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Esse modelo encontra consonância com as ciências pedagógicas a partir da asseveração de que, no campo do desenvolvimento das capacidades de aprendizagem, deve haver uma harmonia entre o modo como a mente se desenvolve e a metodologia de trabalho a ser aplicada. O que determina a capacidade de conhecimento do indivíduo passa a ser sua competência em criar conhecimentos. Isso deve ocorrer de modo grupal, encontrando como melhor meio de efetivação o enfrentamento das questões colocadas como exercícios de aprendizagem pelos cursos on-line por meio de projetos. Para tanto, aqueles que estão sendo educados deverão agir em conjunto nos ambientes virtuais, estabelecendo redes de relacionamento em prol da resolução coletiva de problemas.

Nos ambientes da Redefor, e de outros cursos de EaD, um dos elementos fundamentais denomina-se “fórum”. É um espaço para discussão entre os estudantes e enfrentamento coletivo dos problemas colocados pelo curso. Por princípio, o fórum é aberto: nesse ambiente, além de os estudantes, conectados via internet, buscarem soluções coletivas para as questões propostas que fazem parte do projeto preestabelecido, podem eles mesmos levantar outras questões a serem debatidas coletivamente.

Partindo dessa consideração, é o fórum – ou chat em alguns casos – o ambiente virtual que melhor expressa o “novo paradigma educacional”, nos termos anteriormente elencados. Como uma atividade obrigatória, as participações e os desempenhos dos cursistas neles são avaliados em termos de notas expressas em valores numéricos determinadas pelos tutores responsáveis pelas turmas dentro de uma escala predefinida. No entanto, é uma dificuldade o estabelecimento de parâmetros para julgar o valor de uma atividade que é realizada em um espaço que tem em seu princípio a livre expressão.

O fórum, em conceito, é uma ágora, ou uma espécie da baconiana “Casa de Salomão”, um espaço de discussão em que os conhecimentos trazidos pelos indivíduos são igualmente válidos para a construção do saber coletivo.

A estrutura que se coaduna com o novo paradigma é, dessa maneira, democrática, ela reproduz, no campo da educação on-line, a crença na democracia como forma de organização dos indivíduos, valorizados em sua subjetividade, sem que seja desprezado “o coração”, como nos termos de Oliveira (2003), capazes de criar formas alternativas de resolução de questões.

Para Ricardo Fabbrini (2005), as salas de aula mantiveram-se em nossos tempos como o único espaço em que foi conservada certa semelhança com a antiga ágora grega. Pois, ainda é na sala de aula que

[...] o ágon – o momento crítico, de decisão, em que se vive angústia, ânsia, medo, inquietação – pode aflorar; a sala de aula é em suma o único lugar, em tempos de suposto “pensamento único”, em que ainda se pode amar as discussões (FABBRINI, 2005, p. 18).

Nos fóruns dos cursos on-line, a discussão deixa de ser apenas uma possibilidade intrínseca à sala de aula. As novas salas imateriais, agora espraiadas no tempo e no espaço pelas TIC, têm as participações dos cursistas nas discussões como atividade institucionalizada e necessária à sua avaliação. Assim, o ágon, nos termos de Fabbrini (2005), deixa de ser elemento contingente e converte-se, pelo mecanismo institucional imposto pela estrutura do fórum on-line, em elemento fundamental da dinâmica dos cursos EaD via internet.

A dinâmica do ágon que aflora por esse meio remete também a um novo tipo de sociabilidade entre participantes dessa nova ágora. Tal sociabilidade é, como também diz Fabbrini (comunicação pessoal), controlada, monitorada, além de oximoramente, eufórica e disfórica. Eufórica pela excitação das imagens que se manifestam em ritmo vertiginoso nos ambientes virtuais, enquanto disfórica posto que prescinda da relação de materialidade entre os indivíduos.

Essa espécie de manifestação do ágon, ora convertida em expediente curricular, demanda todo um aparato tecnológico que a estimula e controla. O tutor da Redefor, o responsável pelo acompanhamento das atividades on-line, tem a seu dispor todos os relatórios proporcionados pela nova tecnologia, permitindo-lhe saber quantas vezes o estudante acessou o fórum, em que horários, de que computador, de que cidade, quanto tempo ficou conectado, quantas vezes moveu a tela etc. Aparato que também controla a sua atividade profissional.

