2. TEORI OG LITTERATUR
2.1 E IENDOM SOM AKTIVAKLASSE
2.1.5 Investeringsmuligheter
A contradição “como unidade concreta dos opostos mutualmente exclusivos é o núcleo real da dialética, sua categoria central19” (ILYENKOV, 1977, p. 443). De acordo com Ilyenkov (1960), a contradição sempre despertou interesse na filosofia e não há doutrina filosófica que não tenha tentado resolver essa questão. Desse modo, críticas a qualquer teoria estavam direcionadas a descobrir suas contradições e propor uma nova teoria que apresentasse um método pelo qual as contradições fossem resolvidas. Isto é,
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No original: “Contradiction as the concrete unity of mutually exclusive opposites is the real nucleus of
tem-se a impressão que a contradição é algo intolerável, da qual temos que nos livrar, mas que sempre volta a aparecer.
Para a dialética, no entanto, a contradição “é a forma lógica necessária do desenvolvimento do pensamento, da transição, da ignorância ao conhecimento, de uma reflexão abstrata do objeto no pensamento para uma reflexão mais concreta dele” (ILYENKOV, 1960). A dialética considera a contradição, então, como a forma necessária de desenvolvimento do conhecimento, e só pode ser resolvida por meio do desenvolvimento da realidade em que ela se encontra em outra, mais avançada, e não por meio da sua eliminação da teoria.
Salientando o desenvolvimento histórico desse conceito, Engeström e Sannino (2011, p. 370), que se apoiam na dialética Marxista para definir o conceito de contradição, afirmam que uma contradição dialética “refere-se a uma unidade de opostos, a forças ou tendências opostas dentro de um sistema em movimento20”, ou em desenvolvimento, sendo que “os elementos de uma contradição dialética relacionam-se uns aos outros dentro da estrutura em movimento, historicamente21”.
As contradições internas são históricas e devem, então, ser identificadas ou entendidas a partir de uma análise histórica do sistema de Atividade para que seja possível rastrear a formação de tensões por meio de fases anteriores de desenvolvimento nas quais as contradições se moldam, ou seja, elas devem ser traçadas no seu desenvolvimento histórico real (ENGESTRÖM; SANNINO, 2011; ENGESTRÖM; MAZZOCCO, 1994). A identificação de tais contradições permite “o remapeamento de distúrbios22 locais e inovações como uma ZDP emergente, de um sistema de Atividade colaborativo23” (ENGESTRÖM; MAZZOCCO, 1994, p. 07).
Além de características inevitáveis da Atividade, as contradições internas são, assim, a força motriz de mudança e desenvolvimento nos sistemas de Atividade, ou seja, novas formas ou estágios da Atividade emergem como soluções para contradições do estágio anterior. As contradições são superadas e o sistema se desenvolve (ENGESTRÖM, 1987).
20 No original: “A dialectical contradiction refers to a unity of opposites, opposite forces or tendencies
within such a moving system”.
21 No original: “The elements of a dialectical contradiction relate to each other within the moving
structure, historically”.
22 Ações que desviam do curso esperado de procedimentos normais (ENGESTRÖM; MAZZOCCO,
1994, p. 7)
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No original: “[…] remapping the seemingly chaotic realm of local disturbances and innovations as an
De acordo com Engeström (1987), ainda com base em Marx, a contradição interna básica surge da divisão de trabalho. A existência dupla da Atividade humana faz com que qualquer produção seja, ao mesmo tempo, independente e subordinada a uma produção total:
A contradição interna básica da atividade humana é a sua dupla existência como a produção social total e como uma produção específica entre muitos. Isto significa que qualquer produção específica deve ao mesmo tempo ser independente e subordinada à produção social total. Dentro da estrutura de qualquer atividade produtiva específica, a contradição é renovada como o embate entre as ações individuais e do sistema de atividade total. Esta contradição fundamental adquire uma forma histórica diferente em cada formação socioeconômica24. (ENGESTRÖM, 1987, p. 98)
Kuutti (1996), embora não tenha considerado as contradições como um princípio da TA, afirma que as Atividades são influenciadas por outras Atividades e mudanças do ambiente e, por isso, influências externas mudam elementos da Atividade e causam desiquilíbrio entre eles. Desse modo, para o autor, o termo contradição indica o desajuste dentro de elementos, entre eles, entre Atividades diferentes ou entre diferentes fases de desenvolvimento de uma única Atividade.
Assim, as contradições são rupturas ou quebras no sistema de Atividade que influenciam o resultado intencionado; são entendidas como tensões acumuladas historicamente e se tornaram o princípio orientador para as pesquisas empíricas (ENGESTRÖM, 2001). Contudo, Engeström e Sannino (2011) apontam para o fato de muitos estudos se apoiarem em definições vagas, gerais e ambíguas para se referir a contradições, sendo, muitas vezes, equiparadas a termos relacionados como paradoxo, conflito, dilema, inconsistências ou tensões. Esses estudos, geralmente, identificam e descrevem contradições sem critérios claros para reconhecê-las.
