Foram registradas 21 espécies de lagartos distribuídos em 10 famílias: Teiidae (2 espécies), Tropiduridae (1), Diplogossidae (2), Amphisbaenidae (3), Gekkonidae (1), Gymnophthalmidae (2), Leiosauridae (4), Phyllodactylidae (1), Polychrotidae (3) e Scincidae (1) (Tab. 3; Fig. 6) . Trinta e seis espécies de serpentes pertencentes a seis famílias (Anomalepididae, Boidae, Colubridae, Dipsadidae, Elapidae e Viperidae) foram diagnosticadas para a área do CSC (Tab.3; Fig.s 7 e 8). Dipsadidae foi a mais rica com 20 espécies.
Na RPPN Mata do Sossego foram diagnosticadas 10 espécies de lagartos (Tupinambis merianae, Tropidurus torquatus, Ophiodes striatus, Hemidactylus mabouia, Ecpleopus gaudichaudii, Heterodactylus imbricatus, Enyalius bilineatus, Enyalius perditus, Urostrophus vautieri e Gymnodactylus darwinii) e 10 espécies de serpentes (Mussurana montana, Echinanthera sp.1, Echinanthera sp.2, Echinanthera melanostigma, Liophis poecilogyrus poecilogyrus, Sibynomorphus neuwiedi, Taeniophallus affinis, Thamnodynastes nattereri, Xenodon neuwiedii e Bothrops jararaca). Tropidurus torquatus e Enyalius bilineatus foram registrados com base em exemplares depositados na coleção do MNRJ, não sendo detectados em campo durante o período de estudo. O registro destas espécies deu-se em áreas abertas na matriz (T. torquatus) e outros fragmentos florestais (E. bilineatus).
Dezoito espécies de lagartos e 24 espécies de serpentes foram registradas para a RPPN Feliciano Miguel Abdala (Tab. 3). Dentre as espécies de lagartos Leposternon wuchereri ocorreu apenas na lista do plano de manejo da RPPN Feliciano Miguel Abdala (NERY & TABACOW 2012) não sendo observada em campo ou nas coleções
analisadas. Esta espécie apresenta distribuição nos estados da Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro (PEREZ & RIBEIRO 2008) e em Minas Gerais é conhecida para a região entre Nanuque e Serra dos Aimorés, nordeste do estado de Minas Gerais (CARVALHO JÚNIOR & NASCIMENTO 2005). Da mesma forma, duas espécies de serpentes (Liotyphlops wilderi e Lachesis muta) não foram observadas em campo ou em coleções científicas, apenas na lista fornecida por NERY & TABACOW (2012).
Nenhuma espécie de lagarto consta nas listas federais ou estaduais de espécies ameaçadas e cinco delas (Leposternon wuchereri, Ecpleopus gaudichaudii, Enyalius brasiliensis, Enyalius perditus e Gymnodactylus darwinii) são endêmicas da Mata Atlântica (PELLEGRINO et al. 2005, TEIXEIRA et al. 2005, COSTA et al. 2010, SOUZA et al. 2012). Hemidactylus mabouia está associada com ambientes antrópicos, especialmente edificações, em praticamente todo o Brasil (VANZOLINI et al. 1980, ÁVILA-PIRES 1995). As demais espécies ocorrem em outros biomas como Cerrado (GAINSBURY& COLLI 2003, RECORDER & NOGUEIRA 2007, NOGUEIRA et al. 2009, COSTA et al. 2010, RIBEIRO et al. 2012) ou áreas de transição Cerrado/Mata Atlântica (BERTOLUCI et al. 2009), como Ophiodes striatus, Amphisbaena alba, Leposternon microcephalum, Enyalius bilineatus, Heterodactylus imbricatus, Ameiva ameiva, Tupinambis meriane, Urostrophus vautieri e Tropidurus torquatus, Caatinga (VANZOLINI et al. 1980; RIBEIRO et al. 2012 (e.g. Ameiva ameiva, Tupinambis meriane e Tropidurus torquatus) ou Pantanal (SOUZA et al. 2010b) (e.g. Ameiva ameiva, Tupinambis merianae). Anolis fuscoauratus, A. punctatus e Ameiva ameiva, Polychrus marmoratus e Diplogossus fasciatus também ocorrem na Amazônia (ÁVILA-PIRES 1995, ÁVILA-PIRES et al. 2010).
