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– 25 de Maio de 2015

Sala do Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa

PRIMEIRA PARTE

Fátima Campos Ferreira (FCF)

– Olá, boa noite. Não há futuro sem me‑ mória e também não há reencontro sem compreensão. A história marca o des‑ tino, o império, a luta, as independências. Mas o destino também guarda afetos e entrelaça culturas que se respeitam e se amam, e é por isso que estamos aqui esta noite, no Dia de África, quarenta anos depois das independências dos países de expressão portuguesa e cinquenta anos após o encerramento da célebre Casa dos Estudantes do Império. Nasce em 44 e fecha as portas em 65. Desperta consciências e torna ‑se no embrião de movimentos independentistas, na arran‑ cada da literatura africana de expressão portuguesa. A Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa, na Duque d’Ávila, em Coimbra e no Porto, foi ainda alfobre de conhecimento e de futuros de uma geração e, sobretudo, marca profunda de emoções vividas e sentidas. E creio que até hoje, não é assim, Dr. Pedro Pires? Que sensações perpassaram ontem por si quando visitou aquelas ruas, aqueles edifícios, aqueles lugares?

Pedro Pires (PP) – Comecei a pen‑

sar nesses anos que passaram, como é que seríamos há 50 anos, há 60 anos ou há 40 anos, quando iniciámos a cami‑ nhada de país independente.

FCF – Como é que o senhor era?

Sentia ‑se um homem livre ou nem por isso, nessa altura?

PP – Livre não era, mas sentia que tinha

um ideal. Não era o facto de não ser livre que me inspirava mais, eu tinha um ideal, que adquiri com o tempo, e todo o meu esforço, tudo aquilo que eu podia fazer, estaria ao serviço desse ideal. É o ideal da luta pela independência, de modo que andava inspirado por esse ideal.

FCF – O senhor veio para Lisboa estu‑ dar, não para lutar pela independência. Foi aqui que nasceu o seu espírito com‑ bativo ou já trazia essa vontade?

PP – Não tanto assim, já tinha algumas

ideias, embora não muito sólidas, mas queria qualquer coisa ou sentia que havia qualquer coisa que não estava bem e que era preciso mudar. “Como?” era a grande questão. Eu, para isso, não tinha resposta, mas sei que não estava bem e tinha uma ideia bastante correta disso. Era preciso mudar mas como mudar? Encontrei a resposta na convi‑ vência, nos debates, nas discussões com os mais jovens e menos jovens do que eu, com quem convivi nessa época e aí é que encontrei a resposta. Mas tam‑ bém encontrei respostas nalguns livros, porque lendo também se aprende bas‑ tante. Aprendi, evoluí no contacto com outros jovens, mas também no con‑

tacto com os livros, procurei conhecer outras experiências, outras informações, havia muita coisa que acontecia nessa altura, portanto, foi tudo isso junto que contribuiu para a minha formação e para a minha escolha. E iz uma escolha.

FCF – Senhor Dr. Miguel Trovoada, e o

senhor que homem era nessa altura, por‑ que Pedro Pires diz que ontem, ao ir ao edifício onde era a Casa dos Estudantes, se interpelou a si próprio, “que homem era eu nessa altura?”. E o senhor?

Miguel Trovoada (MT) – Eu já

sabia que homem era, sabia que tinha vindo para Portugal para prosseguir os meus estudos e, antes disso, tinha vivido momentos de algum confronto com a realidade colonial. Eu iniciei os estudos secundários em Angola e regressei a São Tomé em 1953, escassos meses depois do célebre massacre de Batepá, e ainda apanhei o rescaldo desse massacre, o sofrimento das pessoas que contavam horrores do que se tinha passado e, pouco tempo depois, embarquei para Lisboa. Portanto, cheguei eivado um pouco desse sentimento de injustiça.

FCF – Portanto, já trazia revolta dentro de si?

MT – Possivelmente teria alguma re‑ volta. Cheguei e fui viver para o nº 37,

* Programa especial, com intervenções dos antigos Presidentes da República de Cabo Verde, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e de antigos Primeiros ‑Ministros de Angola e Moçambique.

na Rua Actor Vale, na altura estavam lá muitos são ‑tomenses, na célebre casa da tia Andreza, e imediatamente come‑ cei a frequentar a Casa dos Estudantes do Império. Portanto, a Casa dos Estu‑ dantes do Império foi o local onde nós amadurecemos algumas ideias, onde, em troca e em confronto de ideias com os estudantes africanos de outras coló‑ nias, pudemos então aprofundar algu‑ mas questões relacionadas com a nossa própria identidade e com as razões da nossa luta de libertação.

