Para Mulgan e Albury (2003) a inovação é importante para o setor público porque a efetividade do governo e dos serviços públicos dependem de inovações de sucesso para desenvolver melhores formas de satisfazer as necessidades, resolver problemas e usar recursos e tecnologias. Para os autores, a inovação é vista às vezes como um acessório de luxo ou um fardo, enquanto que deveria ser vista como uma atividade central (1) para aumentar a capacidade de resposta dos serviços às necessidades locais e individuais e (2) para acompanhar as necessidades e expectativas do público.
Entusiastas do espírito empreendedor, Osborne e Gaebler (1994) vão no mesmo sentido e acreditam que os governos da era industrial, com suas extensas burocracias centralizadas e padronizadas e a prestação de serviços uniformes não estão à altura dos desafios de uma sociedade baseada no conhecimento e na informação, que se transformam rapidamente. Para esses autores, a organização burocrática deve ser transformada, de forma a liberar o enorme potencial empreendedor dos servidores públicos, vistos como prisioneiros de sistemas arcaicos.
Para Alberti e Bertucci (2006) os governos têm que encarar três desafios domésticos: (1) fornecer serviços com maior qualidade e maior alcance sob
condições de recursos reduzidos e limitada capacidade operacional; (2) prover maior efetividade, responsabilidade e accountability às instituições públicas por meio de uma administração pública orientada para o cidadão e (3) responder mais adequadamente às demandas dos cidadãos por maior participação. Para isso, os governos estão introduzindo inovações em suas estruturas organizacionais, práticas, capacidades e na forma de mobilizar, empregar e utilizar os recursos humanos, materiais, de informação, tecnológicos e financeiros.
No âmbito da administração pública brasileira, nos anos 1990 o movimento gerencialista e a cultura do management foram transportados do setor privado para o setor público, observando-se a tendência de absorção de ideias de eficiência e empreendedorismo pela gestão pública, a exemplo do que já ocorria nos Estados Unidos e no Reino Unido desde o começo dos anos 1980, com as reformas neoliberais de Reagan e Thatcher (PAULA, 2005). Com uma ênfase tecnicista, tal movimento afirma o divórcio entre os domínios da administração e da política e pauta-se na suposição de que a administração, diferentemente da política, seria essencialmente técnica e que o gestor deveria agir racionalmente pelos interesses públicos, baseando-se em técnicas contábeis, econômicas e de administração (PAULA, 2005).
Nesse campo, Abrucio (2007) fez um balanço da trajetória reformista seguida pela administração pública brasileira nos últimos 20 anos, constatando que, se por um lado, houve avanços e inovações, em alguns casos deixando raízes mais profundas de modernização; por outro, constata-se que os resultados foram desiguais e fragmentados para o conjunto do Estado, afora alguns problemas não terem sido devidamente atacados. O autor propõe quatro eixos estratégicos para a modernização do Estado brasileiro: (1) a profissionalização da burocracia, por meio da redução dos cargos em comissão, da profissionalização do alto escalão governamental, da utilização de critérios meritocráticos para preenchimento de cargos de livre nomeação; da redefinição e fortalecimento das carreiras estratégicas de Estado; do investimento em capacitação dos servidores públicos e da construção de um novo relacionamento entre o Estado e os sindicatos dos servidores públicos; (2) a eficiência, por meio da mudança da lógica do orçamento, vinculando-o às metas governamentais; da ampliação do governo eletrônico e de políticas de desburocratização; (3) a efetividade, por meio da gestão por resultados, pela melhoria da coordenação intragovernamental a fim de permitir a integração de
políticas públicas em ações intersetoriais e programas transversais, pelo entrosamento entre os níveis de governo (cooperação federativa) e pelo fortalecimento da regulação dos serviços públicos; (4) a transparência e a responsabilização (accountability), pelo aprimoramento dos mecanismos de representação democrática, pela ampliação e aumento da efetividade dos instrumentos e arenas participativas já existentes para o controle político e social dos agentes governamentais; pela ampliação de fóruns que aproximem sociedade e formuladores de políticas públicas.
Para Farah (2006), a inovação no setor público brasileiro assumiu duas vertentes efetivas e complementares: uma direcionada para a eficiência, representada pelo processo das reformas gerenciais e outra voltada para a democracia, marcada por uma busca pela ampliação da participação social e da descentralização dos processos de construção de políticas públicas.
Em sua análise crítica da reforma administrativa empreendida na administração pública brasileira nos anos 1990, Paula (2005) critica a sua ênfase tecnicista, lamentando a ausência de inovações que promovam a participação popular na formulação das políticas públicas, a fim de que estas passassem a refletir as reais necessidades da sociedade, em substituição ao processo histórico no qual têm prevalecido os interesses políticos das elites.
A questão da representação também é tratada por Motta (2007), para quem a modernização efetiva do Estado somente poderá advir de formas que alterem o sistema de poder e o aglomerado político que o constitui; em outras palavras, reformas que redistribuam os recursos de poder e alterem os canais de comunicação entre o público e sua administração. Conclui o autor que novos espaços, regras e estruturas administrativas são necessários para garantir maior autenticidade na representação política e alcançar maior equidade e eficácia na administração pública. O autor aponta a permanência na administração pública brasileira de fatores de informalidade, tais como o personalismo paternalista e a presença de grupos preferenciais, como um importante aspecto limitador da efetividade das reformas administrativas das últimas quatro décadas, uma vez que “por estarem inseridos na cultura sociopolítica do país, esses fatores não são facilmente removíveis ou contornados por meio de reformas administrativas de lógica racional burocrática” (MOTTA, 2007, p. 89).