2.1 Swell Packer
2.1.1 Introduction
A infecção por Leishmania pode evoluir de forma crônica e, mesmo quando tratada, pode persistir em células do sistema imunológico, principalmente macrófagos e células dendríticas (210-212). Dados mostram que provalvemente não há cura parasitológica, mesmo com tratamento específico. A infecção por Leishmania infantum pode evoluir para doença naqueles indivíduos que apresentam falha em iniciar a resposta Th1. É então estabelecido um estado no qual a evolução na interrelação entre Leishmania- hospedeiro depende de mecanismos de escape que as diferentes espécies de Leishmania apresentam e a capacidade de resposta do sistema imunológico do hospedeiro, capacidade essa que varia e acordo com fatores ambientais e genéticos. Evidentemente que há fatores ambientais confundidores, como a falta de condições de saneamento e carência nutricional, fatores relativos aos vetores, que podem modular a resposta imune, mas os estudos de varredura apontam diferenças genéticas marcantes (213;214).
Determinadas populações humanas se originaram a partir de pequenas quantidades de pessoas que migraram de um local a outro, onde se estabeleceram e expandiram. Essas populações representam um subconjunto da população original, com freqüências alélicas e genotípicas que podem ser diferentes. Esse fenômeno é denominado efeito do fundador (132). Migrações exploratórias a grandes distâncias, conflitos armados ou modificações climáticas abruptas podem levar populações a se espalhar em grupos em busca de locais geográficos com condições favoráveis ao assentamento, criando populações geradas pelo efeito do fundador. A migração e estabelecimento de índios em direção sul a partir do Alasca até a América do
sul são exemplos. Outro exemplo é o que se deu no Sudão, ano de 1984 quando, devido a uma grande seca, dezenas de indivíduos da etnia Masalit migraram e se estabeleceram na vila de Um Salala que, por sua vez, havia sido estabelecida somente em 1969. Em 1991 a vila contava com 1430 habitantes vivendo em más condições de infra-estrutura (215).
No Sudão várias vilas surgiram como a de Um Salala referida acima. Tais populações comportam-se da mesma maneira com respeito à susceptibilidade à infecção por L. donovani, mas possuem diferenças genéticas interessantes. Essa variação e seus efeitos sobre ao desfecho da infecção por Leishmania foi investigada em estudos de varredura de genoma (213;214).
Em 2003, Bucheton e colaboradores estudaram a população da vila de Barbar El Fugara, no leste do Sudão, que sofreu uma epidemia de leishmaniose visceral entre 1995 e 2002. A maioria das pessoas da vila pertence à etnia Aringa e se estabeleceram na região por volta de 1949. O estudo encontrou diferenças no perfil epidemiológico de indivíduos pertencentes aos diferentes grupos étnicos encontrados na vila: dos indivíduos com menos de 30 anos de idade, 34% daqueles da etnia Aringa desenvolveram a doença, contra 10% daqueles da etnia Hausa e 14% da etnia Fellata. Estudando somente os indivíduos Aringa, mais susceptíveis, o grupo encontrou uma área de associação no cromossomo 22q12, com alto LOD escore (3,50).
Em 2007 duas vilas sudanesas, Um Salala e El Rugab também no leste do país, foram investigadas (214). Ambas encontram-se dentro da área endêmica para leishmaniose visceral e são povoadas por membros da etnia Masalit que povoaram a região por volta dos anos 1980, conforme citado
anteriormente. As duas vilas encontram-se a 40km uma da outra e, em 1997 contavam com 1225 (Um Salala) e 2084 (El Rugab) habitantes. Além de realizar a varredura de genoma com 360 marcadores microssatélites, Myler e colaboradores genotiparam pessoaspara marcadores de cromossomo Y. Assim como os indivíduos da etnia Aringa, os da etnia Masalit são susceptíveis à leishmaniose visceral. Este estudo encontrou picos de associação nos cromossomos 1, 5, 6 e 13, com LOD escores variando entre 0,77 a 2,83. Após estratificação da análise por vila e refinamento da varredura, foram encontrados picos de associação diferentes no cromossomo 1 para cada vila (1p22 em Um Salala e 1q31.3 em El Rugab) e um pico comum para ambas no cromossomo 6 (6q27). A estratificação por haplogrupos de cromossomo Y mostrou dois haplótipos principais em ambas as vilas, E3b1 (denominado E1b1b1a desde 2008 (168)) e A3b2. O pico de associação no cromossomo 1p22 encontrado em Um Salala teve contribuição somente dos indivíduos do haplogrupo E1b1b1a e nenhum dos indivíduos desses dois grupos mostrou associação com 1p22 em El Rugab. O pico de 6q27 nos indivíduos de El Rugab foi específico para indivíduos do haplótipo E1b1b1a e nenhum indivíduo de Um Salala, E1b1b1a ou A3b2 contribuiu para esse pico em 6q27.
