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O ponto de partida para a aplicação de uma das técnicas desse conjunto é a pré-análise, ou seja, a fase de organização do material a ser pesquisado. É quando ocorre a escolha dos documentos e a formulação das hipóteses, bem como a definição dos objetivos e a elaboração dos indicadores. De acordo com Bardin (1977, p. 95), esse é um momento “de intuições, que tem por objetivo tornar operacionais e sistematizar as ideias iniciais de maneira a conduzir a um esquema preciso do desenvolvimento das operações sucessivas num plano de análise”.

A primeira atividade consiste em “fazer falar” o material; é a leitura flutuante, quando o pesquisador estabelece um primeiro contato com o texto que será estudado e se deixa invadir por impressões. A ideia é de que a leitura se torne mais precisa na medida em que as hipóteses vão emergindo do próprio material que está sendo observado. Superada essa fase, é necessário delimitar o universo da pesquisa e constituir um corpus, ou seja, um conjunto de documentos que serão submetidos aos procedimentos analíticos. Essa definição implica fazer escolhas e seleções, além de obedecer a regras. Por isso, quatro leis essenciais devem ser consideradas: a da exaustividade (nenhum material que corresponda ao critério de análise estabelecido pode ser excluído da pesquisa); a da representatividade (a amostra deve ser uma parte representativa de um universo para, dessa forma, ser posteriormente generalizada); a da

homogeneidade (os documentos devem obedecer a critérios precisos de seleção); e a da pertinência (o corpus definido deve ser adequado, enquanto fonte de informação, às metas).

Outro ponto crucial da pré-análise é a formulação das hipóteses e dos objetivos. Segundo Bardin (1977, p. 98), “uma hipótese é uma afirmação provisória que nos propomos verificar (confirmar ou infirmar) recorrendo aos procedimentos de análise”. Nesse sentido, estabelecer hipóteses significa fazer suposições, com base na própria intuição, e deixá-las em suspenso até que os resultados científicos possam comprová-las ou, então, refutá-las. Da mesma forma, o objetivo da aplicação das técnicas da análise de conteúdo, para Bardin (1977, p. 98), “é a finalidade geral a que nos propomos (ou que é fornecida por uma instância exterior), o quadro teórico e/ou pragmático no qual os resultados obtidos serão analisados”.

Na fase de pré-análise deste estudo, por meio de uma leitura flutuante e tendo como objeto o Globo Esporte, da Rede Globo e afiliadas, foi definido um corpus para ser submetido aos procedimentos analíticos. Tendo em vista que o modelo tomado como base para a nacionalização da atração partiu de São Paulo, foram selecionadas quatro edições apresentadas pelo jornalista Tiago Leifert, considerado o precursor deste novo formato81. A ideia é comparar as características do Globo Esporte paulista com uma das versões regionais criadas a partir dele: o Globo Esporte apresentado no Rio Grande do Sul, que também compõe o corpus com quatro edições. Os oito programas, com até 23 minutos de duração, foram gravados entre 13 de março e três de abril de 2012 – o período foi escolhido aleatoriamente. As edições que compõem o objeto deste estudo foram transmitidas às terças-feiras (13/03/2012, 20/03/2012, 27/03/2012 e 03/04/2012), quando o noticiário não se concentra na repercussão das partidas do fim de semana e nem na apresentação da rodada da quarta-feira.

