Segundo Cassiolato e Lastres (2000, p.237), a inovação e o conhecimento são os principais determinantes para a competitividade e o desenvolvimento das nações. Fatores estes que não são unicamente relacionados ao preço e a concorrência das empresas. A acirrada competição internacional atual leva as empresas a centrarem suas estratégias na inovação e, em particular, à necessidade de introduzir nos processos produtivos os avanços nas TICs. O que leva a um novo paradigma da maneira de promover políticas.
De acordo com Gadelha (2001), a dicotomia entre políticas indústrias horizontais e verticais está ultrapassada, pois a dinâmica econômica, sobretudo em países em desenvolvimento, exige uma política industrial que una esses dois pólos, antes vistos como
antagônicos. As políticas de caráter horizontal são associadas a um padrão genérico e indireto de intervenção do Estado, que não diferencia os sistemas e setores produtivos, nem estabelece prioridades estratégicas, enquanto que as políticas verticalizadas identificam, dentre a diversidade sistêmica, as hierarquias setoriais, e dizem respeito às políticas que privilegiam certos setores através da intervenção mais direta do Estado. Assim, nesta 'nova visão Neo- Schumpeteriana' da política industrial, uma atuação governamental integradora, que aborda tanto o caráter sistêmico do ambiente empresarial (típica das políticas horizontais), quanto à especificidade territorial e a diversidade dos padrões evolutivos das estruturas industriais (características das políticas verticais). As políticas setoriais, de corte vertical, são importantes, sobretudo, quando impactam de forma sistêmica na estrutura econômica, assim, as políticas setoriais devem ser subordinadas ao objetivo estratégico do desenvolvimento de trajetórias tecnológicas vitoriosas.
Para Cassiolato e Lastres (2000, p.238), esta nova perspectiva de políticas com foco na inovação está alicerçada no reconhecimento de que: (i) a inovação e o conhecimento, são elementos centrais no desenvolvimento econômico; (ii) sua eficiência depende dos formatos institucionais; (iii) os agentes possuem diferentes capacidades de aprender; (iv) cada sistema de inovação possui características específicas; (v) os conhecimentos tácitos locais são primordiais para a inovação, porém dificilmente passíveis de serem transferidos.
Para Gadelha (2001), a empresa é o agente, dentro do sistema capitalista, que possui a capacidade de busca e seleção de inovações. O ambiente em que a empresa está inserida, ou seja, o tipo de concorrência que a empresa está exposta restringe o escopo das estratégicas factíveis da empresa. Por sua vez, as estratégias das empresas ao longo do tempo criam um novo ambiente competitivo. De acordo com Gadelha (2001, p.20), "a concorrência constitui o processo social que gera a evolução no sistema capitalista, pois é neste âmbito que se gestam as trajetórias de inovação."
Segundo Gadelha (2001), o ambiente é definido como um sistema, uma vez que comporta relações de interdependências entre os agentes, que são diferenciados e especializados em funções particulares dentro do sistema. Essa abordagem Neo- Schumpeteriana evolucionista considera que, assim como existe diferença entre os agentes dentro do ambiente, existe uma heterogeneidade dos ambientes nacionais. Assim, a vantagem competitiva nacional dependerá do grau de especialização do ambiente, quanto mais forte o grau de especialização, menor será sua capacidade de reprodução em outros ambientes, favorecendo uma determinada estrutura produtiva.
O foco da política industrial deve ser o desenvolvimento das empresas, contudo o meio de atuação da política é o mercado. O Estado deve influenciar a base nacional com o propósito de criar um ambiente propício à busca de estratégias inovativas por parte das empresas. O mercado é o espaço de competição em torno da criação e da seleção de inovações, desta forma as políticas devem viabilizar as atividades de busca e seleção de inovações nos ambientes nacionais, levando em consideração suas especificidades e a trajetória ao qual deseja percorrer. Dentro destes termos, uma política eficiente é aquela que gera o aumento da variedade e que seleciona tecnologias superiores (GADELHA, 2001).
Desta forma, o Estado deve ser capaz de intervir no ambiente competitivo para que as estratégias adotadas pelas empresas estejam alinhadas com as trajetórias de inovação, para tal, o Estado deve possuir a habilidade de estimular as relações interativas de competição e cooperação mais favoráveis ao processo de aprendizado. As políticas de competição são mais propícias para empresas dentro de uma mesma indústria para estimular a rivalidade e fortalecer as mais competitivas. Já as políticas cooperativas são mais adequadas para empresas em diferentes indústrias de uma dada cadeia produtiva, fortalecendo a articulação entre os elos importantes da matriz produtiva (GADELHA, 2001).
As políticas de curto prazo devem levar ao processo evolutivo a partir da estrutura existente com inovações incrementais, podendo este ser relacionado ao conceito mais usual de eficiência no sentido de aumento da produtividade (eficiência produtiva); enquanto as políticas de longo prazo devem fomentar os processos de busca que proporcionarão novas atividades econômicas e novos paradigmas tecnológicos em inovações radicais, ou seja, a eficiência dinâmica. Desta forma, pode haver uma situação de aprisionamento (lock-in) em tecnologias inferiores se o interesse maior da política estiver focado apenas no desenvolvimento da eficiência de curto prazo.
