2. Introduksjon
2.2. Introduksjon til tunneler
Figura 105 – Foto publicada, no jornal O Norte, pelos 13 anos do ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente.
Recreio, segunda imagem a ser analisada, é também uma produção da autora
desta pesquisa e foi publicada no jornal O Norte (13/07/2003), em matéria sobre o 13º aniversário do Estatuto da Criança e do Adolescente.
Num primeiro momento, esta foto foi feita para uma matéria especial encomendada pelo jornal Correio Braziliense, na qual cumpríamos pauta sobre o nível de desenvolvimento humano na cidade de Caaporã, município paraibano, em 2002. Em 2006, Recreio foi escolhida a melhor imagem no IV Concurso Nacional de Fotografia Atitudes Positivas na Vida e a Prevenção do uso indevido de Drogas , promovido pela SENAD – Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas.
| 115
A fotografia, produzida em cores, num plano médio (medium shot) mostra um momento peculiar de crianças na comunidade de Santo Antônio, periferia de Caaporã, que, mesmo em meio à chuva, à lama, e outras agruras, num ambiente aparentemente impróprio à desenvoltura da sua brincadeira, seguem brincando com seus piões, nos oferecendo uma imagem rica em significações.
5.2.1 REPRESENTAÇÃO Ator/Reator menino Ator/Reator menino Reatores meninos Meta pião Vetor mão
Pela clara ação dos meninos jogando pião, Recreio apresenta uma composição de estrutura narrativa. O vetor que conecta os participantes (atores) aos piões (meta) é a própria mão dos meninos.
Nessa imagem, de forma mais definida, temos dois atores e quatro reatores. Como visto anteriormente, um ator é um participante que pratica uma ação tendo em vista uma meta. Por sua vez, um reator é um participante ativo em que o seu olhar é o que dirige a cena. Para onde o reator olha recebe o nome de fenômeno (o observador, neste caso).
Nesse caso, temos a ação praticada pelo menino em primeiro plano e o que lhe sucede na cena, equilibrando o pião (meta) na palma da mão (vetor). Não obstante, estes mesmos meninos, tendo ao fundo mais dois garotos olham diretamente para
| 116
quem observa a cena (o fenômeno). Temos, então, entre ação e reação uma imagem representacional de estrutura transacional, porque neste caso, tanto podemos reconhecer para onde se dirige a ação (ação transacional) como para onde se dirige o
olhar (reação transacional) dos participantes na cena.
Dentro do processo representacional podemos identificar a hibridização dos elementos de estrutura narrativa e conceitual. Da estrutura narrativa temos as ações e reações transacionais. No caso da estrutura conceitual, vamos ter a presença do processo classificacional de taxonomia coberta, onde as crianças e os piões (participantes subordinados) fazem parte de categorias superiores. As crianças fazem parte de um grupo específico (crianças que brincam) e não de crianças que estão estudando ou recebendo socorro médico, por exemplo. Outrossim, as crianças estão a brincar, mas não é de bola, de pipa, ou bola de gude, e sim de pião.
Ainda fazendo parte da estrutura conceitual, encontraremos o processo
simbólico entre portador (meninos que brincam) e atributos possessivos (infância,
inocência, alegria, felicidade).
Fatores contextualizadores, de ordem subjetiva, reforçaram ainda mais os atributos simbólicos embutidos nesta composição imagética.
Sabendo do nosso país tendo aproximadamente 30 milhões de brasileiros que sofrem com a falta de saúde bucal, sendo internacionalmente reconhecido como o país dos desdentados , levando em conta que Caaporã possuía (e ainda deve possuir) um dos mais baixos IDH (índice de desenvolvimento humano) do Brasil e contraditoriamente sendo um dos municípios onde poucas crianças em idade escolar estão fora da sala de aula.
Dar com aqueles meninos naquelas circunstâncias me impelia, pelo menos, a recontextualizar aquela cena que se tinha de um lado a infeliz confirmação dos dados estatísticos do IBGE ou qualquer outro órgão capaz de esmiuçar o grau de nossa miserabilidade e ignorância, de outro, tinha a controversa e feliz constatação de que justo ali crianças executavam com tamanha plenitude o mais simples, divino e socrático princípio de felicidade.
