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As estratégias de coleta de dados desta pesquisa foram as experiências e vivências de gerentes de projeto entrevistados e observações do próprio autor ao longo de sua vida profissional, na qual se desempenhou o papel de gestor técnico de projetos e arquiteto de soluções. Esta inserção neste ambiente de trabalho revela-se um instrumento facilitador de acesso aos projetos, bem como a realização das próprias entrevistas com os profissionais da área em questão. Todavia, como as mesmas foram realizadas em um único encontro com cada entrevistado, entre maio de 2012 e julho de 2013, este trabalho não possibilita uma análise longitudinal do objeto de estudo.

Dada a multiplicidade de traços psicodemográficos existentes, quando partimos para o campo para conduzir as entrevistas-piloto, havíamos construído um marco teórico que contemplava quatro dimensões aleatoriamente pré-selecionadas: gênero, religião, idade e orientação sexual, as quais acreditávamos ser as mais relevantes.

Todavia, ao realizarmos quatro entrevistas-piloto, emergiram duas dimensões que havíamos negligenciado, nomeadamente, etnia e estética (questões relacionadas à apresentação física, beleza, feiura e obesidade). Por outro lado, idade e religião não foram destacadas como fatores relevantes de discriminação.

Assim, os erros revelados pelas entrevistas-piloto, em sua maioria pela ansiedade de acertar, foram ajustados, possibilitando que resultados ricos em conteúdos pudessem ser trazidos como dados para essa pesquisa.

Destarte, a análise das entrevistas piloto sinalizaram algo que seria recorrente ao longo de todo o estudo: a construção e reconstrução do marco teórico até que ocorresse o esgotamento do campo. Ademais, as entrevistas piloto também resultaram na validação do diagrama metodológico, apresentado na Figura 5.

Figura 5 - Diagrama metodológico

O diagrama apresenta o fluxo de pensamento sobre o qual estruturamos a pesquisa, tomando como ponto de partida o constructo de cultura brasileira. Deste ponto em diante,

investigamos se as relações pessoais e afetivas existentes nessa cultura se constituem também em organizações temporárias, por sua característica intrínseca de relações finitas. Influenciariam elas o desempenho dos GP’s nos projetos? Serviriam elas para apaziguar as diferenças inerentes aos traços psicodemográficos ou acirrá-las-iam? Dessa forma, seguimos o caminho investigativo de identificar os traços psicodemográficos da amostra, a percepção de sucesso e progressão dos seus atores e a compreensão de como a cultura e as relações expõe tais traços como barreiras de entrada e tetos de vidro.

A visita inicial ao campo pôs a prova a mínima habilidade para a realização do método qualitativo de pesquisa, questionando a sensibilidade e sagacidade necessárias ao pesquisador

para perceber as diversas nuances de um discurso, bem como aproveitar “ganchos” entre o

discurso direto e possíveis figuras de linguagem, frases e gestos que mascarassem o real significado da retórica dos interlocutores.

Com o arcabouço teórico delineado e desenvolvido, incrementamos a amostra de entrevistas para esse trabalho dissertativo, sendo que o primeiro sofreu novas alterações frente às revelações do campo que por ventura ainda não estivessem fundamentadas pela teoria.

A amostra de entrevistas foi a mais diversa possível no que se refere ao perfil psicodemográfico dos gerentes de projeto. Ela foi reunida inicialmente por nossa conveniência, onde colegas de profissão serviram como portas de entrada ao campo. Posteriormente, expandimos a amostra por meio das redes sociais (especificamente do Linked-in e Facebook) e da técnica da bola-de-neve (snowball technique) para chegarmos a novos sujeitos, nos atendo sempre a profissionais na região sul e sudeste do Brasil. Também se solicitou ajuda de professores de cursos de pós-graduação em gestão de projetos para divulgar a pesquisa em suas classes e alavancar novos entrevistados.

No que tange a seleção de sujeitos buscamos, primeiramente, atender aos critérios sugeridos por Rubin e Rubin (1995). Segundo esses autores, os sujeitos selecionados devem: a) conhecer a arena cultural ou a situação / experiência a ser estudada; b) ter vontade de falar, também, c) ter diferentes perspectivas. Assim, os entrevistados deveriam encaixar-se no seguinte perfil:

1. Quanto aos traços psicodemográficos:

o Enquadrar-se em ao menos um traço psicodemográfico distinto do

padrão brasileiro socialmente imposto: homem, branco, heterossexual, católico, com boa apresentação física;

o Ter experiência de ao menos três anos no exercício da atividade de

gestor de projetos e ter proficiência provada como GP (certificações e/ou pós-graduação específicas na área);

3. Quanto ao compartilhamento de uma mesma cultura:

o Realizar projetos no Brasil, com stakeholders exclusivamente

brasileiros.

