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Vimos que a denúncia de Marx não foi suficiente para antagonizar – no sentido de barrar – o discurso do capitalista; quanto a esse aspecto, podemos in- dagar se ela própria não seria um sintoma, já que esse discurso antes fora renova- do a partir da retomada do discurso do mestre pelo discurso da ciência, nisso não pode ser negligenciada a impregnação da ideologia505 do mercado, ou dizer, uma ciência que pode circular em torno do atendimento de demandas tecnológicas para suprir esse mercado, o que tem como consequência “[...] uma distorção ideológica dos princípios da ciência”506 – ou, como Rabelais afirmara, segundo Lacan: “[...]

ciência sem consciência, disse ele, não é mais que a ruína da alma”507.

De modo semelhante, indagamos como o discurso do analista, inaugura- do por Freud, também celebrado como denúncia circunscrita a uma economia de gozo, na qual, dirá Lacan, o significante intervém provocando efeitos os mais varia- dos, não sofreria ou não passaria de modo contumaz pelas mesmas consequências as quais Lacan aludiu em relação à denúncia marxiana? Poderíamos posicionar a denúncia freudiana ao que teria provocado um recrudescimento do caráter efetivo da profissionalização no seio da formação do analista, fazendo com que os desvios de sua doutrina sejam a tônica nesse processo? Isso não seria justamente aquilo que Freud mais temia?

Cumpre lembrarmos o fato de Freud ter perdido uma batalha política – em termos da concepção “time is money”, ou em relação à Weltanschauung ameri-

cana, ou seja, o poder de apontar os rumos que a formação dos futuros analistas

505 Ideologia no sentido da crença em se obter e manter o poder de domínio. 506 TEIXEIRA, 2005, p. 290.

teriam na sociedade psicanalítica que ele criou. Ademais, já sabemos que uma de- terminada política fracassou – não se trata dos dispositivos do cartel e do passe em si, mas da política em seu entorno, num lugar onde deveria se efetivar o con- ceito de Escola, com “E” maiúsculo, já que aqui se trata da construção conceitual lacaniana, a qual, em tese, deveria subsumir a universalidade do conceito de Esco- la voltada à formação dos analistas. Mas, enquanto o fracasso estava em curso, aconteciam batalhas em outros flancos – a publicidade em torno do ensino lacani- ano, conquistando adeptos ou conquistando fronteiras nas mais diversas áreas do conhecimento, assim como a conquista do espaço universitário.

Resta interrogarmos: por que Lacan implementou uma ação política deli- berada e travou uma verdadeira batalha para conquistar o espaço de ensino da psi- canálise nas universidades francesas? Repetimos, “Se a psicanálise não pode e- nunciar-se como um saber e ser ensinada como tal, ela não tem rigorosamente nada a fazer no lugar onde só se trata disso”508. Isso foi dito meses após os conflitos de maio de 1968 na Universidade, ademais, por estrutura, conforme ele assevera, o universitário tem horror à psicanálise509, pois, como esclarece Souza, é um discurso propenso a:

[...] acomodar as coisas. Uma condição essencialmente diferenciada do im-mundo do sujeito da psicanálise [...]. Além disso, é um discurso que se capacita a dar títulos, a dar importância ao autor ou mesmo a preservar esse Saber que está sempre acompanhado do nome de um autor. Isso quer dizer que aquele que detém o Saber nessa ‘agência’ torna-se capaci- tado a ensinar, a tornar-se ‘ensinante’ daqueles que ocupam a posição do ‘outro’. Uma condição que interroga, mais uma vez, uma das profissões impossíveis de Freud.510

Esse “outro” é justamente o estudante nesse discurso e, tal qual o proletá- rio, ele é explorado – uma “exploração mais ou menos tolerável”511. Já vimos que a verdade imanente ao discurso do universitário é o significante mestre, mas de “[...] um mestre pervertido”512. Havemos de levar em consideração que o momento políti- co é alusivo ao que ocorre “[...] atualmente no nível do discurso universitário”513, por- tanto se trata da reforma do ensino universitário. A crítica de Lacan é cortante: “To- dos, unidades de valor, créditos – tendo na algibeira de vocês o bastão da cultura, 508 LACAN, 2008b, p. 19. 509 Idem, 2003m. 510 SOUZA, 2008, p. 144. 511 LACAN, 1992b, p. 170. 512 Idem, ibidem, p. 174. 513 Idem, ibidem, p. 169.

marechal à bessa, mais medalhas, como nos concursos de animais, que vão etique- tá-los com o que se ousa chamar de mestria. Formidável, terão disso em profu- são”514. Algo semelhante ocorre em relação ao que entendemos ser uma verdadeira “usina de certificados”, pois pode funcionar como “chamariz” com vistas a aumentar a assistência em colóquios e outros encontros universitários.