Sabemos que tal registro pode e deve sugerir outras leituras, mas expor quais fatores motivaram a captação desta e não de outra imagem dão uma pequena noção do que estes venham ou não contribuir na construção de uma narrativa visual.
| 117 5.2.2 INTERAÇÃO Contato demanda Perspectiva frontal Modalidade naturalista Distância Social plano médio
Segundo a GV ( KRESS e van LEEUWEN, 1996), nas relações sociointeracionais, o
contato, a distância social e a perspectiva são recursos estratégicos que estabelecem
maior ou menor grau de aproximação/afastamento com o leitor visual.
Na foto, a produtora da imagem dispõe os participantes representados em contato de demanda. Nessa condição, os participantes têm o olhar dirigido à lente da câmara que simula o olhar do observador, ou seja, os meninos (participantes
representados) dirigem seu olhar e ação na direção do observador/leitor
(participantes interativos). Estes não lhes são alheios. Fotos assim nos intimidam de alguma forma, apelam para o encaramento, nos incitam à imediata repugnação ou aprovação do que vemos.
Por sua vez, o uso da lente grande-angular11 amplificou essa contiguidade existente no contato de demanda. A distorção ótica contida nessa lente é responsável pela sensação que temos de estar mais perto dos participantes representados ou elementos dispostos em cena do que de fato estamos. Sem falar, que é comum usá-la
11
Trata-se de uma lente fotográfica que possui objetiva de menor distância focal, aumentando o campo de visão do fotógrafo, fazendo com que os elementos registrados pareçam mais próximos do que na verdade são. Esse tipo de lente normalmente aproxima o produtor da cena registrada, fazendo quase co-participante da ação capturada.
| 118
em registros fotojornalísticos quando a intenção do produtor da imagem é contextualizar ao máximo as circunstâncias que circunscrevem a ação capturada.
A cena estampada em Recreio, feita num final de tarde quase todo tomado pela chuva, e depois de uma jornada exaustiva de trabalho, representa mais que uma
ordem ao lazer ou uma aproximação o à oà ueà h à deà aisà ole ue à e à s,à ,
sobretudo, um apelo à desaceleração, ao não-empalidecimento e endurecimento de nossa natureza e gestos humanos cada dia mais relegados sob o pretexto de uma vida adaà ezà aisà e uta ,à se a à eà o t adito ia e teà irreal. Acelerado, aqui, só movimento dos piões. Reforçando esse discurso, a produtora desta imagem, registrou o sorriso largo e a mão estendida do garoto em primeiro plano, em perspectiva de
ângulo frontal, tornando o convite ainda mais explícito. Ou, pelo menos, o convite à
reflexão. O envolvimento conferido diante dessa perspectiva é tanto que chegamos a ter a impressão de que ao estendermos a mão o participante representado (garoto com pião em primeiro plano) nos repassará seu brinquedo, passando o que advier daí também a nos dizer respeito. Até os olhares que nos são dirigidos sugerem familiaridade, proximidade, não-alheamento, há conexão entre participantes
representados e leitor/observador, típicos de uma imagem em contato de demanda e
em ângulo frontal.
Em Recreio, os casebres, o ambiente lúgubre e enlameado contextualizam a cena registrada, servindo, inclusive, para conferir um dado grau de realidade à ação idílica dos meninos. Todo esse plano de fundo (background), aliado à modulação das cores, iluminação de preenchimento (feita com a luz rebatida por um flash12), dando contorno e certo brilho nos olhos do menino, em destaque na cena, configuram uma imagem de modalidade ou valor de realidade naturalista.
12
| 119 5.2.3 COMPOSIÇÃO Ideal sorriso Real mão Dado Novo
Diante dos valores informativos ideal/real e novo/dado, nesta imagem, temos o valor informativo ideal ou subjetivo, localizado na parte superior e à direita da imagem (novo), o menino que sorri contrariando o ambiente, o momento e sua própria condição humana. A comunidade é carente, chove, poucos têm o que vestir, mas isso pouco parece abalar sua alegria e generosidade infanto-juvenil, gesto raro às crianças da cidade, sempre tão cercadas por grades, cercas eletrificadas e brinquedos eletrônicos.
Por outro lado, o que se encontra na parte inferior, local reservado aos valores
reais ou práticos, e à direita da imagem (informação dada), elementos compartilhados
e familiarizados pelo participante interativo (observador), justificam o motivo de tamanho contentamento: se a brincadeira é a de girar o pião na palma da mão, possivelmente, o leitor/observador esteja diante (se não) do melhor, do mais habilidoso e aparador de piões. Neste caso, o pião, que gira solene na palma de sua mão, não sendo destreza para muitos, lhe confere poder e certa magia. É como em se
| 120
Contrastando com tudo à sua volta, não bastasse a beleza de seus gestos, tudo nele é real.