Tab. 4: Composição de répteis do Corredor Sossego-Caratinga com indicação da área de ocorrência, forma e habitat de registro e status de ameaça. Os números correspondem à fonte dos dados: (1) NERY & TABACOW 2012; (2): CASSIMIRO et al. 2006a; (3) CASSIMIRO et al. 2006b; (4) PALMUTI et al. 2009; (5) MZUFV; (6) MNRJ; (7) UFMG (vouchers do presente trabalho). Status de ameaça: União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN), listas de espécies ameaçadas do estado do Espírito Santo (ES),Minas Gerais (MG) e Rio de Janeiro (RJ).
Família Espécie Área de ocorrência Forma de
registro Habitat de registro Status de ameaça
TEIIDAE Ameiva ameiva (Linnaeus, 1758) FMA, Ma Eo, Pt, 1, 7 Fl, Ab ?
Tupinambis merianae (Duméril & Bibron, 1839) MS, FMA, Ma, FF Eo, 1 Fl, Ab IUCN (LC)
TROPIDURIDAE Tropidurus torquatus (Wied, 1820) MS, Ma Eo, 6 Ab, An IUCN (LC)
DIPLOGOSSIDAE Diploglossus fasciatus (Gray, 1831) FMA Fo Fl ?
Ophiodes striatus (Spix, 1825) MS, FMA Eo, 1, 7 An ?
AMPHISBAENIDAE Amphisbaena alba Linnaeus, 1758 FMA Fo Fl ?
Leposternon infraorbitale (Bertold, 1859) FMA, Ma Eo, 1, 7 Ab, At ?
Leposternon microcephalum Wagler, 1824 FMA 5 ?? ?
Leposternon wuchereri* (Peters, 1879) FMA 1 Fl ?
GEKKONIDAE Hemidactylus mabouia (Moreau de Jonnès, 1818) MS, FMA Eo, 1, 7 An ?
GYMNOPHTHALMIDAE Ecpleopus gaudichaudii* Duméril & Bibron, 1839 MS, FMA, FF Pt, 1, 7 Fl ?
Heterodactylus imbricatus Spix, 1825 MS Pt, 7 Fl ?
LEIOSAURIDAE Enyalius bilineatus Duméril & Bibron, 1837 FMA, FF Pt, 1, 5, 7 Fl ?
Enyalius brasiliensis* (Lesson, 1828) MS, FMA, FF Pt, 1 , 5, 6, 7 Fl ?
Enyalius perditus* Jackson, 1978 MS, FMA, FF Pt, 1, 7 Fl ?
Urostrophus vautieri Duméril & Bibron, 1837 MS, FF Pt, 7 Fl ?
Legenda: (*): espécie endêmica da Mata Atlântica; MS: RPPN Mata do Sossego; FMA: RPPN Feliciano Miguel Abdala; FF: fragmentos florestais do Corredor Sossego-Caratinga; Ma: áreas de matriz não florestada no entorno dos fragmentos; Eo: encontro ocasional; Fo: registro fotográfico; Pt: registro por armadilhas de interceptação e queda; Fl: florestal; Al: área de lavoura;Ab: área aberta; An: área antrópica; At: animal atropelado; (?): dado não disponível na lista da IUCN; (??): informação não disponível na fonte de dados. (#) apenas Liophis miliaris consta no plano de manejo da RPPN FMA, mas é possível a ocorrência das duas subespécies na reserva.