Apesar de os grupos étnicos serem semelhantes em termo de susceptibilidade não houve sobreposição de regiões de ligação entre os dois estudos realizados. Miller e colaboradores propõem que essa diferença pode ter ocorrido porque o efeito do fundador pode ter levado genes diferentes a controlar a susceptibilidade nas diferentes vilas. Esses resultados tomados em conjunto reforçam a idéia de que genes diferentes controlam a susceptibilidade
à leishmaniose visceral de maneira origem-específica, como conseqüência da influência do efeito do fundador.
O resultado de varredura do genoma realizado em população do estado do Rio Grande do Norte, apresentado aqui, realizado, permite reforçar essa idéia de que o efeito do fundador pode exercer influência na susceptibilidade. Embora a doença no Brasil seja causada por uma espécie de Leishmania diferente, as características fisiopatológicas da LV são semelhantes. Ainda assim encontramos regiões diferentes daquelas dos estudos no Sudão (regiões de associação nos cromossomos 9, 15 e 19); Obviamente nossa população é bastante diversa daquela analisada nos estudos descritos acima, já que aquela população é geneticamente mais heterogênea enquanto que a nossa é composta por indivíduos de vários grupos étnicos.
Um passo importante para a melhor avaliação das causas na discrepância entre regiões genômicas assinaladas pelo estudo de varredura seria a estratificação dos indivíduos analisados por origem étnica, utilizando marcadores de cromossomo Y como realizado por Miller e colaboradores. Foi também realizada uma varredura de genoma utilizando famílias residentes em área endêmica para leishmaniose visceral em Belém do Pará. Este estudo indicou três regiões genômicas em ligação com LV: 6q27, 7q11.22 e 17q11.2- q21.3 (216). Diferentes estudos apresentam diferentes regiões do genoma relacionadas ao desfecho da infecção por L. infantum. Tomados em conjunto esses resultados demonstram a complexidade do componente genético da resposta imune frente à infecção por L. infantum.
A análise de correlação entre desfecho da infecção e background genético foi feita utilizando o Teste exato de Fisher com marcadores escolhidos
dentro a região indicada por uma varredura por ligação em todo o genoma (análise de ligação genética) previamente realizada em famílias da população de Natal (175). Os resultados revelaram que um marcador no cromossomo 9 (D9S925) está associado ao desfecho da infecção nos indivíduos de origem paterna europeia. Este resultado é interessante porque, apesar de termos realizado uma análise de associação utilizando alelos de microssatélites, conseguimos ainda uma significância em um dos marcadores. O ideal teria sido utilizar marcadores bialélicos que viabilizassem uma análise adicional de regressão logística. Ainda assim, a confirmação dessa região no cromossomo 9 nos dá a idéia de que os genes na vizinhança deste marcador devem ser avaliados em busca de variações que possam explicar a associação.
Outro estudo realizado com o mesmo conjunto de indivíduos de Natal – RN encontrou evidências de três subpopulações formando a estrutura étnica da população, desta vez utilizando marcadores microssatélite (176). Foi demonstrado que um marcador no cromossomo 22 (D22S1169) apresentou excesso de ancestralidade européia em indivíduos com LV. Isto pode significar que europeus que vieram explorar e colonizar a região conhecida hoje como o estado do Rio Grande do Norte carregaram alelos controlando a susceptibilidade à doença visceral causada por L. infantum. O nosso estudo não reproduziu este resultado, mas o teste Exato de Fisher que realizamos em função da origem étnica mostrou um valor p próximo da significância exatamente na comparação de indivíduos LV x DTH+ de origem européia.