Aliás, a designação dada ao profissional que efetivamente acompanha os estudantes em suas atividades é em si reveladora. O termo “tutor”, derivado do verbo latino tueri, que significa observar, vigiar, proteger, refere-se tanto a intuir como a tutelar. No Manual do tutor da Redefor, suas atividades são assim determinadas:

Nesse curso, o tutor on‐line irá orientar e acompanhar o percurso de aprendizagem dos cursistas nas atividades a distância, ao lidar com questões específicas de conteúdo dos módulos, ao sanar dúvidas pedagógicas, ao estimular a realização das atividades e a socialização

entre eles. Estas funções exigirão o gerenciamento das atividades avaliativas e dos encaminhamentos dos assuntos relativos aos aspectos normativos e tecnológicos às instâncias de suporte (UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO; REDE SÃO PAULO DE FORMAÇÃO DOCENTE, 2010, p. 9).

Sendo o tutor o gerente do desenvolvimento educativo dos alunos, estão entre suas atribuições: “Acessar diariamente o AVA [ambiente virtual de aprendizagem]”; “orientar os alunos sobre a realização das atividades (esclarecimentos de dúvidas, prazos de entrega, modos de envio etc.); “corrigir as atividades aplicadas, atribuindo nota quando for o caso, e validá‐las”; “estimular a participação de alunos com baixa frequência à plataforma”; “contatar o aluno que não apresentou algum trabalho”; “manter atualizados os registros dos alunos”; “emitir relatórios de participação dos alunos”; “manter a interação com os alunos e estimular a interação dos alunos entre si”; “auxiliar os cursistas no uso do AVA para realização das atividades”; “incentivar a leitura da bibliografia recomendada”; “responder aos comentários dos fóruns e e‐mails no tempo previsto nas normas do curso (48 horas)”; “incentivar e encorajar a participação qualitativa nas atividades e nos fóruns”; “participar da formação do aluno”; “encaminhar dúvidas de cunho tecnológico ao sistema de suporte”; “encaminhar aos coordenadores de tutoria as dúvidas sobre os conteúdos dos módulos ou relativas a outras dificuldades”; “realizar as atividades de forma assíncrona, podendo ser desenvolvidas em qualquer local que o tutor desejar” (UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO; REDE SÃO PAULO DE FORMAÇÃO DOCENTE, 2010, p. 9-10).

Todo um sistema tecnológico e gerencial de controle incorpora-se às atividades pedagógicas via internet, mas permanece o profissional humano elemento basilar da dinâmica dos cursos. O tutor corresponde ainda, de certo modo, ao professor tradicional, porém suas funções são limitadas pela própria estrutura do AVA: ele não concebe os cursos, não programa atividades, não determina prazos, não seleciona conteúdos, não conhece os alunos, somente seus avatares na plataforma virtual. Ele, sobretudo, gerencia ou, em conformidade com a etimologia, tutela o desenvolvimento das capacidades de inventividade e criatividade. O tutor é essencial ao processo de aprendizagem proposto, pois, se o sistema tecnológico direciona e fornecer condições de constante vigilância das atividades pedagógicas, ele não é capaz, ainda, de mensurar o maior objetivo das atividades no fórum on-line: o aflorar do ágon.

O objetivo da educação no AVA permanece sendo a formação da autonomia dos sujeitos. Quando as capacidades cognitivas e afetivas dos indivíduos tornam-se fatores

determinantes na Sociedade do Conhecimento, sob a vigilância do tutor amparado pelos dispositivos de controle, o uso público e o uso privado da razão, nos termos de Kant (2005), convertem-se agora no mesmo. O livre debate, à medida que estimula a criatividade e a inventividade na rede, torna-se eficaz para que as competências sejam estimuladas, potencializadas e mensuradas.

Porém, na sociedade da constante inovação, a educação hipercontrolada nos ambientes virtuais guarda como elemento inerente a imprevisibilidade. O que se encontra em causa é que os indivíduos possam reconstruir sentidos por meio das redes de relacionamentos que ali se estabelecem; com isso, há sempre a possibilidade do surgimento de novas formas de convivência, novos questionamentos, novos modos de organização e lutas e, talvez, de maneiras menos opressivas de existência.

5.5 Sociedade do Conhecimento: classificação, desclassificação, reclassificação