5. De ulike spareformene:
5.2. Investering i eiendom
Ainda na esfera da casa, procuramos saber se as professoras e os professores tinham filhas e filhos e como articulavam os seus tempos em favor da prole. A pesquisa revelou que 83,6% delas e 71,4% deles têm filhos e filhas. Em média, cada indivíduo tem dois filhos/as. Também constatamos que cerca de 65% das/os filhas/os ainda moram com seus pais e mães, estando sob os seus cuidados. Nesse caso, o trabalho doméstico praticamente triplica, con- forme sublinha Maria Betânia Ávila (2010), pois geralmente começa mais cedo, para cuidar das/os filhas/os, prepará-las/los para levar para a escola, alimentá-las/los, dentre outros servi- ços de que necessitam.
Quanto à frequência em que pais e mães ficam com as/os filhas/os, alguns/mas docen- tes relataram que não importa se são dedicados muito tempo ou pouco tempo, é preciso pensar
164 em tempos de qualidade, pois há pais e mães que passam o dia inteiro com suas/seus filhas/os e não usam esse tempo como deveriam. Devido aos tempos lotados de aulas e outros afazeres, as/os docentes costumam aproveitar qualquer minuto para estar perto das/os filhas/os, con- forme gráfico abaixo:
Gráfico 37: Horas semanais dedicadas às filhas e aos filhos - por sexo.
Ao observar o gráfico, constatamos que os professores dedicam mais tempo às/aos fi- lhas/os do que as professoras pesquisadas. A primeira vista, parece-nos contraditório, porque o cuidado das/dos filhas/os, histórica e culturalmente, em geral, foi imposto às mulheres. Vale ressaltar que a dedicação em questão, não se refere somente à garantia de suportes financeiros e materiais e aos cuidados do corpo, mas também a atenção, o ato de brincar, o auxílio nas atividades escolares, assistir a um filme ou programação de TV, juntos, dentre outras ações que as mulheres professoras muitas vezes são tolhidas de fazer, porque estão assoberbadas de trabalho da profissão e da casa, inclusive para proporcionar às/aos filhas/os o mínimo de con- forto. De outra parte, os professores, na maioria das vezes, liberados do trabalho da casa, já encontram as/os suas/seus filhas/os alimentadas/os ou com alimentação preparada, apenas para lhes dar na hora certa, higienizadas/os e com roupas limpas, selecionadas para serem usadas, dentre outros cuidados já realizados pelas mulheres, cabendo-lhes apenas afagar, fazer companhia em casa e noutros espaços, prestar atenção em suas ações, o que se subentende que dedicam mais tempo a elas/es. Desse modo, podemos inferir que, quando a dedicação é labor, geralmente é da mãe, quando é lúdica ou de assistência, é dos pais, conforme ressalta Vânia:
165 Meu marido me ajuda muito em casa. Ele cuida das plantas, dos animais, me ajuda na cozinha e principalmente com minha filha. Nós temos uma fi- lha de dois aninhos. Se precisar, ele passa a manhã inteira com ela, mas na hora que ela faz xixi ou outra coisa, ele chama logo, aí é comigo, posso estar fazendo o que for (Professora Vânia, notas de campo, 10 de junho 2013)
O relato nos mostra que, mesmo os homens cuidando dos filhos e filhas, existem mui- tas atividades que eles não consideram que sejam de sua responsabilidade. Higienizar, prepa- rar a alimentação, dentre outras, são tarefas que historicamente foram das mulheres, tanto que a professora assume sua responsabilidade: Aí é comigo! Ou seja, essa responsabilidade está reificada em si mesma, a tradição fala mais forte do que pensar e agir de forma equânime, já que ambos trabalham fora de casa. Outro aspecto importante no relato da professora Vânia, é que ela reitera a ideia da ajuda, que pontuamos anteriormente. Esse entendimento, essa ex- pressão verbal, também no caso de Vânia, parece dizer que o marido está lhe fazendo um fa- vor, como se o papel de cuidar das/os filhas/os fosse exclusivamente das mães.
