Entender a infância como plural e multifacetada significa captá-la de maneira diferenciada em cada espaço e tempo. Para Müller (2006), as “concepções sobre a infância variam historicamente e as crianças estão em contínua mudança. Contudo, os processos de
socialização da criança sempre motivaram preocupação central nos círculos acadêmicos, pedagógicos e familiares constituídos na Modernidade” (p. 554).
Quinteiro (2005) constatou que, por um tempo, foram produzidos diversos estudos empíricos a respeito da criança, entretanto, percebia-se a ausência de suporte teórico no que se referia às condições sociais, culturais e de vida. Para a autora, pouco se importaram com o profundo desrespeito por parte do Estado no que se refere à história social da infância, além das péssimas condições de vida das crianças e de suas famílias, em especial da falta de cuidado com sua educação e proteção.
Corazza (2002) promove uma reflexão profunda e perturbadora sobre o ser criança na contemporaneidade, além de discorrer sobre a forma como o conceito de infância foi sendo forjado ao longo do tempo. Despindo-se de pudores, a autora desenvolve sua escrita mostrando os contrapontos entre o que está previsto na legislação de proteção da infância, no que se refere aos direitos das crianças e o que, de fato, é ser criança em um país extremamente excludente e desigual. Como, por exemplo, os vários casos citados pela autora que discorrem a respeito da violação de direitos primários e fundamentais das crianças. Corazza (2002) relata em Ninjas e ratos de esgoto, o caso de doze garotos que viviam em bueiros na cidade de Porto Alegre (RS). Tratava-se da casa desses meninos que, tendo entre 11 e 14 anos, viviam entre dejetos e ratazanas.
A autora, munida de boas pitadas de sarcasmo, disserta sobre determinado momento na história da humanidade, conhecido como Modernidade, no qual aconteceu a invenção de um sujeito chamado Indivíduo; segundo Corazza (2002), tratava-se de “um cara muito exibido, metido a besta, chato e irritante [...] que começou a prestar atenção nas novas gentes” (p. 58). E foi a partir deste movimento de prestar atenção, que o indivíduo atentou-se para aquelas “gentes pequenas”, determinando o que elas poderiam ou não fazer e ser, uma vez que
“não deveriam ser de qualquer jeito, mas ‘dócil’ e ‘útil’, exigiu que as pequenas se arrumassem melhor; que comessem e que dormissem nas horas certas e nos lugares determinados [...]” (Corazza, 2002, p.59).
Trata-se, portanto, de um grupo historicamente silenciado, cuja voz tem sido abafada ou pouco prestigiada nas construções de saberes a respeito de si. Assim, mudar a forma de se atentar para estes sujeitos, significa desmarginalizar a infância (Cruz, 2008). Quinteiro (2005) fala sobre a importância em conhecer sobre as culturas infantis, e para que isso aconteça é necessário que as escutemos de fato, entendendo seus discursos como respeitáveis.
Sabe-se que etimologicamente, o termo infância tem origem na expressão latina in fans e significa “o que não fala” ou “sem voz”. Compreendida desse modo desde sua origem a criança assim tem sido tratada e concebida ao longo de anos por toda sociedade de forma geral, inclusive pela própria educação (De Ângelo, 2011).
Para Kramer (2011), urge uma necessidade em “forjar outro olhar à infância, e não apenas sobre ela” (p. 26). Logo, compreender esta infância como sendo múltipla e plural, significa não delimitar a ela lugar de quem não fala, pelo contrário, exprime dar espaço para que os saberes constituídos sobre ela tenham, também e, sobretudo, autoria das próprias crianças.
Müller (2006) considera como sendo fundamental conhecer as crianças para entender a sociedade nas suas contradições e complexidades, e que elas são as melhores fontes para o entendimento da infância. Partindo da mesma linha de raciocínio, Pinto e Sarmento (1997) salientam que
O olhar das crianças permite revelar fenômenos sociais que o olhar dos adultos deixa na penumbra ou obscurece totalmente. Assim, interpretar as representações sociais das crianças pode ser não apenas um meio de acesso à infância como categoria social, mas às próprias estruturas e dinâmicas sociais que são desocultadas no discurso das crianças. (p.25).
Assim, Larrosa (2010) nos convida a enxergar que “a infância é um outro: aquilo que, sempre além de qualquer tentativa de captura, inquieta a segurança de nossos saberes, questiona o poder de nossas práticas” (p.184). Pensar a infância a partir desta perspectiva significa entender as crianças como sujeitos em construção em uma sociedade que o constitui, e é constituída por ele, dialeticamente, sendo a criança um agente promotor de novas significações para o mundo em que está inserida. É, portanto, um sujeito com voz; autor e ator social que se relaciona com o mundo conversando, brincando, questionando e, na medida em que realiza esse intercâmbio, possibilita a construção de diferentes versões de sentido. Corroborando com esta ideia, Campos (2013) aponta que:
[...] na condição de atores sociais, as crianças são sujeitos que expressam, por meio de seus gestos, movimentos, histórias fantásticas, desenhos, danças, imaginação, falas, brincadeiras, sorrisos, caretas, choros, apegos, desapegos e de outras tantas formas de agir, a sua condição social de sujeito histórico-cultural, “participantes do processo de formação e transformação das regras, da vida social” (Prado, 2005, p. 683 citado por Campos, 2013) e produtores de cultura (p. 50).
Para Smolka (2009), o desenvolvimento da criança está intimamente ligado à apropriação da cultura e que isso “implica uma participação ativa da criança na cultura, tornando próprios dela mesma os modos sociais de perceber, sentir, falar, pensar e se relacionar com os outros” (p. 8).
Considerando estes conceitos, entendemos que adultos e crianças se constituem mutuamente na história e dentro de um contexto. Juntos constroem sentidos e significados nos jogos do mundo infantil e adulto, se opondo, contrapondo e complementando; demarcando um campo de tensão e confronto presente no cotidiano desses sujeitos.
Deste modo, ao compreender a infância como plural, cultural e ativa na sociedade em que estamos, de que forma, então, a escola tem acolhido estes sujeitos? Esta instituição estaria apta para receber toda a complexidade que a infância oferece? Ao considerar ambos os conceitos como complementares, seguiremos discorrendo sobre os aspectos da educação infantil de acordo com este posicionamento a respeito da infância.