De acordo com Peres–Escamilla e Segall-Corrêa (2008), existe quatro métodos indiretos comumente utilizados em inquéritos nacionais para avaliação da insegurança alimentar: Método da Food and Agriculture Organization (FAO), Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), Avaliação do Consumo Dietético Individual e Antropometria. Os métodos indiretos de avaliação estão baseados na construção de linhas de pobreza e indigência, tendo como base o perfil de renda de cada família. É com base nessas estimativas indiretas que se afirma que, tendo melhorado a renda e reduzido à desigualdade, teria melhorado o estado de segurança alimentar da população (BELIK, 2012).
O método indireto utilizado pela FAO visa determinar o número de pessoas subnutridas em cada país e, assim, realizar comparações e estabelecer metas. Este instrumento busca estabelecer uma estimativa de calorias disponíveis por habitante de um determinado território nacional com base na balança de alimentos (média de três anos) e nas pesquisas de orçamentos domésticos. São utilizadas informações nacionais sobre estoques, produção, importação, exportação e desperdício de alimentos, pressupondo a existência de informações precisas e atualizadas acerca do número de habitantes no ano de referência da estimativa para aquele país. Para avaliar a adequação da quantidade de calorias disponíveis per capita este método requer como parâmetros informações que são normalmente derivadas de pesquisas de orçamentos domésticos: a ingestão calórica média, o coeficiente de variação desta ingestão (para obter a distribuição do consumo de energia) e o valor de referência (ou ponto de corte) que estabelece a necessidade calórica mínima per capita (PÉREZ- ESCAMILLA; SEGALL-CORRÊA, 2008, PESSANHA, et al., 2008). O método FAO é o indicador designado para a supervisão do cumprimento da meta de reduzir à metade o número de pessoas com fome até 2015 (PESSANHA, et al., 2008).
As Pesquisas de Orçamentos Domésticos empregam entrevistas domiciliares para obter a informação da renda total do domicílio, bem como o valor total gasto na aquisição de alimentos e no suprimento das demais necessidades básicas durante um período de referência. Os dados solicitados por esse método são: preços dos
30 alimentos consumidos dentro e fora do domicílio, com as quantidades compradas ou as despesas efetuadas; alimentos recebidos por algum membro da família como presente ou forma de pagamento por trabalho realizado; e alimentos produzidos no domicílio para consumo. Estas informações permitem estimar o consumo alimentar médio que, por meio de tabelas de conversão de alimentos em calorias, fornece a média diária de quilocalorias consumidas no domicílio por pessoa (PÉREZ- ESCAMILLA; SEGALL-CORRÊA, 2008).
Já as Pesquisas de Ingestão Individual de Alimentos pretendem medir o
fenômeno da “insegurança alimentar” por meio da real ingestão alimentar de cada
indivíduo. Pode ser avaliada por diferentes métodos como o recordatório 24 horas, o questionário de frequência alimentar e o registro do peso dos alimentos ingeridos, seguidos de análise do conteúdo químico e nutritivo desses alimentos. Estas informações, comparadas com as exigências de energia e com os limites específicos de cada nutriente, permitem avaliar a adequação do consumo energético e de nutrientes da população (PERES–ESCAMILLA; SEGALL-CORRÊA, 2008, PESSANHA et al., 2008, GALESI et al., 2009).
Pessanha et al. (2008) destacam que, embora os métodos indiretos forneçam estimativas precisas da ingestão alimentar, a interpretação destas estimativas, em termos de adequação e de assimilação com a fome, continua problemática. De acordo com o autor, devido à sua limitada aplicação que decorre, em grande parte, da necessidade de recursos operacionais, estes métodos não se configuram em uma alternativa às pesquisas de orçamento doméstico, embora permitam estudar mais adequadamente as relações entre a ingestão de energia e nutrientes que são resultados de interesse para os profissionais de saúde.