Tab. 4: Continuação:
Família Espécie Área de ocorrência Forma deregistro
Habitat de registro
Status de
ameaça PHYLLODACTYLIDAE Gymnodactylus darwinii* (Gray, 1845) MS, FMA, FF Pt, 1, 5, 7 Fl ?
POLYCHROTIDAE Anolis fuscoauratus D’Orbigny, 1837 FMA Eo, 1, 2, 7 ?? ?
Anolis punctatus Daudin, 1802 FMA 1, 3, 7 ?? ?
Polychrus marmoratus (Linnaeus, 1758) FMA, FF Eo, 1, 5 Fl ?
SCINCIDAE Mabuya macrorhyncha Hoge, 1947 FMA, FF Pt, 1, 7 Fl ?
ANOMALEPIDIDAE Liotyphlops wilderi (Garman, 1883) FMA 1 ?? ?
BOIDAE Corallus hortulanus Linnaeus, 1758 FMA, FF Eo, 1, 4 Fl ?
Epicrates cenchria (Linnaeus, 1758) FMA, FF Fo, 1, 4 Fl ?
COLUBRIDAE Chironius exoletus (Linnaeus, 1758) FMA, Ma Eo, 1, 7 Fl, At ?
Chironius bicarinatus* (Wied, 1820) Ma Eo, 7 An, At ?
Chironius fuscus (Linnaeus, 1758) FMA, Ma Eo, 1, 4, 5, 7 At ?
Drymoluber dichrous (Peters, 1863) FMA Eo, Fo, 1, 4, 7 Fl ?
Pseustes sulphureus poecilostoma* (Wied, 1824) FMA Eo, Ft, 1, 5, 7 Fl ?
Spilotes pullatus pullatus (Linnaeus, 1758) FMA Fo, 1, 4 Fl ?
Tantilla boipiranga Sawaya & Sazima, 2003 FMA, FF Eo, 1, 7 Fl IUCN (VU)
Legenda: (*): espécie endêmica da Mata Atlântica; MS: RPPN Mata do Sossego; FMA: RPPN Feliciano Miguel Abdala; FF: fragmentos florestais do Corredor Sossego-Caratinga; Ma: áreas de matriz não florestada no entorno dos fragmentos; Eo: encontro ocasional; Fo: registro fotográfico; Pt: registro por armadilhas de interceptação e queda; Fl: florestal; Al: área de lavoura;Ab: área aberta; An: área antrópica; At: animal atropelado; (?): dado não disponível na lista da IUCN; (??): informação não disponível na fonte de dados. (#) apenas Liophis miliaris consta no plano de manejo da RPPN FMA, mas é possível a ocorrência das duas subespécies na reserva.
Tab. 4: Continuação:
Família Espécie Área de ocorrência Forma de registro
Habitat de registro
Status de
ameaça DIPSADIDAE Mussurana montana* (Franco, Marques & Puorto, 1997) MS Pt, 7 Fl ?
Echinanthera sp.1 MS Eo, Pt, 7 Fl ?
Echinanthera sp.2 MS Eo, 7 Fl ?
Echinanthera melanostigma * (Wagler, 1824) FF Eo, 7 Fl ?
Erythrolamprus aesculapii venustissimus Wied, 1821 MS, FMA, FF Eo, Pt, 1, 4 Fl, Al ?
Elapomorphus quinquelineatus* (Raddi, 1820) FMA, Ma Eo, Fo, 1, 5 Ab, An ?
Phylodrias olfersii (Lichtenstein, 1823) FMA, Ma Eo, Fo, 5 At, An ?
Liophis miliaris merremi (Wied, 1821) FMA#, Ma Eo, 1, 4 An ?
Liophis miliaris orinus (Cope, 1868) FMA#, Ma Eo, 1, 4 An ?
Liophis poecilogyrus poecilogyrus (Wied, 1825) MS, FMA, Ma Eo, Fo, 1, 4, 5, 6, 7 An ?
Oxyrhopus clathratus* Duméril, Bibron & Duméril, 1854 Ma Eo, 7 Ab, An ?
