Na mesma carta, enviada a Benivieni, Pico della Mirandola também considera, além do tema da pax, certo caráter místico e simbólico de suas Conclusiones303. Ao explicitar ao seu amigo poeta que o último encontro entre os dois havia fortelecido o projeto das propositiones, Pico sustenta que o número das sententiae poderia ter sido
301 Ibidem, pp. 85- 87.
302 DELLA MIRANDOLA, Giovanni Pico. Conclusiones Nongentae, p. 53.
303 Cf. Carta de Giovanni Pico della Mirandola a Girolamo Benivieni (12 novembre 1486). In:
107 superior a novecentos304. Caso tivesse continuado a formulação das teses rapidamente teria superado a milésima, mas preferiu limitar o número das propositiones em 900305, por ser tal número dotado de um significado místico. Segundo o autor, o número das Conclusiones simboliza a alma que retorna a si mesma após ter desfrutado da inspiradora presença das Musas306. Ao lado do grande esforço intelectual necessário à construção das teses, Pico não deixa de afirmar que seu projeto filosófico recebeu impulso criador da mesma fonte inspiradora dos poetas. Aqui as capacidades intelectuais dos filósofos unem-se às capacidades criadoras dos poetas, as instâncias intelectuais se encontram com aquelas estético-poéticas. Tal via de retorno que o número escolhido por Pico della Mirandola simboliza, também assinala o movimento realizado pelo espírito de todo aquele que percorre a via indicada pelas Conclusiones, do início ao fim das teses. Nota-se que para o pensador não bastava os dotes intelectuais, o aprimoramento da razão, o conhecimento de todos os filósofos, pois era preciso também uma inspiração que motivesse o ânimo e o despertasse para a construção de algo novo e sublime. Por conseguinte, uma robusta inventividade, potência compartilhada por oradores, poetas e filósofos. Desse modo unem- se para a elaboração das Conclusiones, unem-se capacidades lógicas e inventivas, ou seja, criação e justificação racional. O elemento estético (poiesis) contribui, portanto, para a invenção filosófica, o ingenium não é apenas uma faculdade poética, pois grandes pensadores como Platão e Aristóteles também foram homens engenhosos.
Tais afirmações do autor, sobre a elaboração das Conclusiones, indicam que o número de sentenças, considerado excessivo pelos críticos de seu projeto, não se impunha apenas por uma questão de limitação numérica: importava também a força do caráter simbólico. Sobre a questão de inteligibilidade numérica, Pico sustenta que os números não podem ser compreensíveis por si mesmos. Os números remetem para um conhecimento que lhes é superior, ou seja, a Metafísica. Dessa maneira, eles são figuras dotadas de caráter simbólico, uma vez que apresentam princípios metafísicos em formato não metafísico307. Daí Pico afirmar que os números são “imagens de realidades superiores”308,
304 Ibidem.
305 Cf. DELLA MIRANDOLA, Giovanni Pico. Discurso sobre a Dignidade do Homem, p. 115 e 117. 306 Cf. Carta de Giovanni Pico della Mirandola a Girolamo Benivieni (12 novembre 1486). In:
FUMAGALLI, Mariateresa. Pico della Mirandola, p. 110.
307 Cf. DELLA MIRANDOLA, Giovanni Pico. Conclusiones Nongentae, p. 25: “32. O Uno metafísico é o
fundamento do uno aritmético”.
108 pois: “todo número plano equilátero simboliza a alma, todo número linear simboliza os deuses”309.
Os números perdem, assim seu caráter quantitativo para se tornarem elemento simbólico: cifras que em si mesmas não possuem justificação racional, já que apenas na relação com entes metafísicos encontram significado. Nenhum projeto filosófico que considere a Matemática como uma ciência suprema, ou mais elevada que a Filosofia, pode se justificar. Fundamentado no caráter secundário do saber matemático, em relação aquele metafísico, Pico defende que “as matemáticas não são ciências verdadeiras”310. Tal afirmação não pretende sustentar que a matemática lide com falsos objetos, mas pretende defender que o conhecimento numérico não pode ser verdadeiro: no sentido de que está impossibilitado de abarcar, por meio dos números, a complexidade constitutiva do mais elevado grau de conhecimento. Dessa forma, a matemática, considerada sob o prisma dos vínculos entre saberes e disciplinas, é uma via intermediária311. Ademais, se ela for considerada de acordo com o caráter prático do saber, deve-se ter claro que: “se a felicidade reside na perfeição especulativa, as matemáticas não conferem a felicidade”.312 Por conseguinte, as matemáticas não possuem os vínculos que unem aspectos práticos e especulativos, pois tais vínculos somente a Filosofia os possui. Por isso, A Filosofia é considerada uma forma mais elevada de conhecimento.