Ainda sobre as/os filhos, a professora Luz demonstra sua indignação em não ter acom- panhado o desenvolvimento do seu filho, pois ao contrário de outras famílias, ela é provedora, não o esposo. Enquanto trabalha na escola, cuidando das/os filhas/os de outrem, como ela ressaltou, o seu esposo cuida da casa e do filho, conforme relato abaixo:
(...) meu filho falou pela primeira vez, e só o pai presenciou isso, deu os primeiros passinhos que eu não consegui ver, fez a primeira atividade da es- cola sem a minha presença. Meu marido é o pai e mãe dele, porque meu tempo é destinado a cuidar dos filhos de outrem (Mensagem da professora Luz pela Internet em 15 de junho de 2013).
Luz é professora há aproximados vinte anos. No início da sua carreira ela trabalhava 40h na escola e estudava no noturno. Naquela época, as suas preocupações eram com sua mãe, pai e irmãos. Depois que terminou o Curso de Letras resolveu se casar, e anos depois decidiu ter um filho. Ela sempre desejou educar o filho do jeito que sonhou, mas o menino, desde que nasceu, passa a maior parte do tempo com o pai, porque Luz trabalha 40h na Edu- cação Básica e 20h em uma faculdade privada. A ampliação da jornada não foi uma escolha, foi uma necessidade, pois, ao contrário de muitas famílias, na dela o marido faz os trabalhos para reprodução social, e ela é a única responsável pelas despesas da casa.
O tempo mais duradouro que Luz teve com o filho foi na época da licença maternida- de. De lá para cá, ela só tem tirado os domingos para a família, porque os outros dias estão
166 abarrotados de trabalho da escola. A professora sente muito por ser alfabetizadora e não ter tempo de acompanhar o processo de alfabetização do próprio filho. Enquanto ajuda, direta ou indiretamente, a centenas de crianças a aprender a ler e escrever, seja quando as atende em sua sala, seja quando contribui com professoras e professores alfabetizadoras/es, em seus tempos de formação continuada, a educação do seu filho é acompanhada apenas pelo pai e pela professora. Às vezes ela consegue se sentar com ele para fazer uma atividade ou outra, mas é um acompanhamento considerado insuficiente pela mesma.
Analisando o relato da referida professora, é possível perceber um sentimento de cul- pa, o qual é uma preocupação frequente de professoras e professores, é um sofrimento obtido após a análise das suas ações, seguida de uma frustração diante dos seus atos e da violação da sua consciência moral. No centro do sentimento de culpa há sempre uma desilusão do indiví- duo consigo mesmo. Dessa maneira, segundo Andy Hargreaves (1998), as/os docentes enfren- tam as armadilhas de culpa, que consistem nos padrões sociais e motivacionais que delineiam e determinam a sua culpa, padrões estes que impelem e aprisionam muitas/os delas/es, do mesmo modo que também existem os trajetos de culpa, ou seja, as diferentes estratégias que as/os docentes adotam para lidar com ela.
O autor apresenta dois tipos de culpa: a primeira é a persecutória, que inibe a inova- ção, devido ao receio de prejudicar alguém; já a segunda é a depressiva, é a experiência emo- cional provocada por situações em que o indivíduo sente que ignorou, traiu ou não conseguiu proteger alguém. Ela é mais intensa quando tomamos consciência que podemos prejudicar ou negligenciar aquelas/es com as/os quais nos preocupamos, como revela o relato de Márcio:
Hoje eu cheguei a casa e a minha filha estava dormindo. Eu fui pertinho dela e dei um beijo. Aí eu percebi o quanto ela está crescendo sem a minha pre- sença em casa. Eu trabalho 60 horas, mal a vejo na hora do almoço e nos fi- nais de semana. Pensando nisso eu me sinto um caco, minha consciência dói em saber que minha filha está crescendo sem a minha referência (Mensagem de Márcio, pela Internet, 12 de maio de 2013).
