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- Introduction

In document Norwegian Fashion Institute (sider 12-16)

Iniciei esse momento saudando a todos os meus ancestrais que muito lutaram para que eu pudesse estar ali naquele dia, naquela data e com aquelas pessoas para começar minha tese de doutoramento. Disse-lhes ainda que era um momento muito especial em minha vida, pois daria início ao estudo junto àquela escola que me acolheu em 2004, e tendo as docentes como participantes desse trabalho.

Solicitei que a supervisora colocasse no centro da sala um pote de barro. Logo em seguida pedi que todas ficassem de pé para formarmos um grande círculo ao redor daquele artefato. Expliquei que faríamos uma vivência onde iríamos depositar naquele objeto o que desejávamos alcançar com aquele estudo, e também colocaríamos o que faríamos para alcançar tal meta. Falei que a partir de então aquele pote passaria a ser o Pote dos Desejos e das Realizações. Expliquei também que escolhi um pote de barro para fazer referência à Ikú, uma divindade do Candomblé Nagô, que segundo a mitologia africana15 teria usado de criatividade e sabedoria para ajudar Olorun na criação do ser humano. E assim, pedi que Nanã Burucu ajudasse-me na condução daquele estudo com seus saberes e a sua capacidade criadora. Eis a narração do mito que conta como Iku utilizou de criatividade para ajudar Oxalá.

Quando Olorun procurava matéria apropriada para criar o homem todos os ebora partiram em busca da tal matéria. Trouxeram diferentes coisas, mas nenhuma era adequada. Foram buscar lama, ela chorou, derramou lágrimas e nenhum embora quis tomar da menor parcela.

Então Iku, ojegbe-alaso-ona, apareceu, apanhou um pouco de lama - eerupe - e não teve misericórdia de seu pranto. Levou-a a Olodumare, e este pediu a Orisala e a Olugama que a modelassem e foi Ele mesmo quem lhe insuflou seu hálito.

Mas Olodumare determinou a Iku que, por ter sido ele a apanhar a porção de lama, deveria recolocá-la em seu lugar a qualquer momento. E é por isso que Iku sempre nos leva de volta para a lama (SANTOS, J., 1993, p. 107). Dentre os desejos colocados pelas docentes, “dentro do pote”, os mais pronunciados foram: sabedoria, criatividade, paciência, conhecimento e aprendizado. Já quanto às contribuições citaram: confiança, esperança, amizade, força de vontade, alegria e determinação. Finalizei essa etapa fechando o Pote dos Desejos e das Realizações, e expliquei que ele seria reaberto no dia seguinte, momento em que retiraríamos o que tínhamos colhido com aquele estudo. Logo em seguida uma das professoras sugeriu que rezássemos um Pai

46 Nosso e uma Ave Maria como forma de agradecer as bênçãos recebidas e solicitar proteção para aqueles dois dias de estudo e para o ano letivo de 2010 que se iniciava. Sugestão que foi acatada por todas nós.

Dando continuidade às atividades, expus novamente às docentes o propósito de minha tese de doutorado, as etapas a serem desenvolvidas e como seria a participação delas junto a essa pesquisa. Tinha por intenção saber se havia, por parte delas, alguma dúvida, ou mesmo se todas ainda estavam dispostas a participar daquele estudo e se tinham alguma dúvida. Elas confirmaram e solicitaram esclarecimentos quanto ao tempo que seria reservado para a formação acerca da cultura afro-cearense e também como estava sendo negociado esse momento com a SME. Expliquei ao grupo que a formação estava agendada para o segundo semestre e teria uma carga horária mínima de quarenta horas, e para que elas pudessem participar da formação a SME enviaria professores/as para substituí-las.

Tratei de apresentar ao grupo a programação daquela 1ª manhã, dando ênfase aos trabalhos que faríamos em função da minha pesquisa, ainda apresentei os dois textos encaminhados à escola pela SME que subsidiariam as nossas discussões naquelas duas manhãs.

Na 1ª intervenção estavam presentes vinte e quatro professoras de um total de vinte e seis. Dentre elas, estavam aquelas que atuavam em sala de aula, recreação, sala de informática, sala de leitura e apoio pedagógico. Disse que estava ali enquanto uma professora- pesquisadora, e assim, desejava conhecer a/as concepção/ões de currículo/s do grupo, no entanto, não tinha por intenção dizer-lhe como deveriam pensar essa temática, ou seja, não assumiria uma postura prescritiva. Para tal comportamento assentava-me nas ideias de Paulo Freire, que afirma que:

não seriam poucos os exemplos, que poderiam ser citados, de planos, de natureza política ou simplesmente docente, que falharam porque os seus realizadores partiram de sua visão pessoal da realidade. Porque não levaram em conta, num mínimo instante, os homens em situação a quem se dirigia

seu programa, a não ser como puras incidências de sua ação. [...] Por isso é que não podemos, a não ser ingenuamente, esperar resultados positivos de um programa, seja educativo num sentido mais técnico ou de ação política, se, desrespeitando a particular visão do mundo que tenha ou esteja tendo o

povo, se constitui numa espécie de “invasão cultural”, ainda que feita com a melhor das intenções. Mas “invasão cultural” sempre. [...] Nosso papel não é

falar ao povo sobre a nossa visão de mundo, ou tentar impô-la a ele, mas dialogar com ele sobre a sua e a nossa. [...] Por isso mesmo é que, muitas vezes, educadores e políticos falam e não são entendidos (1987, p. 49).

