A orla oeste de Mosqueiro se configura enquanto o principal e mais antigo espaço turístico da Ilha e está delimitada como o eixo longitudinal que vai da praia do Areião, na Vila, até a praia do Ariramba, sendo que, a abordagem aqui realizada tem como área de estudo não a totalidade dessa extensão, mas o trecho correspondente às praias do Farol, Chapéu-Virado, Porto Arthur e Murubira (nas quais de constata a maior incidência de fluxos turísticos da Ilha e, desse modo, o maior acirramento dos conflitos entre territorialidades turísticas), incorporando a praia em si, extensão composta pela areia e pela água utilizada nas atividades de lazer; e as calçadas e a Avenida Beira Mar, assim como, as edificações encontradas em sua adjacência imediata (ver mapa a seguir).
No turismo de praia, como o realizado na orla oeste de Mosqueiro, aparece com bastante evidência o papel indispensável exercido pelos objetos espaciais, tanto aqueles que em si dão existência à praia, como a areia e a própria água, que no caso de Mosqueiro é proveniente de rio e não de mar, quanto aqueles socialmente construídos, como calçadas, bares, restaurantes e casas de veraneio. Esses sistemas de objetos são indissociáveis dos sistemas de ações ligados ao turismo, tanto os condizentes com as próprias práticas, quanto aqueles ligados à prestação dos serviços turísticos, sendo, portanto, ao mesmo tempo, condição, meio e resultado das práticas turísticas.
Contudo, a compreensão da natureza do espaço turístico, como demonstrado anteriormente através de Rodrigues (1997), não perpassa apenas pela análise do espaço em que os turistas imprimem diretamente suas ações inerentes à prática do lazer, mas necessita incorporar elementos cuja origem e dinâmica são externos aquele espaço. Neste sentido, uma efetiva análise da orla oeste de Mosqueiro enquanto espaço turístico requer a consideração não somente dos objetos e das ações locais que promovem a existência do referido espaço, mas também das ações externas sobre o mesmo, principalmente, as condizentes às práticas turísticas em si, que, por sua própria natureza, são externas, no âmbito das quais, especial destaque cabe as práticas turísticas de segunda residência e excursionista, cuja incidência em Mosqueiro é marcante, justificando a escolha dessas práticas como centrais na análise deste trabalho.
As praias da orla oeste de Mosqueiro foram as primeiras a serem incorporados ao uso turístico, integrando a primeira expansão do turismo na Ilha, seguindo do oeste para o leste, como retrata Meira Filho (1978). À medida que Mosqueiro foi aprofundando a sua condição de espaço de destino de fluxos turísticos, o trecho que vai da praia do Farol a praia do Murubira, passando por Chapéu-Virado e Porto Arthur, se afirmou internamente à Ilha e à orla oeste como o principal espaço de concentração de turistas. Este fato não está relacionado apenas às condições naturais oferecidas por essas praias, já que as demais apresentam características muito próximas, mas, entre outros fatores, ao simbolismo criado sobre estas e, especialmente, às infra-estruturas, ou objetos geográficos culturais (SANTOS, 1999), cuja disposição em Mosqueiro é marcada por uma notável concentração nas referidas praias da orla oeste e suas proximidades, inclusive os relativos à circulação,
como a malha rodoviária, que além de se apresentar muito mais densa no espaço citado anteriormente, canaliza intensamente os fluxos para esta área.
Apesar do trecho da orla oeste do Farol ao Murubira em toda a sua extensão apresentar-se como um espaço denso de objetos geográficos, se comparado a outras áreas da Ilha, inclusive por integrar a maior zona urbana de Mosqueiro; não corresponde a um espaço turístico homogêneo, nem do ponto de vista da disposição dos objetos geográficos nem com relação à incidência das ações. Neste sentido, diferentemente do restante da orla uma pequena contigüidade da orla do Murubira e do Porto Arthur não apresenta a Avenida Beira Mar separando a praia em si das segundas residências, que, assim, estão junto a areia e a água da praia, impedindo, com isso, a visão dessa parte da praia a quem passa pela Avenida Beira Mar (ver mapa da pág. 49 e fotos 07 e 08).
A paisagem exposta na foto 07 condiz com uma realidade em que o uso exclusivo da praia é favorecido em detrimento de um uso socialmente mais amplo, apesar da inexistência de qualquer barreira física no acesso a essa parte da praia, pois esse espaço acaba sendo identificado como uma extensão das segundas residências a ele contíguas, diferentemente do ocorrido no restante da orla, onde a avenida, as calçadas e os demais objetos conferem o aspecto de publicidade a mesma, como pode ser percebido na foto 08. A variação dos tipos de objetos geográficos naturais e culturais, assim como, da sua disposição e concentração contribui com relevância a não homogeneidade do espaço da orla oeste de Mosqueiro.
Foto 07: Trecho da praia do Murubira e do Porto Arthur em que as segundas residências estão junto à areia da praia. Foto: Costa, 2007
Foto 08: Trecho da orla oeste, que a exemplo da maior parte da sua extensão, apresenta as segundas residências (esquerda ao fundo) separadas da areia da praia pela Avenida Beira Mar e pelas calçadas. Foto: Brandão, 2007
Como já demonstrado, as praias são condicionantes da natureza das práticas turísticas incidentes na referida orla, e, segundo Tuan (1980, p. 131), a sua forma tem dupla atração: “por um lado as reentrâncias das praias [...] sugerem segurança; por outro lado, o horizonte aberto para o mar sugere aventura. Além disso, o corpo humano que normalmente desfruta apenas do ar e da terra, entra em contato com a água e a areia”. De uma forma ou de outra, pela sugestão de segurança ou de aventura, as praias atuam como fortes atrativos à realização de práticas de lazer, no entanto, as características próprias a cada uma não perdem a existência, favorecendo a ingerência de ações diversificadas.
As práticas turísticas, os agentes econômicos ligados ao turismo e o Estado podem ser destacados como os principais componentes dos sistemas de ações, na linguagem de Santos (1999), atuantes em qualquer espaço turístico. Knafou (1999), concordando com essa afirmativa, relata que os espaços turísticos podem ter sua criação motivada pela ação direta de três agentes distintos, denominados fontes de turistificação dos lugares e dos espaços: a primeira consiste na ação dos próprios turistas sem a interferência direta do mercado, que foi a forma que deu origem ao fenômeno; a segunda é representada pelo mercado através da concepção de produtos turísticos; e a terceira diz respeito aos planejadores e promotores ‘territoriais’, cuja especificidade reside em sua mais forte territorialização devido o seu vínculo específico a um determinado espaço.
A origem do espaço turístico de Mosqueiro é resultado da ação da primeira fonte de turistificação dos lugares e dos espaços citada por Knafou, os próprios turistas, constituídos, primeiramente, pelos estrangeiros instalados em Belém por conta da economia da borracha, e, logo em seguida, pela elite belenense, sendo as ações estatais e de grupos econômicos posteriores às intervenções das próprias práticas turísticas. Na atualidade, apesar do sensível aumento das intervenções das duas outras fontes de turistificação, as práticas turísticas continuam exercendo um forte poder sobre o espaço turístico de Mosqueiro, o que fundamenta a opção desse trabalho em centrar a abordagem nessas ações, representadas pelas práticas de segunda residência e excursionista, cuja intensidade de intervenções e de conflitos se destaca em Mosqueiro.
2.2 As práticas turísticas de segunda residência na orla oeste de Mosqueiro