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A sexualidade idealizada é aquela que poderia ser considerada “perfeita” em termos normativos, ou seja, o modelo de representação do sexo que sustenta e confirma os padrões comportamentais amplamente aceitos como virtuosos e desejáveis, ou que os tem na gênese de seu conflito.

Sem dúvida, os filmes pertencentes ao gênero romântico são aqueles nos quais costumam ser mais facilmente identificáveis e abundantes os indicativos do paradigma idealizado do sexo: personagens que formam casais complementares e

3 ”These are powerful agents that shape the way that sex, sexuality and desire appear in cinema and

representativos do modelo ideal do amor romântico (sempre heteronormativo), locações encantadoras, música suave e toda sorte de artifícios capazes de dotar o encontro sexual de fascínio e glamour e, por consequência, de afastar quaisquer dos aspectos do sexo que possam ser considerados cotidianos ou ordinários. No entanto, cabe ressaltar que a idealização não é uma estratégia exclusiva das narrativas românticas, mas um recurso largamente empregado nos mais diversos gêneros cinematográficos.

A representação idealizada não se interessa por apresentar o sexo como ele é, mas antes como a maioria dos pressupostos espectadores espera que seja (o que pode incluir, também, uma certa concepção de que o sexo visto na tela deve ser melhor do que aquele que o próprio espectador encontra em casa). Constrói-se, assim, uma sexualidade ornamentada, deslocada da realidade do sexo em seus aspectos mais triviais. Esse deslocamento entre o ideal e o real abre espaço para certo grau de fantasia, capaz de alçar a sexualidade a um patamar elevado em relação à vida cotidiana.

Não é a luxúria, a fornicação ou o ilícito, mas o sublime e o transcendente – o ideal. As estratégias usadas para apresentar e dotar de significado o sexo nesses filmes que buscam atrair um grande público têm uma série de atributos que consolidam e preservam a estrutura idealista do romance. (KRZYWINSKA, 2006, p.33. Tradução nossa4).

Seja qual for o gênero cinematográfico em questão, o recurso à idealização pode cumprir importantes funções em termos estilísticos, dramáticos ou mesmo politicamente estratégicos.

A combinação de sexo, romance e belos corpos expressa principalmente em termos estéticos idealistas tem, com frequência, permitido ao cinema uma forma de escapar da censura; uma maneira de inserir o sexo na ‘arte’ e, assim, evitar acusações de obscenidade. (KRZYWINSKA, 2006 p. 373)5 4

“It is not lust, fornication or illicit, but sublime and transcendent – ideal. The strategies used to present and lend meanings to sex in these films that aim to appeal to a wide audience have a number of attributes that consolidate and preserve the idealistic framework of romance.”

5 “The combination of sex, romance and beautiful bodies couched primarily in idealistic aesthetic

A autora argumenta ainda que a representação do sexo em um contexto idealizado de romance pode assumir um caráter quase expiatório com relação à transgressão intrínseca ao próprio ato de representá-lo (no caso do ator, que, em certo sentido, transgride a natureza privada do sexo ao torná-lo público) e de assisti- lo (no caso do espectador, cúmplice na transgressão pelo voyeurismo).

É como se a vinculação da experiência do sexo à beleza e ao amor idealizados atenuasse seu estatuto “perverso”. Assim, a idealização, ao elevar o sexo à condição de arte, permite também a sua apreciação.

Se na base do cinema está a busca por tornar visível e manifesto aquilo que é intangível, corpos idealizados são também ferramentas úteis na caracterização de uma alma ideal. O padrão de constituição deste ideal está vinculado, em geral, à juventude e à beleza.

Romances entre pessoas mais velhas são menos frequentes talvez porque, logicamente, elas estão mais provavelmente envolvidas em complicações domésticas – pessoas mais velhas têm ‘histórias’ que produzem uma bagagem emocional e familiar que pode prejudicar a representação do romance como ideal. (KRZYWINSKA, 2006, p. 324. Tradução nossa.6

)

O paradigma ideal supõe a juventude e a beleza como espécies de signos da esperança, do idealismo e do sucesso sexual, o que pode ser reforçado por elementos como o gestual dos atores, figurinos, maquiagem e iluminação, entre outros recursos cênicos.