Afastando-se de uma visão próxima da ciência moderna, onde a matemática se apresenta como melhor via para o conhecimento das coisas naturais, Pico della Mirandola defende um fundamento metafísico para a filosofia da natureza. Dessa maneira, seria descabida a afirmativa de que a natureza é um livro escrito em cifras matemáticas. Segundo Pico, os “modernos” ao prescrutarem as coisas naturais com os procedimentos matemáticos, acabam destruindo os fundamentos ontológicas da filosofia natural313. Prevalece, assim uma compreensão mais próxima dos aspectos mágicos, simbólicos e místicos, constitutivos do projeto mirandolano, e não uma interpretação reconhecedora na filosofia de Pico della Mirandola de um prenúncio da ciência moderna. Para o autor das Conclusiones, a magia é a parte prática da ciência da natureza sendo também o aspecto mais nobre de tal ciência314. Trata-se de uma Ars que dignifica as melhores potencialidades do homem, pois o torna capaz de realizar a ligação, as bodas (maritare) entre os mais
309 Ibidem, p. 53. 310 Ibidem, p. 107.
311 Ibidem, p. 107: “3. As ciências matemáticas não são buscadas por si, mas como via para outras ciências”. 312 Ibidem.
313 Ibidem.
109 diversos elementos formadores da grande cadeia do ser. Na filosofia mirandolana a magia é capaz de realizar a união entre céu e terra, e sob tal aspecto a imagem da dignidade do homem vem apresentada na figura do mago.
Todavia, cumpre explicitar que tal imagem do homem como mago não é justificável apenas pelos aspectos mágicos de uma ciência da natureza. A magia não é compreendida por Pico della Mirandola como saber isolado de outras formas de conhecimento. À magia natural, ele acrescenta o conhecimento simbólico místico da qabbalah. É preciso, portanto, unir, com fortes vínculos, magia e qabbalah. A qabbalah possibilita, quer um conhecimento obtido por meio de combinação numérica, quer uma articulação entre as letras e os números: aspectos gráficos e mágicos. Unem-se, portanto, palavra falada e palavra escrita como suportes do poder criador da linguagem, exercitação das faculdades “estéticas” como atividade das faculdades pré-reflexivas, posto que a união entre magia e cabala implica em invenção de novas formas de conhecimento. Em tal aspecto, a palavra não é apenas meio de comunicação, mas a personificação da própria sabedoria criadora: sabedoria que molda todas as coisas dotando-as de vida. Desse modo, no encontro entre cabala e magia, entre linguagem simbólica e conhecimento místico, saberes sagrados e profanos articulam-se vínculos recíprocos. Contudo, não se trata apenas de um mero interesse por práticas ocultistas, ou uma superficial curiosidade por tudo aquilo que é misterioso, pois conforme afirma Garin315, o interesse de algums autores renascentistas por religiões consideradas sob o véu de enigmáticos mistérios era quase um consenso entre os eruditos. Tratava-se de uma espécie de moda dos doutos que visava explicitar tudo aquilo que fosse antigo e misterioso. No entanto, o interesse pelo enigmático na filosofia de Pico della Mirandola remete aos aspectos que ultrapassam a mera curiosidade pelo excêntrico.
