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2. Method and materials

2.4. Retrieval and planting

O título deste capítulo I (A Comunidade Joanina num contexto pluralista do I

século) já quis demonstrar o que pretendemos alcançar ao longo do mesmo, isto é,

uma compreensão mais profunda, a partir da pesquisa recente e mais antiga do QE, da situação complexa e do contexto pluri-cultural em que a comunidade do Discípulo Amado teve que se estabelecer e sobreviver. Nem tudo o que aconteceu no ambiente e na época do nascimento da comunidade foi colocado por escrito, mas algumas situações de conflito em torno de questões dentro do judaísmo (sobre o Messianismo de Jesus, por exemplo) foram determinantes para definir o estilo de controvérsias contidas no Evangelho. O texto reflete a realidade. Temos de respeitar o texto como produto do seu contexto e não lê-lo a partir de pressupostos ou idéias pré-concebidas sobre a história do cristianismo primitivo como nos foi contada e acreditada até hoje.

Devemos muito de tudo o que concluímos ao trabalho do grande pesquisador Rudolf Bultmann o ὃual ἶefiniu o pὄoἴlema ἶa oὄigem hiὅtóὄiἵa ἶo ἣE ἵomo “o enigma de onde se coloca o QE em relação com o desenvolvimento do cristianismo ἶaὅ oὄigenὅ”έ ἔoi ἐultmann ὃuem nos ajudou a entender que o QE não foi composição de um único autor. Depois dele multiplicaram-se as teorias e as discussões sobre a paternidade e a origem, as fontes e os gêneros do texto joanino. O tema central, as

influências, os gêneros literários, as fontes, as intenções do autor, os destinatários, o lugar de origem, os membros da comunidade, tudo isso e muito mais continuam sendo estudados cientificamente e novas teorias se apresentam no cenário da pesquisa bíblica. Mas temos já alguns pontos fixos, como os adotados neste trabalho: a data de composição, o lugar geográfico, as fontes, o estilo literário, as tradições e as fases da elaboração e redação do texto (teoria literária), quem eram os membros da comunidade, quem eram os judeus freqüentemente citados no QE. Tratamos anteriormente da realidade que provocou conflitos e controvérsias, tão presentes no capítulo 8, aonde está nossa perícope (31-59). Vimos que as disputas eram, na sua maioria, de caráter doutrinal, polêmico, apologético, dentro do judaísmo. Discute-se sobre confessar a fé em Jesus e aceitá-lo como Messias Salvador e Filho de Deus. O evangelista usa de recursos e linguagem simbólica, dualista. Tudo para dizer que a

Verdade é Jeὅuὅ ἑὄiὅtoλ “aὃuele ἶe ὃuem eὅἵὄeveὄam εoiὅéὅ, na δei e oὅ pὄofetaὅ” (1,45). Ele é a causa da controvérsia declarada na sessão dos capítulos 5 a 10, e mais fortemente no capítulo 8.

Concluímos, enfim, após este primeiro capítulo, que a comunidade joanina, por seu início histórico particular, produziu o QE em continuidade e coerente com o judaísmo nascente, não em total ruptura com ele. Compreendemos melhor que havia um esforço de diálogo e entendimento, o que gerou uma clara identidade da mesma diante das ameaças concretas que tinha de enfrentar. Os conflitos registrados no texto joanino ὅão um ὄeflexo ἶeὅte eὅfoὄçoέ Eὄa uma ἶiὅputa “ὅaἶia” (intra-judaica), não era uma guerra declarada contra os judeus não cristãos (anti-judaica); o antisemitismo nasceu depois por errôneas interpretações destes conflitos presentes também no QE, mas não só. Entendemos melhor agora que os judeus da sinagoga, de tradição farisaica, buscavam após a destruição do Templo – símbolo sagrado de uma

instituição oficial – e os traumas daí decorrentes, a fidelidade às suas concepções e interpretações judaicas.98 Eles precisavam de autoridade e firmeza na definição e ἵonἶução ἶe uma nova maneiὄa ἶe “ὅeὄ e eὅtaὄ no munἶo judaico” póὅ-70. Era uma questão de busca de uma autêntica identidade, no sentido de verdadeira, reconhecida, oficial. O movimento mais organizado, o dos fariseus, foi se impondo formando o judaísmo formativo,99 que por sua vez originou o judaísmo rabínico (séc. VI). Também os seguidores de Jesus necessitavam de uma organização e consolidação que não foὅὅe “ἶuviἶoὅa, vaἵilante e vulneὄável”λ pὄeἵiὅavam meὅmo ἶe uma sólida identidade. Esta foi buscada e adquirida na comunidade joanina com a redação do texto do QE.

