Segundo Judite Stronzake em reportagem escrita na página de internet do MST73, o
Instituto de agroecologia Latino-Americano Paulo Freire é resultado de um esforço amplo e
coletivo para a formação de militantes “com consciência ideológica e técnica em agroecologia”, é a construção de um território de integração latino-americana e de solidariedade entre organizações sociais para a construção de um novo projeto de sociedade. Importante mencionar que para este projeto fosse levasse a cabo, centenas de militantes do campo e da educação convergiram esforços desde seus espaços, de seus posicionamentos políticos, suas organizações ou instituições, destinaram tempo, energia, debate e ações concretas para que o mesmo se efetivasse. O significado disto aparece expresso abaixo:
Resultado de uma soma de esforços com objetivo de qualificarmos e avançarmos na formação/ educação política e técnica da juventude que mora nas comunidades, a escola contribui para recuperar as sementes crioulas, alterar o modo de produção, concretizando a soberania alimentar e a organização social e econômica local. Investir em educação e formação estão entre as principais linhas dos destes movimentos sociais envolvidos. [...] O Iala Paulo Freire constitui-se como uma ferramenta de formação político- ideológica e técnica dos camponeses e indígenas. Serve como instrumento de luta da classe trabalhadora internacional e de solidariedade entre os povos em luta. Um novo aprendizado para todas as organizações e movimentos do campo, de como unir a ideologia com a técnica a serviço da luta dos trabalhadores. O Iala é uma construção coletiva, um território de integração e solidariedade entre todos os lutadores e lutadoras das organizações de todos os países. (STRONZAKE, [201-], não paginado)
73 STRONZAKE, Judite. MST. IALA: do sonho coletivo à experiência concreta. In: MST. [201-]. Disponível em: <http://www.mst.org.br/jornal/291/internacional>. Acesso em março de 2013
O Projeto IALA nasce no mesmo período e nas mesmas condições objetivas que o Projeto ELAA, acima mencionado. Nasce também por ocasião do Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em janeiro de 2005. Nasce de um acordo firmado entre governo bolivariano da Venezuela, Via Campesina, Governo do Estado do Paraná, e Instituições de Educação do Brasil e Venezuela nos marcos da ALBA, um protocolo de intenções e compromissos, o chamado acordo de Tapes.
Posteriormente já na Venezuela, para dar prosseguimento aos acordos e construir um curso em agroecologia, é assinado uma segundo termo de cooperação, agora de caráter técnico, chamado “Acuerdo de Cooperación em Materia Tecnico-Agrícola Vegetal entre LVC y el Movimiento de los Trabajadores Sin Tierra (MST), la República Bolivariana de Venezuela” , através do Ministério de Agricultura e Terras e o Instituto Nacional de Terras, O Centro Genético Produtivo Florentino C.A. e a Prefeitura do Município de Alberto Arvelo Torrealba.
Este documento, assinado por Hugo Rafael Chavez Frías (então presidente da República Bolviariana de Venezuela), João Pedro Stedile (MST), por Antonio, Albarrán Moreno (então Ministro de Agricultura e Terra), (Antonio Albarrán Moreno), e Hugo de los Reyes Chavez (governador do Estado de Barinas), no dia 26 de setembro de 2005.
Estes acordos foram seguidos pela elaboração de ma proposta curricular de um Programa de Engenharia Agronômica com ênfase em agroecologia que inicialmente seria desenvolvido junto à Universidade Bolivariana de Venezuela (UBV), e que mais tarde seria constituído como IALA (Instituto de Agroecologia latino-americano).
Foram realizados encontros e seminários, já desde este momento de caráter internacionalista, com a finalidade de conceber, de construir a concepção do que seria o IALA. Participou deste momento movimentos sociais afrodescendentes de Venezuela, representantes da UBV, educadores como Miguel Altieri e Pinheiro Machado, dirigentes da Via Campesina do México (UNORCA), Brasil (MST), Nicarágua (ATC), Argentina e Colômbia.
Momentos estes que definiram o nome do Instituto homenageando ao educador brasileiro Paulo Freire, a sede do Instituto, questões referentes ao perfil dos ingressados, e aspectos metodológicos, o desenho curricular, a estrutura organizativa do instituo, e grupos de trabalho.
Nos meses de outubro novembro de 2006 e janeiro de 2007 foram se agrupando os/as militantes selecionados desde as organizações sociais partícipes da Via Campesina. Mesmo ainda sem as todas as condições objetivas para a existência do Instituto, nem mesmo do curso,
chegaram na Venezuela 183 educandos/as (62 mulheres e 121 homens), militantes sociais de países como México, Guatemala, Honduras, El Salvador, Colômbia, Equador, Peru, Chile, Argentina, Brasil, Nicarágua, Paraguai e Venezuela.
Estes militantes viviam na Cidade Esportiva de Barinas, e foram inscritos no curso de Produção Animal na Unellez para cursar disciplinas básicas, como química, física, matemática, biologia, etc. Neste momento realizavam estudos e alguns trabalhos voluntários junto ao Centro Florentino.
Enquanto isso se formou a comissão de assessoria acadêmica coordenada por Dr. Maria Egilda Castellanos para a construção do documento de fundação do Instituto. Este momento contou com a participação da comissão de assessoria acadêmica ALMA MATER (MPPES) e da Via Campesina através de representantes dos movimentos: Movimento dos trabalhadores Sem Terra - Brasil, Confederação Nacional de Organizações Camponesas, Indígenas e Negras de Equador – FENOCIN, e Movimento Campesino de Santiago de Estero – Argentina.
