• No results found

Data e horário da entrevista: 14 de setembro de 2012, às 10:35 horas Local da entrevista: escritório do entrevistado, em Recife-PE Entrevistador: André Javier Ferreira Payar

Uma das fichas em nome do advogado encontradas no acervo do DOPS/PE, constante do Arquivo Público do Estado de Pernambuco.

Boris Marques da Trindade, filho de Aristofanes Renan Mar- ques da Trindade e Madalena Marques da Trindade, nasceu em Recife, no Estado de Pernambuco, em 29 de janeiro de 1936. Com pouco mais de 24 anos, graduou-se em direito pela Universidade Federal de Pernambuco. Após, dedicou-se exclusivamente à advocacia penal. Com o Golpe Mili- tar, foi indicado para atuar na defesa de Maria Celeste Vidal, militante da Liga dos Camponeses, organização cujos membros vinham sendo inten- samente perseguidos pelas autoridades policiais. A partir daí, defendeu outros perseguidos políticos perante a Justiça Militar, especialmente membros de organizações de esquerda da região nordeste do país. Foi Conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil na Seção de Pernambu- co, onde presidiu a Comissão de Defesa do Exercício da Advocacia. Foi advogados de juízes do Poder Judiciário de Pernambuco e de Promotores de Justiça que foram processados pela ditadura militar. Foi advogado do ex-governador Miguel Arraes e do então deputado federal de Pernambuco Eduardo Campos. Em 2011, foi homenageado pela Ordem dos Advoga- dos do Brasil Seccional de Pernambuco com a medalha “Joaquim Ama- zonas”, em virtude de seus cinquenta anos ininterruptos de exercício da advocacia1. Atualmente, é advogado criminalista em Recife.

Em primeiro lugar, a gente começa as entrevistas pergun- tando sua formação acadêmica, jurídica e política. O senhor teve políticos na família? O senhor teve uma atuação política na sua ju- ventude? Como foi?

Eu, a rigor não. O que é que acontece: eu me formei em 1960, pela Universidade Federal de Pernambuco. Era jornalista, toda minha família era de jornalista: meu pai, meu irmão. Entrei para ser advogado e fui privilegiado com uma turma muito boa, a turma de 1960, da qual che- garam a sair até Ministros, como é o caso de Walter Costa Porto, que chegou a ser Ministro do Tribunal Superior Eleitoral, além de outras figu- ras interessantes. Agora, eu entrei para ser advogado criminal e já advo- gava como estudante. Já advogava com certo entusiasmo pela advocacia criminal e só sei fazer isso. Eu nunca ensinei, a não ser eventualmente, palestras que eu faço, que é uma coisa que eu gosto. Estou na Comissão

1 Informação disponível em: <https://docs.google.com/viewer?a=v&q=cache:Mn1PHmt_

UxIJ:sapl.recife.pe.leg.br/sapl_documentos/materia/24948_texto_integral+&hl=pt&pi d=bl&srcid=ADGEESjArOoMyfcjXYGwTKvfPJbMMosMfeqeaoTtHghxYHmY2i2v BDCJiKKRUzoYE-0i0pfJsiRyfnapPmdQNuCFPWa1-C_hcQzdDDuuBLWcJ9000LS D_CKrzgGWmQF1YwlmhUvvwNYG&sig=AHIEtbRUHYY2j_qqcAW2FtzhexDQ Uz9Hvw>. Acesso em: 14 mar 2013.

de Reforma do Código Penal pela Ordem dos Advogados [do Brasil], que é uma comissão que foi instituída pela Ordem dos Advogados de Per- nambuco, exclusivamente para analisar o projeto do Ministro Gilson Dipp. Esse trabalho está praticamente no fim.