Roudinesco515 comenta que a mudança da postura política de Lacan diante do ensino da psicanálise na universidade acompanhou a evolução da entra- da em cena da noção de “matema”, oriunda possivelmente do “mitema”, termo u- sado por Claude Lévi-Strauss, e do termo grego “mathema” (conhecimento)516. Com o “matema”, ou no plural, “matemas”, ele reorienta seu ensino e afirma que a psicanálise pode ser transmissível, assim “[...] os discursos já não são mais incom- patíveis, podendo-se, portanto, ensinar a psicanálise na universidade, como um

matema, sem reduzir este último ao discurso universitário”517. Ou seja, Lacan con-

cebeu fórmulas que podem traduzir a teoria psicanalítica e torná-la transmissível. O esclarecimento de Roudinesco pode responder à indagação formulada anteriormente, mas resta outra pergunta: por que a batalha tão acirrada contra a posição de Serge Leclaire – “A idéia [sic] de Leclaire consiste em criar um espaço

universitário, reservado aos praticantes do inconsciente, que seja o mais afastado possível da psicologia”518, por exemplo, o qual, inclusive, era da linha de frente dos combatentes lacanianos, ou seja, jogava do mesmo lado, conforme relata a histori- adora Roudinesco: “A experiência é possibilitada graças aos esforços empreendi- dos por Serge Leclaire, que se bate contra tudo e contra todos para impô-la”519?

Aqui em alusão ao ensino da psicanálise lacaniana na Universidade de Paris VIII. O que estava em jogo – Lacan “[...] obriga Leclaire a se demitir e, de- pois, reina sobre o departamento através de sua guarda”520? Uma estratégia de

514 Idem, ibidem, p. 175. 515 ROUDINESCO, 1989.

516 Lacan aponta no seminário “O ato psicanalítico”, de 1967-1968, versão não comercial, as diferen- ças nas formas de conhecimento, associando-as ao real do imaginário, ao real do simbólico e ao real do real, esse último, lugar da prática analítica a partir do ato psicanalítico : “[...] há três níveis de mathesis [...]. A primeira, [...] Mênon, fornece o exemplo. Eu a centrei sobre um eu leio, a uma

prova reveladora. A segunda, diferente, que é presentificada no tom – é a palavra própria – do progresso de nossa ciência, é um eu escrevo. [...] esse modo próprio de apreensão, sabendo que é aquele do analista e que começa no eu perco. [...] Aí começa o que nos interessa, [...] o campo do lapso, do tropeço, do ato falho” (LACAN, 2001a, p. 61-62).

517 ROUDINESCO, 1989, p. 610. 518 Idem, ibidem, p. 600.

519 Idem, ibidem, p. 600. 520 Idem, ibidem, p. 603.

expansão do lacanismo, com a continuidade do ensino de Lacan, ou seja, assegu- rar que o seu retorno a Freud fosse o definitivo? Concebemos que isso já estava claro, pois, para o bem ou para o mal, para a grande maioria dos que se interessa- vam pela psicanálise, não é razoável deixar de situar o ensino e as contribuições do mestre francês. Freud não mais poderia “prescindir” delas, é dizer, a letra freu- diana estava agora vinculada à letra lacaniana, ou ao retorno que este fez a Freud. O que reflete essa política? O que significa ocupar o espaço desse discurso, o qual, em tese, vai na direção contrária à proposta de Escola de Lacan, pelo menos no que é mais caro em relação à política de formação do analista? Ainda é cedo para apontar resultados, mas interrogamos se essa posição política já não estaria exercendo enorme influência no contexto dessa formação. Para encerrar a peleja, uma citação de Serge Leclaire “O verdadeiro critério de uma empreitada psicanalí- tica encontra-se sempre numa certa forma de denegação apaixonada que a aco- lhe”521.