Oxyrhopus petolarius digitalis Reuss, 1834 FMA, Ma Eo, 1, 4, 7 An ?
Oxyrhopus guibei Hoge & Romano, 1978 FMA, FF, Ma Eo, 1, 5, 7 Ab ?
Pseudoboa nigra (Duméril, Bibron & Duméril, 1854) FMA, Ma Eo, Fo, 1, 4, 5, 7 An ?
Sibynomorphus mikanii (Schlegel, 1837) Ma Eo, 5 ?? ?
Sibynomorphus neuwiedi * (Ihering, 1911) MS, FMA, Ma Eo, 1, 4, 5, 7 Fl, Ab, An ?
Taeniophallus affinis* (Günther, 1858) MS, FMA Pt, 1, 4, 7 Fl IUCN (LC)
Thamnodynastes nattereri (Mikan, 1828) MS Pt, 7 Fl ?
Xenodon neuwiedii Günther, 1863 MS, FMA Eo, Pt, 7 Fl, An IUCN (LC)
Xenodon merremi (Wagler, 1824) Ma Eo, 7 Ab ?
Legenda: (*): espécie endêmica da Mata Atlântica; MS: RPPN Mata do Sossego; FMA: RPPN Feliciano Miguel Abdala; FF: fragmentos florestais do Corredor Sossego-Caratinga; Ma: áreas de matriz não florestada no entorno dos fragmentos; Eo: encontro ocasional; Fo: registro fotográfico; Pt: registro por armadilhas de interceptação e queda; Fl: florestal; Al: área de lavoura;Ab: área aberta; An: área antrópica; At: animal atropelado; (?): dado não disponível na lista da IUCN; (??): informação não disponível na fonte de dados. (#) apenas Liophis miliaris consta no plano de manejo da RPPN FMA, mas é possível a ocorrência das duas subespécies na reserva.
Tab. 4: Continuação
Família Espécie Área de ocorrência Forma de registro
Habitat de registro
Status de
ameaça ELAPIDAE Micrurus corallinus* (Merrem, 1820) FMA Eo, 1, 4, 5, 7 Fl ?
VIPERIDAE Bothrops jararaca* (Wied, 1824) MS, FMA, Ma Eo, Pt, 1, 4, 5, 6, 7 Fl, Ab, An ?
Bothrops jararacussu* Lacerda, 1884 FMA, FF Eo, 1, 4, 5, 7 Fl IUCN (LC)
Bothrops moojeni Hoge, 1966 ?? 5 ?? ?
Lachesis muta (Linnaeus, 1766) FMA 1 ?? IUCN (VU);
ES (VU); RJ (EP)
Crotalus durissus terrificus (Laurenti, 1768) ?? 5 ?? IUCN (LC)
CHELIDAE Hydromedusa maximiliani* (Mikan, 1825) Ma Eo Ab IUCN (VU);
ES (VU); MG (VU)
Phrynops geoffroanus (Schweigger, 1812) FMA, Ma Eo, 1 Ab ?
Legenda: (*): espécie endêmica da Mata Atlântica; MS: RPPN Mata do Sossego; FMA: RPPN Feliciano Miguel Abdala; FF: fragmentos florestais do Corredor Sossego-Caratinga; Ma: áreas de matriz não florestada no entorno dos fragmentos; Eo: encontro ocasional; Fo: registro fotográfico; Pt: registro por armadilhas de interceptação e queda; Fl: florestal; Al: área de lavoura;Ab: área aberta; An: área antrópica; At: animal atropelado; (?): dado não disponível na lista da IUCN; (??): informação não disponível na fonte de dados. (#) apenas Liophis miliaris consta no plano de manejo da RPPN FMA, mas é possível a ocorrência das duas subespécies na reserva.