Não tenho, digamos, exercício acadêmico. Já fui examinador em concursos para juízes, procuradores federais... Mas, a rigor, nunca ensinei, a não ser uma vez, nas férias de um colega meu. Porque eu nas- ci... Mas eu gosto de ser advogado, de brigar contra o sistema. A coisa mais bonita na vida, que eu acho – depois de uma mulher nua, claro, de costas – é um alvará de soltura. Eu tenho um livro, inclusive, chamado “Alvara de soltura, meu amor”2. É um texto sobre coisas judiciárias, que

eu inclusive transformei numa peça que talvez seja montada, porque eu tenho uma ligação com o teatro muito grande. E a propósito disso, por causa do teatro, eu conheci uma grande figura chamada Glauce Rocha3,

que era integrante do Comando Vermelho4 no Rio de Janeiro. Era para a

Glauce Rocha, uma atriz de teatro que morreu cedo, comunista, que nós mandávamos os presos perseguidos. As pessoas estavam perseguidas aqui no Recife, no nordeste, e eu as encaminhava para a Glauce Rocha. Na- quele tempo não tinha celular, em 64, 65. E Glauce colocava essas pesso- as no Rio. É uma pessoa que eu falo dela com muita emoção, porque nos serviu muito a nós advogados.

Então, do ponto de vista de formação... Eu já disse ao meu fi- lho: quando eu morrer, coloque na catacumba: “advogado”. Eu só sou advogado. Foi o que eu fui a vida inteira: advogado. Sou a vida inteira. Nunca fui Professor, apesar dos convites. Fora disso, o que é que eu sou: Conselheiro da Ordem. Fui durante muito tempo, em duas legislaturas da Ordem dos Advogados de Pernambuco; e prolífero, porque eu tenho dez filhos e vinte e cinco netos. Não tenho mais outras coisas não.

Na atuação política, o senhor se vinculou...

2 A obra foi lançada no ano de 1983.

3 Glauce Rocha nasceu em 16 de agosto de 1930, na cidade de Campo Grande. Foi

atriz, tendo se destacado no teatro e no cinema. Faleceu aos 38 anos de idade, vítima de infarto.

4 Era um grupo clandestino de militantes da esquerda que tinha por objetivo mudar as

identidades dos perseguidos políticos e coloca-los em empregos, por exemplo. Era um grupo sem personalidade jurídica, mas que se reunia constantemente no apartamento onde Glauce morava em Copacabana. Dele faziam parte vários artistas de teatro e ci- nema, como Mario Lago, Oduvaldo Viana Filho, entre outros.

Não, nunca. Na minha família... Eu tenho uns parentes longe, Moury Fernandes... Mas são contraparentes. Aqueles contraparentes de que fala Manuel Bandeira5, mas parente mesmo, político, não. Nem meu

pai nunca foi político, meu irmão nunca foi político, nem eu nunca fui. Pelo contrário, eu fui advogado de políticos: integrei comitê políticos em campanha para governador, etc. Mas político mesmo, não. Não tenho vocação para: “venha amanhã”, “depois eu passo lá”, “está garantido”, “estou providenciando”. Esses léxicos são contra a minha formação, e que é muito típico do político. “Vou conseguir”, “tudo bem”, “está certo”, “passe lá em casa”, essas coisas. Eu não tenho vocação para isso não.

O senhor, na faculdade, estagiava na área criminal?

Na minha época não havia, a rigor, estágio. Eu me formei em 60. Havia estágios informais. O que é que eu fiz? Eu, como eu queria ser advogado, naquele tempo tinha uma figura chamada solicitador, em vez de estagiário. Ainda hoje eu tenho minha carteira. É uma carteira grande, vermelha, com nome [em] dourado, e dava direito a esses estudantes par- ticiparem de audiências... O que mais ou menos um estagiário faz hoje. Então, eu fui solicitador. Tem até uma coisa engraçada – a minha vida é cheia de anedotas: uma vez houve uma ameaça de incêndio no Tribunal de Justiça de Pernambuco, por causa de uma eleição, a qual se atribuía a um ex-deputado – que já morreu, que eu quero muito bem a ele, mas eu não vou falar o nome dele – [que] teria mandado incendiar o Tribunal porque ele não tinha sido eleito. As urnas ficavam no térreo do Tribunal de Justiça. Com essa notícia, eu, repórter do “Jornal do Commercio”, fui lá para entrar. A polícia tinha cercado todo o Palácio da Justiça e nin- guém entrava.

Aí eu comecei a sentir que a minha vocação era ser advogado ou estelionatário, das duas uma. Aí quando eu cheguei para entrar, o sar- gento veio [e disse]: “está proibida a entrada”. “Não, mas eu sou solicita- dor”, e mostrei a carteira vermelha, com o timbre da República, e ele disse: “ah, pois não, desculpa, Doutor, entre aí”. Quer dizer... Então nesse tempo a gente não tinha estágio, mas eu comecei advogando cedo nos cartórios. Eu fui realmente advogado “porta de xadrez”.