FCF – Estamos a falar de uma institui‑ ção que abriu em 1944, com o intuito de formar quadros que voltassem para as colónias ‑ estudantes que vinham de lá para estudar aqui e que iriam voltar para serem quadros lá ‑, e que fecha em 65, por razões de que iremos falando ao longo deste programa. Dr. Jorge Sam‑ paio, vale a pena evocar esta memória, porque estas são as memórias que de‑ pois nos vão ligar a um futuro de cultura entrelaçada, como eu dizia há pouco, na entrada deste programa. Faz sentido hoje procurarmos cada vez mais esse entrelaçar de culturas entre os povos?

Jorge Sampaio (JS) – Muito boa

noite a todos. É um grande gosto estar aqui neste programa, na Câmara Munici‑ pal, onde estive uns 5 anos, na presença destas personalidades, direi, destes ami‑ gos. Eu frequentei ativamente a Casa dos Estudantes do Império nos anos de 1960, 61 e 62. A Casa foi um ponto de encontro essencial para a juventude africana que vinha estudar para Portugal; foi criada, como disse, nos anos 40, precisamente para controlar, veriicar, diria mesmo, es‑ piar, a movimentação daqueles estudan‑ tes – raríssimas minorias – que tinham tido a possibilidade, não havendo ensino universitário nas colónias, de virem estu‑ dar para Portugal. A Casa dos Estudantes do Império foi considerada um organismo associativo, na perspetiva das associações

de estudantes de que eu fazia parte, de Di‑ reito, e, mais tarde, da chamada Reunião Inter ‑Associações (RIA), que corresponde a uma federação académica de Lisboa. Lembro ‑me perfeitamente do desapa‑ recimento de um contingente largo de estudantes provenientes de África, em 61, entre os quais alguns amigos meus. E izemos a greve académica de 1962. O voto da Associação de Direito, ou do Técnico ou de Agronomia, era igual ao voto da Casa dos Estudantes do Império, como organismo associativo, e portanto eles participaram, as suas direções parti‑ ciparam ativamente nesses movimentos estudantis. Isso deu um conhecimento profundo, não só entre eles, como foi dito pelos meus antecessores no uso da pala‑ vra, mas deu um outro conhecimento que era muito importante para nós, porque não o tínhamos, e que era saber que, com a nossa idade, tínhamos todos 20, 21, 22 anos, convém não esquecer, havia pessoas que tinham uma visão completamente fora da visão vendida oicialmente e isso ia ao encontro de aspirações que muitos de nós tínhamos, de ver a descolonização co‑ meçar. Obviamente, tudo isso se agravou quando a guerra começou. Foram mo‑ mentos muito dolorosos e a circunstância de termos aqui como Primeiros ‑Ministros, quadros vários, etc., pessoas que izeram parte dessa teia de relações, e eu devo dizer, independentemente das posições que tivemos nos diversos momentos, tí‑ nhamos um fundo comum, e isso é uma coisa a que de vez em quando tem que se fazer referência. Esse fundo comum era uma ânsia por liberdade. Quando a descolonização começou nos anos 60, ou antes disso mesmo, em toda a África, nós batíamo ‑nos por discutir nas Nações Uni‑ das o que era um território ultramarino.

FCF – Em todo o caso, eu registei que disse que foram as primeiras abordagens, que houve as primeiras ligações, quer dizer que havia um grande desconhe‑ cimento do que era, naquela altura, a

cultura africana, as realidades africanas…

JS – Não era tanto assim, nós temos uma geração comum, que está aqui re‑ presentada com pequenas variações de idade, mas a verdade é que tínhamos as‑ pirações, cada uma dirigida ao seu pró‑ prio povo, ao seu próprio país, mas que eram, obviamente, movidas por “vagas” de democratização, num caso, noutros de libertação nacional, como aqui foi dito pelo Presidente Pedro Pires e, portanto, nós encontrámo ‑nos pela primeira vez, todos aqueles que conviveram em torno da Casa dos Estudantes do Império, que foi um alfobre de intercomunicabilidade da maior importância.