Esta pesquisa parte da hipótese de que o Globo Esporte paulista e as demais versões regionais da atração, entre elas a do Rio Grande do Sul, já não podem mais ser classificados como jornalismo esportivo de televisão, mas, sim, infoentretenimento. Ao privilegiar os fatos

omnibus, o programa coloca a notícia esportiva em segundo plano e assume a postura de que é

mais importante provocar o riso, entreter e descontrair do que propriamente informar. É o fenômeno do engraçadismo: a função essencial do jornalista já não é mais selecionar, tratar e

81 Leifert não foi o primeiro a mudar a linguagem do jornalismo esportivo de televisão. Antes dele, outros

apresentadores, como Tadeu Schmidt, já haviam testado, por exemplo, o humor e o improviso. Especificamente no caso do Globo Esporte, no entanto, Leifert pode ser considerado o “pai” do novo estilo de apresentação.

apresentar as notícias em um pacote ao mesmo tempo atraente e informativo, mas, antes disso, divertir a audiência. Privilegiando a piada em detrimento da informação, o jornalista se torna uma espécie de humorista. Assim, a notícia entendida como o produto final da atividade jornalística não só fica prejudicada como, muitas vezes, simplesmente não se faz presente.

O objetivo geral deste estudo, nesse sentido, é investigar de que forma esse fenômeno acontece tanto no Globo Esporte de São Paulo como na edição veiculada no Rio Grande do Sul. Como medida de padronização, uma vez que os objetos desta pesquisa são duas versões regionais de um mesmo programa, foi estabelecido um recorte – conteúdos locais sobre futebol82– para análise. A presente dissertação ainda tem por objetivo específico verificar se um aspecto revelado por uma primeira observação do corpus de pesquisa – a predominância dos conteúdos relacionados ao futebol em detrimento de outras modalidades esportivas – corresponde, de fato, à realidade. Após essa verificação, este trabalho pretende quantificar o espaço destinado ao futebol e aos outros esportes. Além disso, este estudo tem como objetivo específico investigar se, apesar de o formato do Globo Esporte seguir um determinado padrão, as particularidades de cada região em que ele é produzido e veiculado se fazem presentes.

Definidas as hipóteses e os objetivos, o próximo passo da pré-análise, conforme Moraes (1999, p.16), é estabelecer a unidade de registro, ou seja, “o elemento unitário de conteúdo a ser submetido posteriormente à classificação”. De acordo com o autor, a também chamada unidade de análise ou de significado pode ser tanto uma palavra como frases, temas ou mesmo documentos. É desse processo que derivam as categorias que, por sua vez, estão inseridas no cenário da unidade de contexto – no caso do presente estudo, as versões do programa diário de notícias Globo Esporte veiculadas em São Paulo e no Rio Grande do Sul.

Por meio da leitura flutuante do corpus e a partir das hipóteses e dos objetivos estabelecidos foi feita uma primeira observação do programa esportivo. Nessa avaliação foram identificadas características recorrentes relacionadas à forma e ao conteúdo do objeto. Quanto ao primeiro aspecto, observou-se a predominância de uma linguagem informal, por vezes coloquial, empregada tanto na apresentação do programa quanto na participação dos repórteres – não raro essa informalidade é levada ao extremo com comentários pretensamente engraçados, excesso de brincadeiras e de piadas referentes ao ambiente de trabalho da redação

(nem sempre compreendidas pelos telespectadores). Além disso, nas matérias gravadas, percebeu-se um certo abuso na utilização dos recursos gráficos e efeitos especiais de edição.

No que se refere ao conteúdo, essa primeira observação revelou a prevalência do futebol sobre as outras modalidades esportivas (em uma das edições analisadas, inclusive, todos os 23 minutos de programa foram dedicados ao futebol). Por vezes o assunto ganhou espaço não tanto pelo seu valor-notícia, mas sim por se tratar de um evento “da casa”, ou seja, um campeonato cujos direitos de transmissão foram adquiridos pela Rede Globo ou pelas suas afiliadas. Em outros casos, a notícia propriamente dita foi substituída pelos fatos omnibus.

Diante desses aspectos, optou-se pela utilização de três unidades de registro. A primeira,

abordagem, refere-se ao modo segundo o qual os conteúdos do programa foram produzidos e

apresentados, incluindo a aplicação dos princípios jornalísticos, a seleção dos acontecimentos e a produção das notícias – ou dos fatos omnibus. A segunda unidade de análise, temática, destaca os assuntos a que estão relacionados esses acontecimentos, como, por exemplo, em se tratando de um programa de esportes, o futebol ou as outras modalidades esportivas. Uma terceira unidade estabelecida como ponto de partida para a criação das categorias de análise é a abrangência: ao mesmo tempo em que segue um determinado padrão, o Globo Esporte ainda preserva características específicas de cada região em que é produzido e transmitido.

