A função avaliativa se relaciona diretamente com o caráter axiológico das anáforas encapsuladoras, isto é, envolve a ocorrência de um ou mais lexemas avaliativos compondo o núcleo do encapsulamento e/ou modificando-o. Conforme correspondem a um
importante recurso coesivo que pode ser empregado, também, para direcionar a interpretação do conteúdo proposicional pelo interlocutor a partir do desenvolvimento do posicionamento do locutor, é válido considerar que essas anáforas são compostas, no contexto de nosso
corpus, por lexemas que correspondem aos marcadores de atitude (HYLAND, 2005), como no exemplo a seguir:
(37) Patricinha de época, Branca foi a maior diversão de “Liberdade, Liberdade”
A única personagem de “Liberdade, Liberdade” que fez o público rir morreu no capítulo desta
segunda-feira (25) provando, literalmente, do próprio veneno. Mario Teixeira, o autor da trama, fez justiça à criatura. Até na morte trágica ela foi engraçada. Adeus, Branca.
Num desfecho engenhoso, a estabanada “patricinha de época” se confundiu e caiu fulminada no
salão de festas ao tomar a taça champanhe “batizada” que havia destinado à rival Rosa (Andréia
Horta). [...]
(Disponível em: <https://goo.gl/HIy2Np>. Acesso em 09 set. 2016)
No início do segundo parágrafo desse artigo de opinião há a anáfora encapsuladora axiológica “um desfecho engenhoso”. Essa anáfora realiza o movimento de prospecção ao condensar e avaliar um referente apresentado na porção textual posterior, dado que é composta por um nome-núcleo genérico acompanhado de um modificador, o adjetivo
“engenhoso”, além de ser introduzida por um indefinido, cuja presença em encapsulamentos
tende a ser associada à introdução de informações novas no texto (ALVES JUNIOR, 2011). Nesse caso, o caráter axiológico da anáfora se deve à presença do marcador de atitude
“engenhoso”, que incide sobre o lexema “desfecho”, um nome geral, e oferece, nesse
contexto, uma avaliação dos fatos apresentados pelo locutor.
O estudo do corpus também nos permitiu identificar uma característica importante das anáforas encapsuladoras avaliativas que realizam o movimento de prospecção: quando a anáfora encapsuladora é utilizada pelo locutor como uma forma não apenas de avaliar o conteúdo sumarizado, mas também de antecipar ao interlocutor alguma característica ou apreciação acerca do segmento textual condensado, tem-se uma anáfora avaliativa com caráter preditivo, o que ocorre tanto na anáfora identificada em (37), como também no anafórico que foi destacado no exemplo a seguir:
(38) Hoje, Globo Repórter só repercute se Glória Maria escorrega ou fuma maconha
Nascido em 1973, o “Globo Repórter” foi ao ar originalmente com o objetivo de exibir “documentários brasileiros sobre o Brasil''. Sua equipe, nos primórdios, contava com os cineastas
Walter Lima Jr., Eduardo Coutinho, João Batista de Andrade, Maurice Capovilla e Hermano Penna.
Na década de 80, o programa sofreu uma mudança importante, mas não perdeu a qualidade. Em
lugar do modelo de documentário (sem repórter), o “Globo Repórter'' apostou na grande
reportagem com jornalistas do primeiro time aparecendo diante das câmeras [...].
O segundo parágrafo desse texto contém a anáfora encapsuladora axiológica “uma mudança importante”, a qual opera de forma prospectiva e é introduzida por um indefinido. O
caráter avaliativo desse sintagma nominal encapsulador recai sobre o modificador
“importante”, um adjetivo que, no caso em destaque, oferece uma avaliação dos fatos ao
acrescentar um valor ao lexema “mudança”, um nome-núcleo genérico.
Além disso, frisamos que o anafórico identificado em (38) também apresenta caráter preditivo por antecipar ao interlocutor as informações que serão apresentadas
posteriormente, informando o caráter significativo da mudança ocorrida no programa “Globo Repórter”.
Outro ponto que merece ser destacado é que houve uma grande ocorrência de anáforas encapsuladoras avaliativas nos textos que integram o corpus deste estudo. Essa recorrência alta se revela como algo esperado, uma vez que esses textos apresentam sequência argumentativa dominante, na qual o locutor constrói um conjunto de argumentos para defender uma tese central, recorrendo, para isso, ao emprego de formas e de comentários avaliativos como um modo de se posicionar e conquistar a adesão do interlocutor. Por isso, também percebemos uma relação de interinfluência entre os encapsulamentos e o artigo de opinião, pois tanto as introduções quanto as anáforas encapsuladoras funcionam como um importante recurso coesivo para organizar as partes do cotexto, ao mesmo tempo que podem expressar uma alta carga avaliativa.
Assim, é possível considerar que com a ocorrência de anáforas encapsuladoras avaliativas, haverá:
✓ A fixação do posicionamento do locutor acerca do conteúdo posto em discussão, o que se dá pelo emprego de um ou mais marcadores de atitude (HYLAND, 2005) no sintagma nominal encapsulador;
✓ O direcionamento de como o referente deve ser interpretado pelo interlocutor, o que envolve a busca pelo seu engajamento e, consequentemente, sua adesão à tese defendida pelo locutor;
✓ A antecipação de informações ao interlocutor.
Além do exposto, é importante salientar que no corpus não foram encontradas ocorrências de anáforas encapsuladoras com função avaliativa na forma do pronome
demonstrativo “isso” ou “isto”. Embora essa anáfora seja considerada “neutra” por Consten,
seu valor é essencialmente contextual e que, por isso, a sua significação não é aprioristicamente fixada, como foi exposto no exemplo (36). Acreditamos, assim, que a ausência desse tipo de anáfora encapsuladora no corpus coletado se relaciona a propriedades específicas do gênero textual selecionado, sobretudo ao tom formal adotado pela maioria dos locutores.