5 Refere-se à segunda estrofe do poema “Vou-me embora pra Pasárgada”, publicado em

1930 na obra “Libertinagem”, de autoria do poeta Manuel Bandeira, cujo trecho diz: “(...) Vou-me embora pra Pasárgada/Aqui eu não sou feliz/Lá a existência é uma

aventura/De tal modo inconsequente/Que Joana a Louca da Espanha/Rainha e falsa demente/Vem a ser contraparente/Da nora que nunca tive (...)”.

Então desde a...

E a minha família era muito pobre. Eu comecei a minha vida como porteiro de teatro, daí minha relação hoje com o teatro. Eu tenho um filho que trabalha na Rede Globo, Aramis Trindade, que é ator; outro trabalha em circo, Borinho tem um circo. Fiz teatro durante muito tempo, quer dizer, como produtor de teatro. E tenho uma relação muito grande de amizade com os grandes artistas brasileiros de meu tempo. E os mais novos, no caso do Fagundes, por exemplo, é muito amigo da gente. Aderbal Freire que a gente chama de Aderbal Junior, Paulo Autran, Renato Borgh, Ítala Nandi... E muita gente da televisão, o Lúcio Mauro... Esse povo tudinho a gente tem uma relação muito estreita, muito sadia mesmo. Então é uma carreira...

O senhor tinha quantos anos quando começou a trabalhar no... Quando eu comecei a trabalhar na vida eu tinha quatorze anos. Eu era porteiro de teatro aqui. Eu não guardo essas coisas, porque eu acho um retrato uma coisa indignificante, viu? Eu acho fotografia, a não ser no poema de Drummond, “Itabira, apenas um retrato na parede”6, um negó-

cio indignificante. Sente-se aquela mudança da vida na pele, em tudo... Quando eu vejo as minhas fotografias do meu tempo de estudante, chega a me dar um choro interno. E hoje, ainda alguns amigos meus... Ontem encontrei um amigo meu, que foi delegado de polícia, meu colega de turma. O reconheci porque eu tenho uma capacidade perceptiva muito grande, e vi que era ele. “Ê, Boris...”. Chorou, se abraçou comigo. “Mas, rapaz, você está bem?” “Tô nada!” Eu digo: “depois de setenta anos a gente só conhece limitações”. Ele é que estava um pouco cansado, eu quase não o conheci... Por isso que fotografia é uma coisa mais... Eu te- nho fotografias daquele tempo: eu como porteiro, com Tônia Carrero, Bibi Ferreira, Eva Tudor, Dercy Gonçalves, Sérgio Cardoso, Ziemdisky, Adolfo Coelli, toda aquela geração... Todo aquele povo que começou a vida no teatro brasileiro, onde se fazia teatro, apesar de ser um pouco conservador. Mas não era esse teatro de ganha-pão, de comédia em pé, teatro sem cenário, né? Nada disso tinha naquele tempo. Era um teatro mais conservador, mas era um teatro bonito que se fazia. A minha relação era essa. Eu tenho [essa] relação com o teatro. O futebol eu deixei, mas já fui presidente de um clube aqui, o Santa Cruz, numa fase negra da minha vida. Convivi com homens num vestiário, geralmente nus. É um negócio terrível para um homem. Não tolero não.

6 A poesia referida encontra-se na obra “Antologia Poética” de Carlos Drummond de

O senhor ingressa na faculdade com quantos anos?

Eu ingressei na faculdade... Rapaz, que pergunta danada. Eu me formei com menos de 24 anos. Eu me formei muito moço. E é um detalhe muito interessante, se você for à Faculdade de Direito de Recife, o quadro da formatura de 1960 não tem o meu retrato. Tem todo mundo. Eu não tinha dinheiro. Eu já era repórter do “Jornal do Commercio”, ganhava salário mínimo, ganhava muito pouco, minha família era pobre. Então, eu não tinha dinheiro para entrar na lista de formatura, no negócio de pagar a festa, contratar o clube para o baile de formatura, fazer os convites com fotografia, etc. Então, o quadro na Faculdade de Direito na formatura de 60, tem todo mundo. Boris Trindade só tem o nome, não tem retrato. Eu acho até bom porque o meu retrato da época... Eu não tive retrato na for- matura. Eu me formei em 60. Eu acho que com 24 anos.

