Quando se toma como objeto de pesquisa uma prática comunicativa oral (um gênero primário, na terminologia de Bakhtin), coloca-se inevitavelmente a questão de como é possível conceituar teoricamente a linguagem oral e quais são as propriedades específicas dessa modalidade de uso da língua? Por vários motivos, a resposta dessa pergunta não pode ser dada sem levar em consideração a distinção entre a fala e a escrita. Nos limites do presente trabalho, não é possível discutir esse assunto complexo
acautelar contra um engano comum que pode ser desastroso quando se trata de um estudo no âmbito da comunicação oral. Estamos falando de uma atitude irrefletida, à qual Linell (1982) se refere com a expressão written language
bias. De acordo com esse estudioso sueco, trata-se de um vício que penetra
grande parte da pesquisa linguística tradicional, causando consequências profundas e, de certo modo, desastrosas para a construção do objeto de pesquisa da linguística. A acusação de Linell diz respeito ao fato de que não há um ponto de partida neutro na ocupação científica com a linguagem oral. É um fato patente que os textos escritos representaram durante séculos o objeto preferencial dos gramáticos e linguistas e que, portanto, determinam ainda hoje nossa consciência linguística, tanto que as particularidades da língua falada ainda são percebidas por muitos como desvios da língua escrita. Assim, pois, Halliday (1989, p. xv) observa com razão no prefácio do seu livro sobre Spoken
and written language:
Para a maioria das pessoas letradas, ‘língua’ significa ‘língua escrita’. Falamos em como as letras são pronunciadas em vez de mais exatamente, como os sons são escritos. Dizemos que nossa língua é ‘não-fonética’, querendo dizer que as formas faladas não se harmonizam com o sistema escrito – enquanto, na verdade, são as formas escritas que não se harmonizam com o sistema de sons. Até mesmo a noção de ‘palavra’ é ligada à modalidade escrita. E quando alguma coisa está escrita, é muito mais provável que acreditemos nela. [...] Contudo a fala veio primeiro, por alguns milhões de anos; e ela vem primeiro em nossa história de vida individual. Podemos ter aprendido a ler e escrever, mas ainda assim continuamos a falar e a escutar: e continuamos a aprender falando e escutando. O fato de estarmos menos conscientes dos processos da fala não os faz menos importantes. Alcançamos diferentes objetivos por meio da língua falada e da língua escrita; mas nenhuma tem um valor superior sobre a outra.
A percepção de um suposto déficit da fala (em comparação com a escrita) tem sua razão de ser em parte no fato de que as abordagens analíticas e as categorias descritivas da linguística foram desenvolvidas à base de frases, orações e textos escritos. Todavia, quando entramos no campo de pesquisa da linguagem oral, percebemos logo que esses métodos e conceitos têm apenas uma utilidade limitada. Como se sabe (KOCH, 1998a, p. 66-110; 1998b, p. 59- 117), a fala não se organiza por orações da mesma maneira como um texto escrito. As peculiaridades sintáticas e discursivas e os traços típicos da
interação oral não podem ser descritos adequadamente com as ferramentas conceituais das gramáticas da língua escrita, que se baseiam nas unidades básicas letra, palavras, oração e texto. A comunicação oral pode apenas ser segmentada eficientemente de acordo com as cinco unidades básicas: conversação, turno, unidades funcionais, palavras e sons.
Partindo desses dois conjuntos de unidades básicas, é possível indicar uma série de características específicas que distinguem as duas modalidades de uso da língua: na fala, observa-se, por exemplo, que os interactantes recorrem aos recursos dêiticos para orientar-se no espaço comum de percepção e para referir-se a objetos extralinguísticos; na escrita, tal conhecimento precisa ser lexicalizado e apresentado em estruturas proposicionais. Na escrita, a conectividade e os recursos fóricos são representados explicitamente; na fala, os recursos coesivos, muitas vezes, devem ser inferidos pelo ouvinte. Na fala, a organização do turno caracteriza- se por enunciados truncados, pausas, hesitações, correções, inserções, repetições e parafraseamentos; os textos escritos, no entanto, constituem-se, geralmente, de enunciados que têm a forma de uma oração completa. Aliás, podemos dizer que os textos escritos representam resultados do planejamento, enquanto as atividades orais são planos em execução. Além disso, na fala, as ações linguísticas aparecem em sequências e encadeamentos; na escrita, porém, as ações linguísticas são ligadas apenas por encadeamento. Outrossim, as práticas orais são encaixadas na comunicação corpórea e não verbal dos gestos e mímica, enquanto as práticas da escrita dependem, exclusivamente, da representação medial. Em resumo, a oralidade distingue-se da escrita, tipicamente, pelo baixo grau de planejamento e pela editoração linguística on-line, pela proximidade situacional, pelo caráter provisório das proposições e pelo fato de que o enunciado não é a única fonte de informação.