O menino sorrindo que toma o topo e a direita da imagem é elemento de maior
saliência, é ele o elemento de maior destaque e contorno na cena. Os elementos
marginais (casebres, ambiente lúgubre e enlameado) servem para compor a força desse discurso imagético que, se por um lado tem uma construção visual dispondo algumas crianças brincando em meio ao charco e à miséria, por outro lado tem nessa mesma ação a não-contaminação dos meninos pelo ambiente. Sutilmente sugerindo- nos que o que há de mais miserável não está fora de nós. E sim dentro. E que não há gesto mais nobre que o de compartilhar. Seja o sorriso, a presença, a inocência, a brincadeira, a beleza.
Quanto à estruturação (ou enquadramento) em Recreio, ela é forte. Retomando o já dissemos, Recreio possui elementos composicionais bastante destacados, desde o menino com o pião na mão em primeiro plano até os elementos circunstanciais que o margeia. Não há conexão entre primeiro e segundo planos. O que há em segundo plano ou plano de fundo serve para contextualizar a cena e não fundir- se a ela. Tanto é assim que contrasta o ambiente (inclusive chuvoso) do gesto e ação dos meninos.
Ademais, os índices visuais indicam que esta imagem fotojornalística não foi produzida para uma página publicitária ou de cultura onde temos uma flexibilidade maior em (con)fundir planos. Imagens assim têm uma estruturação forte porque invoca primeiramente certo grau de verossimilhança com a realidade. Os gestos, a cena, podem e devem compor uma imagem mais rica, mais elaborada, mas isso em nada deve interferir no grau de verdade do registro fotojornalístico.
Metafunção ideacional / representacional
Natureza dos eventos representados pela imagem
Participantes Meninos.
O menino com o pião em primeiro plano é elemento de destaque.
Processos Meninos com seus piões: processo
narrativo acional e transacional. Os
mesmos meninos mais os que estão em plano de fundo com olhar direcionado
| 121
para o observador: processo reacional
transacional.
Crianças e piões (participantes subor-
dinados) fazem parte de categorias
superiores (crianças brincando, e não dormindo ou estudando e brinquedos infantis, que não são bolas, pipas ou bonecos): processo conceitual classifica-
cional de taxonomia coberta.
Relação entre portadores (meninos que brincam) e atributos possessivos (infância, inocência, alegria, felicidade): processo
conceitual simbólico.
Circunstâncias Crianças em segundo plano, casebres,
chuva, lama, são elementos coadjuvantes.
Quadro 08 – Metafunção representacional (baseada em KRESS e VAN LEEUWEN, 1996).
Metafunção interpessoal / interativa
Natureza das relações sociointeracionais construídas pela imagem
Contato interacional Todos os participantes representados interagem com maior e menor grau de intimidade com o observador (partici-
pante interativo), numa típica imagem de demanda.
Distância social Plano Médio (medium shot) – Os
participantes representados são vistos
numa posição de nem tanta proximidade nem tanto distanciamento em relação ao observador.
Perspectiva ou poder ângulo frontal – envolvimento.
Equivalência de poder entre participante representado e participante interativo (observador/leitor).
Modalidade ou valor de realidade Naturalista – modulação de cores e contextualização entre primeiro plano e segundo plano, profundidade de campo.
Quadro 09 – Metafunção interativa (baseada em KRESS e VAN LEEUWEN, 1996).
Metafunção textual / composicional Significações construídas pela imagem
Valor de informação O menino de sorriso largo toma o topo e a direita da imagem, locais reservados, segundo à GV ao que é ideal e novo.
| 122
Cabe ao mesmo menino, desta vez sob a ótica do que é dado e real, trazer os elementos que compõem talvez o motivo de tanta alegria: brincar de rodar pião na rua mesmo debaixo da maior chuva.
Estruturação (Enquadramento) Forte – cada elemento é facilmente identificado na cena, sejam os casebres, sejam os meninos, sejam os piões.
Saliência O menino sorrindo com o pião na palma
da mão, em primeiro plano, é elemento de maior ênfase na cena.
| 123 5.3 A Padroeira: uma análise
Olha lá vai passa do a p o issão... GILBERTO GIL
Figura 106 – Foto registrada durante a procissão de N. Srª das Neves, em João Pessoa.
