Na década de 1970, as teorias sobre o póscolonialismo emergiram com o objetivo de compreender o imperialismo e seus desdobramentos como fenômenos locais e/ou universais, revelando seu caráter político e cultural em uma era de descolonização. Entretanto, textos de importantes pensadores já haviam sido publicados sobre o colonialismo e seus desdobramentos antes de 1970, como por exemplo, Pele negra, máscaras brancas (1952), de Fanon, e Discurso sobre o colonialismo (1955) de Césaire.
Na contemporaneidade, todavia, alguns dos principais estudiosos da área são: Said, com os clássicos Orientalism (1978), e Culture and imperialism (1994); Ashcroft, Griffiths e Tiffin com The post-colonial studies reader (2004). As publicações da indiana Spivak (1990) têm também se desenvolvido, focalizando questões do póscolonialismo em conjunto com a crítica feminista, tratando de conceitos como voz, espaço e condição do subalterno, termos comuns aos Estudos Póscoloniais e incorporados aos Estudos Feministas. No Brasil, um dos principais pesquisadores sobre o póscolonialismo é o maltês Thomas Bonnici, autor de livros como: O pós-colonialismo e a literatura: estratégias de leitura (2000), e Conceitos-chave da
teoria pós-colonial (2005a), ambos em língua Portuguesa.
Os autores acima mencionados trouxeram para o centro do debate póscolonial o embate entre o homem europeu e o seu papel na construção da alteridade do homem não europeu, isto é, oriundo de (ex)colônias, por exemplo. Eles analisam o papel ideológico do texto literário e de textos não literários das metrópoles europeias na difusão interna e externa da cultura do continente europeu como elemento de dominação e controle dos povos colonizados e dos atingidos pelo imperialismo.
Alguns dos principais objetivos dos Estudos Póscoloniais são: trazer à tona o contexto dos povos marginalizados e oprimidos que foram afetados pela experiência da colonização, em uma tentativa de fazer conhecida a sua história e a sua voz; preservar e destacar a literatura produzida pelos povos submetidos ao colonialismo, frequentemente considerados selvagens, primitivos e iletrados pelos colonizadores. Assim, os Estudos Póscoloniais questionam o cânone literário ocidental que tem excluído autores – inclusive mulheres escritoras, o que constitui uma bandeira de luta entre os Estudos Feministas e os
Estudos Póscoloniais - de países à margem do continente europeu. Além disso, os Estudos Póscoloniais analisam textos da Metrópole (o Império), denunciando a forma como os povos considerados inferiores pelos europeus são retratados em contraste com o homem branco e cristão europeu.
Para que se compreendam as relações entre colonialismo e imperialismo, é interessante observar algumas definições desses termos em uma das mais importantes fontes do saber ocidental, o dicionário, com o objetivo de obter informações sobre os dois termos, mas também para analisar como um dicionário inglês apresenta definições tão significativas para a própria cultura inglesa. O Oxford Advanced Learner’s Encyclopedic Dictionary (1992, p. 452; tradução nossa) define imperialismo como a “política de extensão do poder de um país e sua influência no mundo através da diplomacia ou força militar, e especialmente pela aquisição de colônias82”. Apesar da semelhança com definições de colonialismo, muitas são as possibilidades de compreensão para esse termo, as quais se complementam, como as considerações de Lênin e Kaustsky ainda no início do século XX a esse respeito. Esses dois autores deram “[...] um novo significado à palavra ‘imperialismo’ ao ligá-la a um estágio particular de desenvolvimento do capitalismo83” (LOOMBA, 1998, p. 5, tradução nossa).
Segundo Loomba (1998), no livro Imperialism, the highest stage of capitalism (1947), Lênin e Kaustsky defendem que o crescimento do capitalismo financeiro e da indústria em alguns países do Ocidente criou uma superabundância de capital que precisava de novos mercados e de mão de obra para atender às necessidades de expansão da metrópole em vários níveis. As colônias ou países não-industrializados escolhidos como alvos não tinham capital, mas abundavam tanto em mão de obra quanto em possíveis consumidores e matéria prima. Assim, os países industrializados subordinaram nações não-industrializadas na busca pela sustentação do seu próprio crescimento. Quanto ao sistema global chamado
imperialismo, pode ser compreendido também como um estágio do desenvolvimento do
capitalismo que distinguiria colonialismo e imperialismo. As diferenças entre esses termos ocorrem de maneiras distintas dependendo da mutação histórica de cada um.
