremos aqui sumariamente.
O gênero lírico caracteriza-se pelo predomínio da subjetividade. Em versos, uma voz – o Eu-lírico – exprime emoções e reflexões sobre experiências íntimas. O lírico não narra acontecimentos, mas exprime estados de alma. Em suma, o gênero lírico retira seu conteúdo da dimensão de
interioridade e subjetividade do Eu que se manifesta. Este, assim como outras personagens, quando presentes, é apenas vagamente definido. A definição clara, a descrição do Eu que se expressa requeriria, em alguma medida, o recurso da narração, a qual pertence ao gênero épico. No gênero lírico, além disso, o mundo objetivo é subjugado pela dimensão subjetiva, tornando-se expressão do estado de alma da voz que se manifesta. Como manifestação da subjetividade, o gênero lírico puro se manifesta no presente, pois a referência ao pretérito, a sua recordação, levaria ao uso da narração.
No gênero épico, a objetividade é predominante. O mundo externo ao narrador existe de modo independente dele, e não como pretexto para a figuração da subjetividade. Ao invés de exprimir os próprios sentimentos, o narrador descreve as emoções e os acontecimentos que ocorreram às personagens -ou à si mesmo em tempos passados. Ainda que o gênero épico possa utilizar o diálogo, trata-se da reconstituição, pelo narrador, de uma conversa entre outras pessoas e ocorrida anteriormente. Em outras palavras, trata-se do narrador contando uma estória, cujo final ele conhece por esta ter se desenrolado no passado. Mesmo quando narra algo ocorrido a ele mesmo, ao contar a estória o narrador conhece o desfecho do caso, não se identificando consigo próprio no momento da ocorrência dos fatos. O gênero épico mantém, assim, a postura distanciada do narrador, posto que a ação se desenrola no pretérito. Por isso, quando o teatro emprega o gênero épico, a ação mescla a representação dos eventos com as intervenções do narrador. Diferentemente das personagens ali expostas, este conhece o desenrolar dos acontecimentos.
O gênero dramático, cujas características retomaremos ao tratar de sua crise, encontra-se, de acordo com Rosenfeld (2010), no pólo oposto ao lírico, no qual a objetividade é subjugada pelo Eu-lírico. Nas palavras do autor, o drama
[...] É agora o mundo que se apresenta como se estivesse autônomo, absoluto (não relativizado a um sujeito), emancipado do narrador e da interferência de qualquer sujeito, quer épico, quer lírico [...] Neste último o sujeito é tudo, no dramático o objeto é tudo. (ROSENFELD, 2010, p.27-8)
Assim, a ação dramática é decidida no mundo objetivo, no embate entre indivíduos distintos, claramente definidos. A contraposição das vontades destes indíviduos dá ensejo, assim, à ação. Desta forma, o diálogo é constitutivo do drama, o campo onde se criam e se expressam os embates intersubjetivos que dão ensejo à ação. Esta se desenvolve no momento presente, dispensando a mediação do narrador, figura ausente no gênero dramático. Deste modo, o drama exige que se estabeleça uma relação de causalidade entre as ações, de modo que engendrem-se e expliquem umas às outras. Há, assim, a exigência de ordem nas ações, diferentemente do épico – no qual, de acordo com o arbítrio do narrador, pode-se principiar pelo meio ou pelo fim da estória. Quando a ação, no gênero dramático, não é gerada pela ação anterior, ligando- se organicamente à ela, revela-se o princípio da montagem, ou seja, da interferência externa característica do épico.
Além da relação orgânica entre as ações (a unidade da ação), o drama puro caracteriza-se ainda pela unidade de tempo e espaço. Posto que apresenta uma ação que ocorre no presente,o gênero dramático não permite saltos no tempo, bem como no espaço, que tende a manter-se o mesmo durante a peça. Como afirma Rosenfeld (2010, p.33): “[...] Dispersão em
espaço e tempo – suspendendo a rigorosa sucessão, continuidade, causalidade e unidade – faz pressupor o narrador que monta as cenas”. Assim, o caráter primário da ação dramática, ou seja, sua representação direta, no momento mesmo em que ocorre, implica ainda – além da ausência do narrador – na invisibilidade do espectador. Diferentemente da narração épica, que pressupõe e interpela o ouvinte, no gênero dramático sua presença é ignorada, pois a ação se desenvolve no presente e os atores se transmutam nas personagens. Disto decorre, portanto, a necessidade de uma representação que ignore a presença do espectador.
Todavia, como afirma o autor Peter Szondi, nascido na Hungria e professor de Literatura Comparada da Universidade de Berlim, onde se estabeleceu após a Segunda Guerra Mundial, a classificação das obras literárias em gêneros, tal como concebidos por Aristóteles, considera a forma como elemento atemporal. Deste modo, apenas o conteúdo seria condicionado historicamente. De acordo com tal concepção, portanto, caberia ao artista selecionar o conteúdo adequado à forma, tida como eterna. Todavia, tal concepção entre forma e conteúdo, como salienta Szondi (2001), é retomada por Hegel (1770-1831) em Ciência da Lógica. O filósofo alemão postula, de acordo com Szondi (2001), uma relação de identidade de forma e conteúdo, pois a própria forma seria conteúdo e este, por sua vez, “[...] nada mais é do que a conversão da forma em conteúdo” (2001, p.24). Desta maneira, Hegel historiciza a forma e, assim, concebe os gêneros como manifestações artísticas determinadas historicamente. Tal transformação levou, de acordo com Szondi (2001), ao desenvolvimento de obras pautadas por uma estética histórica, como A Teoria do Romance, de G. Lukács, Origem do Drama Barroco Alemão,
de Walter Benjamin e Filosofia da Nova Música, de T. Adorno. Tratam-se, em suma, de teorias marcadas pela concepção da forma como conteúdo (não mais como arquétipo a-histórico), de modo que o enunciado da forma, sua historicidade propriamente dita, pode, assim, entrar em contradição com o conteúdo.
Em Teoria do Drama Moderno [1880-1950], Szondi parte da relação dialética entre forma e conteúdo e analisa a crise do drama a partir da tensão entre a forma dramática e a introdução de novos conteúdos sociais. De acordo com o autor, o processo histórico, iniciado no final do século XIX, de crise do drama, leva ao surgimento do épico. Este “[...] designa um traço estrutural comum da epopéia, do conto, do romance e de outros gêneros, ou seja, a presença do que se tem denominado o ‘sujeito da forma épica’ ou o ‘eu-épico’” (Ibid., p.27). A obra de Szondi será alvo de nossa atenção, portanto, na medida em que nos leva aos antecedentes históricos do teatro épico de Brecht.