Uma filosofia que busca convergir uma multiplicidade de tradições não pode desconsiderar nenhuma forma de sapientia. Se as Conclusiones abarcam conhecimentos herméticos e cabalísticos, fazia-se necessário então assinalar o conteúdo desses saberes. Segundo demonstra o procedimento mirandolano, quanto mais antiga é a forma de sabedoria considerada, mais ela apresenta uma linguagem enigmática, mística e simbólica, e maiores são os velamentos poéticos, ou seja, formas de sapientia que requerem uma expressividade figurativa, uma linguagem que faz apelo à sensibilidade, à imaginação, à fantasia. Por conseguinte, uma linguagem que requer uma construção estética, visto que
110 requer o uso das faculdades pré-reflexivas: imaginação e fantasia. Em tais priscas sabedorias, a verdade se apresenta sob o véu do simbólico, afastando-se, assim dos axiomas lógicos. Apesar de todo aspecto racionalista que as 900 teses possam expressar, identifica-se na filosofia de Pico della Mirandola um forte apelo ao simbolismo místico, ou seja, certa aceitação do mistério que está diretamente relacionada aos limites do conhecimento humano. Nesse sentido, ele se afasta da tradição escolástica e vincula-se diretamente às tradições de conhecimento nas quais impera uma compreensão mística. Daí certa negação dos afirmativos construtos lógicos para admitir uma via apofática, pois considera os limites dos recursos humanos para a apreensão do verdadeiro.
Na filosofia de Pico de Mirandola coabitam tradições distintas, pois ao lado do apelo especulativo da tradição escolástica se faz sentir a autoridade do corpus Dionysiacum, das revelações herméticas, dos hinos de Orfeu, das palavras do sábio Zoroastro. São tradições que ao apelarem para os símbolos, as analogias e figuras criadas pela imaginação afirmam o caráter enigmático da verdade, ou seja, unidade entre sýmbolon e mystikós. Trata-se de uma sapientia que ao mesmo tempo em que exige compreensão, expõe os limites daquilo que não pode ser completamente abarcado pelas elaborações do intelecto. Daí ao mesmo tempo em que as figuras e símbolos vinculam-se, por um lado, aos aspectos estéticos, formando certa imagem do verdadeiro, e, por outro, não deixam de assinalar o caráter enigmático, pois o verdadeiro que se mostra nos símbolos é algo que não se deixa ver completamente. Esse caráter de não submissão completa do objeto último do conhecimento à linguagem racional é o mesmo elemento que justifica o uso de uma linguagem simbólica. Trata-se do reconhecimento da via mística para aquisição de uma sabedoria divina por meio de imagens fantásticas: algo que Pico della Mirandola identifica, por exemplo, na qabbalah e na tradição neoplatônica.
Tais elementos assinalam que a via especulativa não é suficiente, pois encontra um esgotamento na medida em que não se podem submeter ao rigor e à clareza, das sentenças axiomáticas, todos os aspectos sob os quais se manifesta o verdadeiro. A presença do simbolismo místico na filosofia mirandolana exprime que o conhecimento tem como base o sensível para alcançar o divino. Tal alcance, contudo, não se desfaz do potencial da imaginação e da fantasia, pois são essas faculdades criadoras de símbolos. Daí no âmbito das Conclusiones, formuladas de acordo com os parâmentros escolásticos, encontrar-se o simbolismo místico. Este simbolismo expressa, uma vez mais, que o projeto mirandolano não era uma simples reatualização da disputatio escolástica. Segundo Pico, o conhecimento por meio dos símbolos, dos véus enigmáticos é algo inerente ao homem,
111 mas a utilização dos símbolos místicos não se limita a um uso puramente estético, pois aquilo que visa não é apenas a produção de deleite ou prazer.
O homem corrompido pelo pecado original, segundo Pico, resultou não somente em desvio moral, mas também em limitação do conhecimento. Expulso de sua primeira morada paradisíaca, o homem distancia-se do conhecimento das coisas mais sublimes e afasta-se de Deus por sua má escolha. Esse afastamento da sabedoria originária ocasionou a perda de um conhecimento mais claro de Deus e do mundo. Por causa da ausência de uma visão (visio) face a face, o homem passa a uma visão encoberta pelo véu dos enigmas, pela linguagem metáforica, pelas analogias místicas. É preciso, portanto, prescrutar o que se esconde no véu do enigma, ou seja, cumpre realizar certa revelação do mistério. Tal revelação não pode, porém, ser completamente realizada. Por isso Pico escreve:
E se é lícito trazer a público alguma coisa dos mais secretos mistérios, ainda que só sob o véu do enigma, dado que a nossa imprevista queda do céu condenou à vertigem a cabeça do homem (…)316.