Uma possibilidade de distinção entre colonialismo e imperialismo pode ser conseguida com a não separação de ambos em termos temporais, mas em termos espaciais. Tanto imperialismo quanto neoimperialismo têm sua origem na metrópole (país imperialista de onde emana o poder controlador) e seu resultado, ou seja, o que acontece na colônia ou na
82 “policy of extending a country’s power and influence in the world through diplomacy or military force, and
especially by acquiring colonies”.
83 “[…] a new meaning to the word ‘imperialism’ by linking it to a particular stage of the development of
neocolônia (local dominado seja política, cultural e/ou economicamente pela metrópole), isto é, a consequência da dominação imperial, tanto pode ser a colonização quanto a neocolonização, pois o imperialismo pode funcionar sem colônias formais, como no imperialismo americano atual, fato este que não ocorre com o colonialismo (LOOMBA, 1998).
Em relação ao termo colonialismo, de acordo com o Oxford Advanced Learner’s
Encyclopedic Dictionary (1992, p. 175, tradução nossa), colonialismo é “uma política de
aquisição de colônias e a manutenção delas como dependentes84”, ou ainda “uma tendência de
um país poderoso de usar suas colônias ou países que são economicamente dependentes dele para seu próprio benefício econômico e político85”. Ao analisar a definição de colonialismo em outro dicionário Oxford, Loomba (1998) observa que nas definições de colonialismo ali encontradas - assim como na primeira definição apresentada acima - os autores não mencionam a presença de povos nativos, nem fazem referência a encontros coloniais, muito menos ao fato de que as colônias não eram terras virgens, mas territórios independentes, uma vez que primeiramente pertenciam aos seus habitantes originais, e não eram simplesmente terras desabitadas à disposição de qualquer país poderoso que delas quisesse tomar posse. A omissão da referência à presença de nativos, dentre outros pontos, esvazia o termo das implicações que a ele, de fato, estão atreladas, tais como: opressão, repressão, lucro, comércio, exploração, preconceito, racismo, dentre outros. Mesmo assim, percebe-se que a segunda definição acima, proposta pelo dicionário Oxford já citado, expressa, de certo modo, o fato de que colonialismo pode ser compreendido como um processo arbitrário de conquista e controle sobre terras, povos e bens para benefício dos colonizadores.
Outrossim, Cashmore oferece uma definição bastante clara do colonialismo e sua relação com imperialismo:
Originário do latim colonia para cultivo (especialmente terra nova), este termo [colonialismo] refere-se a práticas, teorias e atitudes envolvidas no estabelecimento e na manutenção de um império – sendo esta uma relação na qual um Estado mantém efetiva soberania política sobre um território tipicamente distante. Entre os vários significados do imperialismo – do latim imperium (comando ou domínio) -, está o desejo de adquirir colônias e dependências (CASHMORE, 2000, p. 130).
Por outro lado, alguns defendem que a distinção entre colonialismo pré-capitalista e capitalista é frequentemente feita pela referência ao último como imperialismo. Loomba
84 “policy of acquiring colonies and keeping them dependent”.
85 “tendency of a powerful country to use its colonies or countries that are economically dependent on it for its
(1998) acredita que esse tipo de distinção pode ser confusa, uma vez que ambos remontam a um passado pré-capitalista; alguns autores consideram o imperialismo anterior à prática colonial.
As questões econômicas e políticas acima elencadas, não podem encobrir o fato de que o termo colonialismo “[...] caracteriza o modo peculiar como aconteceu a exploração cultural durante os últimos 500 anos causada pela expansão europeia” (BONNICI, 2005b, p. 227). Por essa razão, o colonialismo agravou a situação dos povos colonizados - quando se compara com a colonização na antiguidade, onde qualquer povo poderia se tornar escravo de outro ao perder uma guerra, independente da própria raça – que eram racialmente diferentes, a exemplo de povos africanos, ou de minorias, como os aborígenes na Austrália.
