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Ao longo deste trabalho, enfatizamos a experiência musical da criação como essencial para o ensino e a aprendizagem e como parte das respostas à demanda atual, e dando a figura do aluno como eixo central deste estudo, ao discutirmos a música na contemporaneidade, as concepções de inteligência e a construção do conhecimento.

Uma maior atenção aos procedimentos criativos permite colocar ao alcance dos alunos meios pelos quais poderão obter conteúdos conceituais de maneira mais comprometida. Nossa experiência em sala de aula tem demonstrado que o planejamento musical cujos conteúdos estão mais próximos dos alunos favorece seu interesse e sua participação, e a criação lhes permite trabalhar e se desenvolver segundo suas habilidades e possibilidades individuais e coletivas.

A estruturação de um currículo musical voltado para a diversidade e a abrangência certamente passa pela discussão de procedimentos que ensejem uma aprendizagem personalizada. Dentre eles, destacamos a criação musical como uma “perspectiva mais de-

baixo-para-cima”. (Hernández, 2000: 33)

Em artes plásticas, dança ou teatro, são muito comuns os recursos didáticos que privilegiam o processo criativo, em que o aluno desenha, pinta, dança ou dramatiza segundo seu imaginário e suas possibilidades, e não exatamente segundo os modelos impostos pelos adultos. A composição musical também é incentivada nos currículos das escolas inglesas e norte-americanas, segundo registros de estudos e experiências docentes de Emile Jaques- Dalcroze, Satis Coleman, Carl Orff, Peter Maxwell Davies, Murray Schafer e John Paynter, entre outros.

Um modelo educativo musical atento às demandas contemporâneas deveria focalizar mais as expressões e práticas musicais do aluno, explorando diversos modos de aprendizagem e dando acesso à criação musical. Entre as condições facilitadoras da prática criadora em sala de aula, Schillinger aponta algumas psicológicas, metodológicas e materiais (Schillinger, 1997: 3-6):

1) “Motivação dos alunos – a expressão criadora deve nascer de uma motivação interna e constantemente encorajada pelo professor;

2) Espaço de comunicação – instaurar um clima de segurança, para que o aluno, a partir do exemplo oferecido pelo professor, sinta-se livre e desinibido para criar e expressar suas idéias musicais;

3) Aculturação musical – o fazer artístico deve nutrir-se de uma diversidade cultural de exemplos e gestos musicais;

4) Planejamento e organização do espaço – oferecer ao aluno um espaço organizado, apropriado e planejado para as atividades de criação musical.”

A produção musical deve ser amparada pela pesquisa individual ou coletiva de materiais sonoros (voz, objetos sonoros, instrumentos musicais, paisagens sonoras, cds) e pela organização de todo material a ser utilizado; é ainda imprescindível reservar um momento para a escuta, avaliação de estruturas e resultados sonoros, reflexão e discussão de todas as produções. Se possível, devem-se gravar ou filmar as produções musicais dos alunos, para que se possam analisar e confrontar os resultados com produções posteriores.

Em sua tese, A reinvenção da música pela criança: implicações pedagógicas da

criação musical, defendida na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Pedro Paulo Salles aborda a criação musical do ponto de vista do aprendizado da criança, mostrando que a atividade criativa pode não apenas motivar o aprendizado musical como facilitar e contribuir decisivamente para a compreensão de conceitos e o desenvolvimento de técnicas musicais (Salles, 2002: 271):

“(...) a criança encontra um fator de motivação fortíssimo nas atividades de criação musical. Essa motivação não influi apenas na atividade criadora em si, mas em todos os planos em que a criança se relaciona com a música, inclusive o afetivo e o cognitivo.”

Para Salles, a criação musical é um fator positivo em muitos aspectos, pois, diferentemente dos métodos fundados na repetição ou reprodução, “sem aplicação prática” ou “numa prática sem significação”, o aprendizado musical baseado na criação implica entendimento e sentimento de realização e prazer, aumentando a vontade de aprender, conhecer e criar (Salles, 2002: 271):

“Muito diversa da sensação de distanciamento e frieza que lhe provoca uma aula diretiva − centrada no professor, que detém o conhecimento e o saber − é o prazer de se sentir produzindo sua música, construindo conhecimento e, ao mesmo tempo, conquistando um sentimento de autonomia. (...) Aquilo que poderia causar na criança ódio e tédio – a teoria e a técnica musical – provoca- lhe um sentimento de apego e cuidado, já que faz parte da constituição de sua música. Esse afeto para com o objeto de estudo, a música, somado ao prazer a à auto-estima, perfazem o plano afetivo ativado pelos processos descritos neste estudo, e que, por sua vez, ativam o interesse da criança em aprender música.”

O autor afirma ainda que, no plano cognitivo, a criação musical é determinante para o desejo de aquisição de conhecimentos e procedimentos técnicos, a fim de se expressar musicalmente (Salles, 2002: 272):

“Desde as primeiras improvisações e composições, mesmo aquelas mais simplórias, a criança está lidando com os elementos estruturantes da música e com sua técnica. Assim, ao invés de enfrentar anos de ensino técnico e teórico para aplicar seus conhecimentos na criação musical, aqui ela já está, desde o início, aplicando, descobrindo e inventando técnicas e teorias. Seus procedimentos composicionais podem tanto demandar quanto engendrar novos conhecimentos musicais. Ao atingirem a consciência, tais procedimentos estruturantes podem ser retomados pelo professor sob a forma de exercícios, de escalas ou outras que permitam à criança a gradual compreensão e conscientização dos procedimentos que utilizava sem consciência.”

Assim, diferentemente de se tocar ou ouvir uma música pronta, a proposta pedagógica calcada no fazer musical implica um conhecimento que articula afetividade, criatividade e cognição, processo imprescindível num trabalho de educação musical condizente com as propostas e reflexões educativas atuais. Conforme afirma Salles (2002: 274):

“Esse pensamento vem no sentido de que, geralmente, o indivíduo não é ensinado a ‘dizer’ o que ‘pensa’ musicalmente, como na linguagem; ou seja, o ensino tradicional de música, em sua postura positivista, vê a música como um sistema fechado a ser repetido e não a ser usado para se ‘pensar’ e se ‘expressar’ através dele.”

Para Salles, a criação musical é uma atividade humana das mais importantes na constituição do nosso ser e, para Paynter, a música criativa é uma maneira de expressar idéias ou sentimentos pessoais.

Enfim, a discussão acerca da música e do rumo que a educação musical tem tomado no ensino escolar inclui reflexões antropológicas e filosóficas sobre o sujeito (o artista), o objeto de estudo (a música) e a educação como eixo unificador entre o artista e a arte, como veremos no próximo capítulo.