FCF – E de cultura, porque dali saíram grandes antologias e muitas obras pu‑ blicadas.

JS – Bem, eu estou a falar em termos estritamente políticos, porque a Casa teve uma atividade cultural, literária em sentido amplo, da maior importância e também tinha uma coisa, sou o único a dizer isso hoje, é que tinha umas ses‑ sões musicais e de bailes, extraordiná‑ rios, dançávamos tudo quanto havia, eles dançavam muito melhor do que nós, eu era um caso perdido nessa ma‑ téria, portanto não conto para a histó‑ ria, e eram espetáculos deliciosos, mag‑ níicos, grandes festas, etc., mas havia coisas duras, no sentido que a gente percebia que aquelas pessoas estavam num [outro] comprimento de onda e eu, como ouvi num café na Avenida da Igreja o anúncio do começo da guerra de África, lembro ‑me de ter dito a uns amigos meus, nós estávamos no auge das associações, “isto agora vai durar pouco”, mas a verdade é que as pes‑ soas já se esqueceram que isto durou 13 anos. De 1961 a 1974, não fora a intervenção decidida dos movimentos de libertação e dos militares de Abril e de todos aqueles que, na minha gera‑

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ção, ou izeram o serviço militar ou se exilaram no estrangeiro, por oposição, tudo isto foi um grande trauma na so‑ ciedade portuguesa, que nós soubemos [ultrapassar], senão não estaríamos aqui hoje. Há sempre controvérsias em torno dessa matéria, foi dolorosa para todos, mas a verdade é que, a partir de 74 e até 75, percebemos que era inapelável o caminho para as independências.

FCF – Muito bem, se me der licença, eu vou em direto a Moçambique, onde está o Dr. Joaquim Chissano. Boa noite, como está? Eu penso que nos está a ouvir em boas condições, não está, Se‑ nhor Dr.? Sabe que os seus amigos que estão aqui izeram ontem um passeio pelos locais em que todos viveram aqui em Lisboa, naquele bairro ali junto da Avenida Duque D’Ávila, da Casa dos Es‑ tudantes do Império, foram aos cafés, às pastelarias, foram procurar o café Mon‑ tanha, a pastelaria Rialva, enim todos os sítios que calcorrearam. Lembra ‑se disso e dos bailes de que o Dr. Jorge Sampaio estava aqui a falar? Tem saudades desse tempo ou foi um tempo tão duro que não guarda saudades sequer?

Joaquim Chissano (JC) – O meu

tempo em Lisboa foi muito curto, nós não tivemos tempo para visitar esses lu‑ gares todos. Conheci a Casa dos Estudan‑ tes do Império, tantos outros lugares mal conheço, não posso dizer muito sobre eles. Mas eu iliei ‑me na Casa dos Estu‑ dantes do Império, primeiro, porque tra‑ zia já alguma experiência de luta contra a desigualdade, em Moçambique, e outro motivo é que eu já conhecia Eduardo Mondlane sem o conhecer, quer dizer, vi o Eduardo Mondlane pela primeira vez já na França, depois de termos fugido, mas através do meu pai e de outros amigos que tinham ouvido falar do Mondlane, já discutiam o Mondlane e ouvi que o Mondlane tinha passado por Portugal e pela Casa dos Estudantes do Império.

E mais, o meu pai recomendou ‑me que fosse à Casa dos Estudantes do Império para encontrar pessoas que me pudes‑ sem ajudar a adaptar ‑me a Portugal. Falou do Dr. Arouca, por exemplo, que deveria estar na Casa dos Estudantes do Império, é verdade que não me encontrei com ele lá. Mas já tinha algumas referên‑ cias sobre o que a CEI estaria a fazer, o que se discutia lá dentro. Ao chegar a Lisboa encontrei um ambiente que veio dar ‑me uma nova orientação sobre aquilo que tínhamos começado a fazer em Moçam‑ bique, foi na altura em que havia uma luta, mesmo em Portugal, contra a di‑ tadura, havia um movimento estudantil nas faculdades, mormente na Faculdade de Medicina, onde eu estava. Sentia que havia qualquer coisa que se movia em Portugal e depois tivemos as notícias sobre o que se passava em Angola, na altura, e nós preparávamo ‑nos para uma luta mais avançada, daí a necessidade de irmos trocar a experiência com outros estudantes que se encontravam na Casa dos Estudantes do Império. Até ali havia poucos moçambicanos membros da CEI. Foi precisamente em 1961 que nós, eu, o Mocumbi e o Machungo, fomos nos inscrever como membros da Casa. Mas foi [sol] de pouca dura, nós fomos lá iliar ‑nos no mesmo dia, mas pouco tempo depois havia a história da comis‑ são administrativa. Eu militei pouco na Casa dos Estudantes do Império, mas os ideais da CEI foram bem concebidos, por mim e pelos meus colegas e posso dizer que o nosso encontro com Agos‑ tinho Neto, com Marcelino dos Santos, etc., é como se nós estivéssemos estado lá quando eles estavam lá, mas eles eram de outra geração.