Segundo Dunn et al (1972), Meyer (1996), Barbujani (2007), Kitson (2007) e Wieviorka (2007), o termo raça passou a ser utilizado desde o século XV em um construto que distingue as raças da seguinte forma: puras e híbridas, com habilidades, comportamentos e hierarquias diferentes e inatas. No auge do desenvolvimento do comércio colonial, no século XVII, para a ciência ocidental, as características físicas e a cor da pele eram determinantes no sentido de estabelecer a distinção de grupos humanos. Acreditava-se que os traços físicos, como a cor da pele, dos olhos e dos cabelos e o formato da cabeça representavam níveis diferentes de inteligência, de moralidade, de comportamento, de aptidão. Assim, os brancos foram classificados pela ciência como integrantes da categoria superior, ao passo que os negros da categoria inferior.
De acordo com Cashmore (2000, p. 448), em linhas gerais, raça diz respeito a um grupo ou categoria de pessoas ligadas por uma origem comum. Até o começo do século XIX esse termo foi usado principalmente para se referir a características comuns apresentadas em virtude de uma mesma ascendência. Segundo a autora, no início do século XIX, o crescente conhecimento “[...] a respeito das diversidades entre os povos do mundo sugeriu a muitas pessoas que elas eram parte de um padrão mais genérico de diversidades naturais [...]”. Posteriormente, essa terminologia passou a ser usada para designar espécies de seres humanos distintos tanto pela constituição física quanto pela capacidade mental. Para Cahsmore, essa última concepção forma a essência das doutrinas frequentemente designadas como racismo
científico. No entanto, Cashmore informa que nas últimas cinco décadas ficou cada vez mais
claro que não era possível fazer nenhuma taxonomia significativa das raças humanas, de modo que, na compreensão atual,
[...] uma raça pode significar um grupo de pessoas socialmente unificadas numa determinada sociedade em virtude de marcadores físicos como a pigmentação da pele, a textura do cabelo, os traços faciais, a estatura e coisas do gênero (CASHMORE, 2000, p. 454).
É preciso, ainda, considerar que uma questão importante na discussão sobre raça não é apenas o que vem a ser raça, mas a maneira como o termo é empregado, visto que “[...] as pessoas elaboram crenças a respeito de raça, assim como a respeito de nacionalidade, etnia e classe, numa tentativa de cultivar identidades grupais” (CASHMORE, 2000, p. 448).
Nas relações coloniais, o fator raça estava entre o colonizador e o colonizado, de modo que produziu um relacionamento injusto e desigual entre eles, e assim, os termos raça,
racismo e preconceito racial tiveram sua origem no posicionamento hegemônico europeu e
validaram a introdução do regime escravocrata a partir do século XVI, quando foi criada a ideia de um mundo colonial habitado por pessoas naturalmente inferiores; naturalmente programadas para trabalhos braçais e para servirem ao homem branco europeu. Em virtude dessa concepção de inferioridade, aos olhos dos europeus colonizadores, “[...] o estado naturalmente inferior dos colonizados era um fato indiscutível, ‘provado’ no século XIX pelas teorias da evolução e da sobrevivência do mais forte na doutrina darwinista” (BONNICI, 2005b, p. 228).
Desse modo, as ideologias racistas identificaram certos tipos de pessoas como biologicamente apropriadas para determinadas tarefas. Césaire (1978, p. 22), reproduz o pensamento de Ernest Renan a esse respeito: “A natureza criou uma raça de trabalhadores, a raça Chinesa, que tem excelente destreza manual e quase nenhum senso de honra”. Césaire mostra que Renan classificou a raça negra como “uma raça de cultivadores do solo”, e os europeus como “uma raça de mestres e soldados”. Percebe-se com as considerações de Renan apenas um dos exemplos de ideologia de superioridade racial traduzida em termos de classe. Na suposta crença da superioridade das raças brancas estava implícito, portanto, que pessoas de outras raças consideradas inferiores deveriam permanecer como mão-de-obra barata e/ou escravos.
No que diz respeito ao conceito de classe, é correto afirmar que ele tem uma importância capital na teoria marxista, embora nem Marx nem Engels o tenham formulado de maneira sistemática. Tomando como base Marx e Engels (2007), Bottomore (2001) e Giddens (1981), percebe-se que o conceito de classe social é um artifício teórico que o sociólogo faz no mundo social objetivando exprimir a realidade. Portanto, classe é um modo de classificação. Assim, ainda que as classes sociais sejam abstrações que o cientista social
constrói, elas descrevem fatos reais, especialmente porque as pessoas são diferentes e ocupam lugares, ou seja, posições diferentes na sociedade.
