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4.1 «Å leve med smerter»

4.3 Intuitivt skapende

Uma boa parte das castanhas eram compradas por ingleses, alemães e holandeses para serem descascadas e beneficiadas na Europa e depois comercializadas na América do Norte e em outros países. Há informações de que comerciantes alemães compravam castanhas diretamente do Pará, enviavam as mesmas para serem processadas em Hamburgo e posteriormente redistribuíam as castanhas de volta para o Brasil e América do Sul. 96 Esse procedimento durou até a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), quando os europeus foram desalojados desse mercado em função do conflito e o fornecimento do produto para aquele continente foi interrompido.

Figura 12 - Quebradeiras de castanha na firma J. G. Araújo e Cia. em Manaus, mostradas no documentário "No

País das Amazonas" de 1922

Fonte: Fotograma do filme "O Cineasta da Selva".

94 Ibid.

95 THE BRAZIL NUT INDUSTRY, op. cit., p. 14. 96 SCHREIBER, op. cit.

Em contrapartida, cresceu o mercado norte-americano e surgiram as primeiras iniciativas de promover aqui o processo de beneficiamento e descascamento. Ao que parece, tal iniciativa começou em Manaus, com a empresa J. G. Araujo e Cia., fundada pelo empresário de origem portuguesa Joaquim Gonçalves de Araújo, mais conhecido como "J. G. Araújo", que fez fortuna trabalhando no ramo de aviamento, principalmente na extração da borracha e da castanha, desde o final do século XIX. 97

Posteriormente, J. G. Araújo foi responsável por uma incursão pioneira na área industrial, voltada para o beneficiamento da borracha e da castanha-do-pará, a Fábrica Brasil Hévea. 98 A usina de beneficiamento de castanha funcionava nas mesmas instalações dessa fábrica, realizando o trabalho de descascamento das sementes para exportação e empregando operárias pagas de acordo com a quantidade produzida. Essas operárias ficaram depois conhecidas como “quebradeiras”. Em 1922, o beneficiamento da castanha-do-pará já estava sendo feito na usina.99

O descascamento da castanha no Estado do Pará teve início em 1928 e era realizado por uma única empresa, a qual processou 179,5 hectolitros ou 879,5 quilos, no valor de 16:639$650 réis. A renda para o Estado por meio do imposto de 15% ad valorem totalizou 2:495$947 réis. 100 No primeiro semestre de 1929, existiam seis empresas realizando esse

97 A empresa diversificou depois as suas atividades, exportando o pirarucu e a tartaruga para países como a Inglaterra, Alemanha, Espanha e Estados Unidos. A empresa vendia produtos da Amazônia também para o mercado interno. Um dos aspectos que destacaram a J. G. Araújo e Cia. foi a abertura de inúmeras filiais, procurando descentralizar as suas atividades. A firma tinha representações em Iquitos (Peru), Porto Velho (rio Madeira), Santa Izabel (rio Negro) e Vista Alegre (Rio Branco). A ideia era a de assegurar o controle das transações diretamente com os produtores, no interior da Amazônia, dificultando a ação dos demais concorrentes. A empresa chegou a ter o controle completo do transporte fluvial entre Rio Branco (atual Estado de Roraima) e Manaus, no início da década de 1910. Praticamente não há ainda um estudo mais específico sobre a importância desse empresário para a econômia e a indústria do Amazonas. Para mais detalhes, ver: SOUZA E MELLO, Marcia Eliane Alves de. O Império comercial de J. G. de Araújo e seu

legado para a Amazônia (1879-1989). Manaus: UFAM, 2010. Disponível em: https://www.academia.edu/4543993/O_Imperio_comercial_de_J.G._Araujo_e_seu_legado_para_amazonia >. Acesso em: 30 jan. 2014.

98 A indústria de beneficiamento da borracha recebeu o nome de “Fabrica Brasil Hévea” e tinha a finalidade de produzir lâminas de crepe e artefatos para o mercado interno, sendo considerada a maior fabrica do gênero no Brasil e o primeiro empreendimento industrial de vulto no Estado do Amazonas. Em suas instalações funcionava também uma fábrica de solas e saltos para sapatos, um curtume, uma serraria e foi construída uma vila operária para abrigar os trabalhadores. No ano de 1930, o estabelecimento produzia além do crepe e da borracha lavada, válvulas, tapetes, passadeiras e chinelos (SOUZA E MELLO, op. cit.). 99 A firma J. G. Araújo e Cia., patrocinou por intermédio do filho de seu fundador, Agesilau Araújo, a

produção do documentário "No País das Amazonas", que foi apresentado nas comemorações do Centenário da Independência do Brasil em 1922, no Rio de Janeiro. Em uma das cenas do filme, aparecem as operárias realizando a quebra da casca da semente da castanha-do-pará, na usina de beneficiamento da empresa (SOUZA E MELLO, op. cit.).