Na faculdade inteira nós tivemos atuação política doméstica, no sentido de que a gente tinha o domínio do Diretório Acadêmico, e perde- mos quando Marco Maciel7 chegou. Marco Maciel é uma pessoa de uma

capacidade política muito grande. Nós temos divergências ideológicas, mas Marco é uma pessoa séria, honesta e construí com ele amizade ao longo do tempo. Era meu adversário político na faculdade. Então, eu tinha o domínio do Diretório Acadêmico. De um lado tinha Bruno Mara- nhão, aquele que invadiu o Congresso, integrante da MLST8, de quem eu

sou advogado hoje. Bruno era de esquerda, radical.

Estava começando a surgir, na Faculdade de Engenharia, e a gente era direita, o meu grupo. E chegou Marco Maciel com o grupo dele, com aquela carinha de anjo. Terminou, eu tive que fazer um acordo, divi- dir o Diretório Central para ele ficar com o Diretório da Faculdade, com o Marco Vilaça9. Então Marco Maciel chegou lá com Marco Vilaça, que é

7 Marco Antônio de Oliveira Maciel, cf. glossário.

8 O Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST) é um movimento político-social

que tem por objetivo a realização da reforma agrária no país. É tido como uma dissi- dência do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Em junho de 2006, o grupo invadiu o salão verde da Câmara dos Deputados, destruindo o vidro do prédio e alguns postos de atendimento ao público. O líder Bruno Maranhão alegou que eles reivindicam a revogação de uma medida provisória que impede que uma pro- priedade ocupada seja vistoriada para fins de reforma agrária. Após o ocorrido, o pre- sidente da Casa à época, Aldo Rebelo, recebeu Bruno Maranhão. Informações dispo- níveis em: Folha de S. Paulo, 07/06/2006, p. A8; e <http://noticias.uol.com.br/ ultnot/brasil/2006/06/06/ult1928u2022.jhtm>. Acesso em: 13 mar 2013.

9 Marcos Vinicios Rodrigues Vilaça nasceu em 30 de junho de 1939 em Nazaré da

Mata, em Pernambuco. Foi professor de Direito Internacional Público, de 1964 a 1994, na Faculdade de Direito da Universidade de Pernambuco. Em 1985, foi eleito

da Academia de Letras – e que é meu cliente hoje, o Marco Vilaça, eu sou advogado da família dele – Marco Maciel, e o Senador Joel de Ho- landa10... Era um grupo de rapazes. Eu fui obrigado a fazer um acordo.

Todos ficaram do lado de lá, com Marco Maciel, com aquela cara dele. Inteligentíssimo, ele faz política no ouvido das pessoas, fala baixo... Ele já falava baixo dentro da Faculdade. E, só foi isso que eu tive: [política] em Diretório Acadêmico.

O meu grupo tinha o controle da política universitária, e tive- mos que abrir mão para Marco Maciel, que derrotou Bruno Maranhão no Diretório Central. É uma história pequena, muito doméstica, mas Bruno já tinha uma atividade política muito grande. Hoje, o Bruno está numa cama, sofreu um AVC, há mais de um ano. Eu sou o advogado dele na- quele processo da invasão do Congresso. Está correndo na 10ª Vara [Fe- deral], [sobre] o MLST. Quando eu fui inquirir Aldo Rebelo – que foi testemunha, que foi quem mandou prender aquele povo – houve um mal estar entre mim e ele na audiência, porque eu perguntei se ele tinha dado voz de prisão às 650 pessoas, porque, coincidentemente, eu estava em Brasília no dia 6 de junho, quando houve invasão da Câmara. Aliás, Bru- no devia invadir mesmo e acabar com o Congresso que seria uma “grande coisa”, conforme li em várias cartas à redação dos principais jornais do país, porque não funciona mesmo. A gente sabe que, infelizmente, isso é ruim para a democracia, mas Bruno chegou só na periferia.

Então, foi depois... Um juiz muito competente, Doutor Ricardo da 10ª Vara. Quando eu perguntei a... Porque eu vi, eu fui ao estádio Nilton11... Um ginásio de esportes em Brasília, Nilton, uma coisa assim.

