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Para a análise do ―papel do discurso no exercício ou na legitimação do poder‖, van Dijk (2012, p. 47) ressalta a relevância de se inserir o conceito de ideologia. Segundo ele, é consenso a concepção de que muitas ideologias48 são constituídas discursivamente. No entanto, o autor esclarece que ―o poder não apenas aparece ‗nos‘ ou ‗por meio dos discursos‘, mas também [...] é relevante como força societal ‗por detrás‘ dos discursos‖ (2012, p. 44). O autor destaca que

apesar da variedade de posturas em relação ao conceito de ideologia, pressupõe-se, em geral, que o termo refere-se à ‗consciência‘ de um grupo ou classe, explicitamente elaborada ou não em um sistema ideológico, que subjaz às práticas socioeconômicas, políticas e culturais dos membros do grupo, de forma que seus interesses (do grupo ou da classe) materializam-se [...] (VAN DIJK, 2012, p. 47).

De acordo com Ramalho e Resende (2011, p. 25), o conceito de ideologia na ADC – que aqui dá suporte para o estudo das questões de poder e dominância – é constitutivamente negativo. Por isso, a ideologia é considerada ―um instrumento semiótico de lutas de poder, ou seja, uma das formas de se assegurar temporariamente a hegemonia pela disseminação de uma representação particular de mundo como se fosse a única possível e legítima‖. Dito de outra forma, ela é naturalmente hegemônica. As autoras também sustentam que a perspectiva de ideologia assumida pela ADC filia-se à abordagem crítica de Thompson (2002), na qual este autor propõe cinco modos de operação desse elemento. Tais modos estão relacionados a estratégias próprias de construção simbólica (RAMALHO; RESENDE, 2011).

Segundo Thompson (2002), por meio do estudo das ideologias, pode-se verificar as formas como o sentido pode ajudar a estabelecer e sustentar relações de dominação. Assim,

o conceito de ideologia pode ser usado para se referir às maneiras como o sentido (significado) serve, em circunstâncias particulares, para estabelecer e sustentar relações de poder que são assimétricas – que eu chamarei de ‗relações de

48Van Dijk (2012, p. 48) esclarece sobre a concepção de ideologia que adota: ―apesar de, inegavelmente, haver

práticas e instituições sociais que desempenham um papel importante na expressão, no exercício ou na

reprodução da ideologia, devemos partir do pressuposto de que a ideologia ‗em si‘ não é o mesmo que essas

práticas e instituições. Em vez disso, tomamos como ponto de partida o fato de a ideologia ser uma forma de

dominação‘. Ideologia, falando de uma maneira mais ampla, é sentido a serviço do

poder (THOMPSON, 2002, p. 16, grifos do autor)

O autor esclarece que o sentido pode estabelecer relações de dominação ao originar ativamente e instituir essas relações. Da mesma forma, o sentido pode sustentar essas relações ao servir para mantê-las e reproduzi-las, por meio de um ininterrupto processo de produção e recepção de formas simbólicas. Van Dijk (2012, p. 118) argumenta que a dominação das elites pode estar interligada ―a leis, regras, normas, hábitos e mesmo a um consenso geral, e assim [o poder] assume a forma do que Gramsci [(1971)] denominou ‗hegemonia‘‖, uma vez que dentro do consenso existente nas práticas discursivas podem estar envolvidos fortes efeitos ideológicos (FAIRCLOUGH; WODAK, 2000). No entanto, é valido ressaltar que a hegemonia é um ininterrupto processo que forma e supera um equilíbrio instável (GRAMSCI, 1988 apud RESENDE; RAMALHO, 2004), pois, como sustenta Fairclough (2001), as hegemonias são produzidas, reproduzidas, contestadas e transformadas discursivamente.

Diante do exposto, dada a importância do estudo do papel das ideologias no controle do poder, destacamos algumas estratégias discursivas a serem analisadas como traços de posicionamentos ideológicos presentes no discurso da divulgação debate do desmatamento na Amazônia. Nesse sentido, seguindo a proposta da ADC, que realiza estudos sobre processos de caráter social, em que se imprimem reflexões sobre as representações sócio-discursivas e ideológicas relacionadas às questões de poder e dominância (GOMES, M. C., 2003), trazemos para esta pesquisa um estudo das estratégias ideológicas gerais (VAN DIJK, 2012) e dos modos de operação da ideologia (THOMPSON, 2002)49.

Para tanto, consideramos, de van Dijk (2012), as estratégias ideológicas gerais polarização ideológica e autoapresentação positiva/outro-apresentação negativa e, de Thompson (2002), os modos de operação da ideologia.

