para as puérperas durante sua hospitalização. Não eram informadas sobre os procedimentos, nem sua finalidade. Os especialistas de pediatria que faziam a avaliação do recém-nascido todos os dias pela manhã complementavam e se escutava “tirem a roupa do bebê, podem deixar com a fralda”, passavam por cada leito avaliando os bebês. Com as mães bolivianas não havia conversa, talvez pela dificuldade do idioma, já outras mães brasileiras faziam algumas perguntas, às quais os médicos respondiam. Cada dia era um pediatra diferente que avaliava os bebês no alojamento conjunto. Observei que um deles explicava de forma devagar, em português, a cada uma das mães, enquanto ia avaliando ao bebê, mas nem todas as mães tinham a sorte de que seus filhos fossem avaliados por este profissional.
Os outros pediatras trabalhavam em silêncio e diziam “Pode vesti-lo”, logo escreviam no prontuário e nem o pessoal da enfermagem dava resposta clara e precisa às mães quando perguntavam sobre alguma dúvida. Os profissionais sempre se desculpavam dizendo “Ah, estou fazendo o que a doutora escreveu aqui”, em um tom de sequer oferecer informação a essas mães, que ficavam preocupadas.
Os maiores medos para as mães, de acordo com o que pude perceber diziam respeito à coleta do sangue do pé do bebê e à fototerapia (banho de luz). Apesar de darem informação a respeito, esta é falada em termos técnicos, que não são compreendidos pelas mães. Essas, por sua vez, ficam tomadas pelo medo, pensando que a fototerapia pode queimar seus bebês – isso é compreensível e ao mesmo tempo cruel quando se está diante de algo desconhecido.
Quando chegava ao alojamento conjunto sempre encontrava rostos tristes dos pais. Uma tarde, ao entrar em uns dos quartos, encontrei um casal jovem chorando abraçado. Pensei o pior. Mas, eles estavam muitos assustados porque sua filha precisava entrar para a fototerapia e estavam resistentes a aceitar. Expliquei de que se tratava essa luz no berço e como tinham que colocar a bebê (protegendo os olhos, só com fralda, a mãe não ficar perto ou
em direção à luz, etc.). Toda puérpera boliviana passava por esses medos, como contado nos depoimentos a seguir.
Será que está bem meu filho?
A pediatra chega e pede para tirar a roupa, a fralda do nenê, o revisava [avaliava] e não dizia nada, “está bem?”, eu perguntei, “sim, está bem”, respondeu, mas eu estava com medo porque via seu umbigo como saído, mas a pediatra falou “está bem”, não era amável a senhora. “Você tem que dar bastante de amamentar”, falou, mas eu não tenho leite, “mas como que não tem, você tem que ter”, aí eu queria saber para que tiravam tanto sangue do pé de meu filho, tiravam o sangue e nem diziam nada, aí perguntei, mas não entendi nada, só como que se o sangue estava aumentado, não sei, alguma coisa por aí falou para mim que estava 60 e tanto, 64, logo 50 e tanto, 40 e tanto, já no dia seguinte a pediatra diz para a enfermeira “banho de luz”, outra vez perguntei “por que vá entrar a esse banho luz?”, “é porque você não deu de amamentar, não querem dar seu leite”. Acho que esse dia estava mal humorada a pediatra e novamente repetiu “banho luz, não está de alta”, eu perguntava às enfermeiras e nem sabiam responder-me, uma dizia “porque está com infecção”, outra porque não dava de lactar, outra dizia só pode explicar a pediatra, no dia seguinte outra pediatra, trocou turno, e mais ou menos era, e diz “porque estava amarelo” e nem falou se era muito ou pouco, outra vez tiraram outra mostra, já saiu normal, chegou à noite com outra equipe de plantão e uma enfermeira entrou e falou “você está de alta e não quis ir para sua casa?”, para mim ninguém falou nada, aí tinha que esperar o dia seguinte (Alê, 30
anos, 3 filhos).
No hospital temos que aceitar sem querer, boca calada, às vezes, essa coisa, eu não gostei de banho luz, pensei que ia queimar-se meu wawa, que ia ficar negrito, porque essa luz dá calor porque coloquei minha mão para saber como é, assim quando não sabemos temos medo, né, porque quando te explicam já sabes, mas quando só há que cumprir o que lhes dizem dá medo
(Rosa, 42 anos, 4 filhos).
Às vezes, mesmo que o bebê deva ficar mais tempo na fototerapia as mães o tiram do berço, de modo que precisam ficar mais uns dias internado. Com mais dias de hospitalização, as mães passam por momentos de tristeza por não poderem ter alta hospitalar.