100 VALLE, Eurico de Freitas. Mensagem apresentada ao Congresso Legislativo do Pará, em sessão solenne de abertura da 1a. reunião de sua 14a. legislatura, a 7 de setembro de 1930, pelo governador do Estado, Dr. Eurico de Freitas Valle. Belém-Pará: Officinas graphicas do Instituto Lauro Sodré, 1930. p. 57. Disponível em: <http://www.crl.edu/pt-br/brazil/provincial/par%C3%A1>. Acesso em: 20 dez. 2012.

beneficiamento no mesmo Estado e no ano seguinte eram onze.101 O crescimento das fabricas beneficiadoras e o aumento em mais de cinco vezes na oferta de castanha descascada, sob a forma da amêndoa propriamente dita, no decorrer do ano de 1929, fez com que o Governo do Pará criasse alguns estímulos, como a redução das tarifas para o produto beneficiado.

Figura 13 - Usina de beneficiamento de castanha

Fonte: Schreiber (1951, p. 42).

Tomando por base que um hectolitro de castanha com casca produz, em média, 20 quilos de castanha sem casca, ficou resolvido que a cobrança do imposto de exportação sobre esta ultima fosse feita conforme a pauta organizada para a castanha bruta, ou seja, 15%, dividindo-se a percentagem obtida por 20, como forma de determinar a pauta especial para o quilo da castanha que fosse beneficiada. Segundo o relatório do governador, tal medida iria favorecer o produtor, pois este não estaria mais sujeito a uma taxa fixa e também o Estado, pois seria beneficiado com uma arrecadação maior se os preços subissem:

“A regularização da cobrança do imposto de exportação veiu evidentemente favorecer os industriaes, verificado como está que o valor da castanha descascada foi, em 1930, quase sete vezes maior do que em 1929. Essa diferença avulta ainda muito mais, tomando-se em consideração que a safra deste anno foi muito menor, cerca da metade da do anno passado. Na mesma proporção augmentaram as rendas para o Estado”. 102

101 A novidade parecia produzir resultados, pois segundo os dados oficiais, no primeiro semestre de 1929 a exportação alcançou 173.976 quilos de castanhas descascadas, no valor de 69:590$400 réis. No segundo semestre do mesmo ano a quantidade exportada chegou a 493.252 quilos no valor de 363:255$650 réis. O total da exportação de 667.228 quilos foi quase todo destinado à America do Norte, que importou 602.419 quilos de castanhas descascadas (Ibid., p. 57-58).

Alguns problemas foram observados nos primeiros anos em que as usinas, nome pelas quais as fábricas de beneficiamento passaram a ser mais conhecidas, começaram a adaptar o processo e atender às exigências do mercado externo, sobretudo o norte-americano. As principais dificuldades estavam na quebra da casca e na operação de desidratação da castanha. Muitos importadores norte-americanos registraram que, durante o período de 1925 a 1927, a qualidade das castanhas descascadas não era muito boa. Por outro lado, a quantidade dessas castanhas, importada pelos Estados Unidos, ainda era muito pequena e praticamente tinham entrado no mercado em caráter experimental. 103 Algumas das fábricas conseguiram superar as dificuldades iniciais e na temporada de 1928, as castanhas beneficiadas que foram enviadas ao exterior tiveram a sua qualidade confirmada. Entre as mais importantes usinas de beneficiamento existentes em Belém, no início da década de 1930, destacavam-se: Chamié (1927), Progresso (1930), Santo Amaro (1928) e São Vicente (1929). 104

Em 1930, praticamente toda a castanha-do-pará descascada que entrou no mercado norte-americano, era proveniente do Brasil. Até essa época a castanha sem casca consumida nos Estados Unidos era beneficiada lá mesmo ou vinha da Inglaterra. A partir do final da década de 1920, tornou-se mais barato importar o produto beneficiado do Brasil, do que adquirir o mesmo por outras formas. Os custos menores do beneficiamento feito na Inglaterra, tinham resultado na entrada de grandes quantidades de castanhas descascadas no mercado norte-americano e a indústria local de beneficiamento estava sendo colocada fora do mercado em função disso. 105

No início do século XX, quando as castanhas eram descascadas nos Estados Unidos, algumas eram também clareadas e limpas com a retirada da película que envolvia a amêndoa. Existia um mercado restrito para esse tipo de castanha antes de 1926, quando grandes quantidades de amêndoas clareadas vieram da Inglaterra e encontraram boa receptividade junto ao público norte-americano. Portanto, além do processo de descascamento, existia também essa outra possibilidade no beneficiamento da castanha, procedimento que era feito na Inglaterra até a Segunda Guerra Mundial. 106 Algumas beneficiadoras situadas em Belém chegaram a realizar esse trabalho, muito embora o mesmo não tenha se generalizado. 107

Em 1938, existiam também duas usinas de beneficiamento de castanha-do-pará no antigo Território do Acre, uma localizada na capital Rio Branco e outra situada em Xapuri.