FCF – Portanto, é aqui, nesta Casa dos Estudantes, que se traçam as gran‑ des estratégias e é aqui também que decidem agregar ‑se depois na Europa, quando sabem que começaram os pri‑ meiros combates em Angola, desenca‑

deados pela UPA, em 1961. Esses mo‑ mentos, eram tempos de sofrimento, eram tempos de revolta para si, jovem estudante, eram tempos de esperança, que homem era nessa altura?

JC – Como eu disse há bocado, nós já tínhamos uma experiência de luta pela igualdade em Moçambique. Tínhamos um núcleo de estudantes secundários africanos1 e eu era presidente desse nú‑ cleo e fazíamos reivindicações, de uma maneira muito velada, não tínhamos grande experiência organizativa, mas, ao chegarmos a Portugal, começámos a pensar na maneira de nos organizar‑ mos melhor, mesmo contando com os estudantes secundários africanos, e queríamos reorganizar o núcleo de uma nova maneira, daí que eu, o Pascoal Mocumbi, o Mário Machungo, o Eneias Comiche, o Salomão Munguambe, e alguns outros – éramos poucos os es‑ tudantes de Moçambique – iríamos encontrar ‑nos, para pensar em formas de dinamizar a luta clandestina que já estávamos a levar a cabo em Moçam‑ bique. Portanto, era esse o homem que ia lá para estudar mas imediatamente envolvi ‑me nesta atmosfera, não so‑ mente na Casa dos Estudantes do Im‑ pério, mas também nos marítimos e noutros lugares onde tínhamos opor‑ tunidade de nos encontrarmos.

FCF – Os marítimos, os trabalhadores africanos que trabalhavam no porto de Lisboa e que eram residentes. Dr. Vítor Ramalho, é possível que o regime criasse esta casa em 44 com o intuito de formar quadros que voltassem para as colónias e não estivesse a adivinhar que ia acontecer o que aconteceu? O regime era assim tão inocente?

Vítor Ramalho (VR) – A Casa foi

criada, como a Fátima referiu, em 1944 1 NESAM – Núcleo dos Estudantes Secundários Afri‑

e, nessa altura, estávamos perante um mundo completamente diferente. Era um mundo já bipolar e, portanto, o re‑ gime não tinha a visão que mais tarde os acontecimentos vieram a determinar. De qualquer maneira, queria aqui notar, o seu genérico é elucidativo sobre a im‑ portância deste evento. O seu genérico fala sobre a memória do futuro, que é uma realidade muito atual. Eu queria chamar a atenção [para o facto] que estes personagens, que vieram encerrar a homenagem à Casa dos Estudantes do Império, eram movidos, não por dinheiro, não pelo mercado, não pelo lucro, mas apenas por objetivos de liber‑ dade e de dedicação à causa dos seus países. O Presidente Miguel Trovoada andava então em Direito e não termi‑ nou o curso para sair do país e arriscar tudo. O Comandante Pedro Pires, que foi Presidente de Cabo Verde, aban‑ donou Ciências, onde se encontrava a estudar. O Presidente Chissano andava em Medicina e abandonou tudo para se dedicar a uma causa generosa sem saber o que lhe ia suceder. E os outros que vieram, o Professor França Van‑ ‑Dúnem, que foi Primeiro ‑Ministro de Angola, andava em Direito, no quarto ano, quando abandonou tudo.

