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5.3.1. O progresso

Uma das imagens atreladas à ficção científica é a profética. O gênero literário, por estar associado à ciência, atrai para si alguns mitos dela e cria outros, assentados nos mitos anteriores662. Então, adquirindo a característica de verossimilhança663, a ficção científica cria para si o mito da profecia, que trata da situação futura da ciência, assim como do futuro da humanidade em contato com ela664. Essas histórias do futuro apresentam tanto visões otimistas e idealizadoras, quanto pessimistas665. A visão idealizadora associada à ficção                                                                                                                          

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SKORUPA, F. A. Viagem às letras do futuro: extratos de bordo da ficção científica brasileira (1947-1975). Curitiba: Aos Quatro Ventos, 2002, p. 104-106.

663 Aparência de que as histórias narradas têm um quê de verdade e de real ou de possibilidade de real. SKORUPA, F. A., 2002, p. 84-91.

664

SKORUPA, F. A., 2002, p. 108, 156-158, 175-177. 665 Ibid., p. 180

científica e, então, a um possível desenvolvimento da ciência, é indicativo de um elemento compartilhado entre a ciência e o gênero literário: o progresso científico. Dessa forma, “tentar visualizar, antever, projetar, planejar ou especular sobre o futuro do homem junto à ciência, é uma tarefa ou brincadeira atribuída, de modo geral, à ficção científica”666. Porém, como foi mostrado desde a introdução de Bell, a intenção da proposta futurista é também visualizar, antever, projetar, planejar e especular sobre o futuro do homem, mas não somente em contato com a ciência e não mais como uma brincadeira. Além disso, a idéia de progresso não se restringe apenas ao aspecto científico.

É difícil falar do progresso dissociado do conceito de Filosofia da História. O termo Filosofia da História foi pensado por Voltaire e utilizado para distinguir uma nova visão de história. Como Löwith mostra, na obra Ensaio sobre os métodos e o espírito das nações, de 1756, Voltaire afasta a vontade de Deus e a providência divina da história, dando espaço à vontade humana e à razão667. Desse modo, o período mais profícuo para o surgimento de tais filosofias foi o final do século XVIII e início do XIX, acompanhando o Iluminismo668.

A Filosofia da História, tal como se pretende, autoriza seu entendimento tanto como um trabalho e um estudo históricos, quanto como uma forma de se afirmar o futuro. Löwith entende Filosofia da História como “o sentido de uma interpretação sistemática da história universal de acordo com um princípio segundo o qual os acontecimentos e sucessões históricos se unificam e dirigem para um sentido final”669. Para Dray, a Filosofia da História busca, na história, no curso dos acontecimentos, uma significação, um padrão670. Bodei, por sua vez, “define”671 como “a promessa de desvendar o curso dos acontecimentos passados e as metas futuras”672. Pecoraro, por fim, identifica como o elemento essencial das Filosofias da História a questão do sentido e da finalidade da história673. Percebe-se, portanto, nas quatro definições, dois pontos básicos em comum: 1) que as Filosofias da História tendem para um ponto, dão um sentido à história, e, portanto, 2) que elas buscam unificar e entender os                                                                                                                          

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SKORUPA, F. A., 2002, p. 175. Não à toa as obras de Julio Verne foram chamadas, em sua época, de Antecipação, SKORUPA, F. A., 2002, p. 24.

667 LÖWITH, K., 1991, p. 15; PECORARO, Rossano. Filosofia da história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009, p. 7.

668 Deixando de lado toda a discussão que considera a filosofia da historia, ou pelo menos a busca do sentido para a história, um fenômeno anterior à modernidade, Cf. PECORARO, R., 2009; Cf. BODEI, R., 2001; Cf. LÖWITH K., 1991.

669 LÖWITH K., 1991, p. 15. 670

DRAY, W. H., 1977, p. 19.

671 Bodei não apresenta uma definição para Filosofia da História, porém, é possível inferir que quando ele fala que se duvida, atualmente, das possibilidades que as Filosofias da História apresentam, ele acaba,

indiretamente, dando uma definição sintética do que entende como Filosofia da História. 672

BODEI, Remo. A história tem um sentido? Bauru: EDUSC, 2001. p. 13. 673 PECORARO, 2009, p. 7-9.

acontecimentos de acordo com esse sentido. Löwith e Pecoraro são os mais claros nessa última definição, ao falar de história universal674. Ou seja, que todos os acontecimentos do mundo tendem a um fim comum.

O elemento essencial nas Filosofias da História modernas é o progresso, o qual resulta da secularização e funciona como uma substituição da Providência Divina, trocando o Juízo Final pela confiança na razão e no esforço humano. Esses dois fatores permitiram, então, a crença no progresso da civilização humana em direção a uma situação melhor, livre de preconceitos e reflexo de um homem emancipado675. Portanto, haveria uma lei do progresso, constituída por fases sucessivas de desenvolvimento que existiriam ao longo da história, sendo umas superiores às outras. Frente a essa busca pelo progresso, caberia, então, a intervenção racional visando a transformação, ligando-se, assim, o desenvolvimento da razão, o aperfeiçoamento humano e a construção de uma sociedade mais feliz676.