Tinha 600 pessoas no estádio. Aí eu me lembrei do que eu vi no Chile. Quando Allende caiu quando estava no Chile, eu vi aquele estádio nacio-

membro da Academia Brasileira de Letras, vindo a ocupar a cadeira de nº 26. Foi Mi- nistro do Tribunal de Contas da União de 1988 a 2009. Mais informações a respeito de sua trajetória, disponível em: <http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/ start.htm?infoid=609&sid=266>. Acesso em: 13 mar 2013.

10 Joel de Hollanda Cordeiro nasceu em 1943, na cidade de Arcoverde, em Pernambuco.

Graduou-se em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Pernambuco. Du- rante o governo de Marco Maciel foi nomeado Secretário de Educação de Pernambuco. Foi deputado estadual de 1983 a 1991. Poucos anos depois, em 1995, foi eleito Sena- dor, exercendo o mandato até 1999. Para mais informações a seu respeito, vide biogra- fia constante do portal eletrônico do Senado Federal, em: <http://www.senado.gov.br/ senadores/senadores_ biografia.asp?codparl=37&li=50&lcab=1995-1999&lf=50>. Acesso em: 13 mar 2013.

11 O ginásio a que o entrevistado se refere é o Ginásio de Esportes da Polícia Militar em

nal cheio de presos políticos12, eu me lembrei, fui perguntar isso a Aldo, e ele quase “dá” em mim. “Você está pensando que eu sou nazista, não sei o quê...”. O juiz interferiu, e eu perguntei se ele tinha mandado prender aquelas 650 pessoas no Estádio. Foi uma visão curiosíssima, muito curiosa. Bom, então para encerrar esse assunto, a minha atividade política foi muito [diminuta]. Não tinha ideologia firmada naquele tempo, tanto que eu pertencia, digamos, à direita da Faculdade, que estava se formando; con- tra a esquerda, que não era Marco [Maciel] – Marco sempre foi centrista – mas era Bruno Maranhão, que tinha o controle do Diretório Central.

Então a gente tinha o controle do Diretório Acadêmico, e Marco Maciel chegou e tomou. Tomou com a maior sinceridade, com a maior honestidade, trazendo capacidade de captação terrível de trazer os estu- dantes que trabalhavam comigo. Eu tinha uma facilidade é porque eu era jornalista naquele tempo. Eu dava cobertura nos jornais muito grande ao diretor da Faculdade, ao Reitor, todo mundo... Eu tinha um acesso muito grande, e, modéstia à parte – eu não gosto dessa palavra não – mas, ho- nestamente, eu era estudioso, estudava na biblioteca. Eu estudava... Na- quele tempo eu já falava francês. Aprendi alemão em livros. Chega agora um alemão aqui pra tú ver. Entendeu? Então, eu gostava. Era pobre, de família pobre, eu tinha que vencer pelo estudo. Não é que eu venci não, mas eu tenho 10 filhos, 25 netos...

Mas como solicitador, o senhor já atuava na área criminal? Atuava como solicitador. Solicitador tem um limite como esta- giário, mas eu usava o nome de meu irmão, também, Aramis, que era jornalista esportista há muito tempo. Formado, não advogava. Então, eu já pegava a procuração dos clientes... Eu montei um escritório como soli- citador. Eu advogava no interior, andava de ônibus, ia às cadeias... Era advogado “porta de xadrez” mesmo. Soltei muita gente de graça ou por besteira. No tempo de estudante, fiz muito isso. Como solicitador, eu ia fazer júri, mas ações, no cível, eu tinha que ter um advogado para assinar, e no caso, meu irmão Aramis assinava por mim, que morreu.

E como chega para o senhor essa atuação em defesa de per- seguidos políticos? Na Justiça Militar essa atuação então foi uma consequência da sua atividade?

12 Refere-se ao Estádio Nacional Julio Martínez Prádanos, localizado em Santiago, no

Chile. Durante o governo de Augusto Pinochet, o estádio foi utilizado como campo de prisioneiros políticos.

Eu já era advogado formado, em 1961, pois me formei em de- zembro de 1960. Eu peguei uns casos de certa repercussão, porque eu fazia um júri. Júri é um negócio que projeta muito o advogado. Às vezes o advogado é medíocre, mas faz um júri e aparece. Acontece que nesse interregno entre 60 e 64, eu já vinha advogando, todo júri meu saia no