Em janeiro de 2008, o presidente Chávez recomenda a aprovação do decreto de criação do Instituto, e no mês seguinte, os educandos ocupam simbolicamente a área destinada para a construção do mesmo. Neste período já se contava com apenas 67 educandos. A grande maioria retornou aos seus países, ou inscreveu-se em outros cursos sob o acompanhamento de suas organizações, por conta da demora de criação oficial do IALA, ou mesmo por dificuldades político-organizativo causadas numa primeira experiência desse caráter. Em 15 de abril de 2008 é aprovado o decreto de criação oficial do instituto, e em agosto de 2008 aparece em gazeta oficial a nomeação da diretiva do Instituto. O Instituto então passa a ser regulamentado, subscrito ao Ministério de Poder Popular para o Ensino Superior de Venezuela. A regularização das disciplinas se dá desde então.
O curso está organizado num programa que prevê o estudo das seguintes disciplinas: a. Ciências Bases: matemática, física, química, bioquímica, agroestatística,
biodiversidade básica;
b. Básicas de Engenharia: biodiversidade ambiental, botânica aplicada, diversidade e melhoramento genético, topografia, riegos e drenagens, máquinas agrícolas, eco- regiões, trama ecológica, climatologia; agricultura ecológica, fisiologia vegetal, anatomia e fisiologia animal, manejo de solo, recuperação de solos e corpo de água. c. Engenharia Aplicada: bioconstruções, agrobiotecnologia saberes populares e
tecnologia agrícola, energias alternativas, manejo integrado de pragas e doenças, sistemas agrícolas integrais, produção e reprodução de espécies vegetais, manejo de
agroecossistemas, cultivos agroecológicos, agricultura urbana, reprodução de espécies animais, nutrição animal alternativa e plantas forrageiras, marco legal agrícola, legislação agrícola, manejo ecológico e integrado de animais no campo, produção ecológica de leite e carne; projeto formativo.
d. Socio-humanísticas: Projeto Formativo, ética da militância e relações de gênero, cosmovisões indígenas, ética da sustentabilidade, racionalidade-complexidade- transdisciplinariedade, teoria pedagógica, antropologia latino-americana, bases do conhecimento, historia da America latina, pensamento político venezuelano e latino americano, movimentos sociais indígenas, campesinos e afrodescendentes latino- americanos, sociologia, sociologia da agricultura, economia política, cooperação e cooperativismo.
e. Sócio-administrativas: Administração de empresas campesinas, redes sociais planejamento e gestão agroindustrial, contabilidade, economia para o desenvolvimento social.
A proposta metodológica desta escola tem algumas chaves norteadoras importantes a serem destacadas. A primeira delas é o sistema de alternância, que diferentemente da ELAA, os educandos permanecem maior tempo na escola com atividades sócio-produtivas nas comunidades vizinhas, e um menor tempo no chamado tempo comunidade (de 40 dias a 2 meses). O tempo comunidade se realiza também em cooperativas, conucos74, áreas de assentamento de movimentos sociais campesinos na Venezuela, com o diferencial de serem em outros estados do país, ou áreas mais distantes das instalações de IALA.
Um segundo aspecto da proposta pedagógica é o chamado projeto formativo. Uma disciplina que de caráter orgânico, que esta relacionada à investigação cientifica, à interdisciplinariedade, e ao trabalho de campo, ou trabalho de base com as comunidades vizinhas. Uma disciplina que percorre todo o programa do curso.
Um terceiro aspecto é a questão do vínculo do estudo, da coletividade e do trabalho sócio-produtivo realizado no Instituto, através dos núcleos de produção. Os núcleos de produção são considerados a célula da estrutura organizativa do Instituto. Um espaço que permite a reflexão, a participação política, produtiva e organizativa no fazer cotidiano do instituto. Tem a função de planejar, avaliar e executar as atividades de campo a partir de um
plano geral de produção, promover e participar de debates politico-organizativos do instituto, possibilitar a vivencia e a tomada de decisões em caráter coletivo, entre outros.
Durante o período das tardes, as atividades agrícolas são realizadas por estes núcleos, como por exemplo: a produção de sementes, animais, produção de grãos, transformação de alimentos, etc.
Assim como em outras escolas, os princípios filosóficos e político-pedagógicos são: relação entre teoria e prática; combinação entre educação e capacitação; a realidade como base da produção de conhecimentos; vincula orgânico entre processos educativos, processos políticos, processos produtivos e culturais; gestão democrática do processo e auto-organização dos educandos; educação para cooperação; combinação de processos coletivos e processos individuais; formação técnica como parte da construção de intelectuais orgânicos; educação para a investigação; educação desde e para os valores socialistas; enfim, educação como processo permanente de formação e transformação humana. Esses elementos estão vinculados à inter-relação dos temas de estudo com a prática cotidiana do trabalho sócio–produtivo junto às comunidades vizinhas e no território da escola.
No mês julho de 2012 ocorreu a formatura da primeira turma de Engenheiros em Agroecologia. No mês de outubro a grande maioria retornava aos seus países. A segunda turma ocorreu através de processo seletivo diferenciado nos meses de fevereiro a abril. Foi realizado pela Fundayacucho, órgão do governo bolivariano responsável pelos estudantes internacionalistas, ocorrendo desde a relação deste órgão com as embaixadas dos diferentes países. Um processo seletivo distinto da experiência com a primeira turma que fora realizado juntamente com as organizações sociais partícipes da VCI com processos de seleção e preparação. Nesta segunda turma, somente alguns educandos são integrantes da Via Campesina, representantes de organizações da Venezuela (da FNCEZ), do Paraguai, e de El Salvador.