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Conceitos pertinentes à vertente da Semiótica tensiva, que se concentra no estudo da interação entre o sensível e o inteligível, precisam ser explicitados neste subtópico, haja vista contribuírem com o estudo do acidente.

O sensível corresponde ao campo dos afetos, das sensações, e o inteligível corresponde ao campo da racionalidade, da compreensão. A dimensão da intensidade abrange o campo da afetividade, da sensibilidade e ―tem por tensão geradora o par [impactante vs tênue]‖ (ZILBERBERG, 2011,p.264). É sobre esse eixo que ―incidem os estados de alma que afetam o sujeito‖ (ZILBERBERG, op.cit, p.253). A dimensão da extensidade, por seu turno, compreende o inteligível, o compreensível. É sobre este eixo que incide ―a consistência variável dos estados de coisas‖ (ZILBERBERG,op.cit, p.253). Assim, como declara Zilberberg (2011, p.66, 169), a tensividade é o lugar imaginário em que a intensidade, ou seja, os estados de alma, o sensível, e a extensidade, isto é, os estados de coisa, o inteligível, unem- se uma a outra.

―Em continuidade com o ensinamento de Hjelmslev, uma desigualdade criadora liga a extensidade à intensidade: os estados de coisa estão na dependência dos estados de alma‖ (ZILBERBERG, 2006, p. 169), desse modo, a intensidade é considerada a grandeza regente do par, isto é, os estados de coisas estão na dependência dos estados de alma, há uma autoridade do sensível sobre o inteligível. Essa caracterização – intensidade regente e extensidade regida – é alvo de discussões nos estudos semióticos. Se levarmos em conta o percurso da comunicação, veremos que a extensidade pode reger a intensidade, visto que, quando se fala em percepção, é necessário dar conta da extensidade; a intensidade é o lugar do inominável, daquilo do qual a linguagem não pode dar conta; é, portanto, da ordem do acontecimento, figura semiótica pautada no sobrevir, inesperado que ‗surge‘ no sujeito surpreendendo-o, desestabilizando-o e obrigando-o a lidar com altos índices de intensidade.

O acontecimento leva o sensível à incandescência e o inteligível à nulidade‖. (2006, op.cit, p.160), ou seja, assemelha-se a uma inexistência racional.

O acontecimento não pode ser apreendido senão como afetante, como perturbador; ele suspende momentaneamente o curso do tempo, mas nada nem ninguém conseguiria impedir que o tempo retome logo seu curso e que o acontecimento entre insensivelmente nas vias da potencialização, isto é, primeiramente na memória, depois na linha do tempo da história, de modo que, a grosso modo, o acontecimento

ganhe em lisibilidade, em inteligibilidade o que ele perde insensivelmente em intensidade. (ZILBERBERG, 2006, p. 14)

Quanto aos conceitos de implicação e concessão, de acordo com Zilberberg (2011, p.263-264), há correspondência com pressuposição (gramaticalidade das regras – o se é pressuponente e o então/portanto é o pressuposto) e com acontecimento, ou seja, com sucesso de um contraprograma, da ordem do inesperado, do ―novo‖. Esse inesperado se relaciona com a noção de acidente, da Sociossemiótica.

De acordo com a terminologia Sociossemiótica, o regime do assentimento equivale ao que se chama também regime de acidente. Funda-se no princípio da álea (ou melhor, aleatoriedade), do assentimento ao imprevisível, que, sob a figura do «azar», é capaz de fazer fracassar ou vencer qualquer programa em curso, qualquer manipulação, qualquer ajustamento. O acidente permite a negação ou a superação dos programas fixados de antemão. A esse respeito, Landowski (2014a, p. 70) questiona: ―e se tudo na origem fosse, como nos mitos, acidente, intranquilidade, instabilidade, agitação e fúria, desordem, caos – numa palavra, descontinuidade? Aqui nós encontramos os terremotos, os raios e os ciclones‖. As descontinuidades nos colocam ―diante do sem sentido; excluindo toda a possibilidade de antecipação, elas não nos oferecem moralmente segurança alguma: em uma palavra, elas nos afundam no absurdo‖ (LANDOWSKI, 2014a, p. 71). Agora o comportamento do outro não facilita interpretação alguma fundada na razão. Deve-se, desse modo, em vez de tentar superar o aleatório, assumi-lo como tal, ―isto é, admitir que existem de fato fenômenos cuja aparição não é explicável por qualquer regularidade de ordem causal nem por qualquer constante de ordem simbólica‖ (LANDOWSKI, 2014a, p. 75).

Landowski percebe o acidente a partir da ocorrência do acaso, que somente se constitui na sua própria manifestação ―se autoinstitui, em ato, como sua própria lei – mas sem desdobramento nem reflexidade de qualquer tipo. O acaso aparece, assim, tanto como a imanência mesma, tanto como a transcedência absoluta‖ (LANDOWSKI, 2014a, p. 76). Compreende-se que o acaso não cria valor e não enuncia sentido algum. Diante dele, como destaca Fiorin com base em Landowski (2005, p. 69), o fatalista é o que aceita o azar, enquanto o supersticioso quer, por sua ação, atrair a sorte. Já o religioso vê, sob a aparência da causalidade, a figura de um destinador providencial, que daria uma intencionalidade aos acontecimentos, por mais absurdos que pareçam.

Em termos técnicos tomados da gramática narrativa, o acaso não tem competência definível: nem de ordem modal, porque ou não é motivado e age sem razão, ou , se lhe é atribuída uma intencionalidade, esta não é conhecida -, nem de ordem estésica: indeterminado, incorpóreo, intocável mesmo que onipresente, não é sensível a nada (nem a si mesmo). Desse modo, se não há competência, e, no entanto, pode agir, fazer advir acidentes, desastrosos ou mágicos, é necessário pelo menos que tenha um

papel‖ (LANDOWSKI, 2014a, p. 79)

Esse papel não é programado, já que pode sofrer variações infinitas em suas performances (com a possibilidade de repetições). É exatamente o contrário de um papel temático. Para definir o estatuto semiótico desse papel, Landowski inventa uma posição nova no quadro da gramática narrativa e discursiva: a do actante joker. Trata-se de um papel crítico que decide a orientação e, ainda, frequentemente, os resultados dos processos nos quais intervém.

É capaz de transtornar (sem jamais querer o mal de ninguém) ou fazer triunfar (sem a menor boa intenção) não importa qual programa em curso, não importa qual manipulação, não importa qual ajustamento, o acaso merece ser reconhecido como um possuidor de um papel catastrófico por excelência. (LANDOWSKI, 2014a, p. 79)

Desse modo, aqui há um papel catastrófico que contrasta com o papel temático do regime de programação, no qual os atores são devidamente programados conforme uma determinada função.

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