Figura 21: Bebê no banho de luz: medo de que eles se ferissem.
As mães primíparas têm medo de fazer curativo no umbigo por receio de que possa sair sangue. Algo tradicional na cultura das mulheres bolivianas está caracterizado pelo uso de faixa para evitar hérnia umbilical ou, como elas dizem, “pode descer su huevito”37 e como
segunda razão para assegurar que tenha um “lindo pupo”38, com boa cicatrização e cuidar para “não ver umbigos saídos ou deformados”.
Se costuma colocar uma faixa no umbigo até que fique bem seco e também para que o umbigo não fique saído [em ponta] como uma chupeta, outros vão formando-se deformes, também quando chora [bebê] a pulmão saído [muito forte] pode sair seu umbigo pela força que faz e também às vezes começa a sangrar, então há que proteger (Alê, 30 anos, 3 filhos).
Em geral, nas diferentes culturas no mundo existem algumas similitudes. A faixa é um costume antigo e que continua sendo usada na atualidade. Ainda que nas maternidades não seja permitido seu uso, após a alta hospitalar, em casa, elas usam a faixa no bebê por dos ou três meses.
As vacinas do recém-nascido são bem aceitas por serem importantes para protegê-lo, e o cartão é conservado para quando chegar o momento de ir à escolinha.
Quanto à amamentação, as bolivianas preferem oferecer a seu filho leite materno. Adotam “posições próprias” para amamentar, colocando o bebê deitado de barriga para cima e ela recostada na cama, ficando o peito de forma horizontal à boca do bebê (foto a seguir).
37 Testículo, vulgarmente é chamado de “ovo”. 38 Como é chamado o umbigo.
Na maternidade essa técnica não era permitida, mas em casa ela comumente usada para amamentar o bebê.
Figura 22: Mãe amamenta seu bebê.
No seguinte esquema resumido, se transmite o valor do parto onde a mulher e sua família são os protagonistas, concebendo e valorando um parto no modelo tradicional e não um parto enfocado na biomedicina ocidental como a única opção de dar à luz. Pelo que é importante que as mulheres sem distinção alguma possam exercer seus direitos segundo suas preferências.
Como vemos na comparação dos modelos de atendimento, um é mais bem catalogado pelos benefícios que traz para elas, no entanto a maioria continua recorrendo para o hospital, pela seguridade a suas vidas por não ter perto à família que representa a maior rede de apoio nesses casos. Quando realizei a pesquisa todas referiam que sua mãe ou sogra são parteiras e moravam na Bolívia e que não tiveram informação sobre partos em casa aqui em São Paulo.
Quadro 3: O modelo de atenção ao parto na maternidade e o modelo tradicional, de acordo com avaliação das puérperas bolivianas.
Modelo biomédico de atenção ao parto na maternidade em São
Paulo, Brasil
Modelo tradicional de atenção ao parto em seu país de origem
Não há confiança, mas devem ir para dar à luz. “O pessoal de saúde é pouco empático, não conversam, não olham direto para nós”.
Há mais confiança e segurança de dar à luz na posição “que já conhecemos” e com os cuidados que nos “dão”.
O lugar do parto é um ambiente desconhecido. Espaço associado com o abandono, trato “frio”, tanto ambiental como afetivo.
Em casa há muita confiança: não está sozinha, sempre há alguém perto para oferecer apoio e força (marido, mãe, pai, irmã, parteira).
As mulheres estão submetidas às “necessidades” dos profissionais. As mulheres “ajudam” ou devem “colaborar” com os profissionais de saúde.
As mulheres são as protagonistas e devem receber ajuda em suas necessidades. As pessoas presentes no parto não “atendem” senão “ajudam”.
O uso de tecnologia às vezes inapropriada e cesáreas são as mais rechaçadas.
O parto natural é melhor. Com a cesárea a saúde se verá afetada e nunca mais será a mesma.
Não permitem tomar seus chás e quando não há acompanhante ficam sozinhas.
No trabalho de parto e no pós-parto são importantes as bebidas quentes, recomendando-se tomar chás de coca, entre outros. Recebem massagem nas costas, na cabeça, incentivos de coragem pelos maridos que ajudam a um parto exitoso.
As condições do equilíbrio térmico são importantes.
Às vezes a presença do acompanhante é proibida, os profissionais não entendem que reduz as complicações.
O acompanhante é considerado fundamental, a sua ausência pode causar complicações.
É muito comum o comentário: “ajuda, apoia, dá força”.
O idioma português constitui uma grande limitante.
Não há limitantes com o idioma porque podem perguntar em caso de dúvidas.