Com a definição das unidades de análise e de contexto, conforme Bardin (1977, p. 117), o material está pronto para ser submetido ao processo de categorização, ou seja, à “operação de classificação de elementos constitutivos de um conjunto, por diferenciação e, seguidamente, por reagrupamento segundo (...) analogia com os critérios previamente definidos”. Enquanto classes, as categorias reúnem as unidades de registro sob um título genérico, agrupando os elementos que apresentam características em comum. De acordo com Bardin (1977, p. 119), o primeiro objetivo desse processo é “fornecer, por condensação, uma representação simplificada dos dados brutos”. Para que ela seja fiel ao corpus submetido à análise de conteúdo, no entanto, é imprescindível que as categorias sejam estabelecidas a partir de cinco regras essenciais: a da exclusão mútua (um elemento pode existir em somente uma divisão); a da homogeneidade (todas as classes devem ser orientadas por um único princípio de classificação); a da pertinência (o sistema precisa estar de acordo com as hipóteses e objetivos do pesquisador); a da fidelidade (devem estar claros, desde o início do processo, os índices que determinarão o ingresso dos elementos nas categorias); e a da

produtividade (as divisões devem produzir resultados férteis e, principalmente, dados exatos). Com base nessas regras, foram estabelecidas duas categorias para cada unidade de registro:

Tabela 6 – Categorias de Análise

Unidades de contexto Unidades de registro Categorias

Globo Esporte SP Globo Esporte RS

Abordagem

Jornalismo: o principal índice é a

presença da notícia nas matérias, chamadas de bloco, entrevistas e segmentos de opinião. Os conteúdos

desta categoria têm como principais valores-notícia significância, conflito,

infração, amplitude e relevância.

Infoentretenimento: o índice é a

ausência da notícia e/ou a presença de fatos omnibus. Não há valor-notícia.

Temática

Futebol: agrupa os elementos que têm

como principal assunto esse esporte.

Outros: reúne os elementos que abordam

as outras modalidades esportivas.

Abrangência

Nacional: agrupa os conteúdos de

abrangência nacional, geralmente produzidos pela Agência Globo Esporte.

Local: reúne os conteúdos que se referem

aos clubes esportivos locais.

Na fase de preparação do material o analista precisa tomar uma série de decisões. Uma primeira escolha se refere ao modo como será feita a medição dos elementos constituintes do

calcular, em minutos e segundos83, o tempo ocupado pelas matérias, entrevistas, segmentos de opinião e chamadas de bloco84 que, por sua vez, foram agrupadas conforme o balizador

assunto. Sendo assim, nesta pesquisa, o espaço total ocupado pelos elementos é o resultado

da soma das cabeças85 e dos conteúdos propriamente ditos. Além disso, durante o processo de identificação dos índices, as chamadas de bloco foram consideradas unidades independentes, não sendo vinculadas às informações a que se referem. Quando compostas por mais de um tema, foi considerado, para fins de classificação, o assunto que ocupou o maior espaço. Já no que diz respeito à abertura e ao encerramento dos programas analisados, optou-se por desprezar as vinhetas, assim como as intervenções que somaram menos de dez segundos86.

Tomadas essas decisões, o próximo passo foi editar o material obtido para ser efetivamente analisado. Considerando apenas os elementos válidos para este estudo, somou-se o tempo total de cada unidade de contexto – valor que servirá, posteriormente, como referência para a elaboração dos percentuais. Filtradas as edições do Globo Esporte São Paulo obteve-se 1h31min11s; no caso do Globo Esporte Rio Grande do Sul, o total foi 1h31min02s.