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Introduction

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A violência – enquanto questão social – atravessa o campo da saúde e encontra neste as condições de agravo como referencial de melhor adequação conceitual para ser manejado. A partir daí é que se busca olhar e incorporar a singularidade desse processo, visando percebê-lo desde um nível individual – com afetações biológicas e psicológicas – até as relações de interferências multifatoriais relacionadas ao social – consequentemente ao ambiente.

As modernas discussões nessa área, que levam em consideração as condições sociais da saúde, impulsionam ainda a compreensão de que os elementos do processo saúde- doença interagem tanto entre elementos de mesmo nível como também de níveis diferenciados, sendo necessária essa confrontação para uma leitura mais apropriada do fenômeno e sua interferência no processo de desenvolvimento dos sujeitos sociais. Assim, é fundamental pensar estratégias metodológicas para o desenvolvimento de estudos que permitam aproximação dessa lógica complexa de cadeia causal.

Desse modo, o referencial de Urie Bronfenbrenner ganha espaço e é aceito pelos organismos internacionais que estudam a temática violência, por apresentar peculiaridades positivas para tal empreitada. A Organização Mundial da Saúde utilizou o modelo ecológico, introduzido por este teórico em 1977, para auxiliar na compreensão do fenômeno, quando lançou o primeiro Relatório Mundial sobre Violência e Saúde, no intuito de descrever a magnitude e o impacto da violência no mundo (KRUG et al., 2002).

(...) o modelo ecológico proposto pela OMS [Organização Mundial de Saúde] pressupõe que não há um fator mais determinante que outro, e sim uma dinâmica na qual eles interagem na produção da violência. No entanto, a partir da identificação e classificação desses fatores, esse modelo ajuda a refletir sobre os níveis de intervenção e as propostas mais adequadas para cada um deles, além de auxiliar na priorização dos problemas.

Destarte, a elaboração de ações preventivas tem vantagens ao ser pensada à luz da concepção ecológica, uma vez que tende a incluir o indivíduo, a família, a escola, o grupo de pares e as estruturas sociais/comunitárias (que envolvem o sujeito/contexto que enfrentam situações relacionadas à violência) nos momentos de planejamento.

Dahlberg e Krug (2007) expõem que o modelo ecológico auxilia na compreensão da natureza multifacetada da violência, de modo que explora a relação entre os fatores individuais e contextuais e tendo em vista a violência como produto dos múltiplos níveis de influência sobre o comportamento (Figura 3).

Figura 3 - Modelo ecológico da violência originalmente estudado por Urie Bronfenbrenner em 1977.

Fonte: Adaptado de DAHLBERG; KRUG, 2007.

Essa imagem se associa com a teoria ecológica do desenvolvimento humano em seus elementos fundamentais, como pode ser observado na apresentação de seu idealizador, o qual descreve como elementos dinâmicos que alicerçam a organização de sua teoria: a pessoa, o processo, o contexto e o tempo (BRONFENBRENNER, 1994). À vista disso, Bronfenbrenner (1996, p. 5) afirma que “o ambiente ecológico é concebido como uma série de estruturas encaixadas uma dentro da outra, como um conjunto de bonecas russas”.

Retornando a leitura da Figura 01, que busca associar a teoria com o fenômeno da violência, cabe esclarecer que o primeiro nível ecológico procura identificar tanto os fatores biológicos como os da história pessoal que um indivíduo incorpora em seu comportamento. Ele focaliza as características do indivíduo que aumentam a probabilidade de ele ser vítima ou agressor, sendo levados em consideração: impulsividade, baixo nível educacional, utilização

de substância psicoativa e história passada de agressão e abuso (BRONFENBRENNER, 1994; DAHLBERG; KRUG, 2007).

O segundo nível do modelo explora como as relações sociais próximas (amigos, parceiros íntimos, membros da família) podem aumentar o risco de vitimização ou perpetração violenta. Os amigos podem incentivar e influenciar as atividades delinquentes e criminosas e aos que residem no mesmo domicílio com um agressor pode aumentar a oportunidade de ataques repetidos e violentos, tanto no caso de agressão de parceiros como de maus tratos a crianças. (BRONFENBRENNER, 1994; DAHLBERG; KRUG, 2007).