Por conseguinte, as distâncias entre as classes sociais representam não apenas as posições diferentes dos indivíduos no espaço social, mas indicam a existência de hierarquias entre essas posições. As hierarquias ocorrem porque alguns lugares são socialmente mais valorizados do que outros, e isso significa que alguns grupos ocupam uma região do mundo social mais ou menos vantajosa. Portanto, no sentido material das divisões de classes sociais, algumas pessoas são mais ou menos ricas; no sentido simbólico algumas têm mais ou menos prestígio; no sentido político algumas têm mais ou menos poder. Posto isto, o conceito de classe é, portanto, um modo de classificação que percebe distâncias sociais reais e é capaz de traduzi-las em relações de dominação/subordinação.
Vale destacar, ainda, que a intersecção e a coexistência de raça e de classe foram fundamentais no controle colonial. No mundo colonial, de acordo com Bonnici, nativos da África e das Américas ocupavam
[...] o último degrau da escala classista, ou seja, o trabalhador colonizado no contexto da produção capitalista europeia tinha de ser índio ou negro ou afrodescendente. A ideologia de superioridade racial então passava imediatamente pelo conceito de classe. Isso implicava que certas pessoas poderiam ser racialmente identificadas como naturalmente pertencentes à classe trabalhadora (BONNICI, 2005a, p. 51).
Assim, ideias racistas eram passadas de uma geração para a outra como resultado da pressão social da classe dominante, de modo que o fato de ser negro “[...] tornou-se uma determinação objetiva em seu comportamento racial, nas suas práticas institucionais e nas atitudes psicológicas das próprias vítimas” (BONNICI, 2005a, p. 51).
Entretanto, no universo das relações coloniais, o estigma do racismo e da inferioridade cultural atingiu também os colonos brancos, considerados degenerados pelo hibridismo aos olhos dos agentes governamentais e da metrópole. Esperavam-se consequências pavorosas da mistura de raças, como por exemplo, o embrutecimento ou até mesmo a degeneração radical da espécie, de modo que “[...] optou-se por resolver o problema com leis que colocavam na raça inferior os filhos das uniões mistas, definindo como negro quem quer que tivesse uma só gota de sangue negro” (BARBUJANI, 2007, p. 21). Essas questões estão presentes no romance Wide Sargasso Sea (1966), da jamaicana Jean Rhys (1890-1979), o qual mostra como a Metrópole desqualificava os descendentes de europeus nascidos em colônias, os chamados creóles. A obra citada denuncia também a desqualificação
por parte dos europeus do fato de colonos de origem européia desenvolverem hábitos dos nativos considerados por eles como negativos.
No que diz respeito à alienação cultural, ela é típica do período colonial, conforme concluiu Fanon (2004). Sendo assim, um dos objetivos da colonização era convencer os nativos de que eles seriam salvos das trevas, de modo que, se o colonizador os deixasse, eles regressariam ao suposto estado de barbarismo, de degradação e de bestialidade de antes da colonização. Portanto, o colonialismo buscava ser visto pelos nativos não como uma mãe que protege os filhos do ambiente hostil, mas como uma mãe que previne os filhos de viverem controlados pelos próprios instintos malévolos. O colonialismo, simbolizando a figura materna, protegeria os filhos de si mesmo, do ego, da fisiologia e da desgraça ontológica (BONNICI, 2005a).
Uma obra literária que ilustra a suposta nobre empreitada do imperialismo - sua missão civilizadora - é The white man’s burden (1899), do escritor inglês Rudyard Kippling (1865-1936). O poema – há uma controvérsia se ele foi escrito ou não como uma sátira ao imperialismo – apresenta uma visão eurocêntrica do mundo, no qual, povos e culturas não- europeus são vistos como infantis e demoníacos, de modo que os brancos têm a obrigação de dominá-los e convertê-los aos moldes de vida europeus.
Diante do exposto, pode-se dizer que o colonialismo gira em torno de um pressuposto no qual “[...] o poderoso centro cria a sua periferia. Embora o binômio centro/margem seja uma noção binária, ela define o que ocorreu na representação dos indivíduos durante o período colonial” (BONNICI, 2005b, p. 230). Assim, o mundo foi dividido em duas partes hierarquicamente construídas, de modo que o centro se consolidava através da existência do outro colonizado, cujo referente encontra-se fora do ambiente daquele que fala. O centro, isto é, o mundo civilizado e a sua ciência, simbolizava o progresso, ao passo que o discurso sobre a colônia a construiu ideologicamente como selvagem, ignorante e atrasada culturalmente. Portanto, o sujeito “[...] colonizado e pós- colonial é considerado o outro devido à centralidade do colonizador e aos discursos sobre primitivismo, canibalismo e outros proferidos por este último” (BONNICI, 2005a, p. 48).