A Padroeira, mais uma imagem que analisaremos, é mais uma produção da
autora desta pesquisa e foi publicada no jornal O Norte (06/08/2005), em matéria sobre o aniversário da cidade de João Pessoa, retratando a manifestação religiosa que ocorre todos os anos no dia 05 de agosto em homenagem a Nossa Senhoras das Neves, padroeira da cidade.
A fotografia, produzida em cores, num plano aberto (long shot) descreve a relação de respeito não só às tradições religiosas, mas também históricas. João Pessoa é a terceira cidade mais antiga do Brasil e foi fundada em 05 de agosto de 1585, recebendo o nome da Santa do dia em que foi firmada a aliança com os índios locais de origem Tabajara. A cidade também é conhecida pelo clima agradável, pela sua gastronomia e pelos seus monumentos histórico-culturais, que revelam ares de uma modernidade ainda barroca.
Nessa imagem, resguardado o caráter festivo da data, o que mais chama a atenção é o fervor dos peregrinos na sua caminhada em busca de uma simbólica
| 124
proteção de Nossa Senhora das Neves. Vemos, através de um mar de sombrinhas e guarda-chuvas multicoloridos que margeiam a Santa e lhe conferem ainda maior
sali ia,àoà efle oàdeàu àpo oà ue,àa i aàdeàtudo,àeà es oàde ai oàd gua,à ,àte à
fé. 5.3.1 REPRESENTAÇÃO Vetor santa Atores peregrinos Meta procissão
A Padroeira, principal participante representado na cena, apresenta-se numa
composição de processo narrativo, ou seja, o fato de peregrinos estarem seguindo, em procissão, a imagem da Santa indica uma ação. O vetor que identificamos conectando os participantes (atores) à procissão (meta) na cena é a própria imagem da Padroeira.
Nesse processo, há um ator (ou no caso, um conjunto de atores, que é a multidão que forma a procissão) que é um participante ativo, do qual emana um vetor ou com ele se confunde. Este processo também se caracteriza pelo fato de ser
transacional, ou seja, o ator pratica uma ação projetada em algo que, por sua vez, é
denominado objetivo. O objetivo é, portanto, o participante a que o vetor (a ação) é dirigido, conseqüentemente, é também o participante para quem a ação é feita, dirigida. E se a ação é direcionada a apenas um objetivo, o processo é chamado de
unidirecional.
Na imagem A Padroeira, o andor motorizado é o veículo que transporta a Santa, através do qual, seja motorizado ou carregado pela multidão é o que impele o
| 125
processo de ação na cena observada. Sugestivamente, quem pratica a ação de carregar o andor é a multidão, formada por vários fiéis. Estes são, portanto, atores do processo. A ação ou vetor é dirigida pelos atores ao andor que transporta a Santa, depois a um ambiente externo à imagem e, conseqüentemente, o destino da Santa. Sendo assim, há dois objetivos: o andor, num primeiro momento, e o ambiente externo – que não é mostrado, mas que pressupõe o destino da Santa, num momento final.
Por estar chovendo, a grande maioria está encoberta por um mar de sombrinhas e guarda-chuvas. Os poucos atores percebíveis, têm seus olhares direcionados para pontos indeterminados fora ou dentro da cena, portanto, sem uma meta definida, indicando, por sua vez, uma ação de representação narrativa não-
transacional.
Por se tratar de uma imagem híbrida, podemos inferir, também, a presença do processo de reação dos fiéis e da própria Padroeira, quando, na foto, não conseguimos identificar para onde ou para quê (fenômeno) os poucos e visíveis participantes (reatores) estão dirigindo o olhar dentro da cena. Se tratando, portanto, também de uma representação narrativa de reação não-transacional.
| 126 5.3.2 INTERAÇÃO Contato oferta Perspectiva ângulo oblíquo Modalidade naturalista Distância Social social plano aberto
Quanto à natureza das relações sócio-interacionais, temos o contato, a
distância social e a perspectiva. Através destes, estabelecemos numa composição
visual estratégias de aproximação/afastamento para com o leitor. Nesta cena fotojornalística, encontraremos os participantes da imagem em posição de oferta (offer), ou seja, participantes que não interagem diretamente com o observador
leito .àI lusi e,àaà“a ta,àdaà a ei aà o oàfoià et atada,àta à seàofe e e àpa aà
análise.