103 SCHREIBER, op. cit.

104 O ano entre parênteses, assinala a época em que as usinas começaram a beneficiar a castanha, embora, algumas delas já estivessem atuando em outros segmentos ou ramos do mercado.

105 SCHREIBER, op. cit.

106 A partir de 1939, todos os setores industriais da Inglaterra foram direcionados para o esforço de guerra, uma vez que o conflito teve início nesse mesmo ano.

107 Na década de 1940, a Brazil Nut Association, fundada por importadores norte-americanos, divulgou, em caráter promocional, vários livros de receita nos quais eram indicados procedimentos para clarear a amêndoa da castanha-do-pará.

Cada uma dessas fabricas ocupava em torno de 500 operários. 108 Uma das vantagens da castanha descascada, dizia respeito ao transporte, uma vez que, sem o beneficiamento, o mesmo era realizado tendo o produto com a casca, obtendo-se um peso maior.

Até o final da década de 1940, a maior das usinas de beneficiamento de castanha-do- pará estabelecida em Belém, tinha capacidade para processar 1.300 toneladas de castanhas por ano. 109 A fábrica era considerada uma das mais modernas e que apresentava melhores condições de limpeza e higiene no Brasil, sendo conhecida pelos cuidados com a classificação e qualidade do produto processado em suas dependências. Segundo o especialista em

comodities do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, Walter R. Schreiber, esse

estabelecimento era tido como referência e modelo para os demais beneficiadores, que procuravam modernizar as suas fábricas.

No final da década de 1940, existiam 9 usinas de beneficiamento de castanhas em Belém, 6 em Manaus e 4 na Bolívia. Esses estabelecimentos empregavam aproximadamente 6 mil trabalhadores, sendo a maior parte mulheres, as conhecidas “quebradeiras” de castanhas. Walter R. Schreiber apontou a seguinte tendência para a produção de castanha-do-pará em 1951:

“A tendência da indústria de castanha-do-pará é em direção a estimular preferencialmente a exportação da castanha descascada do que da castanha com casca. A indústria de beneficiamento gera empregos no Brasil e, além disso, as castanhas sem casca trazem mais divisas do que as com casca. Os lucros derivados do comércio no Brasil das castanhas descascadas tendem a ser um pouco maiores do que os obtidos das castanhas com casca e existe uma preocupação menor com estragos, deteriorações e perda de peso no seu destino final. Além disso, os custos do beneficiamento no Brasil são consideravelmente mais baixos em relação aos Estados Unidos e outros países do hemisfério norte”. 110

Contudo, apesar das vantagens apontadas em direção ao aperfeiçoamento ainda maior do beneficiamento da castanha-do-pará, nas décadas seguintes continuou a predominar a

108 NEVES, Carlos Alves. A castanheira do pará. Revista de Agricultura, São Paulo, v. 13, n. 10-11-12, p. 461- 476, out.-nov. - dez. 1938.

109 Trata-se da usina Chamié, situada na rua da Municipalidade, no centro de Belém, capital do Estado do Pará. A mesma possuía uma capacidade estimada para a produção de 40 mil caixas de castanhas processadas, por ano. Para isso, a fábrica poderia funcionar com aproximadamente mil trabalhadores no pico da temporada de beneficiamento. Walter R. Schreiber, especialista norte-americano em comodities, fez uma lista das usinas localizadas na capital paraense, das quais a Chamié era a maior. A mesma havia sido fundada em 1927, portanto era uma das pioneiras no processo de beneficiamento da castanha-do-pará naquela cidade (SCHREIBER, op. cit.).

castanha com casca na pauta de exportações e o produto beneficiado não chegou a corresponder a metade do total exportado. Além disso, as usinas de beneficiamento continuaram a se concentrar nos grandes centros, como Belém e Manaus, muito distantes das área de coleta, o que agravava o problema do tempo necessário para o transporte do produto.

Tabela 11 - Exportação de castanha com casca e descascada (ton.)