47 Acreditei que precisava fazer essa explicação, uma vez que utilizava as referências bibliográficas encaminhadas pela SME, e talvez pudesse parecer que eu estivesse ali enquanto porta-voz daquele órgão. Disse-lhes que desejava construir com elas uma proposta curricular que contribua para a valorização da cultura afro-brasileira e afro-cearense, com isso recorri mais uma vez a Freire, quando esse educador adverte:

considero importante, nessa altura de nossa conversa, insistir mais uma vez sobre o caráter político da atividade científica. A quem sirvo com a minha ciência? Esta deve ser uma pergunta constante a ser feita por todos nós. E devemos ser coerentes com a nossa opção, exprimindo a nossa coerência na nossa prática (FREIRE, 1981, p. 36).

Fui expondo a elas que tinha por intenção discutir questões relativas ao currículo a partir de suas concepções e saberes do grupo, e que para tal ação usaríamos não somente a escrita e a oralidade, mas também a produção de desenhos. Disse-lhes que fariam uma atividade que eu havia nomeado de O CURRÍCULO É O BICHO!!!! e que a escolha desse nome devia-se ao fato de que elas iriam representar o currículo por meio de um bicho já existente ou não. Para desenvolver esse momento, inspirei-me no método de pesquisa e aprendizagem chamado Sociopoética, por acreditar que:

[...] pesquisar com o corpo todo significa desencadear as potências criadoras das pessoas e descobrir o imaginário muitas vezes esterilizado pela rotina massacrante do cotidiano. A liberação das capacidades artísticas adormecidas é geralmente vivida pelo grupo [...] como um fluxo de auto- liberação muito importante, ao descobrir ou reativar suas potencialidades abafadas no dia a dia (PETIT, 2009, p. 7).

A sociopoética16 vem propor outra forma de fazer pesquisa em que não haja:

[...] o corte da cabeça do resto do corpo, da emoção, da intuição e da sexualidade; [...] a consideração dos não especialistas como incapazes de participarem da produção do conhecimento; a separação entre aprendizagem científica e desenvolvimento artístico; a separação entre o conhecimento e a espiritualidade (GAUTHIER, 1999, p. 87 apud PETIT; SOARES, 2001, p. 2).

Acreditei que aquele momento possibilitaria às docentes manifestar o/s conceito/s de currículo tendo como referência “novas formas de linguagem, de sensibilização e de organização que atinjam a raiz do nosso imaginário, tanto no aspecto externo, das atitudes,

palavras e comportamentos, como no interior, dos nossos valores, crenças e emoções”

(SOUSA, A., 2005, p. 200). Nessa perspectiva, a aprendizagem dar-se-ia com a experimentação, o contato, a proximidade com o novo, com o diferente, compreendendo que:

16 Referencial criado pelo professor Dr. Jaques Gauthier e pelas professoras Dra. Sandra Petit e Dra. Rosileide

48 [...] a aprendizagem começa quando não reconhecemos, mas, ao contrário, estranhamos, problematizamos. [...] A aprendizagem não se dá no plano das formas, não se trata de uma relação entre um sujeito e um mundo composto por objeto. Ao contrário, se faz num encontro de diferenças, num plano de diferenciação mútua, onde tem lugar a invenção de si e do mundo (KASTRUP, 2001, p. 208-212).

A aprendizagem enquanto atitude experimental requer o olhar para novos ou

alternativos, ou ainda outros caminhos em que possamos desnaturalizar certezas, conceitos e crenças e essa estratégia faz parte do pensamento de Foucault (2001), que nos convida a essa atitude metodológica, refletindo:

de que valeria a obstinação de saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não, de certa maneira, e tanto, quanto possível, o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir (FOUCAULT, 2001, p. 13).

Para a realização da 1ª produção as docentes subdividiram-se em grupos compostos por 04 (quatro) e 05 (cinco) pessoas. Entreguei um caderninho para que elas pudessem escrever e/ou desenhar o nome do grupo e construir a gravura de um bicho que representasse o currículo. Ainda solicitei que elas apresentassem o conceito de currículo e respondessem a uma segunda questão referente a essa temática.

In document Norwegian Fashion Institute (sider 12-16)