Siegfried Kracauer em seu livro “De Caligari a Hitler. Uma história psicológica do cinema alemão”, afirma que os filmes possuem as características de uma nação, e o autor coloca a questão: “Que temores e esperanças varreram a Alemanha imediatamente após a Primeira Guerra Mundial?” 156. É lícito então perguntar que temores e esperanças passaram pela cabeça de Sérgio Rezende e dos envolvidos na produção do filme
Lamarca, já que não se pode esquecer o caráter estritamente coletivo da
obra cinematográfica? No depoimento do diretor Sérgio Rezende à Lúcia Nagib157 ele coloca o desejo de combater o predomínio do neoliberalismo, hegemônico nos anos noventa. Faz também questão de falar sobre Lamarca, porque entendeu que este contrariava tudo o que estava em evidência naquele período.
Lamarca tem um aspecto de verdade construído, entre outros, a
partir da utilização de imagens de arquivo do capitão Lamarca em conjunto com imagens produzidas em preto e branco com Paulo Betti já interpretando o personagem principal. A partir dessa mescla de imagens, Lamarca é apresentado ao espectador por um oficial das forças armadas que faz um breve histórico do capitão do exército para outros oficiais. A brilhante carreira de Lamarca nas forças armadas, suas convicções políticas e sua postura íntegra são as principais características apresentadas.
156 KRACAUER, Siegfried. De Caligari a Hitler. Uma história psicológica do cinema alemão.
Rio de janeiro: Jorge Zahar, 1988. p. 20.
157 NAGIB, Lucia. O cinema da retomada: depoimento de 90 cineastas dos anos 90. São
A grande importância de um capitão desertor do exército dentro da VPR – Vanguarda Popular Revolucionário - e mais ainda, dentro da resistência ao regime colocava em risco sua vida. Lamarca - em cena com outros companheiros - é persuadido a deixar o País clandestinamente, o que é negado pelo capitão prontamente, afirmando que “Não sou deputado para passear no exterior”. Mesmo com a repressão cada vez mais dura no ano de
1970, quando o filme começa, e o desespero de muitos dos militantes a partir da queda de vários companheiros, a negativa de Lamarca de deixar o Brasil é parte da apresentação do personagem como um herói. Um herói brasileiro.
A grandiosidade desse herói é tamanha que, mesmo sendo um marido amoroso e um pai exemplar, Lamarca tem de renunciar a tudo para seguir suas convicções políticas, como é mostrado em uma cena que se inicia aos 44 minutos e 16 segundos. Ao avisar à sua esposa que irá desertar, e que a família deverá seguir para Cuba sem o capitão, o herói Lamarca é engrandecido por perseguir seus ideais de uma vida melhor para todo o Brasil em detrimento do seu próprio bem estar. A aparição da esposa é restrita aos momentos felizes em família mostrados no início do filme e em
flashbacks, enaltecendo a grandeza da renúncia do capitão à felicidade com
a família e ao sucesso profissional da carreira militar.
O heroísmo de Lamarca beira ao endeusamento. Assim como na citação que inicia o filme, o capitão, que parecia um demônio para a repressão, parecia um deus para seus companheiros, e é representado como alguém próximo de uma divindade. Durante todo o filme há paralelos possíveis de serem feitos entre Lamarca e Jesus Cristo. Dentre estes momentos de relação há o período em que Lamarca serviu no Canal de Suez pelas forças da ONU. Este ponto do filme - onde, no deserto, o capitão se convenceu da necessidade da revolução comunista ao ver as atrocidades infligidas pelos militares às crianças árabes - se relaciona com a passagem das tentações de Cristo, em que este jejua por 40 dias no deserto e resiste às tentações. A passagem pelo deserto transforma a vida de Lamarca ao lhe evidenciarem os problemas e dificuldades que os mais pobres passam por todo o mundo.
E ainda pode ser feito um paralelo quando Lamarca, filho de um simples sapateiro, ao ser denunciado pelo sertanejo Severino, se refere a ele como “Judas do sertão”, fazendo referência explícita ao personagem bíblico Judas Iscariotes, que traiu Jesus. E principalmente porque, já no final do filme, assim como Jesus, Lamarca morre aos 33 anos de idade. Completando as comparações, o capitão morre em posição de crucificação.
Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo158, é feita a seguinte pergunta para Sérgio Rezende: “Mas nos avant-trailler, o Lamarca é vendido como figura épica com frases do tipo você conhece algum brasileiro que nunca se rendeu”. No trailer do filme, há os seguintes questionamentos: “Você conhece algum brasileiro que não tem preço? Você conhece algum brasileiro que enfrenta um exército, pelo seu ideal? Você conhece algum brasileiro capaz de morrer pelo nosso País? Agora você vai conhecer. Lamarca, o capitão que mudou de lado.” O diretor respondeu que produziu o filme, mas não a sua publicidade. Ainda assim, Sérgio Resende enfatizou que, em sua opinião, Lamarca foi uma figura de grande dignidade, fazendo vários elogios ao guerrilheiro.
Lamarca atua praticamente sozinho durante todo o filme, tomando as maiores e mais importantes decisões. Como nas palavras de Luís Zanin Oricchio, Lamarca é um herói quixotesco159 que luta contra uma máquina estatal de guerra, levando até os últimos momentos seus ideais. A película enaltece o herói individual em detrimento à ação coletiva. O filme de Sérgio Rezende apresenta um herói que serve de exemplo para o bem e para o mal. Um mártir para ser exaltado, mas não para ser seguido.
3.2.3 O QUE É ISSO, COMPANHEIRO? REAVIVANDO A