3. METHODOLOGY
3.3 Transfer learning and finetuning
3.3.2 Transfer learning
O corpus de análise desta pesquisa é uma coletânea de doze contos gays, escrita na década de 1960 por Samuel Steward, com o pseudônimo de Phil Andros, no contexto norte-americano, e sua tradução para o português brasileiro, feita por Dinah Klebe, ao final da década de 1990. A contracapa da tradução apresenta uma pequena biografia de Phil Andros e a gênese da obra Stud:
Phil Andros é o nome pelo qual Samuel Steward, um professor com Ph.D. em literatura inglesa, tornou-se conhecido e cultuado nos Estados Unidos ao narrar as aventuras de um michê bonito, culto e gay. Steward foi amigo de Gertrude Stein42
e Alice B. Toklas, freqüentou os círculos americanos e europeus de homossexuais famosos (a quem dedicou-se em seduzir), e, sempre inquieto, uniu seu amor por artes gráficas e corpos masculinos tornando-se tatuador, profissão na qual criou fama.
Em resposta ao desafio de um amigo, escreveu as histórias de estréia de “Phil Andros”, um homem inteligente e bem dotado que faz uso de sua sensualidade mediterrânea para ganhar a vida. Pela primeira vez a sexualidade gay era apresentada como um fato corriqueiro, o que conquistou de imediato leitores em todo o mundo, cansados de material negativo sobre homossexuais. Este público permanece fiel ao humor fino e aos personagens exóticos que caracterizam as aventuras de Phil, fazendo dele um clássico sempre presente em antologias gays.
42 Gertrude Stein (1874-1946), escritora americana de estilo excêntrico, lésbica, viveu grande parte
de sua vida em Paris, junto de sua companheira Alice B. Toklas, em meio a grandes artistas e escritores da época. Publicou, dentre outros, Three Lives (1909), The Making of Americans (1906- 08), e seu maior sucesso, The Autobiography of Alice B. Toklas (1933), sendo, na verdade, sua própria biografia. Sua obra e sua vida influenciaram a produção literária de Samuel Steward. Fonte:
Os seis primeiros contos de Stud selecionados para análise (ver justificativa de escolha dessa amostragem em “Preparação do corpus e categorias de análise” mais à frente) apresentam a vida gay caracterizada por eventos nos quais Phil Andros, narrador e protagonista dos contos, se envolvia com outros gays em situações variadas. O primeiro conto, The Poison Tree, apresenta Phil Andros como guia turístico do Glacier National Park, o qual era cercado pelas montanhas Garden Wall, em Montana, EUA. Clayton, o outro guia turístico recentemente contratado, incomodava Phil em todas as suas ações. Do incômodo persistente que Phil Andros sentia em relação a Clayton surgiu uma atração muito forte, ódio mesclado com lascívia, a qual culminou em uma relação sexual entre ambos. Por este fato, Phil Andros foi acusado por Clayton de homossexual, atributo este que caracterizava uma atitude “desviante” àquela época. Porém, a dona do parque, Srª. Barley, não acreditou em Clayton, demitindo-o em seguida. Phil Andros se safa da acusação e continua trabalhando no Glacier National Park.
No segundo conto, Mirror, Mirror, on the Wall, Phil Andros trabalha como mensageiro de um hotel, vindo a se interessar por um de seus hóspedes chamado Rex Rhodes. No entanto, Phil não chega a se relacionar sexualmente com ele. No decorrer do conto, o narrador e protagonista, após alguns anos, reencontra o hóspede e se envolve, juntamente com ele, em uma orgia com vários outros gays. Ao final, Phil desenvolve uma admiração excêntrica por Rex Rhodes, embora este adote um estilo de vida solitário e auto-suficiente, nunca se envolvendo afetivamente com outros parceiros.
O terceiro conto, The Easter Kid, apresenta Phil Andros como um michê
gay43 que aceita um programa com outro michê gay italiano de nome Pasquale, o
qual aparecia em São Francisco somente na época da Páscoa. Os dois, após longas horas de conversas sobre auto-iluminação e zen-budismo, visto que Pasquale dizia- se budista, relacionaram-se sexualmente. Ao final, Phil Andros descobre que Pasquale criou a estória de auto-iluminação da mesma forma que ele fazia com os gays os quais ele se envolvia, fato este que contrariou Phil. Pasquale vai embora da cidade sem deixar pistas de seu paradeiro, forçando, pois, Phil a aguardar o período da Páscoa do ano seguinte para acertar as contas com Pasquale.
O quarto conto, The Green Monkey, apresenta Phil Andros como um michê gay que se envolve com um sapateiro gay “pedólatra”, ou seja, viciado em pés, fazendo disso um fetiche. Depois de se envolver com esse sapateiro, chamado Karl, Phil começa a se apaixonar por ele, até que um dia Karl, ao tentar beijar os pés de um garoto nas ruas de São Francisco, é agredido violentamente por um grupo de jovens dos subúrbios da referida cidade, vindo a falecer dias depois. Phil se entristece profundamente e deixa a cidade de São Francisco, mudando-se para o Texas.
No quinto conto, Ace in the Hole, Phil Andros começa a trabalhar em um hotel no Texas. Nesse local, ele se interessa por um dos mensageiros, um michê bissexual, negro, alto, bonito e muito bem-feito de corpo, chamado Ace. Depois de
43 É importante ressaltar que em todos os contos Phil Andros é um michê gay. Contudo, com
exceção dos contos The Easter Kid e The Green Monkey, nos quais Phil Andros assume plenamente sua identidade de michê gay, o narrador e protagonista disfarça-se como trabalhador comum, em parques e hotéis, a fim de conhecer outros gays e se envolver sexualmente com eles.
várias tentativas, Phil finalmente consegue se envolver com Ace. Dado o grande preconceito existente no Texas, sobretudo nos anos 1960, os dois freqüentemente se encontravam às escondidas, até que um dia foram descobertos, sendo obrigados a fugirem do Texas e se mudarem para a cidade de Chicago. A essa altura, Phil Andros já havia se apaixonado por Ace, embora temesse viver com ele em Chicago, uma vez que o racismo nos Estados Unidos, sobretudo em Chicago, era muito violento àquela época.
O sexto conto, Two-Bit Whore, mostra a decadência de Ace na cidade de Chicago, sobretudo porque ele não conseguia programas na referida cidade, devido ao preconceito bastante acentuado. Depois de um bom tempo, Phil consegue arranjar programas com outros gays negros para Ace, o qual, mais tarde, reserva-se a apenas se relacionar com seus clientes negros, abandonando Phil. Este, desiludido, sofre várias humilhações da parte de Ace, as quais culminaram em agressões físicas e psicológicas e, por fim, no término da relação. Isso faz com que Phil Andros revisite seus conceitos existenciais e problematize seu próprio estilo de vida. No entanto, Phil não desiste de suas aventuras como michê gay, deixando o leitor curioso em saber quais serão suas próximas ações e artimanhas.