Outro efeito da predominância da escrita em nossa cultura é o interesse desproporcional pelo produto da atividade linguageira em detrimento da preocupação com os processos de produção e recepção textuais; e para mencionar mais uma consequência da tendenciosidade da linguística em favor da escrita, convém lembrar que o hábito de esquadrinhar as propriedades dos
estudo da fala contentaram-se durante décadas em focalizar apenas a parte verbal da comunicação oral, esquecendo-se sistematicamente do caráter multimodal da interação comunicativa face a face. Essa omissão contribuiu em julgamentos preconceituosos que conferiram à escrita uma aura de objetividade, legitimidade e pureza, enquanto a fala ficou com o estigma de ser subjetiva, imperfeita, inferior, pobre e indigna de estudos mais aprofundados.
Todavia, a predileção dos estudiosos pela língua escrita, naturalmente, não implica que a língua falada seja, de fato, menos organizada e estruturada que a escrita – afinal, ambas são manifestações do mesmo sistema linguístico – mas significa que muitos linguistas deixaram de perceber que tanto a fala quanto a escrita apresentam seu próprio tipo de complexidade, que tem sua origem nas peculiaridades de cada um dos dois meios:
A complexidade da língua escrita é estática e densa. A da língua falada é dinâmica é intrincada. A complexidade gramatical assume o lugar da densidade lexical. [...] A complexidade da língua escrita é uma densidade de substância, sólida como a de um diamante formado sob grande pressão. Ao contrário disso, a complexidade da língua falada é o intrincado do seu movimento, líquido como aquele de um rio correndo rápido. Para usar uma analogia comportamental: a estrutura da língua falada é a de um tipo coreográfico (HALLIDAY, 1989, p. 87).
Uma investigação objetiva das causas desses dois tipos de complexidade revela logo que lidamos simplesmente com duas modalidades de uso da língua que estão submetidas a diferentes condições de produção e recepção. Por conseguinte, em vez de desvalorizar a fala por não ser mais o meio principal em nossa cultura para conseguir acesso ao poder e aos privilégios materiais e imateriais, é mais oportuno pensar essas duas modalidades em termos de três aspectos interrelacionados: “a natureza do meio, as funções às quais serve e as propriedades formais apresentadas” (HALLIDAY, 1989, p. 78).
Sobre as propriedades formais, já fizemos algumas observações oportunas nos parágrafos acima. No que diz respeito às características do
meio, é imediatamente evidente que, na fala, os interlocutores costumam compartilhar o mesmo contexto espácio-temporal. A comunicação oral, portanto, caracteriza-se por um monitoramento on-line que se beneficia do uso permanente do canal de retroalimentação pelo(s) ouvinte(s) (feedback) e pela abundância de pistas contextuais (gestos, mímica, modulações de voz, pausas, etc). Além disso, é comum que as contribuições numa interação face a face sejam menos planejadas ou pré-organizadas do que na escrita e, sendo efêmeras, não sobrevivem ao momento da sua produção (a não ser que sejam gravadas). Portanto, é natural elas conterem imperfeições, negociações e edições on-line. Falando, enfim, sobre o terceiro aspecto mencionado por Halliday (id.ibid.), convém destacar que a fala e a escrita distinguem-se por funções e distribuições claramente diferentes: a língua falada – sensível ao contexto e intensamente entrelaçada com a situação de fala – “tem sua função central na área da realização interativa de situações concretas”; ao contrário disso, a língua escrita – enquanto método para emancipar a ação verbal da sua fugacidade – “tem sua função específica na distribuição espácio-temporal e na tradição de enunciados e textos” (FIEHLER, et al., 2004, p. 20).
