• No results found

3. METHODOLOGY

3.1 C HOOSING RESEARCH MATERIAL

A Theorica não terá desempenhado um papel relevante na disseminação das ideias de Newton em Portugal. A utilização do formalismo matemático poderá ter comprometido o sucesso da obra, impedindo o leitor vulgar de a entender, para além de o assunto abordado ser muito específico. Quanto às elites intelectuais portuguesas, não existem quaisquer indícios de que a obra tenha sido recebida com interesse, não sendo mencionada em nenhuma das obras de filosofia natural editadas em Portugal nos anos seguintes.

Teodoro de Almeida, que, como vimos, foi proposto por Sarmento para sócio da Royal Society, descreveu a teoria newtoniana das marés no tomo VI da Recreação Philosophica (1761), sem fazer qualquer alusão à Theorica, nem ao seu autor, enfatizando, porém, o papel28 desempenhado por Bento de Moura Portugal na elucidação de algumas das imperfeições da teoria das marés de Newton (Almeida, 1761:382). A única indicação de que a obra foi lida aparece no Manifesto de D. Carlos de Vico, como foi referido no Capítulo II. Ainda assim, deve ser notado que Vico não era português.

28

Almeida descreve outros aspectos das inovações introduzidas por Moura Portugal nas Cartas Fisico-

Mathematicas De Theodozio A Eugenio, Para servir de Complemento à Recreação Philosofica.(1784). Nessa obra, Almeida refere ter construído uma máquina similar à que Desaguliers utilizava para explicar a teórica das marés, tendo considerado na sua construção os conselhos de Moura Portugal

146 A Theorica é uma obra revolucionária, que aborda algumas temáticas polémicas, sendo por isso interessante não ter existido qualquer tipo de reacção. Mesmo que o simples facto de a obra ter estado disponível no mercado livreiro revele a existência de alguma abertura por parte das autoridades nacionais, deve ser notado que Sarmento possuía um estatuto privilegiado, devido à sua relação privilegiada com membros da corte portuguesa, próximos do rei, como o 4.º conde da Ericeira, Assim, e como vimos, a obra não foi analisada por censores, o que é indicativo do estatuto do seu autor29.

A difusão do newtonianismo em Portugal e, de um modo mais geral, das ideias dos modernos, foi um processo complexo e lento que decorreu desde a primeira metade do século XVIII até à reforma pombalina dos Estatutos da Universidade de Coimbra. A historiografia nacional identificou quais as razões justificadoras do atraso português relativamente aos países do centro da Europa, e analisou com detalhe a resposta das elites portuguesas30. Nesse contexto, pode concluir-se que a Theorica apareceu provavelmente cedo demais, numa altura em que ainda não existia uma percepção clara das implicações dos novos sistemas. Apesar de o processo em curso se tratar de uma autêntica revolução, dado significar uma alteração profunda do modo como se encarava o mundo e das formas pelas quais se podia aceder ao seu conhecimento, a maior parte das elites portuguesas manteve uma postura de alguma desconfiança e cepticismo, que demorou a ser alterada. Assim, e mesmo que a obra tenha sido lida por um número significativo de leitores, o que é duvidoso, é muito provável que tal facto não tenha tido qualquer impacto digno de registo.

Também não é possível ter uma ideia muito clara quanto ao número de pessoas que terá adquirido o livro. A consulta das listas de bibliotecas particulares, enviadas na sequência do edital da Real Mesa Censória, em 1769, permite concluir que é muito pouco vulgar, existindo num número reduzido de bibliotecas particulares31. Deve ser notado, contudo, que muitas pessoas foram escusadas de enviar as suas listas, incluindo os médicos familiares do Santo Ofício e a maior parte da nobreza. Curiosamente, a obra é mencionada no catálogo da biblioteca existente na missão jesuíta em Beitang (Golvers, 2011:137). A lista terá sido elaborada em 1785, o que é um sinal que, passados 50 anos, a obra continuava a ser encontrada em bibliotecas de particulares.

29 Se a obra tivesse sido analisada por censores da Inquisição teria sido provavelmente sujeita a alguns cortes. Por exemplo, a afirmação de que Deus é um “Geómetra Todo Poderoso”, incluída no Scholio com que a obra termina, dificilmente passaria no crivo dos censores.

30 Ver por exemplo, Silva Dias, 1952.

31 Deve ser notado que entre estes se encontravam um cónego e um médico. Como o número é muito reduzido não é possível tirar quaisquer conclusões. Deve ser notado que as bibliotecas onde a Theorica estava presente possuíam um número significativo de obras científicas.