Neste caso, o uso de uma lente tele-objetiva13 ajudou a criar essa impessoalidade existente no contato de oferta, tendo em vista que a fotógrafa registrou a cena ou o fato recorrendo a uma certa distância social, através de um enquadramento em plano aberto (long shot), buscando uma certa invisibilidade frente ao fato narrado, procurando lhe dar a naturalidade próxima daquilo que ocorreria caso a cena não estivesse sendo registrada pelas suas lentes.
Na fotografia apresentada, a escolha de um ângulo ou de um ponto de vista implica a possibilidade de expressar atitudes subjetivas com relação aos participantes
13
Trata-se de uma lente fotográfica que possui objetiva de maior distância focal, diminuindo o campo de visão do fotógrafo, fazendo com que os elementos registrados pareçam achatados num mesmo plano. Esse tipo de lente normalmente proporciona ao produtor registrar a cena sem muitas vezes ser percebido, o que de certa forma confere tanto uma maior impessoalidade como uma maior espontaneidade ao que é registrado.
| 127 representados, sejam eles humanos ou não. No esquema de A Padroeira, o ângulo não
é frontal nem baixo, mas oblíquo e alto e, portanto, o registro foi feito do ponto de vista de alguém situado à esquerda dos objetos e acima deles. O resultado desse recurso é um afastamento do que está sendo representado.
Não há conexão entre participantes representados e leitor/observador. Os participantes representados serão encontrados como objetos de contemplação do
participante interativo (observador). Os elementos exibidos são observados e lidos.
Estão à apreciação do observador tanto quanto um livro ou uma obra exposta numa galeria.
Quanto à perspectiva, ela foi realizada através de plano oblíquo, o que também sugere um não envolvimento de quem observa e quem está sendo observado. Quem detém o poder, diante desta imagem, não são os participantes contidos nela, mas seus observadores, apesar daquilo que se vê parecer somente fazer parte do mundo dos participantes representados, algo que não diz respeito ao espectador.
A modalidade ou valor de realidade é o que aproxima e contextualiza a imagem do real. Apesar do enlevo que as sombrinhas e guarda-chuvas dão à imagem da Santa, esta é uma cena passível de ser captada aliada às condições do tempo e da fé que operam sobre os sujeitos nesse tipo de situação. Cores saturadas e moduladas, além do plano de fundo (background) dispostos na cena imprimiram um novo contexto à procissão, que ocorre debaixo de chuva. No objeto de nossa análise, estes fatores contribuem para a identificação da modalidade naturalista.
Por se tratar de uma imagem fotojornalística, é bom lembrarmos que, mesmo que ela contenha contornos subjetivos, até porque está impregnada da percepção de quem a produz, este tipo de imagem descreve fatos, portanto, lida com distintos aspectos do real, mesmo que possamos considerar algumas deles bastante insólitos.
| 128 5.3.3 COMPOSIÇÃO Ideal santa Real procissão Dado Novo
Nessa imagem, observamos a ênfase dos valores informativos entre ideal/real. O valor informativo ideal ou subjetivo, localizado na parte superior da imagem, é ocupado pela Padroeira: uma pequena imagem de barro, que personifica a presença do divino, entre mortais; vem elevada numa espécie de andor móvel, sublimada por flores e vestes brancas, simbolizando pureza. Apesar de aparentar certa fragilidade – tanto por suas pequenas dimensões na composição da cena, quanto por sua própria natureza (feita de barro), é esta imagem também a personificação da Mãe ideal, protetora, suprema e eterna.
Margeando a cena, temos as sombrinhas e guarda-chuvas, dando uma certa uniformidade que converge nosso olhar para o centro da composição imagética. Lá, encontraremos a imagem de uma Santa que praticamente divide a composição ao meio. Já na base da imagem, encontramos a informação real: pessoas que se dispõem, mesmo debaixo de chuva, a cumprir com o exercício de sua devoção.
Quanto à informação dada ou elementos que vêm do lado esquerdo do texto visual e, portanto, como informações já compartilhadas e familiarizadas pelo observador, temos a presença fundamental do andor (motorizado) sem o qual o motivo maior de uma procissão, que é levar a imagem de um(a) santo(a) de uma casa religiosa à outra, promovendo a integralização entre criaturas menores e a Unidade
| 129
Maior, não ocorreria. Por sua vez, os elementos que se apresentam do lado direito, trazem uma informação nova, a de que não há chuva ou obstáculo que demova a prática da fé.
O elemento de maior saliência na imagem A Padroeira é a própria Padroeira. Os elementos marginais como as sombrinhas e os guarda-chuvas contrastam e reforçam o destaque dado à Santa, no alto e no centro da cena. É uma procissão, está