O terceiro nível examina os contextos comunitários nos quais estão inseridas as relações sociais, tais como escolas, locais de trabalho e bairros, e procura identificar as características dos cenários associados ao fato de serem vítimas ou agressores. Neste nível, o desemprego, o tráfico de drogas e de armas e o isolamento social, também são destacados. Este último fator é considerado de risco para a violência familiar contra qualquer pessoa da família, ao passo que a existência das relações entre vizinhos, amigos, parentes e instituições próximas se mostra como uma rede de apoio social que protege os vulneráveis da família. (BRONFENBRENNER, 1994; DAHLBERG; KRUG, 2007).

O quarto nível do modelo ecológico valoriza os fatores sociais mais amplos que influenciam as taxas de violência. Eles propiciam a aceitação e consequentemente diminuem as inibições contra ela e apoiam divisões entre diferentes segmentos da sociedade ou tensões entre grupos ou países diferentes. Alguns desses fatores sociais são: as normas culturais que entendem a violência como forma aceitável para resolver conflitos; considerar o suicídio como escolha individual em vez de um ato de violência evitável; a cultura adultocêntrica; o domínio masculino sobre mulheres e crianças; uso excessivo da força pela polícia contra os cidadãos, bem como, apoio a conflito político. Estão também incluídas entre os fatores relevantes da sociedade as políticas de saúde, educacionais, econômicas e sociais que mantêm altos níveis de desigualdade econômica ou social entre grupos. (BRONFENBRENNER, 1994; DAHLBERG; KRUG, 2007).

Para Dahlberg e Krug (2007) é indispensável que se façam as diversas associações entre a violência e os fatores individuais com os contextos mais amplos, sejam eles, sociais, culturais e econômicos. Essa interação sugere que se houver um investimento para minimizar os fatores de risco dos quatro níveis deste modelo ecológico é possível contribuir para a redução de mais de um tipo de violência.

Vale ressaltar que como teoria, o modelo ecológico de Bronfenbrenner é um pouco mais complexo e também se embasa na teoria sistêmica, propondo que a leitura desse

conjunto de fatores se desenvolve num conjunto de sistemas que se inter-relacionam, a saber: o microssistema, trata-se de “(...) um padrão de atividades, papéis e relações interpessoais experienciados pela pessoa em desenvolvimento num dado ambiente com características físicas e materiais específicas (BRONFENBRENNER, 1996, p. 18)”; o mesossistema “(...) inclui as inter-relações entre dois ou mais ambientes nos quais a pessoa em desenvolvimento participa ativamente (BRONFENBRENNER, 1996, p. 21)”; o exossistema “(...) se refere a um ou mais ambientes que não envolvem a pessoa em desenvolvimento como um participante ativo, mas no qual ocorrem eventos que afetam, ou são afetados, por aquilo que acontece no ambiente contendo a pessoa em desenvolvimento (BRONFENBRENNER, 1996, p. 21)” e o macrossistema “(...) se refere a consistências, na forma e conteúdo de sistemas de ordem inferior (...) que existem, ou podem existir, no nível da subcultura ou da cultura como um todo, juntamente com qualquer sistema de crença ou ideologia subjacente a essas consistências (BRONFENBRENNER, 1996, p. 21)”. Estes estabelecem uma dinâmica própria em seu sistema e se inter-relacionam no que concerne o desenvolvimento da pessoa.

De todo modo, a empreitada proposta por esse estudo ancora suas expectativas na compreensão de como esses fatores estão relacionados com a violência que envolve os adolescentes das escolas públicas de Fortaleza e acredita-se ser esse um dos passos importantes na abordagem da saúde pública para a prevenção da mesma.

4.5. Políticas Públicas de saúde e violência: interface com a população infanto-juvenil no

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