A falta de tempo para a prole é hoje um dos principais problemas, desafios ou tensões nos tempos cotidianos dessas/es docentes. Sobretudo quando elas e eles, mães e pais, passam horas a fio diante de filhas/os dos outros, conviver com o sentimento de culpa e de impotência diante da criação dos filhos e filhas é um sentimento devastador, como afirma outra professo- ra: “Quando cheguei naquela questão do tempo para os filhos, Meu Deus! Como eu estou em dívida! Meu tempo para meus filhos são tempos de cobrança: Já fez o dever? Já escovou os dentes? Por que seu quarto está assim? Você precisa, você tem que ajudar a mamãe. É uma
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situação deplorável. Que culpa tem meus filhos das minhas escolhas?” Na relação entre mães
e filhas/os não tem espaço para carinhos, brincadeiras, conversas, histórias. O tempo que so- bra é para a cobrança das tarefas que ficaram estabelecidas. Desse modo, o encontro, que de- veria ser uma festa, se transforma em um acerto de contas.
Outra professora contou que um dia desses ela chegou a casa, e a filha estava acordada até as 22h30, sentada no sofá, esperando por ela. Ao abrir a porta, já foi despejando a sua fú- ria sobre a criança, esbravejando porque ela estava acordada até aquela hora, então a criança parou e disse: “Desculpe, mainha, outro dia acordei com você me beijando na cama, hoje
pensei em te esperar para te dar um beijo”. Segundo a professora, as palavras da sua filha
doeram mais do que um tapa. Ela ficou sem palavras. Parou. Refletiu sobre seus tempos com sua filha única: chegava todos os dias, às 22h, e a criança já estava dormindo; pela manhã, já a acordava reclamando, para que fosse para a escola junto com ela; ao meio dia, almoçava às pressas e voltava para a escola, enquanto a filha ficava sozinha; às 17h voltava a casa para tomar um banho rápido e voltar para a escola. Nos finais de semana, raramente saía com a filha, principalmente por falta de tempo, havia centenas de atividades para corrigir e planos para fazer. A sensação de impotência, de dívida com o papel de mãe, de tristeza, invadiu a- quela mãe. Segundo ela, não conseguia fazer outra coisa, senão chorar.
Ainda sobre a culpabilização, a incapacidade de fornecer o empenho com vista a cui- dar dos outros é uma fonte significativa de culpa depressiva entre professoras e professores. Quanto mais elas e eles se preocupam com os outros, quanto mais pensam em sua falta de tempo para se dedicar aos outros, mais culpados se sentem. Andy Hargreaves (1998) nos lem- bra que quanto mais importante for a pessoa a ser cuidada, mais devastadora vai ser a experi- ência de culpa. 30
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Um caso extremo de dificuldade e culpabilidade que encontramos nas relações com as/os filhas/os foi o da professora Anita. Ela tem um filho e uma filha, é separada do esposo, é responsável direta pela família e sempre trabalhou dois turnos, mesmo quando estava casada. A sua filha engravidou aos 15 anos, e seu filho teve um surto de esquizofrenia. É professora de Língua Portuguesa e trabalha 40 horas semanais na rede municipal. Atu- almente ela vive em função do filho. Ela, relata no Grupo Focal: Bom, o meu tempo fora de sala de aula é em
casa, cuidando da casa, curtindo um pouquinho o neto, também pesquiso. Além dos livros didáticos, acesso a internet pra fazer minhas pesquisas, e hoje eu estou dando assistência ao meu filho, que a medicina diagnosti- cou que ele tem esquizofrenia, e ultimamente ele anda um pouco mais agitado (...). Eu sinto que quando eu estou perto dele, ele se sente mais seguro, passo a maior segurança, e às vezes ele fica aflito quando eu falo que eu tenho que sair, ele fica preocupado. Esse ano eu estou percebendo que ele está muito agitado, devido ao retorno à escola, Ele tá com muito medo, ele fica se questionando, se ele vai passar, se