A análise de Koselleck nos ajuda a entender melhor as nuances dessa visão. Conforme o historiador alemão, essa nova consciência do tempo misturou elementos de política (logo, prognósticos) com profecias redentoras. O progresso, então, foi o elemento que deu à Filosofia da História essa dupla face. Isso aconteceu, pois o progresso tem duas características: a aceleração e o caráter desconhecido. A aceleração, como já foi exposto, reduz a experiência e tira, portanto, sua continuidade, já que elementos novos e desconhecidos continuamente surgem. Com isso, o progresso rompe com o tempo prognosticável, baseado na experiência tradicional, forçando, por sua vez, novos prognósticos, de longo prazo. Isso acontece, pois a aceleração do tempo também suga do presente a possibilidade dele se experimentar como tal, uma vez que ele se volta para o futuro, só sendo recuperado em função da Filosofia da História. Ou seja, a aceleração do tempo se torna alvo do planejamento temporal realizado no presente677. Como nos é mostrado por Koselleck, a partir de Lessing, quando este fala do filósofo profeta característico do século XVIII: “Ele quer acelerar esse futuro, deseja ser ele próprio capaz de acelerá-lo, (…) pois que proveito teria se aquilo que ele considera ser o melhor não se tornar o melhor ainda em seu tempo de vida?”678.

A partir dessa aceleração, como Koselleck demonstra, surgiu a alternância entre reação e revolução. O termo revolução, aplicado à história, liberta-a em direção a um futuro                                                                                                                          

674 PECORARO, R., 2009, 2009, p. 10. 675

PECORARO, R., 2009, p. 22-27; DUPAS, Gilberto. O mito do progresso: ou progresso como ideologia. São Paulo: UNESP, 2006, p. 43-44.

676 NASCIMENTO, Maria da Graça S. Apresentação. In: CONDORCET. Esboço de um quadro histórico dos

progressos do espírito humano. Campinas: Unicamp, 1993, p. 8-15.

677

KOSELLECK, 2006, p. 35-37.

desejado, destruindo, contudo, a reação, afastando-a, conforme se faz. A partir dessa idéia, surgiu uma finitude ainda não realizada, mas sempre em vias de se realizar. Assim, desde então, foi possível transpor para a história ficções de sociedades ideais e praticamente eternas679. Esse fim determinado que os personagens históricos buscariam produz, portanto, um processo histórico que independe do olhar dos contemporâneos e, por isso, cria a necessidade de um prognóstico de longo prazo e histórico, indo além do prognóstico racional e político680. A Filosofia da História inaugurou, portanto, um tempo exclusivamente histórico, rompendo com o tempo natural e o dinástico. O tempo era, agora, orientado pelo progresso, categoria própria da história e que escapava da natureza. A história deixava de ser um instrumento de aprendizado para ser um instrumento que impulsionaria o todo a um futuro melhor, pois a experiência completa é passada e a do futuro se apresenta amplamente variável no tempo. Não haveria mais como o futuro se assemelhar ao passado. Com isso, demolia-se, portanto o passado como experiência e abria-se um futuro passível de ser planejado, já que não era um futuro conhecido681.

Deparamo-nos, então, com uma característica essencial da obra de Kahn e Wiener. A proposta futurista inicial aproxima-se dos prognósticos racionais. Todavia, o problema que tem sido alvo dos autores, desde o início do livro, é o planejamento a longo prazo. Koselleck entende que tais planejamentos surgem atrelados à idéia de progresso e às Filosofias da História típicas do século XVIII. É possível compreender, por exemplo, que o planejamento proposto em O ano 2000 visa alterar, “revolucionar” a realidade presente em direção a um futuro desejado. O planejamento intenta saber o que é melhor e optar por este – ou evitar o pior. Com isso, pode-se criar uma trajetória rumo ao desconhecido e ao novo, já que o melhor é algo concretamente inédito.

Então, por mais que a tendência múltipla não seja inerentemente progressiva, ao se conhecer seus possíveis desenvolvimentos, intenta-se ou buscar os melhores desenvolvimentos, ou evitar os piores ou mesmo minimizá-los. Mas, ao fazer isso, o que se está fazendo é criando uma situação melhor do que poderia ser. Cai-se, portanto, em um processo progressivo não linear. Porém, essa situação só seria alcançada a partir da utilização de exemplos históricos. Tal dilema já ficou evidente na coexistência dos prognósticos – assentados na história como instrução – com as profecias – essencialmente escatológicas – na Filosofia da História, que é a visão histórica que caracteriza a modernidade.

                                                                                                                          679 KOSELLECK, 2006, p. 37. 680 Ibid., p. 38. 681 Ibid., p. 51-59.