Acreditamos que qualquer semelhança com a concepção política oriun- da do movimento dos pós-freudianos que não seja mera coincidência, pelo menos no que tem pertinência “numa certa forma de denegação apaixonada que a aco- lhe”, nas palavras de Leclaire, que viu seus esforços em implantar o ensino da psi- canálise na Universidade ser solapado. Para a historiadora, a “moral da história” é:

[...] o discurso universitário [que] produz temas aos quais se dirige como a ‘créditos’. Pretende dominar a verdade por meio da técnica e concebe o sa- ber como uma distribuição pluridisciplinar. Além disso, age em nome do próprio saber, e não no de um mestre capaz de produzir saber.522

Em suma, mesmo apresentando todas as diferenças em relação aos prin- cípios que devem amparar a formação do analista e a transmissão da psicanálise, o campo universitário foi palco de violenta disputa. Talvez ainda seja cedo para avaliar as consequências políticas dessa estratégia para a psicanálise. Há autores que de- fendem entusiasticamente essa aproximação, a exemplo de Roudinesco, que, inclu- sive, pontua o caso brasileiro:

[...] é certo que os países latino-americanos (o Brasil e a Argentina, em especial) estão hoje na vanguarda do renascimento do freudismo, em vir- tude, em primeiro lugar, da força particular dos departamentos de psicolo-

521 LECLAIRE, S. apud ROUDINESCO, 1989, p. 603. 522 ROUDINESCO, 1989, p. 610.

gia instalados nas universidades, lugares onde se privilegia o ensino da psicanálise em detrimento das outras disciplinas.523

Ao mesmo tempo, ela ressalta que “[...] assistimos no mundo inteiro a um fenômeno idêntico ao descrito por Lacan em 1955”524 e explica esse fenômeno pelo fato de que a psicanálise “[...] conquistou o mundo ao preço de uma transforma- ção, até mesmo de uma traição, do ensino freudiano tradicional. Tornou--se, em virtude de seus profissionais, uma ferramenta de psicologização da sociedade”525. Há uma contradição importante, pois as universidades se ocupam em formar pro- fissionais, esses, os quais, segundo a autora, perpetram tais desvios da invenção freudiana.

Contudo, é evidente que há uma diversidade de aspectos positivos da presença da psicanálise na universidade, dentre os quais o enfrentamento de ques- tões da ciência, sobretudo de marcar posicionamento perante a lógica de funciona- mento diante das demandas sociais e de políticas de saúde pública, conforme de- fende a psicanalista Ana Cristina Figueiredo526. A autora estabelece a diferença em relação aos efeitos da transmissão realizada por um psicanalista nos cursos de gra- duação, que, apesar de ser um “saber sobre a psicanálise”, pode “colher efeitos” importantes para a divulgação da psicanálise, enquanto que na pós-graduação há dois vieses, um psicanalista pode se engajar na “[...] carreira universitária, ou seja, ser tomado pelo semblante do saber”527, ou se voltar à produção com vistas a res-

ponder pelos desafios da psicanálise, conforme seu próprio percurso. Nesse caso, uma produção que corresponda ao enunciado lacaniano sobre o cartel.

Já vimos que a concepção de Freud acerca da impossibilidade de pro- fissionalizar a psicanálise se realiza sob uma escritura que perpassa o cerne da formação do analista – tal qual um percurso inacabado por sua natureza –, daí não haver condições lógicas para se inferir sobre uma formação “em” psicanálise, con- forme já salientado. Isso é ratificado por Lacan528, quando diz nunca ter falado de formação analítica, mas de formações do inconsciente, portanto havemos de des- tacar mais uma vez e ter isso como pressuposto de que, em primeiro lugar, a psi-

523 Idem, 2000, p. 152. 524 Idem, ibidem, p. 84. 525 Idem, ibidem, p. 84.

526 FIGUEIREDO, A. C. O psicanalista na experiência universitária. In: CALDAS, H.; ALTOÉ, S. (Org.). Psicanálise, universidade e sociedade. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2009.