O Mário Machungo andava em Eco‑ nómicas, aqui em Portugal, e abando‑ nou tudo para se dedicar a uma causa generosa. O Pascoal Mocumbi, que foi também Primeiro ‑Ministro, exatamen‑ te a mesma coisa; andava na altura em Medicina. O único que falta aqui dos estudantes que acabaram Presidentes da República ou Primeiros ‑Ministros é o Agostinho Neto que, como sabem, já era médico, na altura, e também foi um ativista da Casa.

Para termos a noção do que ela repre‑ sentou e da atualidade dela, por ela passaram as maiores personalidades, incontornáveis, da literatura do mun‑

do de fala portuguesa. Estamos a falar de personalidades como Alda Espírito Santo, de São Tomé e Príncipe, de Fran‑ cisco José Tenreiro, de São Tomé e Prín‑ cipe, de Alda Lara, de Angola, estamos a falar do Manuel Rui Monteiro, que as pessoas conhecem porque é o autor de “Os Meninos do Huambo”, mas tam‑ bém do Rui Mingas, que é o autor da música de “Os Meninos do Huambo” e que, tal como o nosso querido ami‑ go França Van ‑Dúnem, foi também Embaixador de Angola em Portugal, e [estamos a falar também] do grande poeta que aqui está, o Manuel dos San‑ tos Lima.

Nós, UCCLA, que representamos as cidades de Língua Oicial Portuguesa, aprendemos muito com os mais velhos; hoje, infelizmente, isso está um pouco esquecido. E esta juventude atual tem que aprender com os mais velhos e fazer uma intermediação entre eles. Com homens como Jorge Sampaio, que foi presidente da Reunião Inter‑ ‑Associativa dos estudantes de Lisboa. Porquê? Porque eles, largando tudo, em 1961, saíram do país, 120 estudantes, abandonaram tudo para ir para Paris. Para quê? Não para ganharem dinheiro, não para irem procurar qualquer be‑ nesse, apenas para se reorganizarem na luta armada que se adivinhava. Homens como o Pepetela, que foi galardoado, em Portugal, com o Prémio Camões, um dos maiores escritores de Língua Portuguesa, homens como os que já citei, mas também o Craveirinha, cujo poema fantástico sobre o pai, que era português, termina dizendo “meu pai, tu foste o primeiro moçambicano que eu conheci”. Esta gente, foi isso que nos ensinou e é esta homenagem que nós [lhes] devemos, por isso reeditámos as 3 antologias poéticas de Angola, Moçam‑ bique e de São Tomé, e os 22 livros que eles publicaram. Está aqui o Manuel dos Santos Lima, que foi um deles, é hoje

um grande professor catedrático aqui em Portugal e também no Huambo. Portanto, esta é uma realidade atual e se há apelo que posso fazer é que os nossos governos instiguem a que seja estudado este período histórico, nas nossas escolas,

FCF – Nas diferentes perspetivas: cul‑ tural, política e humana.

VR – Este mundo de hoje, tão hedo‑ nista, tão desumano, exige esta resposta porque nós, mundo da fala portuguesa, somos um caso no mundo. Portugal foi o único país que descolonizou em dita‑ dura, essa ditadura que nos oprimia a todos diferentemente. E quando há o 25 de Abril e por efeito das lutas de liberta‑ ção nacional, todos nós nos libertámos simultaneamente, em nenhum país eu‑ ropeu isto ocorreu. É uma pena que nós não olhemos também neste quadro en‑ quadrador e não aprendamos com eles. Não foi por acaso que, a cada convite que eu iz a estes queridos amigos, por‑ que são amigos, me respondessem ime‑ diatamente que sim. Não é por acaso que o Presidente Chissano, um homem [de estatura] mundial, está neste mo‑ mento em Maputo [nos estúdios da RTP África] a participar connosco aqui [em Lisboa].

FCF – Muito obrigada. Bom, temos de facto aqui uma plateia de ilustres de vá‑ rios países africanos. Está também aqui o casal Boal, que faz parte desse grupo de cento e tal estudantes que vão e integram essa viagem, uma viagem de epopeia, para França.

VR – Uma viagem, onde eles, quando saíram, os 120 em vários grupos, o Pepe‑ tela trata muito bem disso2, foram pre‑ sos em Espanha, estiveram mesmo na prisão, portanto era um período difícil, e eu acho que o Boal e a mulher também 2 Em A Geração da Utopia.

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estiveram [na prisão], tal como o Pedro Pires e o nosso amigo Miguel Trovoada.

FCF – Dr. França Van ‑Dúnem como