Segundo os autores, esses termos utilizados como equivalentes de contradição são, na verdade, entendidos como manifestações de contradições e devem ser teoricamente definidos e relacionados ao conceito filosófico de contradição. Eles
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No original: The basic internal contradiction of human activity is its dual existence as the total societal production and as one specific production among many. This means that any specific production must at the same be independent of and subordinated to the total societal production. Within the structure of any specific productive activity, the contradiction is renewed as the clash between individual actions and the total activity system. This fundamental contradiction acquires a different historical form in each socio- economic formation.
esclarecem que, como as contradições emergem historicamente e são um fenômeno sistêmico, elas não devem ser acessadas diretamente, mas por meio de suas manifestações, entendidas como construções ou articulações de contradições.
Isso quer dizer que elas não falam por si mesmas e só são reconhecidas quando articuladas e construídas em palavras ou ações. Na tentativa de superar as definições gerais de contradição e a falta de critério para reconhecê-las, Engeström e Sannino (2011) propõem um quadro de análise para identificar tipos de manifestações discursivas de contradição. Isso é feito por meio de pistas linguísticas utilizadas quando as pessoas tentam entender seus problemas no trabalho. Essas pistas podem ajudar o pesquisador a localizar manifestações de contradições que, por sua vez, podem levar a contradições históricas subjacentes (ENGESTRÖM; SANNINO, 2011).
Os autores propõem quatro tipos de manifestações de contradição, a saber: dilemas, conflitos, conflitos críticos e double bind25, as quais são resumidas no quadro a seguir:
Quadro 3: Tipos de manifestações discursivas de contradições
Manifestação Características Pistas linguísticas
Dilemas Expressão ou troca de avaliações
incompatíveis
Resolução: negação, reformulação
“De um lado [...] por outro lado”, “Sim, mas”
“Eu não quis dizer isso”, Eu quis dizer que”
Conflitos Argumentar, criticar
Resolução: encontrar um consenso, submeter-se à autoridade ou maioria
“Não”, “Eu discordo”, “Isso não é verdade”
“Sim”, “Isso eu posso aceitar”
Conflitos críticos
Enfrentar motivos contraditórios na interação social, sentir-se violado ou culpado.
Resolução: encontrar novo sentido pessoal e negociar um novo significado.
Relatos morais, emocionais e pessoais que possuem estrutura narrativa e metáforas.
“Agora percebo que...”
Double bind Enfrentar alternativas urgentes e
igualmente inaceitáveis em um sistema de Atividade.
Resolução: transformação prática (indo além das palavras).
“nós”, “nos”, “nós devemos”, “nós temos que” “vamos fazer isso”, “nós vamos conseguir”
Fonte: Engeström; Sannino (2011)
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Situação na qual uma pessoa é confrontada com duas exigências incompatíveis ou uma escolha entre duas opções indesejáveis.
Além disso, a análise das contradições no discurso se assemelha ao descascar de uma cebola. A camada de fora da cebola é representada pelas pistas linguísticas rudimentares, como “mas” e “não”. A identificação dessas pistas à medida que se avança ajuda a localizar potenciais manifestações de contradição, isto é, um conjunto de “mas” pode indicar dilemas e um conjunto de “nãos” pode levar a conflitos. Por outro lado, Engeström e Sannino (2011) explicam que as pistas linguísticas rudimentares não correspondem mecanicamente a manifestações específicas, o que significa que um “mas” pode expressar outras possibilidades além de dilemas e as perguntas retóricas não são necessariamente um indício de double bind. A próxima figura apresenta o esquema das diferentes camadas na análise das contradições do discurso:
Figura 8: Cebola metodológica para análise de contradições no discurso
Fonte: Engeström; Sannino (2011)
Saliento, contudo, que embora concorde com o fato de que as contradições devem ser abordadas por meio de suas manifestações, essa metodologia de análise não foi escolhida para esta pesquisa, uma vez que, diferentemente da intervenção organizacional que é foco de estudo dos autores, os dados desta pesquisa não englobam apenas o discurso dos participantes, mas também as ações e ideias no contexto investigado. Além disso, assim como Vainio (2012), notei a dificuldade de diferenciar os tipos de manifestações propostas pelos autores, visto que as pistas linguísticas (como a conjunção “mas”, por exemplo) podem indicar diferentes caminhos, como também
apontado por eles. Acredito que, do ponto de vista da Linguística, algumas questões dessa metodologia podem ser revistas, mas a proposta dos autores é, sem dúvida, uma grande contribuição para a discussão sobre contradições.