ele vai ser reprovado, se ele vai conseguir absorver os conteúdos, se ele vai passar mal na escola. Então esses questionamentos tão fazendo com que ele piore, porque além da esquizofrenia auditiva, que é o caso dele, ele também tá tendo a visual (...). Eu tenho vivido dias assim muitos conflituosos, muito conflito, preocupação. A minha vida está mais voltada pra ficar com ele, pra dar essa assistência, pra dar pra ele essa segurança, porque a gente tem que provar pra ele, todo dia e toda hora, a todo instante, que ele é capaz, que ele vai superar, que ele é forte, que ele tem condições de superar tudo isso. Esses últimos meses foram os piores momentos da minha vida (Grupo Focal nº 3, em 03, julho de 2013). Anita não tem sossego: está na escola, mas o pensamento está constantemente em casa, mesmo
168 As insatisfações, tensões e culpa de parte do grupo investigado estão ligadas à escas- sez de tempo para ficar com as/os filhas/os, paralelamente ao excesso de tempo de trabalho, dividido entre as jornadas na escola e fora dela, como este relato reitera:“Por muitas vezes me sinto uma mãe incompleta, eu poderia fazer mais, contudo é complicado, porque trabalho o dia inteiro e somente a noite é que o meu tempo é para tudo”. Essa sensação de incompletude se traduz como um sentimento de culpa, ou seja, um sentimento profundo de não estar a dedi- car o tempo necessário ao outro, de não estar se empenhando o suficiente para o cuidado do outro.
Ainda conforme Andy Hargreaves (1998), a culpa de professoras e de professores é gerada socialmente e localizada emocionalmente. Suas consequências são muitas vezes nega- tivas, e ela poderia ser atenuada, através da diminuição dos constrangimentos e das exigências feitas a esses profissionais. No caso brasileiro, e Porto Seguro não foge à regra, esse senti- mento de culpa poderia ser atenuado, ao menos em parte, caso os níveis salarias das/os docen- tes e as condições laborais das escolas da Educação Básica fossem melhores, permitindo que elas e eles diminuíssem suas longas e excessivas jornadas de trabalho na escola e fora dela, e que trabalhassem em condições mais favoráveis. Muito embora a questão da culpabilidade seja algo mais complexo, pois envolve não somente o tempo físico, o khronos, mas também um tempo subjetivo, qualitativo, do psiquismo e das emoções, é possível supor que parte da culpa que muitos docentes experimentam, tenha uma relação direta com a qualidade de suas relações com suas/seus filhas/os. E, também, com as suas relações e trabalhos com os meni- nos e meninas, seus alunos e alunas no dia a dia da escola, como os relatos e outras pesquisas evidenciam.
Sendo assim, muitas/os docentes, quando indagadas/os sobre o que sentiam diante dos tempos disponibilizados aos seus filhos e filhas, disseram que o tempo era muito pouco, por isso aproveitavam ao máximo os momentos em que estavam juntos. Sendo assim, essas/es colegas procuram compensar um tempo dito quantitativo com um tempo melhor aproveitado, tal como veem e consideram.
Outras/os professoras/es disseram que o relacionamento com suas/seus filhas/os é ó- timo, pois estavam sempre em sintonia com elas e eles, mesmo quando distantes fisicamente. tendo sempre alguém com o filho. Não existe nenhuma lei que lhe conceda acompanhá-lo, então vive em uma
eterna maratona, às voltas com ele, como ela mesma diz: “se meu dia tivesse 48 horas ainda era muito pouco”. O
169 E ainda outras/os se mostram satisfeitos, felizes, afirmando que, se pudessem, não sairiam do lado delas/es. No entanto, pode-se dizer que, mesmo nesses casos onde não se observa o sen- timento de culpa, há nos relatos uma clara sensação de que poderiam, deveriam e gostariam de dedicar mais tempo às/aos filhas/os.
Vale ressaltar, aqui, que o aspecto da escassez de tempo para encontrarem e convive- rem com suas/seus filhas/os não é um fato exclusivo das/os professoras/es.