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PART  I:   METHOD,  THEORY  AND  CONTEXT

1.0   INTRODUCTION

Fonte: André Paes

Uma situação que acontece nas famílias da igreja é sobre a vontade de levarem seus filhos de volta para a Bolívia, por que há algumas vantagens lá em termos de acesso a educação, que justamente se contrapõe à dificuldade que se enfrenta aqui. Se por um lado existe a falta de trabalho na Bolívia e encontram-se oportunidades aqui, lá se facilita o acesso ao estudo, principalmente o ensino superior e aqui isto se torna uma dificuldade para quase todos, devido a problema com documentação e a jornada de trabalho, entre outras coisas.

Baeninger e Oliveira (2012: 185) observam que:

hoje, os novos imigrantes teriam menos chances de mobilidade na sociedade receptora dos que tinham os imigrantes dos fluxos anteriores. Esse fator, associado a outros, como preconceito e falta de oportunidades educacionais, poderiam estar resultando em uma ´assimilação descendente´, ou seja, nos grupos minoritários do mainstream, dentro das subculturas; ao contrário ao que ocorreu aos descendentes dos imigrantes europeus tiveram uma ´assimilação ascendente´. Mas segundo Portes e Zhou (2005) na realidade a situação ainda não se tornou tão polarizada, logo, seria possível observar a assimilação em diversos segmentos da sociedade.

Um casal da igreja enviou os dois filhos de volta para estudar na Bolívia, por que lá é muito mais fácil estudar do que aqui e teriam melhores oportunidades no

futuro. Outro caso é de um rapaz que trabalhava voluntariamente na igreja ajudando na sonoplastia e decidiu voltar para estudar também. Pastor Guilhermo diz que:

Quando terminar o estudo é difícil eles retornarem para o Brasil, porque aqui a vida é difícil para eles. Aqui pode haver trabalho, mas eles são discriminados. O povo boliviano, historicamente falando é um povo muito sofrido, sempre foi explorado, perderam o acesso ao mar e isso reduziu muito as suas possibilidades de crescimento econômico. A Bolívia tem riqueza, mas é explorada pelo estrangeiro. São um povo muito simples e o que percebo é que são muito discriminados e acabam por sentirem-se inferiorizados.

É quase impossível definir o número real de migrantes bolivianos de segunda geração em São Paulo pelos mesmos motivos que é difícil apontar um número mais próximo da realidade com os da primeira geração: grande número de indocumentados, falta de dados confiáveis e por que alguns nasceram no Brasil e isso camufla sua origem familiar de migrante.

Apresentamos neste capítulo a rica diversidade que compõe os aspectos culturais de uma igreja de migrantes bolivianos na cidade de São Paulo, que apesar de conviver com as tensões impostas por uma das maiores metrópoles do mundo, ainda assim encontra espaço para manifestar uma mensagem de fé, esperança e amor na vida de seus membros.

CONCLUSÃO

A proposta desta dissertação foi investigar o tema sobre a relação entre migração no contexto de uma comunidade de migrantes (bolivianos) e religião, especificamente na cidade de São Paulo, focando a trajetória da Primera Iglesia Bautista Hispana de Brasil e seus membros. Longe de esgotar o assunto, acreditamos que a contribuição desta pesquisa tenha sido a de abrir um pouco mais a discussão de uma problemática pouco pesquisada do ponto de vista das ciências da religião.

A migração de bolivianos para a cidade de São Paulo já acontece há algumas décadas e tornou-se visível em algumas regiões da cidade. Daí a necessidade de abordar no capítulo 1 sobre o fenômeno migratório no Brasil e na Bolívia, para ajudar a compreender essa realidade e em seguida apontar a situação desses migrantes bolivianos especificamente no bairro do Pari, onde está localizada a PIBHB.

Pudemos observar a importância das mudanças no setor de confecções influenciando diretamente no aumento das migrações bolivianas na cidade de São Paulo, sendo que muitos deles migraram com a certeza do trabalho aqui e que isso não ocorreu por coincidência. Alguns donos de oficinas de costura acabam por financiar suas viagens ou estas ocorrem motivadas pela presença de familiares que já estão envolvidos trabalhando com as oficinas de costura, caso vivido por muitos dos membros da igreja.

A atuação do Consulado Boliviano na vida dos migrantes também merece destaque pelo trabalho que realiza para ajuda-los a regularizar sua condição de estar no país legalmente, evitando assim uma maior vulnerabilidade e exploração por causa de uma possível situação de indocumentação.

