5 Concluding remarks
A.4 Investment in marginal-cost reduction in outside options
A primeira etapa do processo de análise dos dados consistiu na transcrição do material coletado, realizado pela própria pesquisadora após a conclusão das entrevistas. Para Bourdieu (1997, p. 710), “transcrever é necessariamente escrever, no sentido de reescrever”, por isso nosso compromisso com o trabalho de transcrição buscou rigorosamente respeitar os depoimentos das entrevistadas. No entanto, foram necessários alguns ajustes para permitir que a leitura fosse inteligível e fluída, aliviando o texto de redundâncias verbais ou tiques de linguagem como “bom”, “né”, “então”, “entendeu”, característicos do discurso oral. Também propusemos salvaguardar o anonimato dos pesquisados e de informações por eles apontadas, que pudessem desvendar nomes próprios de pessoas, lugares ou instituições, mantendo apenas aqueles considerados pertinentes para a discussão.
Após a transcrição das entrevistas, voltamos às questões de pesquisa e com base no referencial da abordagem histórico-cultural, delimitamos as estratégias para a metodologia que seguiremos na pesquisa.
No primeiro momento, trabalhamos com a proposta metodológica desenvolvida por Aguiar e Ozella (2006), que nos permitiu construir núcleos de significação, que orientaram a resposta à primeira questão de investigação:
• Que sentidos podem ser construídos a partir das narrativas de professores de ciências da natureza, que marcam suas atuações e trajetórias pessoais, acadêmicas e profissionais com relação à temática ambiental?
Em um segundo momento, dialogando com os resultados encontrados a partir deste trabalho, estabelecemos relações entre as experiências de vida dos sujeitos e as suas práticas enquanto docentes, focando, principalmente, nas práticas voltadas à temática ambiental. Acreditamos que este trabalho nos permitiu aprimorar e ampliar o movimento de exotopia proposto por Bakhtin, de nos aproximarmos dos sentidos que os próprios professores criam para estas relações, bem como, enquanto pesquisadores, também construirmos sentidos para estas, buscando responder à nossa segunda questão de investigação:
• Que sentidos podem ser construídos nas relações entre as experiências de vida (pessoais, acadêmicas e profissionais) dos professores de ciências da natureza e suas práticas docentes relacionadas com a temática ambiental?
O terceiro momento teve esta mesma característica e buscou dialogar com os referenciais trazidos ao longo do trabalho para orientar as possíveis contribuições que as práticas desenvolvidas têm para a formação de cidadãos, respondendo portanto nossa terceira questão:
• Quais as possibilidades e os limites destas práticas na construção de processos emancipatórios voltados à formação para a cidadania?
3.5.1 A construção dos núcleos de significação e a busca pelos sentidos
Tomando como ponto de partida a proposta de Aguiar e Ozella (2006), já experimentada em outros trabalhos com a abordagem histórico-cultural, que também dialogam com as teorias de Bakhtin, seguimos duas fases para a análise dos dados: a primeira destinada à obtenção de núcleos de significação e a segunda destinada à análise interpretativa do material e explicitação dos possíveis sentidos do texto, que estará incorporada em todos os momentos elencados para a análise dos dados da pesquisa.
Os procedimentos para análise, portanto, seguiram os seguintes passos na primeira
fase:
a) Leitura flutuante das entrevistas e organização dos pré-indicadores: esta etapa consistiu em várias leituras do material coletado, com o objetivo de destacar e organizar os pré-indicadores. Esses foram selecionados de temas que emergiram, seja por maior frequência (repetição ou reiteração), pela importância ou ênfase dos depoimentos, por sua carga emocional, pela ambivalência ou contradição, por insinuações não concretizadas, etc. O critério básico para filtrar os pré-indicadores
levou em conta sua importância para a compreensão do objetivo da investigação (AGUIAR; OZELLA, 2006).
b) Definição de indicadores: a partir da aglutinação dos pré-indicadores selecionados, seja por sua similaridade, complementaridade ou contradição, criamos indicadores que permitissem a formulação de núcleos de significação. Segundo Aguiar e Ozella (2006), estes indicadores não são necessariamente isolados entre si e podem formar conteúdos temáticos.
c) Construção dos núcleos de significação: com indicadores e conteúdos temáticos definidos, fizemos uma primeira seleção dos trechos do material das entrevistas, que ilustravam ou esclareciam os indicadores. Segundo Aguiar e Ozella (2006, p. 231), “os núcleos resultantes devem expressar os pontos centrais e fundamentais que trazem implicações para o sujeito, que o envolvam emocionalmente, que revelem as suas determinações constitutivas”.
A segunda fase compreende a análise dos núcleos de significação construídos, que deve iniciar-se intranúcleo e avançar para uma articulação internúcleo. Aguiar e Ozella (2006, p. 231) apontam que, em geral, “esse procedimento explicitará semelhanças e/ou contradições que vão novamente revelar o movimento do sujeito. Tais contradições não necessariamente estão manifestas na aparência do discurso, sendo apreendidas a partir da análise do pesquisador”. Os autores colocam que só será possível avançar para a compreensão dos sentidos quando os núcleos forem articulados e reforçam que o processo de análise não deverá ser restrito apenas ao depoimento do sujeito pesquisado, mas deve ser articulado com o contexto social, político, econômico, histórico, o que permitirá o acesso à compreensão do sujeito na sua totalidade.
Essa fase irá englobar os demais momentos de análise do material, contribuindo para que possamos construir relações entre os núcleos de significação construídos com os demais trechos do material coletado para dar respostas às questões de investigação propostas. Assim, como apontam Aguiar e Ozella (2006) e Freitas (2003a, 2003b, 2003c), acreditamos que este movimento é estabelecido pelo pesquisador, mas não excluímos neste percurso as próprias características da abordagem histórico-cultural, que compreende o sujeito de pesquisa como coparticipante neste processo, tendo, portanto, papel fundamental para orientar estas buscas.
4. CONSTRUINDO SENTIDOS A PARTIR DAS TRAJETÓRIAS DE PROFESSORES