Ainda que sublime e ocupando um espaço elevado em relação à vida cotidiana, é importante destacar que o sexo ideal não necessariamente será aquele ao qual obstáculo algum poderá estar interposto: ao contrário, é comum – mesmo nos romances mais açucarados – que o casal precise enfrentar diferentes provações antes que o amor possa ser consumado. Tais provações, no entanto, são utilizadas

thereby evading accusations of judicial obscenity.”

6 “Romances between older people are less prevalent perhaps because, logically, they are more likely

to be mired in domestic entanglements – older people have “histories” that produce emotional and familial baggage that might detract from representing romance as ideal.”

no sentido de reforçar a idealização: quanto mais o casal luta para poder viver um amor, mais excelso e elevado vai-se tornando o sentimento, e mesmo naqueles casos em que não estará presente o happy end, cumpre-se a função idealista de colocar o amor acima da vida ordinária.

O que esses filmes parecem querer dizer é que não há empecilho ou diferença – de classe social, de cultura ou de poder aquisitivo – capaz de sobrepor- se ao verdadeiro amor que, idealizado, transcende até mesmo a morte.

O cinema demanda conflitos, e um amor idealizado pode ganhar em força dramática ao ser confrontado com obstáculos nem tão sublimes que tensionem o equilíbrio geral proporcionado pelo ideal.

O cinema frequentemente tem recorrido à tal união estratégica do sexo com a beleza estética, um precedente estabelecido na pintura e na escultura, mas apesar disso o sexo provavelmente está relacionado a diferentes formas de transgressão, conflito e bloqueio principalmente porque o ideal, por si só, tem pouco potencial dramático.” (KRZYWINSKA, 2006, p. 375. Tradução nossa.7)

De modo geral, os eventos capazes de injetar dramaticidade no ideal do

sexo estão ligados aos comportamentos transgressores também porque a colocação em contraste dessa sexualidade sublime com uma visão do sexo como perigo, distúrbio ou problema lança o foco sobre as tensões que reafirmam o ideal pela sua falência. A falência do ideal, ao colocar o sexo em uma condição de impuro, abjeto ou nocivo, torna-o passível de punição, o que pode ter enorme eficácia – tanto dramática, quanto no intuito de reafirmar a normativa.

O erotismo idealizado, talvez justamente por assumir esse caráter elevado em relação à vida corriqueira, costuma ser representado indiretamente. A ênfase, nesse caso, é colocada em torno de tudo aquilo que gira em torno do sexo – a corte amorosa, os galanteios, as promessas de amor eterno –, ficando a representação do ato em si restritas às indicações tácitas, aos beijos interrompidos por um acontecimento estrategicamente inserido na trama ou aos elementos

7 “Cinema has often had recourse to such a strategic marriage of sex and aesthetic beauty, a

precedent set in painting and sculpture, but despite this sex is likely to be related to different forms of transgression, conflict and blockage mainly because the simply ideal has little dramatic potential.”

simbólicos que permitem a inferência, mas não a visualização do ato sexual. Essa valorização de tudo aquilo que pertence à ordem dos afetos em detrimento da materialidade do sexo contribui para a própria manutenção do status idealizado:

A ausência de representações diretas do sexo coloca maior ênfase no registro emocional do que no físico, a última reformulação no domínio antitético da luxúria. Essa hábil gestão das condições do sexo reserva seu lugar como a apoteose do amor. Importante para a capacidade do gênero do romance de envolver os espectadores, seu formato elíptico deixa espaço para que a audiência fantasie sobre o que poderia ter sido o sexo entre o casal e, assim, a sua natureza idealista é, ao menos potencialmente, mantida intacta. (KRZYWINSKA, 2006, p. 336. Tradução nossa.8

)