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A partir da abordagem física de cada área/bairro dentro do recorte espacial estabelecido, pôde-se identificar a existência de algumas áreas com clara unidade entre si, conceituadas enquanto regiões morfológicas pelos estudiosos da morfologia urbana, resultantes do desenvolvimento do espaço urbano.

O teórico Conzen (1969) classifica-as como resultantes dos processos formativos, ou seja, dos desenvolvimentos econômicos e sociais, sendo que as mudanças na intensidade desses processos, bem como em suas formas materiais ou imateriais, permitem reconhecer os diferentes períodos culturais. O autor pontua ainda que as regiões morfológicas variam, assim, na “sequência e no conteúdo dos períodos culturais que as afetam, o que beneficia as cidades, (...) cada período deixa seus resíduos materiais distintos na paisagem, podendo ser considerado como período morfológico” (CONZEN, 1969, p. 07). Na paisagem urbana qualquer período específico se expressa no plano urbano (ruas, lotes e quarteirões), assim como no tecido urbano (tridimensionalidade das edificações) e em seus usos e atividades. Ainda segundo Conzen (1969), a força da unicidade que cada cidade ou paisagem urbana apresenta está associada à maior variedade dos parâmetros morfológicos. Por exemplo, cidades históricas de grande porte que apresentem planos urbanos bem característicos, ou seja, com grande unidade, e apresentem mais de um período histórico de desenvolvimento, têm a tendência a apresentar maior unicidade e singularidade na sua historicidade.

Assim, uma região morfológica é uma área que apresenta uma unidade em respeito à sua forma que a distingue das áreas que a cercam, embora haja variação de força entre os limites das regiões, quando, por exemplo, se podem identificar diversas camadas de hierarquia nos limites da região morfológica (WHITEHAND, 2001).

É sob esta ótica da construção e evolução das historicidades urbanas que é exposta a esquematização abaixo (Imagem 161), onde delimitam-se e destacam-se as diversas regiões identificadas, morfológica e historicamente distintas. O estudo possibilitou a identificação de seis regiões morfológicas distintas entre si, não necessariamente congruentes ou contínuas, sendo que a unidade do caráter físico dentro de cada uma dessas áreas promoveu tal identificação.

Imagem 161 – Esquematização das regiões morfológicas identificadas no recorte espacial sob análise em Sabará, sobre traçado urbano e ocupações atuais.

Fonte: Autora, 2012 (sem escala).

região tradicional (colonial) região industrial (grandes equipamentos)

região das vilas operárias região de influência tradicional região de influência progressista região de urbanização dispersa Primeiramente, destaca-se o núcleo original da cidade de Sabará, identificado

como a região tradicional e datado do período colonial, localizando-se ao longo do rio Sabará. A perceptível unidade entre seus elementos coloniais, relativos aos característicos plano urbano e tipos arquitetônicos, bem como ao seu uso variado e diverso, entretanto, não exclui a existência de pontualidades pós- coloniais, como algumas inserções arquitetônicas ecléticas, ou mesmo industriais (às proximidades das igrejas Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora do Ó). Entretanto, essas variações internas não criaram contrastes ou quebras na paisagem, o que Vasconcellos (2004) explica:

Acompanhando o progresso, a arquitetura vai se desenvolvendo aqui e ali. Os períodos devem ser longos e estão entre si entrosados. A transição não deixa criar limites fortes; há apenas uma tendência que se vai moldando com o correr dos anos, e às necessidades locais. (VASCONCELLOS, 2004, p. 29)

O segundo momento relevante na cidade, uma vez que inseriu novas linguagens urbanas e transformou os parâmetros urbanísticos, é relativo ao período industrial. Identificou-se a região industrial portadora de grandes construções e equipamentos, compondo a segunda mancha morfológica identificada. Nessa, predominam na paisagem a integração entre grandes manchas vegetais (dentro e fora de seu perímetro) e os grandes galpões/chaminés da usina siderúrgica. A região das vilas operárias aparece, nesta equematização, destacada enquanto a terceira região morfológica. Seu caráter residencial, sua lógica urbana racional (paralelismo no sistema viário, tratado normalmente em malha reticulada) e suas tipologias padronizadas compõem essa mancha, sendo de fácil legibilidade frente ao contexto em que se insere. A otimização do espaço para inserção das habitações é uma das principais características da área; para tanto, era largamente disseminado o caráter geminado das residências e a configuração de pequenos e estreitos lotes.