147

9. Conclusão

A Theorica é a única obra científica de Sarmento que não aborda temáticas relacionadas com a medicina, merecendo por isso um especial destaque. Por outro lado, e como foi salientado pela historiografia portuguesa sobre a difusão do newtonianismo em Portugal, é a primeira obra escrita por um autor português, assumidamente newtoniana quer em conteúdo, quer em forma. Para além da teórica das marés, a obra inclui o primeiro esboço de uma biografia de Newton, dando ainda a conhecer alguns dos aspectos da sua obra científica, merecendo especial destaque a parte dedicada às investigações de Newton sobre os fenómenos luminosos No entanto, e como foi referido, a Theorica não teve o impacto pretendido pelo seu autor, dado não ser mencionada em outras obras escritas por autores portugueses contemporâneos de Sarmento. Assim, e apesar do seu brilhantismo e do seu carácter revolucionário, que a tornam ímpar no contexto dos livros científicos portugueses de setecentos, a obra não terá sido relevante na difusão e apropriação do newtonianismo em Portugal32.

32 Este argumento não invalida a possibilidade de a obra ter tido algum impacto entre o público leitor contribuindo, ainda que pontualmente, para a apropriação das ideias de Newton.

149

CONCLUSÕES

Dou como exemplo Henrique de Castro Sarmento. . . — Foi meu condiscípulo— atalhou Braz de Abreu. — Pois então sabe vossemecê que elle está em Londres, com o nome de Jacob de Castro Sarmento, em tanto credito e dignidade que, pouco há,

foi elevado à categoria de membro do colégio real dos médicos, e sócio da academia real de Londres? Este grande sábio, e co- reformador da ciência, que seria hoje em Portugal, se não se evadisse daqui quatro anos depois de licenciado? (Camilo Castelo Branco, 1866, 171-2)

Como quer que fosse, o dr. Jacob, na sua Materia Medica de 1735, encarece muito a sua composição (da Água de Inglaterra), ao mesmo tempo que não perde occasião, apontando para o testemunho de pessoas notáveis d'este reino, de notar em phrase polida e calculadamente defeitos e falta de efficacia na agua das sezões preparada em Lisboa pelos herdeiros do dr. Fernando Mendes.(Pedro José da Silva, 1866: 139)

O primeiro olhar sobre Sarmento suscitou diversas questões historiográficas relevantes sobre a sua vida e obra. A imagem construída pelo médico português, e que é veiculada pelos seus dois retratos, decorreu essencialmente do prestígio alcançado em Londres e da sua actividade enquanto autor de obras médicas e científicas. No entanto, e como vimos essa imagem não pode ser considerada de forma simplificada.

De facto, passados os primeiros cem anos após a sua morte, a postura das elites intelectuais portuguesas relativamente ao médico exilado em Londres não era consensual. Castelo Branco menciona Sarmento num romance sobre a vida do médico português Brás Luís de Abreu (1692– 1756), intitulado Olho de Vidro1 (1866), apelidando-o de “grande sábio” e “co-reformador da ciência”, salientando que se tivesse permanecido em Portugal não teria alcançado o mesmo estatuto e prestígio. Contudo, o comentário feito por Pedro José da Silva na Historia da

Pharmacia Portugueza, publicada no mesmo ano em que o romance de Castelo Branco, é muito diferente. Silva reprova o modo como Sarmento havia introduzido o seu medicamento de

150 segredo no mercado português, acusando-o implicitamente de utilizar as suas relações pessoais para o publicitar e de investir o seu prestígio científico para denegrir a qualidade do medicamento concorrente. As diferenças entre os pontos de vista destes dois autores demonstram que nem todos consideravam o médico português como uma figura reformadora da medicina e da ciência não problemática.

Contudo, alguns anos mais tarde, quando os historiadores portugueses de meados do século XX redescobriram o século das luzes e a relevância do médico exilado em Londres, estas incongruências e paradoxos haviam sido obliteradas. Assim, e para a maior parte dos historiadores actuais, a opinião de Castelo Branco foi a que perdurou.

O presente trabalho teve como principal objectivo contribuir para um maior conhecimento das diversas facetas desta figura incontornável e polémica da medicina e ciência portuguesas de setecentos. De seguida, vamos indicar as principais conclusões dos capítulos anteriores, procurando enquadrá-las no contexto da medicina e ciência portuguesas do século XVIII