Segundo van Dijk (2012), a polarização ideológica é uma estratégia que desempenha importante função na reprodução discursiva de dominação. Essa estratégia permite a apresentação dicotômica de ideias grupais. Por exemplo, ela pode ser empregada para apresentar um problema a ser enfrentado, contraposto a algo que esse problema pode causar, tornando-se, assim, o primeiro um problema menor. Semelhante a essa estratégia, a autoapresentação positiva/outro-apresentação negativa é utilizada em relatos tendenciosos

49 John Thompson não é analista do discurso, mas diversos analistas críticos (como, por exemplo, Resende e

de fatos, em que se defendem interesses próprios e se emite a oponentes ou a grupos de minorias50 a culpa por situações ou episódios negativos. A polarização ideológica também serve para ilustrar questões que são apresentadas dicotomicamente, mas que, na ausência do lado oposto, não assumiriam o sentido de ―vilãs‖. A autoapresentação positiva/outro- apresentação negativa, por sua vez, atende ao propósito de ilustrar a contraposição de grupos, realizada no discurso analisado, podendo, assim, desacreditar ou atribuir ações negativas a um ou outro.

Bañon Hernandez (2006, p. 266-267), citando van Dijk (1998, p. 267), destrincha essas duas estratégias ideológicas gerais em um ―quadrado ideológico‖, sustentando que esse quadrado envolve quatro movimentos que

oferecem um excelente marco para a descrição e procedimentos textuais de legitimação e deslegitimação, [a saber]: 1) expressar ou enfatizar informação positiva sobre nós; 2) expressar ou enfatizar informação negativa sobre eles; 3) suprimir ou atenuar informação que é positiva sobre eles; 4) suprimir ou atenuar informação que é negativa sobre nós51.

Com base em van Dijk (1998), Bañon Hernandez (2006) também sustenta que a legitimação é uma das principais funções sociais das ideologias, por meio das quais as elites mantêm-se no poder. Isso porque, a nosso ver, pode ajudar a sustentar as hegemonias dos grupos dominadores. Dessa forma, as duas estratégias de van Dijk (2012) dialogam com os modos de operação da ideologia, a seguir.

Thompson (2002) propõe cinco modos gerais de operação da ideologia: legitimação, dissimulação, unificação, fragmentação e reificação. Nesta pesquisa, esses modos são também considerados como estratégias gerais, por isso não serão abordadas, minuciosamente, na análise, as estratégias específicas de cada um deles.

A legitimação permite que, por serem representadas como legítimas, as relações de dominação sejam estabelecidas e sustentadas. Isso pode ocorrer por meio de estratégias de racionalização, universalização e narrativização. Dessa forma, a construção de uma cadeia de raciocínio que defenda ou justifique um conjunto de relações ou instituições sociais pode promover a persuasão de determinado público quanto à legitimidade delas. Além disso,

50 Grupos socialmente marginalizados, como, por exemplo, imigrantes, terroristas, jovens etc.

51Tradução nossa para: ―[…] ofrecen un excelente marco para la descripción de procedimientos textuales de

legitimación y deslegitimación: 1) expresar o enfatizar información positiva sobre nosotros; 2) expresar o enfatizar información negativa sobre ellos; 3) suprimir o atenuar información que es positiva sobre ellos; y 4) suprimir o atenuar información que es negativa sobre nosotros‖.

acordos institucionais, apesar de atenderem a uma minoria, podem ser apresentados como se beneficiassem o coletivo. Pode-se também legitimar determinada forma simbólica por meio de narrativas do passado que apresentam o presente como parte de uma tradição eterna e admissível (THOMPSON, 2002).

A dissimulação, por sua vez, pode favorecer o estabelecimento e a sustentação das relações de dominação, através da omissão, negação ou invisibilização destas. Isso é possível por meio do deslocamento, em que se pode transferir para um objeto ou pessoa as conotações positivas ou negativas de um termo que outrora fazia referência a outro objeto ou pessoa; da eufemização, que ao colaborar com a valoração positiva de ações, instituições ou relações sociais ajuda a dissimulá-las; e do tropo52, por meio do qual as formas simbólicas são

representadas com a linguagem ―figurada‖ (metáfora, sinédoque e metonímia)53

, podendo-se, também dissimular as relações dominadoras (THOMPSON, 2002).