Houve dificuldades em encontrar entrevistados homossexuais (limitados à colegas e indicação destes) e negros (limitados à colegas e identificados por indicação de professores e de redes sociais). No total, foram entrevistados 18 indivíduos, onde precisamos desconsiderar uma entrevista uma vez que o GP, apesar de experiente, não possuía nem certificação, tampouco pós-graduação na área.

No Quadro 2, apresentamos a lista de entrevistados e seus respectivos perfis psicodemográficos, aqui representando a forma pela qual tais indivíduos se autodescreveram.

Entrevista Dados psicodemográficos tal qual definido pelos entrevistados Gênero Idade Etnia Orientação

Sexual

Estado Civil Filhos Religião Característica física

ressaltada E01 Feminino 38 Branca Heterossexual casada não Judaica

E02 Feminino 33 Branca Heterossexual casada sim Católica E03 Feminino 46 Branca Heterossexual casada sim Católica E04 Feminino 52 Branca Heterossexual casada sim Luterana

E05 Masculino 53 Negra Heterossexual casado sim Católica obesidade E06 Feminino 36 Branca Heterossexual casada sim Católica

E07 Masculino 35 Branca Heterossexual casada não Católica obesidade E08 Feminino 37 Branca Heterossexual casada sim Católica estatura baixa E09 Masculino 49 Branca Homossexual união estável não Católica estatura baixa E10 Feminino 45 Branca Heterossexual casada sim Católica

E11 Masculino 49 Negra Heterossexual solteiro não Agnóstico E12 Feminino 45 Branca Homossexual união estável não Messiânica E13 Feminino 33 Branca Heterossexual casada não Agnóstica E14 Feminino 28 Branca Heterossexual solteira não Católica E15 Feminino 29 Negra Heterossexual solteira não Católica E16 Masculino 42 Negra Heterossexual casado sim Evangélica E17 Masculino 54 Negra Homossexual Solteiro não Católica

Já o Quadro 3, representa os perfis educacionais dos gerentes de projeto entrevistados, delineando os cursos de graduação e possíveis certificações e pós-graduações que tais

profissionais tenham realizado.

Entrevista Formação Educacional tal qual definida pelos entrevistados

Graduação Certificação PMP Pós-graduação em Gestão de Projetos Outra Pós-graduação / Certificação

E01 Engenharia Sim não sim

E02 Análise de Sistemas / Informática Sim não não

E03 Matemática Sim sim sim

E04 Análise de Sistemas / Informática Sim não não

E05 Administração Sim não sim

E06 Análise de Sistemas / Informática Sim não sim E07 Análise de Sistemas / Informática Sim sim não E08 Análise de Sistemas / Informática Sim não sim E09 Análise de Sistemas / Informática Não sim sim E10 Análise de Sistemas / Informática Sim não sim

E11 Engenharia Sim não sim

E12 Análise de Sistemas / Informática Sim não sim

E13 Engenharia Não sim sim

E14 Análise de Sistemas / Informática Sim sim sim

E15 Administração Não sim não

E16 Análise de Sistemas / Informática Sim não não

E17 Engenharia Sim não sim

Quadro 3 - Entrevistados e seus perfis educacionais.

Quanto às entrevistas, elas foram realizadas em local e data escolhidos pela conveniência dos entrevistados e conduzidas, na sua grande maioria, em caráter presencial, como ilustrado no Quadro 4. Dessa forma, desejávamos observar de forma ampla e irrestrita os relatos dos entrevistados, onde quatro das 17 entrevistas foram realizadas via Skype ou telefone. Os relatos foram, em sua totalidade, gravados digitalmente com a anuência de todos os entrevistados, tendo duração média de cinquenta minutos.

Entrevista Local da Entrevista Cidade E01 Empresa – sala de reuniões reservada Rio de Janeiro E02 Empresa – sala de reuniões reservada Rio de Janeiro E03 Empresa – sala de reuniões reservada Rio de Janeiro E04 Empresa – sala de reuniões reservada Curitiba

E05 Telefone / Skype São Paulo

E06 Empresa – sala de reuniões reservada Rio de Janeiro E07 Público – jardim em um centro comercial Rio de Janeiro E08 Público – restaurante em um shopping center Rio de Janeiro

E09 Telefone / Skype Rio de Janeiro

E10 Telefone / Skype Rio de Janeiro

E11 Público – cafeteria em um shopping center Rio de Janeiro

E12 Telefone / Skype Rio de Janeiro

E13 Público – mesas no corredor da FGV Rio de Janeiro E14 Público – cafeteria no centro da cidade Rio de Janeiro E15 Público – restaurante no centro da cidade Rio de Janeiro E16 Público – cafeteria no centro da cidade Rio de Janeiro E17 Público – cafeteria em um shopping center Rio de Janeiro

Quadro 4 - Entrevistados e sua geografia.