A capacidade intelectual apela às disposições estéticas, pois são essas disposições que criam imagens simbólicas, ao passo que o intelecto instrui por meio de conceitos e categorias desfazendo as imagens fantásticas e reduzindo as capacidades estéticas. Contudo, ao velar e desvelar simultaneamente, os símbolos também instruem. Ademais, a explicitação do enigma requer também uma linguagem simbólica e o simbolismo místico não pode ser desfeito completamente. Sempre permanecerá, com efeito, algo escondido que incita o homem ao desvelamento, isto é, à busca pelo estabelecimento de novos princípios. A relação entre mistério e revelação proporciona, portanto, uma incessante busca pelo conhecimento, pois o homem sempre procurará desvendar o mistério. No entanto, a explicitação da origem do mistério, que é uma tentativa de revelação plena da verdade, jamais será alcançada completamente, pois o princípio de todas as coisas sempre será mistério, isto é, realidade que ultrapassa qualquer sistema racional. Daí o projeto mirandolano fazer apelo a outras instâncias antropológicas que não apenas àquelas intelectuais, pois uma aproximação com o divino não se realiza apenas pela via do conhecimento visto que o homem não se limita à sua prórpia razão. O homem é também vontade, desejo, pathos, eros, ingengo: ser divinamente dotado de capacidade inventiva, ser de poíesis.
112 Em sua aproximação com os autores vinculados à tradição mística, Pico della Mirandola sustenta que a Teologia não é apenas uma prática, ou somente uma especulação. Em verdade, tal esfera apresenta-se como algo afetivo317, por se tratar de uma sapientia que se eleva sobre outras esferas de conhecimento, ultrapassando as capacidades intelectuais e volitivas. Dessa maneira, destaca-se que em meio aos aspectos racionalizantes das propositiones, o pathos não perde seu espaço na compreensão da integralidade antropológica. O alcance do princípio uno, último grau do conhecimento, exige uma harmonia de todas as esferas antropológicas. Por conseguinte, uma via mística e afetiva requer um procedimento apofático que, visando o conhecimento divino, pressupõe também que uma compreensão completa é impossível. Daí ao caminhar-se por vias negativas, afirmando aquilo que o princípio supremo não é, Pico declara: “Deus não entende nem os males, nem as privações”.318 Dessa forma, pretende-se explicitar que o correto entendimento do princípio absoluto requer uma forma de conhecimento no qual os processos intelectuais do homem são extremamente distinguíveis daqueles realizados por Deus. Enquanto ao homem é preciso percorrer a via que o leva à compreensão dos mais diferentes objetos, Deus, como origem imamente de todas as coisas, não necessita realizar o movimento de aquisição de saber. Como princípio e fim, Ele permanece no repouso de sua perfeição, pois o conhecer pressupõe uma carência que não lhe é atribuível. Ao se ressaltar tal aspecto, o da limitação humana para um conhecimento claro e completo do divino, abre-se a via para outro modo de conhecimento, a saber, justamente aquele que se manifesta na forma de simbolismo místico. No universo de suas Conclusiones, que com frequência é identificada como reatualização da filosofia escolástica no âmbito da Renascença, Pico della Mirandola defende um conhecimento simbólico-místico.
A infinitude de Deus pode ser mais provada por meio daquilo que excede o ser intelectual, mediante a via da teologia mística. Qualquer outra via é ineficaz para tal demonstração319. As vias prescrutadas pela especulação encontram um obstáculo que impõem limites ao intelecto. Sobre determinados atributos da divindade ainda que sejam categorias da razão, como por exemplo, a inifinitude, somente tem justificativa satisfatória pela via mística. Em outras palavras, tal via é a única que torna possível certa inteligibilidade do mistério. Se não é possível uma explicitação total deste, pode-se ainda obter certa
317 Cf. DELLA MIRANDOLA, Giovanni Pico. Conclusiones Nongentae, p. 19: “2. A teologia não é prática,
nem é especulativa: é afetiva”.
318 Ibidem, p. 35. 319 Ibidem, p. 83.
113 compreensão que não pertence ao âmbito da especulação. Daí Pico della Mirandola condenar qualquer forma de conhecimento sobre Deus que proceda por uma via matemática320. Uma aproximação entre a mente humana e a sua origem divina requer uma via bem mais afetiva, calorosa e vivificante do que a fria e solitária exercitação intelectual das calculationes. Isso justifica o uso dos enigmas, pois o simbólico e o místico mobilizam as instâncias imagéticas, o pathos, a aisthesis, a imaginação e a fantasia. Desse modo, estético e místico se encontram.