ANO CASTANHA COM CASCA CASTANHA DESCASCADA 1929 32 246 454 1930 14 155 592 1931 29 449 2 842 1932 20 496 3 069 1933 28 695 4 556 1934 24 468 3 841 1935 27 401 6 261 1936 24 322 4 595 1937 13 145 3 547 1938 23 961 4 282 1939 22 887 4 743 1940 19 403 6 774 1941 9 097 5 592 1942 5 293 3 104 1943 233 180 1944 869 408 1945 652 1 404 1946 12 607 4 592

1947 15 569 3 709

1948 11 651 1 856

1949 16 830 4 334

1950 13 608 3 529

Fonte: Almeida (1952, p. 13).

Os estabelecimentos que realizavam o beneficiamento compravam as suas castanhas através dos mesmos intermediários que faziam a exportação do produto. O beneficiador podia comprar lotes avulsos, mantendo os mesmos em estoque, de acordo com as suas necessidades. Muitos usineiros compravam para efetuar uma entrega futura e aproveitavam quando a demanda externa era menor, procurando manter um estoque de castanhas para beneficiamento por toda a temporada.

O processo de beneficiamento tinha como etapa fundamental a retirada da casca. Para facilitar esse trabalho, as castanhas eram inicialmente imersas na água, em enormes tanques de cimento por um período de 24 horas. Posteriormente eram retiradas e colocadas em água fervente por 3 ou 5 minutos para amolecer a casca. Em seguida, as castanhas eram levadas para as salas onde eram quebradas nas bancadas pelas operárias. As quebradeiras, mulheres que realizavam essa etapa do trabalho de beneficiamento, descascavam as castanhas e separavam as que se encontrassem em bom estado em caixas. As demais sementes que estivessem quebradas ou podres também eram separadas, bem como as cascas. A castanha podre era comercializada com as fábricas de sabão. 111

111 EMMI, Marília. Os Castanhais do Tocantins e a indústria extrativa no Pará até a década de 60. Paper do NAEA, Belém, n. 166, out. 2002. Disponível em: <www.ufpa.br/naea/gerencial/ler_publicacao.php id=78>. Acesso em: 5 mai. 2010.

Figura 14 - Seleção e crivagem da castanha-do-pará em uma usina de beneficiamento de Belém, com a

separação das amêndoas defeituosas

Fonte: Guerra (1959, p. 254).

As máquinas utilizadas para a quebra das sementes eram rudimentares e operadas manualmente (ver Figura 12). As mesmas tinham um custo baixo e eram fabricadas localmente. 112 A castanha ficava presa em um pequeno recipiente e a alça da maquina pressiona para baixo até a casca quebrar. Um cuidado especial devia ser tomado nesse trabalho, para que não fosse exercida uma pressão forte demais na casca que provocasse algum dano na própria amêndoa. Este equipamento é basicamente o mesmo utilizado até os dias de hoje e foi usado, com pequenas adaptações, décadas depois, pelos pesquisadores da EMBRAPA, para a remoção da mesma casca da semente a fim de facilitar a germinação.

Relatos apontavam que, em algumas usinas de menor porte, pedaços de metal ou tacos de madeira poderiam ser utilizados para remover a casca, o que comprometia a qualidade da amêndoa. Da mesma forma, nesses mesmos estabelecimentos, as castanhas não eram umedecidas antes das cascas serem quebradas, dificultando ainda mais a obtenção de uma amêndoa de bom aspecto. 113 O produto proveniente da casca e do material deixado de lado era reunido em uma caixa de madeira, bem como as amêndoas quebradas ou rejeitadas no processo de seleção. Todo esse “lixo” será depois utilizado como combustível nas fornalhas para produzir calor para o secador e força para a usina. As amêndoas com defeito eram destinadas à produção de óleo e sabão.

112 Em 1951, o preço desses equipamentos foi calculado entre Cr$ 300 e Cr$ 350 ou aproximadamente $15.00 a $ 17.50 (em dólares) cada equipamento (SCHREIBER, op. cit.).

Figura 15 - Maquina para quebrar a casca da castanha-do-pará

Fonte: Arquivo do autor.

As operárias ou "quebradeiras" trabalhavam com muita rapidez, uma vez que eram pagas pela quantidade de castanhas descascadas e que estivessem inteiras. 114 As castanhas já descascadas eram colocadas em telas de arame e levadas para um secador a vapor ou em estufas, aquecidas por ar quente a temperaturas que variavam de 50 a 55 graus Celsius, onde as mesmas permaneciam o tempo suficiente para remover a umidade superficial. A secagem é necessária para que as amêndoas não estraguem pela ação do mofo. Na última etapa, as castanhas desidratadas são passadas em grades para serem separadas de acordo com o tamanho. Às vezes, para clarear ou branquear as mesmas, a película que as envolve era removida antes que fossem desidratadas.