527 FIGUEIREDO, 2009, p. 190. 528 LACAN, 1995.

canálise para Freud não pode ser regida sob a mesma lógica de uma profissão. Nesse caso, se algum programa de formação apresentar sinais de tratar a prática psicanalítica como profissão, isso só revela uma contradição de fundo.

Como profissão, há que tomar lugar a categoria de remuneração do fator produtivo “força de trabalho”, e esse pode levar o nome de honorários ou outro nome qualquer ao implicar necessariamente um pagamento a ser realizado a cada sessão, dado que uma análise não é gratuita, não é de “graça” e nem o poderia ser, como veremos no quarto capítulo. Esse custo pode se constituir como fator determinante, ou fator excludente, nessa formação. Afinal, por mais que tenhamos uma doutrina que nos oriente tratar-se da constituição de uma condição lógica descrita no conceito desejo de analista, e aqui a implicação é de natureza ética – a do desejo –, havemos de concordar que essa trilha tem como arrimo condições objetivas, que até podem ser construídas sob o impulso da própria análise – mas nem sempre é assim. Esse ponto não pode ser relegado a somenos da importân- cia.

Apesar de entendermos a diferença existente entre as duas posições maiores na disputa do legado freudiano, uma de resistência ao inconsciente e outra o situando como fulcro na formação do analista, devemos interrogar: a que remetem questões como profissão, regulamentação, burocratização, hierarquia, enfim, essas medidas supostamente protetoras as quais se vão acumulando ao longo da história do movimento psicanalítico? Podemos pensar que a aproximação com a Universi- dade se coloca para resolver um dilema, pois pode justificar ou dar suporte à profis- são psicanalista e, ao mesmo tempo, atenuar a necessidade de lhe impor regula- mentação externa – regulamentação que é totalmente contrária ao pensamento freudiano.

Tais medidas protetoras seriam realmente destinadas à proteção dos de- mandantes de análise? Seria uma preocupação com o charlatão que poderia ocupar o lugar predestinado ao verdadeiro profissional? Nesse caso, essa preocupação já foi sobejamente tratada e amplamente debatida por Freud no texto sobre a análise leiga, de 1926529. Quanto a isso, muito pouco pode ser acrescentado às argumenta- ções emanadas do texto freudiano, assim como nos textos de Lacan produzidos na

529 FREUD, S. ¿Pueden los legos ejercer el análisis? In: FREUD, S.

Obras completas. Buenos Aires:

década de 1950 e 1960. No entanto, não custa lembrarmos com Roudinesco, nesse ínterim, no livro “Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo”:

Toda sociedade [...] atribui um lugar à figura do charlatão, e isso justamen- te por ser incapaz de se reproduzir, salvo definido claramente quem ela re- jeita e quem ela assimila em virtude das normas que estabeleceu para si. Assim, o charlatão, ou seja, qual for o nome que lhe deem, é sempre uma figura do hetereogêneo. Definido a parte maldita, ele é o que escapa à ra- zão ou ao logos: o diabo, o excluído, o sagrado, a mácula, a pulsão, o in- confessável. Mas ele é ao mesmo tempo a droga (phármakon), [...], o bo-

de expiatório ou o mártir que deve ser punido para que a cidade regene- re.530

Ademais, continua a historiadora ao retomar a defesa de Freud em rela- ção à analise leiga, para esse ficara patente que os próprios médicos, desde que não tivessem sido analisados, ou “iniciados” (esse é um entendimento dela), não eram autorizados a praticar a análise. Esses seriam charlatões se o fizessem, de- fendendo, portanto, a autonomia da psicanálise. Roudinesco entende que, por isso, Freud se mantinha hostil à implementação de um curso de psicanálise na Universi- dade, isso certamente cercearia a multiplicidade de saberes que enriqueceram a psicanálise com seus adeptos:

Originários de todos os cantos da Europa, quase todos poliglotas, os freu- dianos dominavam os mais variados campos do saber: ciência, literatura, sociologia, filosofia e antropologia. Poucos deles eram autodidatas. A von- tade de fazê-los entrar num molde único contribuía para uma efetiva redu- ção de seu poder de intervenção social e ideológico.531