Já em relação aos métodos diretos, Galesi et al. (2009) destacam a medida antropométrica como um indicador direto do estado nutricional, embora seja um instrumento que avalia a segurança alimentar de forma indireta. As técnicas de medições antropométricas são bem padronizadas e, quando executadas por profissional capacitado seguindo procedimentos normatizados, são largamente reproduzíveis. Os indicadores antropométricos empregados com maior frequência nas pesquisas nacionais amparam-se nas medidas de peso e altura - de bebês, crianças, adolescentes e adultos - e são interpretados tomando como base a utilização de valores de referência com validade científica (PERES–ESCAMILLA; SEGALL- CORRÊA, 2008, PESSANHA et al., 2008). Assim, a subnutrição é diagnosticada
31 quando as medidas antropométricas dos indivíduos, em termos de peso e de altura, estão abaixo dos padrões de referência.
Galesi et al. (2009) alertam sobre a grande probabilidade de obtenção de valores normais de peso, estatura e índice de massa corporal em famílias que estão vivendo em situação de insegurança alimentar. Mesmo não possuindo restrição energética, a qualidade da dieta pode estar afetada e, nesse caso, a segurança da alimentação, o que confirma a limitação da antropometria para estimar a segurança ou insegurança alimentar.
Além desses métodos tradicionais, introduziu-se no Brasil, em 2004, a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA). Trata-se de um indicador direto que busca avaliar a percepção da população quanto a sua segurança alimentar. Esta avaliação é feita com base em uma escala, que classifica o resultado de perguntas simples sobre os riscos e vulnerabilidade quanto ao consumo de alimentos. A EBIA está baseada em 15 perguntas voltadas apara a avaliação dos hábitos de consumo alimentar da população e os seus resultados são apresentados em níveis que vão desde a insegurança alimentar grave até a segurança alimentar.
Segall-Corrêa (2007) destaca, entretanto, que esse tipo de pesquisa poderia originar certa subjetividade, pois os entrevistados, nas suas respostas, estariam levando em conta não somente o fato de terem ou não renda ou alimentos disponíveis para consumo como também as suas perspectivas futuras quanto a esses quesitos (SEGALL-CORRÊA, 2007).
Percebe-se, portanto, que todos os métodos possuem limitações de erros de medida que poderão ser reduzidos pelo conhecimento dos princípios nos quais estão baseados, além do envolvimento de pesquisadores de campo bem capacitados e padronizados (Galesi et al., 2009). Nesse sentido, Panelli-Martins et al. (2008) apontam que a avaliação da segurança alimentar não conta, ainda, com métodos capazes de avaliar o fenômeno em toda a sua extensão.
Segundo Belik (2012), dependendo do método utilizado pode-se chegar a um resultado distinto e, portanto, a um diagnóstico diverso, levando a que se prescreva intervenções de política de cunho diferenciado. Cabe destacar que nenhum dos métodos apresentados busca investigar os fatos por meio do olhar dos próprios sujeitos que vivenciam na sua realidade a insegurança alimentar e nutricional. Mesmo que a EBIA tenha avançado na investigação da segurança alimentar ao buscar mensurar o problema, por meio da percepção dos sujeitos, trata-se de um instrumento que
32 estabelece perguntas previamente formuladas, o que retira do sujeito à oportunidade de manifestar na sua fala a realidade dos fatos e a diversidade das informações.
Considerando ainda que a insegurança alimentar e nutricional como um fenômeno social que se distribui de maneira diferenciada na população, a expressão deste fenômeno em determinados grupos populacionais pode estar relacionada a fatores específicos e característicos destes grupos.
Avaliar a segurança alimentar requer, portanto, considerar também os diferentes contextos e características de diversos fenômenos. Assim, além de conhecer em pormenor as questões ligadas aos métodos utilizados por órgãos governamentais, pesquisadores, entre outros, na mensuração deste quadro, torna-se imprescindível conhecer a realidade contextual em que se instala de forma a subsidiar os processos de tomada de decisão, a formulação e a implementação de políticas públicas.