114 O valor normal era estabelecido por quilo, sendo que o rendimento verificado por operária em uma jornada de 8 horas era de aproximadamente 22 quilos, podendo chegar até 30 quilos. (Ibid.)

Figura 16 - Quebradeiras de castanha em usina de beneficiamento na cidade de Belém (PA)

Fonte: Guerra (1959, p. 254).

Além da introdução do descascamento e beneficiamento, ainda era necessário aperfeiçoar a classificação da amêndoa destinada ao mercado internacional. Além disso, cuidados para reduzir a deterioração e o mofo precisavam ser tomados, mesmo com o produto beneficiado, embora, neste caso, a possibilidade de que tal problema ocorresse era bem menor do que na castanha com casca. Outras práticas que ainda eram comuns entre os produtores, na década de 1920, também necessitavam ser erradicadas, como a mistura com castanhas velhas. Em relação ao Poder Público, no Estado do Pará, a lei estadual 2.409, de 08 de novembro de 1924, autorizava o governador a regulamentar o processo de beneficiamento primário da castanha, ou seja, a limpeza (lavagem) e crivagem da mesma. O projeto da lei foi de autoria do deputado estadual e engenheiro agrônomo Enéas Calandrini Pinheiro, que foi também inspetor agrícola do Pará. A lei determinava que a castanha não “beneficiada”, ficava sujeita a pagar um tributo municipal de até 8% e com relação aos direitos de exportação do Estado, as castanhas que não fossem beneficiadas, pagariam 20% ad valorem e as beneficiadas continuariam a pagar a taxa vigente, que era de 15%. A lei entrou em vigor em 01.01.1925 e procurava estimular os produtores a realizarem a limpeza e classificação primária das sementes, algo que passou a prevalecer a partir dessa época e que foi incorporado ao processo de coleta na região. 115

Figura 17 - Castanheiros acampados na mata na área do rio Trombetas

Fonte: Torres Filho (1929, p. 25).

Outro aspecto que começava também a preocupar as autoridades era o plantio da castanheira. O governador Dionysio Bentes voltou a insistir, em 1928, na necessidade de efetuar o cultivo da espécie como forma de garantir o bom desempenho da atividade. Tal proposta refletia o temor de que ocorresse com a castanha-do-pará o mesmo que ocorreu com a borracha e também a preocupação com as constantes oscilações da safra desse produto. No ano de 1890, foram exportados 4.221 hectolitros e em 1926, 401.111 hectolitros, marcando os extremos da produção da castanha (ver ANEXO 3).

Ao mesmo tempo, como já foi destacado, o desconhecimento em relação à aceitação do produto no exterior, dificultava a melhoria na qualidade e na apresentação da castanha. No mercado norte-americano, por exemplo, o consumo de nozes e amêndoas era algo arraigado ao hábito alimentar daquele país. Tal conhecimento poderia ser útil para direcionar o beneficiamento do produto mais de acordo ao gosto desse público, como por exemplo, exportar as nozes descascadas e clareadas. A castanha não acompanhava apenas os doces e chocolates, mas também pratos salgados, assados, cozidos e também junto às demais nozes em aperitivos servidos juntamente com bebidas. Qualquer consulta aos jornais norte- americanos indicaria o emprego dessas nozes nas receitas e de que, embora não fosse imprescindível, a Brazil nut era uma das nozes mais apreciadas, o que implicaria um maior cuidado para evitar a deterioração.

Além da castanha, na década de 1920 surgiu um intenso debate em torno do aproveitamento das plantas oleaginosas de maneira geral. Em maio de 1927, foi realizado em São Paulo o Segundo Congresso de Óleos e o Estado do Pará foi convidado a participar. A Amazônia produzia, em escala limitada, uma variedade enorme de óleos a partir das espécies

nativas e provenientes da coleta. O óleo da castanha era um deles e tradicionalmente conhecido na região, sendo empregado na cozinha como substituto do azeite. Na década de 1930, o debate em torno do tema ganhou maior amplitude dentro da política do Estado Novo (1937-1945) de promover a industrialização e de aproveitar os recursos naturais, culminando com a criação do Instituto de Óleos. Contudo, além do problema da rancificação do azeite da castanha, que demandaria mais analises e estudos, não havia uma quantidade disponível da matéria-prima que propiciasse condições seguras para a produção desse óleo em grande escala. O produto era obtido, em geral, das castanhas que eram rejeitadas no processo manual de seleção e processado em algumas das usinas que realizavam o beneficiamento.