Ashcroft et al (2004) comentam que o póscolonialismo destaca uma política de oposição e esforço, e problematiza o relacionamento chave entre o centro e a periferia. De acordo com Bonnici,
O colonialismo existe devido aos pressupostos do binarismo que requer a existência do outro e de outra cultura, diferente e inferior. A noção de povo selvagem somente acontece quando há o conceito de civilização que o europeu apropria exclusivamente para si. A teoria pós-colonial não somente questiona esse binarismo, mas põe em
cheque o próprio conceito de centro como um conjunto de valores fixos, homogêneos e estáveis. O centro, de fato, foi também historicamente construído e, portanto, ambivalente e instável (BONNICI, 2005a, p. 20).
Um ponto importante e que deve ser considerado nesse contexto colonial é a questão da mulher. Segundo Meyer (1996), havia estudos europeus sobre raças – como o de Knox - nos quais as mulheres tinham um papel intrigante. Ideias sobre gênero têm uma presença tão peculiar nas investigações científicas europeias, especialmente entre os séculos XVII e XIX, que cientistas chegaram a conclusões – a exemplo de White, como mostra Meyer - relacionadas ao suposto fato de que haveria semelhança entre os corpos de mulheres inglesas, por exemplo, (principalmente as grávidas; o estudo comprovou que muitas mulheres sofriam um processo de escurecimento dos mamilos, e de outras partes do corpo durante a gravidez) e os corpos de indivíduos de raças escuras. O estudo de White não considerou a existência de mamilos e outras partes do corpo mais escuras em homens brancos europeus. Percebe-se, portanto, que as ideologias de gênero europeias colocavam as mulheres brancas numa posição ambivalente nas escalas raciais da ciência do século XIX. As mulheres não eram consideradas inferiores só intelectualmente aos homens, mas seus corpos supostamente comprovavam isso também, inclusive ligando-as às raças escuras.
Meyer (1996) afirma que a associação de mulheres com figuras coloniais pode ser vista na literatura inglesa oitocentista e que isso era uma prática comum, pois a literatura retratava a crença da sociedade inglesa de que, assim como os povos não-brancos, as mulheres eram igualmente misteriosas, impenetráveis, incompreensíveis e, portanto, precisavam ser controladas. Entretanto, a mulher branca inglesa era também vista como um símbolo do império. De modo que, um ataque a ela significava um ataque ao próprio império (SHARPE, 1994).
A ambivalência em relação às mulheres está ilustrada em O morro dos ventos
uivantes: Heathcliff – de uma raça escura também estudada pelos cientistas europeus –,
classificado como cigano e associado com a China, a Índia e a África, é representado em sua ligação extrema com Cathy. A própria Cathy articula o relacionamento deles em termos metafóricos quando diz “Eu sou Heathcliff86” (BRONTË, 1971, pg. 83; grifo da autora). Cathy parece, de algum modo, vislumbrar uma conexão entre sua condição social enquanto mulher e a condição do homem de raça escura na sociedade patriarcal e imperialista inglesa. Exatamente por isso, pode-se dizer que o romance de Brontë não liga a figura da mulher inglesa à de um homem de raça escura seguindo o curso da mentalidade vigente na sociedade
vitoriana a esse respeito, isto é, de que haveria uma relação negativa de semelhanças física e intelectual entre as mulheres e os homens de raças consideradas inferiores. No caso dos dois protagonistas do romance em tela, Cathy e Heathcliff, a identificação diz respeito à condição que cada um ocupa na sociedade, na qual, ambos os grupos, as mulheres e o homem de raça escura, são oprimidos pelo patriarcado e pelo colonialismo.
Apesar da identificação entre Cathy e Heathcliff, tanto para os ingleses quanto para a própria Cathy, seria degradante para ela se envolver com ele, por ser ela de uma classe e de uma raça vistas como superiores. Percebe-se que, embora se identifique com Heathcliff,