Faço uso, no entanto, da distinção, proposta por Engeström (1987), entre quatro níveis de contradições na análise de um sistema de Atividade: primário, secundário, terciário e quaternário. A contradição primária acontece dentro de cada um dos elementos do sistema de Atividade, como um conflito entre o valor de uso e o valor de troca. A contradição secundária acontece entre os elementos do sistema e são a chave para entender um sistema de Atividade e a força de mudança. Ela geralmente acontece quando um fator novo e forte é colocado em qualquer componente do sistema de Atividade, o qual se desenvolve para uma nova forma ao tentar resolver a contradição.
A contradição terciária ocorre quando um sistema de Atividade culturalmente mais avançado prescreve um novo objeto para outro sistema de Atividade, causando um desconforto entre o objeto/motivo da Atividade central e o objeto/motivo que foi inserido. Engeström (1987) cita como exemplo desse tipo de contradição um aluno que vai para escola para brincar com seus colegas (motivo dominante), mas os pais e professores fazem com que ele estude (motivo culturalmente mais avançado).
Por fim, a contradição quaternária ocorre entre o sistema de Atividade central e suas Atividades vizinhas na rede de sistemas. Essa contradição aparece nas tensões e resistências entre os sistemas de Atividade no processo de implementação do resultado da Atividade central.
Apresento a seguir o esquema proposto por Engestrom (1987, p. 103) dos quatro níveis de contradição dentro do sistema humano de Atividade. Nesse esquema, os números representam o nível de contradição em cada elemento do sistema ou entre eles. Já as flechas estabelecem a relação de contradição entre sistemas de Atividade:
Figura 9: Quatro níveis de contradição dentro do sistema de Atividade humano
Fonte: Engeström (1987)
Ressalto, ainda, que as contradições fazem parte do mundo profissional não apenas de professores em serviço, mas também de professores em formação inicial; logo, atentar-se para tais contradições pode contribuir para a reformulação de caminhos seguidos pelos cursos de formação de professores de LE. Nesse sentido, Engeström (1999) aponta que descobrir as contradições é o primeiro passo para resolver qualquer contradição que o sistema de Atividade possa estar enfrentando.
Por fim, como já dito anteriormente, as contradições são tensões estruturais que exigem modificações no sistema de Atividade e dão início, então, ao que Engeström (1987) denomina de ciclos expansivos de aprendizagem por meio dos quais a aprendizagem humana acontece. Esse processo de aprendizagem expansiva é entendido pelo autor (1999b, p. 384) como “a construção e resolução de tensões ou contradições em um sistema complexo que inclui o objeto ou objetos, artefatos de mediação e as perspectivas dos participantes26”. O sujeito da Atividade, assim, questiona a prática aceita e o ciclo gradualmente se expande em um movimento coletivo ou institucional (ENGESTRÖM, 1999b). As transformações acontecem ao longo desses ciclos à medida que o objeto da Atividade vai sendo reconstruído pelos sujeitos.
De acordo com Engeström (1999b, p. 383), uma sequência típica e ideal de ações em um ciclo expansivo incluem sete ações: 1) questionar aspectos da prática
26 No original: “The process of expansive learning should be understood as construction and resolution of
successively evolving tensions or contradictions in a complex system that includes the object or objects, the mediating artifacts, and the perspectives of the participants”.
aceita; 2) analisar a situação com o intuito de encontrar causas ou mecanismos explicativos; 3) construir o modelo de uma nova ideia que explique e ofereça a solução para uma situação problemática; 4) examinar o modelo para entender sua dinâmica, potencial e limitação; 5) implementar o modelo, concretizando-o por meio de aplicações práticas, enriquecimentos e extensões conceituais; 6) refletir e avaliar o processo e 7) consolidar os resultados em uma forma nova e estável de prática. Ele reconhece, entretanto, que um ciclo expansivo completo não acontece comumente.
O autor ainda salienta que, no nível do sistema de Atividade coletivo, os ciclos expansivos são equivalentes à ZDP discutida por Vygotsky (1998) no nível da aprendizagem individual. Esses ciclos não são, contudo, cursos pré-determinados e decisões são tomadas dentro do próprio ciclo expansivo sob condições de incertezas. Ademais, sistemas que não abordam e eliminam as contradições se tornam, eventualmente, não expansivos.
Engeström (1999b), desse modo, conclui que, por ser o sistema de Atividade uma formação multivocálica, um ciclo expansivo é a reorganização dessas vozes, dos diferentes pontos de vista e das abordagens dos participantes, e, consequentemente, dos elementos da Atividade. Isso é feito à luz da historicidade do sistema, que tem o importante papel de identificar os ciclos passados no sistema de Atividade.
Por essa razão, considero a seguir os aspectos históricos relacionados ao ensino superior privado brasileiro e ao uso de TIC também em contexto nacional com o intuito de compreender aspectos que se relacionam às contradições do sistema de Atividade analisado para, por sua vez, entender como os conflitos, questionamentos e insatisfações geram adaptações e transformações nesse sistema a partir da própria prática dos participantes.