A comunidade do Discípulo Amado, entὄe outὄaὅ, eὄa uma “ἵonἵoὄὄente” ameaçadora da unidade do judaísmo nascente pós-70. Era perigosa e por isso, pὄeἵiὅava ὅeὄ “ὅufoἵaἶa e ἶeὅtὄuíἶa”έ Eiὅ aí um ὅéὄio ἵonflito paὄa oὅ memἴὄoὅ ἶa comunidade. Podemos imaginar as discussões e os debates entre eles, reflexões teológicas a partir de um novo ponto de vista, um novo ângulo100 de análise, uma nova ótica chamada Jesus Cristo. Quantos movimentos e grupos intitularam-ὅe o “novo Iὅὄael”, ὃuantoὅ pὄofetaὅ vantavam-se de ser o Messias prometido, quanta confusão! Oὅ faὄiὅeuὅ aoὅ pouἵoὅ iam ὅe afiὄmanἶo ἵomo oὅ novoὅ “ἶetentoὄeὅ ἶo poἶeὄ ὄeligioὅo” tentando alcançar a autoridade, o governo e a unidade perdidos, por isso

98 Conhecemos melhor hoje que o judaísmo nascente pós-70 com a destruição do Templo era como que

um fenômeno plural marcadamente religioso, todavia, mesmo durante a existência do Templo haviam diversos movimentos e partidos em contrastes entre si; e mesmo após a destruição do Templo, não houve uma total desorientação, os judeus mais devotos tinham alternativas de praticar a piedade e concentraram-se na sinagoga para este exercício de fé. Houve muitas reações diante do drama trágico de ficar sem o Templo. Temos conhecimento de movimentos como os essênios de Qumran, os apocalípticos, os escribas remanescentes, os judeus da diáspora. Cf. NEUSNER, Jacob. Formative

Judaism: Religious, Historic, and Literary Studies, p. 86s.

99 Jacob Neusner chama assim este período que vai da criação da Mishnah, no final do século I, até a

formação do Talmud Babilônico, no século VI.

100 J. Andrew OVERMAN faz a mesma observação sobre a situação conflitual e a participação da

comunidade na busca de definição da própria identidade, porém, ele observa isso na comunidade do Evangelho de Mateus. Cf. Igreja e Comunidade em crise. O Evangelho segundo Mateus, p. 35.

toda novidade plural era esfaceladora;101 o Cristianismo também buscou se firmar neste contexto como autodefesa e autoafirmação.

Nos capítulos seguintes desta pesquisa aprofundaremos os conflitos existentes também entre a tradição do Discípulo Amado e a tradição apostólica, entre o judaísmo e a sinagoga. Para nós, os conflitos foram oportunidades de repensamento de si mesmos, de Jesus Cristo, da igreja, em confronto e diálogo com os de dentro e os de fora da comunidade e busca de definição de identidade.

Sobre estas bases da conclusão deste primeiro capítulo é que fundamentamos a continuação da pesquisa e da tese que nos propomos defender.

101 Em algum momento deste processo a postura dos líderes fariseus radicalizou-se com a violência, a

exclusão, a expulsão da sinagoga, a intolerância com os ímpios (hereges) e até mesmo maldições com aὅ “ἐirkat-ha-Minin” dirigidas aos que não seguiam a fé judaica e eram infiéis à Lei-Torah. (E que

não haja para os apóstatas esperança (...), e que pereçam de imediato os nazarenos e os hereges e que sejam apagados do livro da vida...). Cf. SCHÜRER, Emil. Historia del Pueblo Judio, p. 596. Esta

A ESTRATÉGIA LITERÁRIA

NA PERÍCOPE JOÃO 8, 31-59

Apresentaremos neste segundo Capítulo as diversas propostas de estruturação e divisão da perícope 8,31-59 dentro do QE. A análise literária ocupará grande parte porque será seu aprofundamento que nos possibilitará conhecer em profundidade a metodologia e a técnica literária do autor. Faremos ainda uma própria tradução do texto e concluir, após toda a análise, com considerações a respeito da estratégia literária do(s) redator(es). Interessa-nos conhecer em profundidade a perícope no seu contexto, por isso vamos delimitá-la e compreendê-la como uma estrutura dentro de um projeto maior. O estudo das palavras e das formas no original grego nos ajudará a descobrir qual era na verdade a problemática subjacente que se revela no texto que temos em mão. O que pudermos apreender do próprio texto, pois ele mesmo revela a razão da polêmica e do conflito, será de grande valia para a compreensão da estratégia literária do autor.

Quanto à clara situação de conflito, presente nesta perícope, e as duras e até agressivas palavras de Jesus contra os judeus, intentamos esclarecer desde o início deste segundo capítulo, que o termo “juἶeuὅ” no ἣE não se refere ao povo judeu como um todo. No primeiro capítulo já apresentamos variantes e significados do uso, e definimos nossa posição. Escrevemos assim: No texto evangélico esses “judeus” são identificados com as autoridades judaicas: não com a gente de Jerusalém ou da Judéia, menos ainda com a nação judaica no seu ambiente, mas simplesmente com os homens que têm o poder e a influência que lhes conferem o direito de falar no lugar de todos os outros.102 John Ashton escreve ainda que os judeus no QE simbolizam a dureza de coração e a incompreensão humana diante da revelação de Jesus.103 A esta altura entendemos aqui o termo como o reflexo justamente da polêmica que levou à ruptura entre a comunidade do Discípulo Amado e a Sinagoga no ambiente em que se situava.

Sabemos que a língua grega foi o grande veículo de comunicação e transmissão do Cristianismo nascente, quer como língua franca quer na utilização da produção literária do cânone sagrado. Portanto, para compreender melhor o Novo Testamento e fazer uma boa exegese, é fundamental em primeiro lugar conhecer a língua e os usos e costumes da época. O QE é um dos textos que revela nitidamente a utilização do grego e através dele, a riqueza da mensagem cristã e as respostas para os desafios e urgências que os membros da sua comunidade necessitavam.

102 Cf. p. 59-60.

2.1 O texto grego da perícope Jo 8,31-59