Segundo Thompson (2002), a construção simbólica de uma forma de unidade que reúna indivíduos diversos em uma única identidade é o que configura o modo unificação. Esse modo divide-se em duas estratégias: a padronização (ou estandardização) e a simbolização da unidade. Com a primeira, ―formas simbólicas são adaptadas a um referencial padrão, que é proposto como um fundamento partilhado e aceitável de troca simbólica‖ (THOMPSON, 2002, p. 86). A segunda permite que símbolos de unidade, identidade e de identificação coletivas sejam construídos e, ao unir indivíduos suprimindo suas diferenças e separações, podem ajudar a estabelecer e sustentar relações de dominação em circunstâncias específicas.

A fragmentação, diferentemente da unificação, é o modo de operação da ideologia que permite a segmentação de indivíduos ou grupos que são considerados possíveis agentes de enfrentamento das relações de dominação e o desvio de forças opostas a outro alvo, que é

52‗Tropo‘ tem a seguinte acepção: ―emprego figurado de palavra ou locução, figura‖ (HOUAISS, 2009).

53―A sinédoque envolve a junção semântica da parte, ao referir-se ao todo: alguém usa um termo que está no

lugar de uma parte a fim de se referir ao todo, ou usa um termo que se refere ao todo a fim de se referir a uma parte. Essa técnica pode dissimular relações sociais, através da confusão ou da inversão das relações entre coletividades e suas partes, entre grupos particulares e formações sociais e políticas mais amplas [...]. A metonímia envolve o uso de um termo que toma o lugar de um atributo, de um adjunto, ou de uma característica relacionada a algo para se referir à própria coisa, embora não exista conexão necessária entre o termo e a coisa à qual alguém possa estar se referindo. Através do uso da metonímia, o referente pode estar suposto sem que isso seja dito explicitamente, ou pode ser avaliado valorativamente, de maneira positiva ou negativa, através da associação com algo [...]. A metáfora implica a aplicação de um termo ou frase a um objeto ou ação à qual ele, literalmente, não pode ser aplicado. [...] A metáfora pode dissimular relações sociais através de sua representação, ou da representação de indivíduos e grupos nelas implicados, como possuidoras de características que elas, literalmente, não possuem, acentuando, com isso, certas características às custas de outras e impondo

apresentado como mau, perigoso ou ameaçador. Para isso, são empregadas duas estratégias: diferenciação e expurgo do outro. Com o emprego da diferenciação, são enfatizadas as divergências, diferenças e divisões grupais e individuais, reforçando as características separatistas e as que bloqueiam o surgimento de agentes que podem desafiar as relações existentes ou querer a participação efetiva no poder. Por meio do expurgo do outro, constrói- se um inimigo (mau, perigoso ou ameaçador) e que deve ser combatido coletivamente ou, como o próprio nome da estratégia já diz, expurgado (THOMPSON, 2002).

O modo reificação, o último modo dos cinco listados, está relacionado com a retratação de situações temporárias, históricas, como sendo permanentes, naturais e atemporais, e subdivide-se em três estratégias, por meio das quais formas simbólicas assumem o papel de estabelecer e sustentar relações de dominância. Uma dessas estratégias é a naturalização. Essa estratégia tende a tratar elementos frutos de criação social e histórica como sendo acontecimentos naturais e inevitáveis. A eternalização, que é outra estratégia desse modo, por sua vez, permite que fenômenos sócio-históricos percam essa constituição, uma vez que são apresentados como constantes, imutáveis e recorrentes (THOMPSON, 2002).

Outra estratégia de reificação é a nominalização/passivisação. A nominalização ―acontece quando sentenças, ou parte delas, descrições da ação e dos participantes nelas envolvidos, são transformadas em nomes [...]‖ e a passivisação ―se dá quando verbos são colocados na voz passiva‖ (THOMPSON, 2002, p. 88). Segundo o autor, o uso desses recursos gramaticais e sintáticos faz com que a atenção do leitor/ouvinte seja concentrada em certos temas, provocando o esquecimento de outros, além de promover o apagamento dos atores da ação, levando à supressão do sujeito que produz coisas e acontecimentos. Dessa forma, por ajudar a produzir a reificação de fenômenos sócio-históricos, a nominalização/passivisação é uma estratégia que, em situações específicas, pode estabelecer e sustentar as relações de dominação.

Com base no exposto, a partir da análise das estratégias de operação ideológicas, podemos verificar como as ideologias são operadas discursivamente pelos atores sociais envolvidos na divulgação debate, assumindo o propósito de controle do poder.

A seguir, será exposto o passo-a-passo empregado para se alcançar os objetivos deste estudo.

4 PERCURSOS METODOLÓGICOS

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