Quanto à fugacidade da ação linguística como critério determinante da língua falada, consta que essa propriedade é, de uma maneira geral, a condição prévia para sua eficiência primária como “processo que decorre da natureza ou da vontade de um agente social e do qual resulta a criação ou a modificação da nossa realidade” (EHLICH, 1994, p. 18). Observa- se, no entanto, que, em certos casos específicos, essa fugacidade frustra a eficácia da ação verbal. Desse modo, não há como negar, por exemplo, que especialmente no domínio da transmissão de conhecimentos a produção transitória de enunciados sonoros torna-se ineficaz. Com se sabe, muitos conhecimentos são organizados, essencialmente, para garantir sua própria continuidade. A possibilidade de memorizar o saber desliga o agente social da imediatidade da situação concreta em que se encontra num dado momento e permite a conservação da ação verbal para sua reprodução em outros momento e/ou outros lugares. Com a introdução da dimensão da tradição, Ehlich (id.ibid.) estabelece uma distinção funcional entre o texto e o discurso cuja nitidez, em nosso entender, supera todas as classificações anteriores.
estabelece seu conceito de texto:
Do ponto de vista da história da espécie humana, a superação da efemeridade das ações linguísticas individuais ocorre através da formação da categoria linguística “texto”, que constitui o meio par
excellence para criar a possibilidade de se realizar uma tradição
comunicativo-linguística. [...]. O que é essencial para o texto [...] é uma mudança estrutural dos recursos linguísticos que se manifesta, sobretudo, na constituição de novas formas. Essas formas têm a função de fundamentar tradições e levá-las a efeito através da ativação de faculdades especiais da memória. Além disso, elas garantem, através da memorização, que a fugacidade da ação linguística seja superada de tal maneira que sua conservação ultrapasse a reinstanciação simples da ação imediatamente encaixada numa situação comunicativa. Chamaremos a esse processo de “textualização”. Para sua realização, não é necessário abandonar a modalidade oral de uso da língua porque, em comparação com a totalidade das ações linguísticas de um grupo social, os casos da textualização devem ser qualificados como “raros”. [...]. A conservação se torna possível devido à produção de uma situação de fala artificialmente repetida, cujo caráter artificial se faz notar, imediatamente, pelo fato de ser encenada para os actantes. É precisamente nesse aspecto que essa situação artificial se distingue da instanciação simples de uma ação linguística que tem sua razão de ser nas necessidades da ação, e, portanto, no surgimento repetido do motivo de realizar uma ação linguística, ou seja, de atualizar o padrão acional estabelecido. O caráter ostensivo da textualização significa, ao mesmo tempo, que a conservação da ação na memória é realizada conscientemente.
Se seguirmos essa linha de pensamento, podemos concluir que há, no mínimo, dois métodos para realizar a conservação da ação linguística efêmera, ou seja, para produzir textos. Primeiramente, os textos que foram memorizados e são reproduzidos oralmente formam o conjunto dos textos orais. Culturas orais, portanto, dispõem de textos e de uma tradição. Veja bem, tire isso Ehlich (op.cit., p. 19) até realça que, do ponto de vista histórico, os textos orais representam – em comparação com os escritos – o fenômeno mais comum e muito mais antigo.
De fato, a conservação da ação linguística efêmera por meio da escrita representa um método que, em princípio, concorre com as formas orais dos textos e que, somente aos poucos, perdeu seu encaixe na situação concreta. – embora seja verdade que coexistiu, durante muito tempo, como forma de conservação, considerando-se as formas orais dos textos, e que deixou essa condição de coexistência apenas recentemente, se fosse julgada de acordo com as dimensões históricas envolvidas.
