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Introduction

In document Three essays on family firms (sider 10-17)

Neste segundo capítulo, construo a partir de uma articulação entre teses e argumentos aquilo que chamo de interpretação crítica da experiência musical sobre a qual o pensamento de Adorno exerce notável influência. É importante afirmar que esta interpretação, nos termos em que proponho, não reivindica nenhum tipo de exclusividade pelo uso do predicado “crítica”, pois além de existirem várias outras leituras dessa natureza, novas interpretações críticas ainda estão por vir. Meu objetivo consiste apenas em elaborar uma leitura da experiência com a música que preserve o espírito da Teoria Critica.

Para tanto, na primeira seção, irei explorar dois temas trabalhados por Adorno: a relação entre arte e sociedade e o caráter fetichista da mercadoria musical. Em seguida, a partir da contribuição do professor Jorge Carvalho (1999), mostraremos como o desenvolvimento técnico aplicado ao campo da música condiciona a sensibilidade estética. Aqui o objetivo é explicitar como, para a interpretação crítica, a relação dialética existente entre a arte e a sociedade é de absoluta aproximação e interdependência, pois ao mesmo tempo em que arte pressupõe a atuação livre do artista, vivemos em um momento histórico no qual reina a não liberdade do artista e do consumidor. A padronização dos processos de produção e recepção musicais põe em xeque a autonomia individual e a qualidade da percepção estética. Esta característica da realidade social contemporânea se apresenta no movimento das próprias formas artísticas.

Para a reflexão crítica, a experiência estética é concebida, primeiramente, enquanto um fenômeno social, destituindo assim a primazia das análises puramente esquemáticas59 que, tradicionalmente, abstraem o sujeito e objeto artísticos das relações e determinações histórico-sociais. No caso da música, explico como, para Adorno, a lógica do capital penetrou suas dimensões básicas: a produção e recepção. Na contemporaneidade, com o avanço da indústria para o campo da

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Por análises puramente esquemáticas pretendo designar as interpretações filosóficas a-históricas que não incorporam a influência do elemento histórico como constituidor da experiência. A noção de esquematismo remete ao esquematismo kantiano, esquematismo das formas entendidas justamente em sua completa separação quanto aos elementos históricos.

cultura, o valor de troca das mercadorias sobrepujou o seu valor de uso e a música, enquanto mercadoria, não escapou desse processo de inversão, o qual provocou a infantilização do ouvinte musical e a degeneração da experiência estética. A audição, sentido sem o qual não há experiência musical, sofre considerável influência com a efetivação da lógica do capital no mercado fonográfico. O ouvido está condicionado ao que o Jorge Carvalho indica como uma espécie de princípio de

equalização que, nada mais é, do que um aspecto particular de reprodução técnica

da música que, por sua vez, condiciona a sensibilidade estética.

Na segunda seção, tomo a crítica de Adorno ao jazz para demonstrar na análise de um caso particular, como este tipo de mercadoria, além de expressar a degeneração da experiência estética a partir de sua forma musical, pode ser tomado como resultado do processo de racionalização da música que culminou no tonalismo como uma espécie de sua segunda natureza60. No jazz, encontramos a estrutura fundante do sistema tonal expressa na relação entre acordes dominantes e acordes tônicos (V – I), bem como na dinâmica preparação/resolução que perpassa tanto harmonia quanto melodia – esta de modo mais fraco – de seu repertório. Esta estrutura musical, previsível e racionalizada, marca a presença da lógica social em sua forma interna. Aqui também proponho um exame da influência da noção weberiana de racionalização na concepção crítica de Adorno. Com Weber, é possível perceber que a redução da música a um esquema matemático fechado e racionalizado é anterior à indústria cultural. O temperamento musical, condição necessária para o advento do tonalismo, como mostra o sociólogo alemão, é o resultado do processo de racionalização na música. O jazz, exemplo particular de música tonal e de mercadoria cultural, pressupõe tanto o desenvolvimento da racionalização notada por Weber como a inversão dos valores provenientes de seu caráter de fetiche.

No jazz, cristalizou-se, por exemplo, a ideia de que o performer, na figura do improvisador, desfruta de imensa liberdade quando da aplicação de suas melodias supostamente espontâneas sobre as progressões harmônicas que compõem os

standards. Ao refletir criticamente acerca destes aspectos, concluo com Adorno que

a liberdade do jazz é, efetivamente, a não liberdade. Isso vale para a arte reificada

60 “Argumenta-se como se o idioma tonal dos últimos trezentos e cinquenta anos fosse natureza e como se fosse contra a natureza superar o que está bloqueado pelo tempo, sendo que o próprio fato de tal bloqueio é testemunha precisamente de uma pressão social” (ADORNO, 2009, p. 19).

em geral, pois o artista, ao realizar sua obra, está preso a uma forma socialmente estabelecida e, por conseguinte, com sua liberdade criativa limitada. Entretanto, para Adorno, a arte também é resistência diante da sociabilidade vigente e, mesmo em um tempo de degeneração da experiência estética, há a possibilidade do novo, da insurgência artística diante do que está posto.

Na terceira seção, analiso mais especificamente o debate entre Tonalismo e Atonalismo sob a perspectiva crítica. Em seu artigo, Sobre o problema da Análise

musical (ADORNO; PADDISON, 1982), Adorno aponta o erro fundamental da

compreensão tonal da análise de H. Schenker e da sua defesa da estrutura fundamental da composição. Em seguida, à luz de Filosofia da nova música (2009), passo à interpretação adorniana do impacto que o Atonalismo de Schoenberg provoca no âmbito da música contemporânea, principalmente, no tocante às novas possibilidades estéticas que sua obra traz consigo. Com as composições atonais de Schoenberg, vê-se a possibilidade de uma nova música que é, simultaneamente, resistente ao processo de reificação cristalizado nas estruturas do tonalismo e verdadeiramente artística por se situar para além dos limites impostos por seu momento histórico.

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