Fig. 6. Espécies de lagartos registradas no Corredor Sossego-Caratinga, Sudeste do Brasil. a) Ameiva ameiva, b) Tupinambis merianae, c) Tropidurus torquatus, d) Ophiodes striatus, e) Hemidactylus mabouia, f) Ecpleopus gaudichaudii, g) Heterodactylus imbricatus, h) Enyalius brasiliensis, i) Enyalius perditus, j) Urostrophus vautieri, k) Gymnodactylus darwinii, l) Mabuya macrorhyncha. Fotos: P. S. Santos (c, d, e, f, g, i, j, k), J. J. Andrade (b), P. S. Campos (a, h, l).
Fig. 7. Espécies de serpentes registradas no Corredor Sossego-Caratinga, Sudeste do Brasil: a) Corallus hortulanus, b) Chironius fuscus, c) Drymoluber dichrous, d) Pseustes sulphureus poecilostoma, e) Mussurana montana, f) Echinanthera sp.1, g) Echinanthera melanostigma, h) Echinanthera sp.2, i) Liophis poecilogyrus poecilogyrus. Fotos: P. S. Santos (b, e, f, h), E. T. Silva (a), A. Ferreira (c), P. S. Campos (d) e P. C. A. Garcia (g).
Fig. 7. Espécies de serpentes e cágado registradas no Corredor Sossego-Caratinga, Sudeste do Brasil: Pseudoboa nigra, b)Sibynomorphus neuwiedi, c) Taeniophallus affinis, d) Xenodon neuwiedii (jovem), e) Xenodon neuwiedii (adulta), f) Micrurus corallinus, g) Bothrops jararaca, h) Bothrops jararacussu, i) Phrynops geoffroanus. Fotos: P. S. Santos (c, e, f, g), W. P. Laia (a, b, h), P. S. Campos (d) e E. T. Silva (i).
Sessenta e sete por cento (n=14) das espécies de lagartos foram registrados ocupando ambientes florestais, o que mostra a importância deste tipo de habitat para a manutenção destas populações na área do CSC. Tupinambis merianae e Ameiva ameiva são habitantes típicos de áreas abertas, mas podem ocupar áreas florestais, principalmente clareiras e borda de mata (ÁVILA-PIRES 1995) o que foi corroborado com os nossos dados.
Mabuya macrorhyncha tem distribuição conhecida para a região da costa sul do estado de São Paulo, incluindo áreas insulares (HOGE 1946, RODRIGUES 2000) e nordeste do Brasil, inclusive regiões da Caatinga na bacia do Rio São Francisco (RODRIGUES 2000). Espécimes presentes na coleção do Museu de Zoologia da USP (MZUSP) na Serra do Espinhaço no estado de Minas Gerais identificados como M. macrorhyncha podem tratar-se de uma espécie não descrita (RODRIGUES 2000). A ocorrência de M. macrorhyncha na RPPN Feliciano Miguel Abdala (NERY & TABACOW 2012) e fragmentos da região do CSC (presente estudo) representam os primeiros registros no estado de Minas Gerais e constituem os mais interioranos da espécie.
Ophiodes striatus constitui um complexo de espécies, cuja revisão taxonômica (BORGES-MARTINS 1998) não foi publicada. Os espécimes coletados na área do CSC poderiam ser diagnosticados como Ophiodes fragilis (Raddi, 1820), táxon que, contudo, oficialmente permanece como sinônimo de O. striatus (ver COSTA et al. 2009).
Hemidactlylus mabouia é a única espécie de réptil considerada exótica observada nas áreas do CSC. De origem africana, possui populações estabelecidas no estado de Minas Gerais e ocorre em ambientes urbanos com raros registros em áreas
naturais (BÉRNILS et al. 2009). No CSC a espécie foi registrada nas instalações da casa de pesquisa da RPPN Mata do Sossego confirmando o seu habitat sinantrópico.