Por outro lado, é óbvio que a escrita representa, hoje, a forma mais importante de conservação da ação linguística, pois, como se sabe, na cultura ocidental, as práticas da escrita (o letramento) assumiram muitas funções da tradição oral e aumentaram enormemente as possibilidades da memorização. Contudo, já que a fala, como forma de produção textual-discursiva com prioridade histórica, tem um aparato disponibilizado pelo próprio ser humano (cf. MARCHUSCHI, 2000, p. 25), é de se pressupor que os recursos verbais e não verbais para ancorar a comunicação na situação de fala são tão adaptados às condições particulares da oralidade que a mudança para a modalidade escrita do uso da língua atinge todas as dimensões da interação comunicativa. A dissociação da situação de fala nas práticas da escrita, então, tem consequências para a própria ação linguística, para os participantes envolvidos, para a representação da situação de fala em procedimentos típicos à modalidade escrita, para a formação de novas formas textuais e para a relação entre língua e conhecimento (EHLICH, 1994, p. 19).
Voltando ao nosso assunto principal, ou seja, a língua falada, deixemos de lado as consequências socioculturais e discursivas provocadas pela mudança para a modalidade escrita, as quais Ehlich descreve pormenorizadamente no seu trabalho seminal, e perguntemos: como é que se realiza a ancoragem dos recursos verbais e não verbais na situação de fala? Ora, para poder determinar em que medida as propriedades específicas de gêneros orais como a fofoca podem ser vistas como efeitos das condições básicas da comunicação oral, é preciso ver primeiramente quais são as características em jogo que, supostamente, todas as práticas orais tenham em comum. Fiehler et al. (2004, p. 53) apresentam a seguinte lista como ponto de partida para a discussão do processo histórico de diversificação e variação da comunicação oral original:
i. no mínimo, dois partidos, comunicam (para realizar determinados fins),
ii. estão copresentes numa situação comum, iii. numa percepção recíproca sensitiva,
comunicativos,
v. com influência mútua permanente,
vi. com produção física transitória (de enunciados sonoros e de movimentos corporais) e
vii. numa sucessão temporal.
Certamente, podemos considerar as duas últimas condições como os melhores candidatos a propriedades universais da comunicação oral. Pelo que nos consta, todas as práticas comunicativas orais constituem-se como atividades semióticas pela produção corporal de sons e/ou gestos significativos fugazes que se sucedem no decorrer do tempo. Retomando Fiehler et al. (2004, p. 54), acreditamos também que, em tempos remotos, as outras condições ou propriedades mencionadas foram igualmente relevantes para todas as práticas comunicativas orais, mas – como os autores explicam – no decorrer do desenvolvimento histórico ocorreram, no mínimo, três mudanças decisivas que levaram a uma diversificação e variação do repertório primitivo de gêneros comunicativos orais dos nossos ancestrais. Em primeiro lugar, cabe mencionar aqui a elaboração de práticas orais de reprodução que se devem à capacidade humana de memorizar textos pré-fabricados para representá-los ou reproduzi-los oralmente em outros momentos ou lugares (por exemplo: mensageiros, palestrantes, atores, apresentadores de televisão, etc.). Em segundo lugar, é preciso mencionar o desenvolvimento de gêneros comunicativos institucionais que possibilitam que um dos partidos não precise mais participar pessoalmente para ver suas finalidades comunicativas realizadas. Finalmente, é oportuno destacar a diferenciação e ampliação das possibilidades comunicativas em virtude do desenvolvimento de numerosos aparelhos técnicos que permitem a conservação de acontecimentos fugazes (secretária eletrônica, gravador de áudio, câmera de vídeo), a expansão da situação comunicativa sobre espaços muito distantes (telefone, conferência de vídeo, programas de rádio e de televisão) e o aumento do número de participantes (microfone, amplificador, satélite, rádio, televisão, etc.).
As possibilidades e necessidades comunicativas que surgiram em decorrência das mudanças mencionadas diferenciaram e aumentaram o espectro de práticas comunicativas orais, dando impulsos à produção de um número enorme de novos gêneros comunicativos e, ao mesmo tempo, relativizando e modificando as condições básicas da comunicação oral. Levando em conta essas mudanças profundas, a lista atualizada de condições básicas da comunicação oral inclui, então, os seguintes itens (FIEHLER et al. 2004, p; 56):
i. efemeridade/fugacidade, ii. temporalidade,
iii. número e tamanho dos partidos,
iv. copresença dos partidos e comunhão de situação, v. reciprocidade da percepção,
vi. multimodalidade das ações comunicativas, vii. interatividade,
viii. ponto de referência da comunicação, ix. institucionalidade,
x. distribuição dos direitos de falar e de propor temas, xi. preformulação das contribuições.