Portanto, uma política do tipo Neo-Schumpeteriana deve promover tanto a eficiência produtiva quanto a eficiência dinâmica, sendo um impasse para a formulação de política, uma vez que podem existir interesses contrários entre os setores afetados, cabendo ao Estado escolher qual atividade incentivar e qual restringir. Desta forma o Estado pode criar ambientes que gerem sinais de rentabilidade para atividades de busca, em que a eficiência produtiva da estrutura existente possa conduzir à mudança estrutural (GADELHA, 2001).
Segundo o mesmo autor (idem, 2001), a política industrial dentro do contexto da política de desenvolvimento, tem seu foco na dinâmica de inovações da indústria, objetivando promover transformações qualitativas na estrutura produtiva, de modo a proporcionar o desenvolvimento econômico. O Estado deve ser capaz de conduzir o processo de mudança
estrutural. Portanto, o Estado deve ter um enfoque sistêmico e estrutural para a política industrial.
De acordo com Cassiolato e Lastres (2003), as políticas de inovação intensificaram- se no mundo em meio à necessidade de aumentar a competitividade das empresas como contraponto à redução das barreiras tarifárias no comércio internacional, a partir da segunda metade da década de 80. O objetivo dessas políticas é de promover a soberania nacional com base no domínio de tecnologias críticas, além dos objetivos secundários: emprego, balança comercial, retornos de processos tecnológicos interativos. Seus principais instrumentos eram a subvenção para P&D nas empresas e as compras governamentais, para os casos de sucesso das atividades de P&D.
Para Cassiolato e Lastres (2003), atualmente as políticas de inovação exigem maior complexidade na sua formulação do que apenas o direcionamento de recursos financeiros para empresas (direto ou via compras governamentais). As políticas dos países da OECD se concentram, atualmente, no desenvolvimento, difusão e utilização eficiente das novas tecnologias, principalmente as TICs. Através da articulação entre as políticas, principalmente, industrial, tecnológica e comércio exterior, dando maior importância aos sistemas nacionais de inovação deste grupo de países. A articulação entre as políticas focam: i) políticas voltadas para os Sistemas Produtivos e Inovativos; ii) investimento em capacitação e treinamento de recursos humanos; iii) promoção de redes locais a supranacionais; iv) internacionalização do desenvolvimento e utilização de tecnologias.
Já no caso brasileiro, este é caracterizado por um baixo investimento em C&T e P&D, sendo este último realizado principalmente por institutos de pesquisa e universidades públicas. As universidades públicas sempre tiveram importante papel na formação de recursos humanos. De acordo com os autores, o setor público é o agente mais importante no Sistema Nacional de Inovação brasileiro.
A industrialização brasileira, a partir das políticas de substituição de importações, resultou no surgimento de empresas que não foram constituídas para evoluir, surgiram apenas para reproduzir uma tecnologia já madura. As reformas estruturais da década de 90 desconsideram o incentivo às atividades inovativas devido à ilusão da globalização tecnológica que supostamente resultaria no desenvolvimento tecnológico nacional através da importação, que pelo contrário da esperada difusão, o a geração local de conhecimento se tornou em um recurso estratégico das empresas e das nações.
Abertura comercial o e uso de incentivos fiscais não criaram mecanismos para o enraizamento da cadeia produtiva, resultaram em redução do encadeamento e no impacto
negativo na balança comercial. As empresas buscaram se ajustar através do aumento da eficiência da produção dos produtos de menor risco de mercado, tornando obsoletos o capital tecnológico e os recursos humanos acumulados desde o período das políticas de substituição de importação. Esta política equivale às estratégias (i) e (vi) apontadas por Jonhnson e Lundvall (2005) que são o enxugamento das empresas e a retirada para as vantagens competitivas estáticas, ela resultou, de acordo com Cassiolato e Lastres (2003), nos seguintes impactos no Sistema Nacional de Inovação (SNI):
i) retração do Estado em gastos de C&T e P&D, que não foi contrabalanceada com ampliação dos gastos privados;
ii) privatização parcial dos Institutos de Ciência e Tecnologia - ICTs;
iii) uso crescente de componentes importados, quebrando as MPE fornecedoras;
iv) empresas locais que desenvolveram tecnologias no passado e desapareceram ou foram absorvidas;
v) e as que sobreviveram, apresentam modesta taxa de crescimento.
Desta forma, a estrutura do SNI sofreu impactos negativos devido à abrupta abertura comercial, se traduzindo em perda da capacidade endógena de gerar inovações. Portanto, a política de inovação deve ter como objetivo a recuperação da capacidade da economia produzir com P&D nacional. Para tal, a política inovação deve possuiu caráter estrutural e dinâmico, com foco no desenvolvimento das empresas, e por meio da atuação no mercado, através da criação de um ambiente propício a estratégias inovativas, buscando fortalecer o Sistema Nacional de Inovação.