Dez espécies de serpentes são endêmicas da Mata Atlântica: Chironius bicarinatus, Pseustes sulphureus poecilostoma, Mussurana montana, Echinanthera melanostigma, Elapomorphus quinquelineatus, Oxyrhopus clathratus, Sibynomorphus neuwiedi, Taeniophallus affinis, Micrurus corallinus, Bothrops jararaca e B. jararacussu. As demais ocorrem em outros biomas como áreas de transição Cerrado/Mata Atlântica, Cerrado, Pantanal e Amazônia (VANZOLINI et al. 1980, ÁVILA-PIRES 1995, SAWAYA et al. 2008, VIEIRA et al. 2008, BERTOLUCI et al. 2009, SÃO-PEDRO & PIRES 2009, ÁVILA-PIRES et al. 2010, COSTA et al. 2010, SOUZA et al. 2010a, SOUZA et al. 2010b, RIBEIRO et al. 2012, SOUZA et al. 2012).
Duas espécies de serpentes estão presentes em listas de espécies ameaçadas: Tantilla boipiranga e Lachesis muta. Tantila boipiranga, considerada vulnerável (VU) pela IUCN (2013) ocorre na Serra do Espinhaço em Santana do Riacho (Serra do Cipó), Alvorada de Minas e Ouro Preto (Estação Ecológica do Tripuí e Lavras Novas) (SAWAYA & SAZIMA 2003, SILVEIRA et al. 2009), na RPPN Feliciano Miguel Abdala (CASSIMIRO 2003) e em fragmentos do entorno (presente trabalho). Tem sido considerada vulnerável por possuir uma extensão de ocorrência estimada em 15.300 km², distribuição fragmentada em duas localidades isoladas, além do declínio na qualidade do habitat afetando a população da Mata Atlântica (MORATO 2010). Mais estudos são necessários para elucidar a área de distribuição real da espécie e se declínios nas populações ou qualidade do habitat estão ocorrendo (MORATO 2010). Lachesis muta consta como “vulnerável” nas listas da IUCN (2013) e do Espírito Santo (PASSAMANI & MENDES 2007) e como “em perigo” na lista do estado do Rio de Janeiro (BERGALLO et al. 2000). Recentes declínios da população têm sido atribuídos
à diminuição da área e qualidade do habitat florestal, que está se tornando cada vez mais fragmentado pelo desmatamento relacionado com a ocupação por áreas agrícolas e antrópicas (MARTINS & MARQUES 2000).
Echinanthera melanostigma possui registros de ocorrência em áreas de Mata Atlântica e ecótonos com Cerrado em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais (DI- BERNARDO 1992, MOURA et al. 2012). O registro para o CSC é o terceiro para Minas Gerais e o mais setentrional para a espécie (85 km) ao norte do Parque Estadual da Serra do Brigadeiro, considerando sua localidade-tipo como incerta (DI- BERNARDO 1992) (ver Capítulo 4).
Mussurana montana distribui-se por áreas acima de 750 metros de altitude com ocorrência de campos rupestres associados a formações florestais nas serras da Bocaina, Mantiqueira e dos Órgãos (BÉRNILS 2009). Sua presença no CSC (associada à serra da Mantiqueira) corrobora o padrão de distribuição conhecido, e representa o registro mais setentrional para a espécie, 185 km ao norte do Parque Estadual da Serra do Ibitipoca (BÉRNILS 2009).
Crotalus durissus terrificus e Bothrops moojeni, espécies típicas de biomas de área aberta (CAMPBELL & LAMAR 2004, NOGUEIRA et al. 2003, WÜSTER et al. 2005) constam na coleção do MZUFV para o município de Manhuaçu que integra parte do CSC próximo à RPPN Mata do Sossego. Crotalus durissus terrificus já foi encontrada em outras áreas de Mata Atlântica relativamente próximas ao CSC em Minas Gerais indicando que a espécie vem invadindo áreas desmatadas no estado (COSTA et al. 2010). Panorama semelhante é observado no estado do Rio de Janeiro onde a espécie invadiu áreas desmatadas e mostrou alta adaptabilidade a áreas antropofizadas (BASTOS et al. 2005). A ocorrência de Bothrops moojeni está associada
a áreas ripárias no Cerrado (FARIA & BRITES 2003) e sua presença no CSC provavelmente não se relaciona a uma invasão ocasionada pelo desmatamento, e poderia representar populações relictuais dos tempos em que o cerrado (e matas de galeria) era mais extenso ou poderia ainda ser uma espécie rara na Mata Atlântica, restrita aos ambientes ripários preservados das florestas estacionais.