O mapa de 1937 (Imagem 158) já apresenta essas três primeiras regiões morfológicas identificadas, ainda que as vilas operárias estivessem em seu desenvolvimento inicial. A inserção industrial na cidade diversificou o espaço urbano, através da composição de novas linguagem, estrutura e vivência urbanas. Esses contextos singulares diferiam da área tradicional, principalmente, pela otimização dos espaços residenciais das vilas (ruas estreitas, lotes pequenos e casas geminadas), bem como pela excessiva homogeneidade de

Vila Campinas Centro histórico Campo Santo Antônio

Morro da Cruz Córrego da Ilha

Morada da Serra Esplanada VilaEsperança

Cabral

AltoCabral Vila

Santa Cruz Usina siderúrgica VilaSiderúrgica Caieira Francisco de Moura Padre Chiquinho N

seu tecido urbano, sem elementos (arquiteturas) dominantes na paisagem ou espaços mais desafogados (como praças, largos, etc.).

A influência do tecido tradicional é observada na quarta região morfológica. Os bairros que a compõem, os bairros Morro da Cruz, Córrego da Ilha, Caieira e Cabral, foram assim identificados frente às características de seus planos urbanos (ruas, lotes e quarteirões), que são similares ao do tecido tradicional colonial, no qual a adaptação à topografia local e às nuances de seu terreno é predominante na paisagem e na lógica da ocupação. Entretanto, esses bairros diferem do contexto tradicional pelos tipos arquitetônicos contemporâneos que os constituem, bem como pelos usos e atividades predominantemente residenciais. Pode-se fazer uma analogia entre essa região morfológica e o pensamento culturalista, caracterizado pela tentativa dar continuidade a elementos tradicionais, como a unidade orgânica da cidade tradicional.

A quinta região morfológica, nomeada como região de influência progressista, é caracterizada pela ortogonalidade e objetividade do sistema viário e do parcelamento e, principalmente, pelo caráter mais amplo e aberto das vias, entremeado por vazios e verdes urbanos. Expressa sob forma de malhas ortogonais, essa região se diferencia da região industrial das vilas operárias pelos largos eixos viários e por uma menor homogeneidade do traçado urbano. Há uma clara dinamização do tecido urbano e hierarquização viária. Essa região inclui, principalmente, o extenso bairro Campo Santo Antônio que, com seus largos e hierarquizados eixos viários e ordenada geometria, expressa alguns dos princípios progressistas na cidade.

A última região morfológica identificada nesse recorte espacial estabelecido corresponde à região de urbanização dispersa, assim classificada frente ao maior isolamento urbano em relação aos demais tecidos urbanos de Sabará. A região delimitada compreende o bairro Morada da Serra que, com a linguagem da construção em altura combinada a quadras residenciais unifamiliares, apresenta-se na paisagem enquanto um apêndice urbano. Seu descolamento e mínima conexão às preexistências urbanas o constitui como um objeto estanque, em um movimento de ocupação do solo de forma dispersa e fragmentada. Assim, essas foram as diversas regiões morfológicas que puderam ser identificadas, que se constituíram frente à unidade de seus espaços e caráteres, corroborando a pluralidade das historicidades presentes.

região tradicional (colonial) região industrial (grandes equipamentos) região das vilas operárias região de influência tradicional região de influência progressista região de urbanização dispersa

Imagem 161 – Esquematização das regiões morfológicas identificadas no recorte espacial sob análise em Sabará.

Fonte: Autora, 2012 (sem escala).

N Vila Campinas Centro histórico Campo Santo Antônio

Morro da Cruz Córrego da Ilha

Morada da Serra Esplanada VilaEsperança

Cabral

AltoCabral Vila

Santa Cruz Usina siderúrgica VilaSiderúrgica Caieira Francisco de Moura Padre Chiquinho

4.3. AS RELAÇÕES CONSTRUÍDAS NO RECORTE SÓCIO-ESPAÇO-TEMPORAL