Ademais, segundo Pico della Mirandola, no homem o modo de conhecer, no qual a razão está vinculada à fantasia é algo natural321. A fantasia apresenta-se como instância criadora de imagens que possibilita o conhecimento, quer dos objetos naturais quer daqueles metafísicos. Daí a imaginação e a fantasia estarem presentes tanto no conhecimento intelectual, quanto naquele simbólico-místico322. Cumpre não se desconsiderar nenhuma das esferas antropológicas constituídoras da multiplicidade de vias que conduzem à convergência de tradições. Disso resulta a importância do simbolismo místico, pois esse simbolismo exige as capacidades humanas em sua completude. A demonstração filosófica do mistério integra as capacidades intelectuais, afetivas, imagéticas e criadoras. Tal procedimento integral é exigido à compreensão de uma prisca sapientia, a fim de uma interpretação daquelas primeiras formas de sabedoria. Essas sabedorias, Pico as identifica nos conteúdos expressos por símbolos. Desse modo, ele faz convergir a filosofia platônica com a reflexão dos autores pré-socráticos:
Com o símbolo das esferas inteligíveis, contido por Vênus, Empédocles não compreende outra coisa, senão o mundo arquétipo contido na ordem da primeira providência, que reside em si mesma323.
No entender de Pico della Mirandola, se desvelados todos os antigos mistérios, se prescrutados todos os enigmas, pode-se, com efeito, encontrar um elemento comum entre as antiquíssimas tradições e os novos saberes. Se tais antigas tradições fazem uso de uma linguagem simbólica não se trata de um aspecto meramente ocasional. A linguagem simbólica não é apenas o modo de expressão de uma época, ou de determinada cultura,
320 Ibidem, p. 109: “6. Nada é mais destrutivo para um teólogo, do que uma frequente e assídua exercitação
nas matemáticas de Euclides”.
321 Cf. Ibidem, p. 115.
322 Sobre o tema da imaginação no Renascimento, ver aqui: KLEIN, Robert. A Forma e o Inteligível: escritos sobre o Renascimento e arte moderna. Artigos e Ensaios reunidos e apresentados por André Chastel. Trad. br. Cely Arena. São Paulo: Edusp, 1998. Em particular, o ensaio: “A imaginação como roupagem da alma em
Marsílio Ficino e Giordano Bruno”.
114 pois tradições como a qabbalah e o hermetismo expressam-se de maneira misteriosa para assinalarem que o verdadeiro não pode ser plenamente explicitado. Por isso, o autor identifica em tais saberes a expressão dos limites do conhecimento humano. Como sujeito limitado para a sabedoria absoluta, mas ao mesmo tempo dotado de um ardente desejo de conhecer e de uma grande capacidade inventiva, o homem não deixa de aspirar à verdade, posto que tal ato possibilita-lhe o reconhecimento de sua dignidade. O senso de humanitas se aprimora na medida em que avança o conhecimento das humanae literae. No encontro entre incassável desejo de conhecimento e limitada capacidade de compreensão, o homem apresenta-se como ser no qual seu livre arbítrio, suas capacidades criadoras socorrem suas limitações intelectivas. Se não se pode obter uma clara visão inteligível do objeto último do conhecimento, as capacidades imagéticas assinalam para algo que se aproxima do verdadeiro, mas ao mesmo tempo se distancia de tal veracidade, pois o princípio originário não possui figura ou forma determinada. Daí, como algo que não pode ser completamente apreendido, tanto pelas construções da razão quanto pelas figuras criadas pelas faculdades sensíveis, o verdadeiro se manifesta sob uma variedade de formas. Por conseguinte, a verdade una se oculta na multiplicidade de vias. Conforme explicitado anteriormente, Pico della Mirandola afirma haver um oculto fio de articulação paras as propositiones: uma oculta concatenatio fortemente dotada de caráter místico e simbólico, ou seja, um princípio que se ocultava sob as teses disputadas.
Se para o número novecentos havia uma inspiração das musas, a necessidade de uma disputatio se justifica na compreensão das figuras que simbolizam a sapientia. No entender de Pico della Mirandola, embora hebreus e gregos se utilizassem de símbolos