Ainda de acordo com os mesmos autores (id.ibid.), é de se entender que
as condições (i) e (ii) valem para todas as práticas comunicativas originais. As condições (iii) até (iv) tem sua origem na caracterização da comunicação oral original; contudo, agora não valem mais para todas as práticas orais, mas apenas para determinadas classes. Seu status então mudou de condição geral para dimensão de
diferenciação. Elas possuem agora propriedades variáveis que
diferenciam classes de práticas comunicativas. Foram acrescentadas como novas, as condições (viii) até (xi) que, a nosso ver, diferenciam também classes essenciais de práticas comunicativas. Uma vez que satisfazem as condições (i) e (ii), mas se distinguem em grau maior ou menor no que concerne às condições (iii) até (xi), todas as práticas comunicativas orais são associadas umas com as outras pelo conceito da semelhança de família (no sentido de Wittgenstein).
podemos perguntar agora qual é a relevância dessas condições para a produção de um gênero oral específico. Como já foi dito, toda enunciação realiza-se sob as condições da efemeridade/fugacidade e da temporalidade da comunicação oral. Além disso, é de se pressupor que todos os enunciados são produzidos sob alguma variação das condições básicas (iii) até (xi).
Juntas, essas condições formam um enquadre específico para cada ato concreto de comunicação oral, que dá aos participantes certas possibilidades enquanto não permite outras. Entre uma série de outros aspectos, esse enquadre codetermina a formação de um enunciado concreto no decorrer de uma conversação. Para os participantes de uma interação, a ativação de um enquadre diferente traz exigências e tarefas comunicativas diferentes e exige a adaptação do comportamento comunicativo a essas condições diferentes (FIEHLER et al., 2004, p. 82).
Levando em consideração o que Fiehler et al. descobriram sobre as condições básicas da comunicação oral e a variabilidade da maioria dessas condições de acordo as práticas comunicativas em jogo, aparece uma objeção importante que se pode apresentar contra a perspectiva dicotômica: enquanto as diferenças observadas de estrutura, função e distribuição estabelecem, de um lado, uma heterogeneidade total entre a escrita e a fala, sugere-se, do outro, que haja uma homogeneidade em cada uma das duas modalidades que, de fato, não existe. A fala tanto quanto a escrita realiza-se sempre dentro de um repertório de práticas comunicativas socialmente constituídas e desenvolvidas, que se baseiam em métodos convencionais para realizar finalidades comunicativas recorrentes. As regras que descrevem esses métodos não são tão rígidas que mudanças ou misturas sejam impossíveis.
Ao contrário, embora precisem ser relativamente estáveis para permanecerem reconhecíveis, é evidente que os gêneros comunicativos por meio dos quais essas práticas se realizam nas diferentes esferas de atividade humana – enquanto estão em uso numa cultura viva – se adaptam permanentemente às mudanças nas práticas sociais. Além disso, pode-se afirmar também contra essa suposta homogeneidade que, de fato, há um conjunto de gêneros que existe apenas numa forma escrita (por exemplo: o protocolo) e que há outro que ocorre apenas na modalidade falada (por
exemplo: a confissão auricular); mas que há ainda um terceiro que pode ser instanciado tanto numa forma oral quanto numa escrita (por exemplo: a fofoca) e que há, enfim, um quarto conjunto de gêneros que, de uma maneira ou outra, envolve as duas modalidades sucessiva ou simultaneamente (por exemplo: a representação de uma peça de teatro, o pronunciamento de uma sentença judicial anteriormente redigida por escrito, a apresentação do jornal na televisão).
Podemos concluir, então, que a distinção dicotômica é apenas uma abstração (cf. MARCUSCHI, 2000, p. 25-28) que reflete a experiência cotidiana de que existem diferenças profundas entre essas duas formas de produção textual-discursiva. A distinção entre fala e escrita está nas mentes das pessoas porque é relevante e está presente em inúmeras situações na vida cotidiana. Todo mundo sabe, por exemplo, que mostrar a nota fiscal em