Essa argumentação se encerra nesse ponto, mas não sem antes perscru- tarmos se as respostas às indagações formuladas anteriormente não constituiriam um ponto cego, um escotoma, afinal por que a implantação de uma política tão feroz de expansão da psicanálise? Qual a perspectiva em ampliar os horizontes para os campos universitários? Se aceitarmos a condição de uma profissão no âmbito da psicanálise, resta enfatizarmos e demarcarmos tratar-se de um lugar onde os profis- sionais ganham uma remuneração, podendo viver ou sobreviver dela. Seria então leviano ou raso concluir que, aceitando essa condição, poderia ser estabelecido o que se chama um “nicho de mercado” aliado ao campo universitário? Esse ganho implica ou, em tese, é o resultado de uma contrapartida, a suposta venda de uma mercadoria – a força de trabalho do analista –, pelo menos em condições coeteris

530 ROUDINESCO, E.

Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,

2016, p. 361-362.

paribus – uma expressão latina muito utilizada no campo da Economia –, ou seja,

mantidas constantes todas as demais variáveis. Tal campo será incontornável se mantivermos a linha que nos conduz neste trabalho e assim indagamos se fatores como reconhecimento profissional e as leis de oferta e procura no mercado seriam aí operantes?

No entanto, outra visada sobre esse movimento político com vistas à to- mada da Universidade pode ser amparada pela possibilidade de Lacan ter tentado furar o bloqueio ou a lógica desse discurso a partir de suas próprias contradições em relação à posição de saber. Se assim for, essa seria a perspectiva do discurso da histérica, desse modo é possível aludir que é sob essa perspectiva que se aloja a psicanálise no domínio universitário.

Se aceitarmos como pressuposto a concepção de produção no edifício marxiano e acolhermos o entendimento de que seus tentáculos vão além da produ- ção material, remetendo, na verdade, à reprodução de ideias nos laços sociais, às quais, por sua vez, interagem na reprodução das condições da existência dos ho- mens, será preciso considerar um conjunto de questões advindas da inserção da prática psicanalítica no modo de produção capitalista.

De imediato, a especificidade recai justamente no fato de que a produção no dispositivo analítico não ocorre do lado do analista, mas do analisante, portanto, num piscar de olhos, cai por terra a suposta venda da mercadoria força de trabalho, do lado do analista, ou mesmo da prestação de um serviço. Um analista, portanto, não pode vender sua força de trabalho como qualquer outro profissional, haja vista que, em tese, com o rigor doutrinal, ele não “trabalha” ou não “produz” no dispositi- vo. Assim é na teoria, mas, na prática, há o corte, a suspensão ou a interpretação analítica – mesmo que seja controverso o entendimento sobre quem a produz, afinal isso se qualifica como trabalho, o que certamente implica a contrapartida remunera- tória.

Um não trabalho seria uma leitura coerente com a estrutura do discurso do analista, visto que, na posição de agente, ele se equivale ao semblante de objeto “a”, causa do desejo. Quais as implicações desse fato? Na verdade, uma única im-

plicação: no derradeiro momento em que podemos estabelecer que há análise, ou a presença do discurso do analista, é o desejo de analista que opera, conforme visto no capítulo anterior; portanto, o agente aqui é menos que nada (lembrando o título do livro de Zizek). Todavia, numa única sessão há o giro dos discursos, o analisante

não está o tempo todo em análise, nesse caso é possível estabelecer outros laços, a partir do agente de cada um dos discursos, ora o mestre, a histérica, o universitário e o capitalista, talvez o trabalho possa ser alocado nessas outras configurações do discurso, sob o prisma desse instrumental lógico.

Já foi indicado antes que a vertente lacaniana do correlato da produção no discurso é o “mais-de-gozar”, cuja lógica segue a linha marxiana em que subjaz um valor preservado e somado ao processo de produção capitalista, o qual é dene- gado ou é tratado como se ele não existisse, qual seja, o mais-valor. Esse, em tese, atua como o representante do gozo que fora renunciado.

Lacan concebe a função do “mais-de-gozar” como fundamento, pois – repetimos – informa a dependência do homem à linguagem, ou seja, trata-se de fun- ção ainda mais radical de que a posição da mais-valia em Marx532. A linguagem fun- ciona como sintoma do que é obscurecido no homem acerca da relação/proporção sexual, ou o real dessa relação e o discurso do analista opera como aquele capaz de testemunhar essa presença na origem de seu discurso. Assim, com a presença