Bothrops jararaca foi a serpente encontrada com mais frequência no campo, observada ocupando ambientes florestais e áreas antrópicas. A espécie é responsável por mais de 90% dos acidentes ofídicos na sua área de distribuição (CARDOSO et al. 2003) e nas áreas do CSC relatos não confirmados de acidentes com a espécie são comuns.
Foi observado a predação de Liophis poecilogyrus poecilogyrus pela serpente Drymoluber dichrous (Fig. 7c). A dieta desta espécie é composta por basicamente por anuros e lagartos, embora haja registro de outras espécies de serpentes como presa (COSTA et al 2013, no prelo). A atividade de alimentação observada durante o dia confirma a atividade da espécie como diurna (MARTINS & OLIVEIRA 1999).
Dentre as espécies de cágados registradas no CSC Hydromedusa maximiliani é considerada “vulnerável” pela IUCN (2013) e nas listas dos estados de Minas Gerais e do Espírito Santo. Sua distribuição está restrita à Mata Atlântica (SOUZA et al. 2003) dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia (ARGÔLO & FREITAS 2002; SOUZA et al. 2003, TONINI et al. 2010, MOURA et al. 2012). A espécie é considerada dependente de habitat associados a riachos em regiões montanhosas (SOUZA et al. 2003) mas pode ser observada em ambientes lênticos como lagoas (CHAGAS & RAPOSO-FILHO 1999), fato também observado neste estudo.
3.3. Impactos sobre a herpetofauna e ações de conservação
Dentre os impactos observados sobre a herpetofauna nas áreas do CSC, a retirada de área florestal e a alteração de ambientes associados à área de influência de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) ao longo do Rio Manhuaçu são os mais preocupantes. Corallus hortulanus e Scinax sp.2 (gr. perpusillus) foram observadas em matas ciliares que foram suprimidas em ocasião do enchimento de reservatórios. A formação de novos ambientes aquáticos em áreas de baixada ocupadas por pasto e a mudança na feição de ambientes reprodutivos (de lóticos para lênticos) ocasionados pelo enchimento dos reservatórios ou formação de poças temporárias em áreas de vazão reduzida das PCHs têm favorecido o estabelecimento de populações de espécies mais generalistas associadas a ambientes alterados. O monitoramento das populações nas áreas de instalação destes empreendimentos poderá fornecer informações sobre a real magnitude dos impactos sobre a herpetofauna na região.
A retirada de áreas florestadas para plantio de culturas de café e eucalipto também foi diagnosticada na área do CSC. Normalmente o corte ocorre em áreas de montanha e/ou interior de florestas onde o impacto muitas vezes não é percebido. Áreas para prospecção de minérios estão presentes ao longo do corredor e em algumas delas já é possível observar a remoção de mata para pesquisa de potenciais jazidas. É importante a continuidade de pesquisas no CSC no intuito de detectar possíveis futuras áreas para conversão em unidades de conservação que possam conservar a diversidade da herpetofauna observada ao longo do corredor.
A relação da população humana com anfíbios e répteis, principalmente com as serpentes, normalmente é hostil. A população não está apta a identificar serpentes peçonhentas e a reação, na maioria dos casos, resulta na morte do animal (MOURA et
al. 2010). Este fato também ocorre nas áreas do CSC onde foi observado em várias ocasiões o ataque a serpentes por moradores locais. A adoção de um projeto de educação ambiental de longo prazo, que inclua também os procedimentos em caso de acidentes, nas escolas rurais e com moradores locais é fundamental para mudança do panorama atual.