Como vimos na segunda seção, Sweetser postula três domínios conceituais – conteúdo, epistêmico e conversacional - e defende que a mudança semântica ocorre de um domínio para o outro, ou seja, o domínio epistêmico deriva do domínio de conteúdo e é fonte para o domínio conversacional. A mudança de um domínio para o outro, como vimos na terceira seção, é feita por projeções metafóricas. Para Sweetser, as conjunções, assim como os verbos modais, são ambíguas, pois mostram a polissemia entre os três domínios lingüísticos. No entanto, para ela, as conjunções não devem ser analisadas apenas como um operador lógico, pois sua “contribuição para a semântica da sentença dever ser analisada no contexto do estatuto polifuncional da elocução como um portador de conteúdo, como uma entidade lógica, e como o instrumento de um ato de fala” (SWEETSER, 1991, p.76).
Longhin (2003, p.194), baseamo-se na proposta de Sweetser, formula o seguinte quadro para descrever as conjunções dentro de cada domínio:
CONTEÚDO (sócio-físico) EPISTÊMICO (raciocínio lógico) CONVERSACIONAL (ato de fala) Œ Œ Œ
A conjunção estabelece algum tipo de relação entre eventos ou estados do mundo real, concreto.
A conjunção estabelece uma relação lógica entre premissas e conclusões. Refere-se ao mundo mental (crença, expectativa) do
falante.
A conjunção estabelece algum tipo de relação (também mental)
entre atos de fala.
Sweetser (1991, p.78) afirma que “a conjunção pode ser interpretada como aplicada em pelo menos um dos três domínios; e que a escolha de uma interpretação ‘correta’ depende não da forma, mas de uma escolha pragmaticamente motivada entre conceber a união das orações como representando unidades de conteúdo, entidades lógicas ou atos de fala”. Para ela, a escolha de um domínio para uma determinada conjunção é pragmática e, dependendo do conteúdo, é quase obrigatória uma interpretação em um dado nível.
Em seu livro de 1991, a autora analisa, segundo essa proposta, o comportamento da conjunção because, da conjunção if e das conjunções coordenativas and, or e but. Para nós, interessam os estudos com a conjunção causal e condicional. No entanto, Neves (1999) testou a proposta de Sweetser na análise da conjunção condicional ‘se’ e da conjunção causal ‘porque’ do português. Por isso, usaremos os exemplos de Neves para explicitar melhor a proposta de Sweetser e observar o comportamento da conjunção desde que, principalmente nas acepções condicionais e causais.
Vamos tratar, primeiramente, das conjunções condicionais. Para Neves (1999), as construções condicionais com se, do português falado37, aparecem nos três domínios cognitivos sugeridos por Sweetser. Há construções que se aproximam da noção de ‘realização no mundo real’, na apódose, e dependem de uma condição na prótase, como em:
(11) então ... se eu comer muito na hora do café eu não vou ter vontade de almoçar
(DID-RJ-328: 310-311) Esse exemplo corresponde a uma condicional dentro do domínio de conteúdo, pois, como diz Neves (1999, p. 498) “existe mais concretamente uma relação causal, no sentido de que um estado de coisas capacita, e, assim, motiva, a realização de outro”. Aparentemente, não encontramos o uso de desde que condicional nesse domínio.
As construções condicionais epistêmicas são, segundo Neves (1999), as que mais se aproximam da relação lógica do tipo se ... então:
(12) Se ela for uma criança tímida, eu vou ter que botar num colégio menor
(DID-SSA-231: 121-122) Condicionais como em (12) estão no domínio epistêmico, pois não articulam apenas estados de coisas, mas proposições. Nesse sentido, pode-se entender que o que está expresso na apódose é uma conclusão a que levou aquilo que está expresso na prótase. Para Neves (1999, p.500) o que se expressa, em construções desse tipo, é “a idéia de que o conhecimento da verdade da premissa hipotética expressa na prótase é uma condição suficiente para se deduzir a verdade da proposição expressa na apódose”. As construções condicionais com a conjunção
desde que parecem estar nesse domínio, como mostra o exemplo (4), retomado aqui:
(4) "Na verdade nós adoramos as mulheres, desde que sejam belas, inteligentes e... inseguras. Seria isso uma prova de nossa misoginia? Eu, por exemplo, acho esplêndida a figura feminina de Medéia, certamente uma mulher detestável. (ACM)
Por fim, também há construções condicionais que agem no domínio dos atos de fala: (13) bem ... então :: ... a partir disto olha nós vamos poder entender ... qual o tipo de arte que se
desenvolveu porque se eu quero criar ... uma réplica da realidade ... um Duplo do animal que eu quero caçar qual é o único estilo que eu posso usar?
(EF-RE-405: 289-293) Nas construções desse tipo, segundo Neves (1999, p.500), “o que está expresso na prótase influencia, possibilita ou causa a realização de um ato de fala, que vem na apódose”. Não encontramos nenhuma ocorrência similar com a perífrase desde que com acepção desse tipo, pertencente ao domínio dos atos de fala.
Assim como a conjunção condicional se pode ocorrer nos três domínios propostos por Sweetser, a conjunção causal porque, do português falado, também, pode ter essas três leituras diferentes, segundo Neves (1999). No domínio do conteúdo, a junção marca a causalidade de um evento no mundo real, como em:
(14) Então eles pegavam os pássaros que não podiam voar ... porque estavam com as penas grudadas de petróleo
(D2-SSA-98:34-36) No domínio epistêmico, a junção marca a causa de uma crença ou conclusão, como em:
(15) Eles acham que é o melhor estágio que eles fazem, é um dos melhores estágios, é o de Dermatologia. Porque nós temos condições de mostrar pra eles muitos doentes, que é o importante
(DID-SSA-231:174-177) Por fim, no domínio dos atos de fala, a junção indica uma explicação causal do ato de fala que está sendo desempenhado, como em:
(16) você já imaginou para para fazer a peça Hair quanta gente que não foi ... éh éh:: não foi éh:: preparada ali ... porque o grupo que trabalha em Hair é enorme né?
(DID-SP-234: 246-249) No caso das construções causais com a perífrase desde que, observamos que as ocorrências encontradas só se enquadram no segundo domínio, no epistêmico, como mostra o exemplo (5):
(5) Aquela autoridade com que Bertha repelia os outros e que tanto escandalizava Leopoldo, o incircunciso, ela trazia-a de casa. Tratando, assim, o outro lado Bertha parecia dizer: "Tenho vontade de te pertencer: desde que não posso, odeio-te, mesmo que o meu ódio não tenha consistência. .. " E, quase contraditória, ela via o Catolicismo como a parte mais completa do seu antagonista. (OE)
Observamos que Sweetser, assim como Neves (1999), mostra o desenvolvimento de uma mesma conjunção – no caso do português se e porque e no inglês if e because – com o mesmo valor – condição e causa respectivamente – mas, com três leituras diferentes – conteúdo, epistêmico e ato de fala. No caso da perífrase conjuncional desde que, observamos que quando ela desempenhar a função de condição ou causa, só ocorrerá no nível epistêmico, pois a perífrase com essas acepções articula proposições. Mas quando desde que instigar tempo, como em (3), a perífrase só ocorrerá no domínio do conteúdo, pois a conjunção articula estado de coisas.
Os exemplos de Sweetser só mostram o desenvolvimento de conjunções. Portanto, a mudança da preposição com valor de espaço para uma preposição com valor de tempo, e essa para uma perífrase conjuncional de tempo, não é retratada, ou, talvez, estariam todas no mesmo domínio: domínio do conteúdo.