No início de cada sessão, assumimos perante aos interlocutores nosso compromisso ético em não identificá-los diretamente, tampouco identificar as empresas por eles citadas – exigência da maioria. Adicionalmente, assumimos também o compromisso de divulgar e compartilhar o resultado final deste trabalho. Justa retribuição, uma vez que sem a participação do campo essa pesquisa não existiria.

Na realidade, há, acima de tudo, uma grande preocupação inerente ao fato de que descortinar experiências sobre preconceitos sofridos ou exercidos não seria tarefa óbvia. O tema, por si só, poderia se mostrar velado por medos sociais ou, pior, ter sido absorvido como senso comum e sequer ter sido percebido pelos atores. Entendemos que o respeito aos limites de cada entrevistado deveria ser exercido. Esses limites, ademais, também deveriam ser percebidos com sensibilidade por sua fragilidade.

Antes de cada encontro, ao longo das entrevistas e após as mesmas terem sido realizadas, foram efetuadas notas de campo (fieldnotes), as quais serviram para que o

entrevistador fizesse, fora do contexto oral, anotações sobre suas percepções dos entrevistados, como: o modo de vestir e de falar, o tom da entrevista e uso característico de figuras de linguagem, expressões corporais relevantes, local e ambientação da entrevista, estímulo do entrevistado em participar da pesquisa, contatos e outras observações pessoais. Vemos relevância nessas observações para construirmos e contrapormos a imagem do entrevistado com seu discurso, podendo elas servir de insumos para questionarmos a validade ou significado de algumas colocações.

O roteiro das entrevistas semiestruturadas compatível (GOLDENBERG, 2000), construído com base no marco teórico e nas entrevistas piloto, é apresentado no Quadro 5.

Bloco Abrangência Objetivos

1 Dados Categóricos O entrevistador solicita que os próprios gerentes de projeto se descrevam quanto aos seus dados categóricos. As seguintes informações mínimas devem ser comuns a todos os entrevistados:

 gênero,  etnia,  idade,  naturalidade e nacionalidade,  religião,  orientação sexual,

 enlaces familiares e afetivos,  classe socioeconômica atual,  formação educacional,  certificações e titulações,  tempo de exercício como GP,  cidade de atuação profissional,  setor de atuação profissional.

2 Trajetória de vida e carreira O entrevistador solicita ao entrevistado que relate toda a sua trajetória de vida percorrida, no âmbito pessoal e profissional, observando as tangências dessas duas vertentes. Também se deseja entender como a gestão de projetos surgiu como opção profissional na vida deste indivíduo.

Neste bloco também devem ser questionados o que

os GP’s percebem como ferramentas e atitudes

fundamentais em suas carreiras. 3 Percepção de sucesso e ascensão na

carreira de gestão de projetos

O entrevistador levanta as percepções do GP quanto a sua progressão de carreira, bem como suas necessidades e requisitos para ascender nela ou na empresa, bem como a importância da certificação em seu cotidiano profissional.

4 Relações sociais e percepção de preconceito na carreira de gestão de projetos

Por fim, o entrevistador questiona ao GP entrevistado como se dão suas relações sociais em um projeto, como ele usufrui das mesmas e as percepções e vivências, se alguma, de preconceitos sobre algum aspecto psicodemográfico.

O foco a ser dado jaz nas soft skills entre o GP entrevistado e os demais stakeholders de seus projetos.

Percebemos também que o roteiro de pesquisa, semiaberto em blocos de conteúdo bem definidos, desmoronou frente ao campo, no que tange somente à sua organização. Durante as entrevistas, tais blocos foram percorridos de forma desestruturada, onde o rumo era ditado pelo conteúdo das conversas. Assim, passeamos naturalmente entre os blocos, não os exaurindo numa primeira abordagem, mas permitindo revisitá-los e complementá-los conforme o desenrolar da conversa.

A visita ao campo se mostrou uma experiência rica e prazerosa, reveladora de nuances e óticas diferentes daquelas que seriam inicialmente abordadas. De fato, como já apontado por Cavedon e Ferraz (2003), quando trabalhamos com histórias de vida trazemos à cena da pesquisa novos fatos e preocupações teóricas, algo que a historiografia ou os relatos oficiais disponibilizados nas fontes escritas não são capazes de captar.