Silva (1997: 271) lembra que,

importa dizer que o processo de exploração não se dá a despeito dos explorados, mas até com a sua conivência, pois para esses imigrantes o ramo da costura pode vir a ser também uma estratégia de ascensão econômica.

Vimos que a relação dos bolivianos com as regiões centrais da cidade acaba por facilitar o acesso à igreja, que está justamente localizada no Pari para ir de encontro a essa característica do migrante boliviano que busca aproximar o local de moradia e

emprego (muitas vezes sendo este o mesmo local) por razões econômicas e de tempo, tendo assim maior agilidade e facilidade de locomoção e acesso ao local de trabalho. O capítulo 2 mostrou o contexto da formação e organização da PIBHB. A parceria e apoio de uma igreja brasileira local, a Igreja Batista da Liberdade, foram fundamentais para os primeiros anos desse trabalho, principalmente pelos recursos cedidos através do espaço para os primeiros encontros de culto, recursos de som, voluntários, entre outros.

Através dos dados coletados pudemos observar o perfil do membro da PIBHB, destacando um grupo adulto e estável, com metade dos entrevistados (50,%) com sua vida consolidada na cidade, residindo aqui há mais de 8 anos.

Identificamos também a forte relação de seus membros com o setor têxtil, apontando como a grande maioria de seus membros e frequentadores - mais de 90% deles - estão ligados diretamente com as oficinas de costura. Podemos dizer que é a partir deste mercado de trabalho e da própria comunidade da PIBHB, que se estrutura a principal rede de relacionamentos deste grupo de migrantes e que suas vidas se organizam a partir desta identidade.

A difícil conciliação entre a pesada jornada de trabalho e acesso a educação mostrou-se como um dos fatores da manutenção da desigualdade econômica entre os bolivianos e diferentes grupos de migrantes, estrangeiros e nacionais, em São Paulo.

Silva (1997: 271) aponta que:

Apesar de todos os percalços que o migrante enfrenta, a migração pode significar um ganho para aquele que migra. Do ponto de vista econômico, a migração abre possibilidades de melhorar o nível de vida, comparando-se com o vivido anteriormente. Do ponto de vista social, pode significar ruptura de relações de tutela, dando ao migrante a possibilidade de “escolher” um novo patrão, embora é sabido que essa mudança não minora a exploração de sua mão-de-obra. E do ponto de vista cultural, tal processo pode abrir um amplo leque de contatos com múltiplos universos culturais, sobretudo na metrópole, os quais podem ser enriquecedores tanto para o migrante, quanto para a sociedade que o recebe.

O capítulo 3 analisou os aspectos da cultura de origem desta igreja de migrantes, destacando a busca por uma melhor condição de vida como principal fator de sua migração. Cabe aqui reforçar que as causas da migração deste grupo são sociais e não religiosas.

Os bolivianos possuem alguns espaços de convivência e sociabilidade na cidade, existem algumas pequenas feiras de rua, comércios, bares, quadras de futebol localizadas nas regiões centrais, com destaque para a Praça Kantuta e a Rua Coimbra (Brás), e outros lugares que apresentam significados diversos para os migrantes. Podemos dizer que o espaço da PIBHB oferece uma relação de confiança, onde o migrante boliviano encontra sua gente ali e recebe acolhimento.

Concluindo, o migrante boliviano enfrenta muitas dificuldades em seu novo contexto de vida. De certo modo, em algum momento todos tem que passar por um processo de adaptação, aprender o novo idioma, regularizar sua documentação com relação ao visto, transições com o emprego, o que os leva às vezes a um momento de instabilidade. Mais grave ainda são as situações de exploração que muitos passam, tanto por parte de seus empregadores ou até mesmo por seus conterrâneos, em decorrência de sua vulnerabilidade.

A migração enseja inevitavelmente mudanças tanto no ponto de partida dos imigrantes quanto no de chegada. Aquele que partiu leva na sua bagagem, além de esperanças e sonhos, tradições culturais e religiosas, uma visão de mundo que deverá ser adaptada ao novo contexto. Nesse sentido, ao entrar em contato com outra cultura, uma nova forma de ver o mundo, o imigrante terá que reelaborar a sua própria visão, incorporando novos valores e tradições que irão nortear a sua vida no local de destino (SILVA, 2005: 56).

São justamente as adversidades, que provocaram na vida do migrante o sentimento de isolamento, insegurança, solidão, dor e medo, que também despertaram a solidariedade e esperança encontradas na possibilidade de pertencimento a uma nova comunidade, agora encontrada na religião, isto é, na possibilidade de aderirem e pertencer a um novo grupo religioso, neste caso, a PIBHB.

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Anexo - A