Em 28 de setembro de 1887 o jornalista José do Patrocínio inaugurou a Cidade do Rio, jornal que alcançou seus dias de glória durante as tensões abolicionistas, mas, mesmo assim, nunca alcançou saúde financeira:
A Cidade do Rio vive como sempre viveu o seu proprietário – dos caprichos da sorte, à la bonne fortune du pot... Quando chega o dinheiro, em geral, com uma bem grande irregularidade, enche-se a redação de gente, porque, então, José do Patrocínio, mãos abertas, paga a todos e paga muito bem. 38
Desde a inauguração, o periódico passou a contar com as palavras de Bilac. Já em fevereiro de 1888 estreou com diversas colunas. A primeira foi “Lazeres”, assinada com o pseudônimo de Puck. Outras colunas vieram como “Crônica”, assinadas por Fantasio, e “Os sete dias...”, que muitas vezes trazia as iniciais O.B. Todas essas seções de Bilac, assim como a maioria dos textos da Cidade do Rio, não possuíam uma regularidade de publicações. O tom jocoso, assim como a irregularidade no cronograma de publicação, predominava nestes textos bilaquianos.
O jornal vespertino era diariamente lançado às ruas às quatorze e trinta, exceto aos domingos, quando a folha não circulava, prática corriqueira nos periódicos que saiam pela tarde. Apesar das dificuldades financeiras e do pouco cunho empresarial, a Cidade do Rio, graças ao bom relacionamento de Patrocínio com a intelectualidade finissecular, além da constante participação do amigo Bilac, trazia outros nomes ilustres estampados em suas páginas.
Além das colunas do próprio diretor José do Patrocínio e do secretário Olavo Bilac, que dividia a função com Pardal Mallet (1864-1895), colaboradores como Luiz Murat (1861-1929), Emílio Rouède (1850-1908) e Coelho Neto faziam a gentileza de publicar textos na Cidade do Rio. Era gentileza porque essas colaborações por muitas vezes tornavam-se “doações”, já que Patrocínio poucas vezes pagava seus amigos pelos textos.
Seis colunas espalhadas por quatro páginas eram suficientes para abarcar as notícias da Cidade: colunas rotineiras dos jornais da época se faziam constantes como os Telegramas, charadas, notas esportivas e o tradicional romance-folhetim no rodapé.
Bilac passou por diversos periódicos desde o seu regresso de São Paulo. O intenso trabalho jornalístico à época de estudante de Direito rendeu-lhe fama e a Cidade do Rio foi um dos periódicos, no seu início de carreira, que mais lhe deu destaque.
Já em 1889 a Cidade do Rio inaugurou mais uma coluna do mestre parnasiano. Em 31 de outubro o expediente do vespertino publicou: “As Pantomimas são da pena de Olavo Bilac, que nos mimoseia com sua esplendorosa colaboração, sob o pseudônimo de Pulcinello.” 39
A coluna, também não muito constante, publicava relatos do dia-a-dia da cidade, muitas vezes permeados de uma sutil fantasia e mesmo ironia, mecanismos estes muito utilizados na escrita bilaquiana. Porém, não foi longa a vida da “Pantomima”. Em julho de 1890, Bilac viajaria para Europa como correspondente do jornal. Poderiam ser insuficientes e inconstantes os pagamentos de Patrocínio aos seus colaboradores; entretanto para Bilac era possível sobreviver modicamente e manter em dia seus jantares nos antros boêmios da animada vida noturna carioca. Além do mais, qual outro amigo, dono de jornal, poderia patrocinar sua tão sonhada primeira viagem ao Velho Continente?
A Cidade do Rio publicou em 8 de julho de 1890, logo abaixo da reprodução de uma foto de Bilac, comunicado sobre a partida do poeta:
Parte para a Europa, no dia 10, o extraordinário moço com cujo nome se aureolam estas linhas, com cujo retrato se glorifica esta página.
[...]
E leva dentro do coração muitos corações amigos, que vêem nele a síntese dignificada do talento e do caráter nacionais, e que o sabem amar como ele merece, e que, no tristíssimo momento da despedida, hão de deixar escapar
um pedaço da alma, quando, na efusão dos mais nobres sentimentos, derem- lhe o beijo sagrado do irmão, o abraço comovedor do amigo sincero. 40
Durante sua colaboração na Cidade do Rio, Bilac se envolveu em outros trabalhos jornalísticos na capital carioca. Foi deste período que nasceram seus textos para o Novidades (1887-1892).
Vendendo a 40 réis o exemplar, o redator-chefe Alcindo Guanabara (1865- 1918) colocava diariamente nas ruas do Rio de Janeiro seu vespertino de apenas quatro páginas. O Novidades não se diferenciava muito dos outros periódicos do momento: expediente, telegramas, romance-folhetim, notas teatrais e sociais e pequenas colunas de entretenimento estavam diariamente estampados em suas sete colunas.
Em “Ecos e Notícias”, Bilac comentava, sob o pseudônimo de Asmodeu, as últimas novidades diárias da velha corte. E sob o mesmo disfarce, assinava “Espírito Alheio”, coluna diária e extremamente anedótica.
Além de Bilac, outros colaboradores eram freqüentes no Novidades: Luiz Murat, Urbano Duarte (1855-1902), Artur Azevedo (1855-1908), Araripe Jr. (1848-1911), Silvio Romero (1851-1914) e Coelho Neto, entre outros.
Entretanto, a colaboração mais marcante de Bilac no periodismo nacional no início de 1890 se deu na Gazeta de Notícias. Em 1884, como já anotado, Bilac havia publicado no centro da primeira página do dia 31 de agosto seu poema, “Sesta de Nero”, em homenagem a Alberto de Oliveira (1857-1937).
Mas, se esta estréia não se fez acompanhar de outras publicações, a participação de Bilac se renova em 24 de abril de 1890:
Reconhecido como jornalista e poeta, foi então convidado por Ferreira de Araújo a ser colaborador eventual da Gazeta de Notícias. Assim, no centro da primeira página da edição de 24 de abril de 1890 foi publicada a primeira crônica das centenas que depois seriam assinadas pelas iniciais O. B.: “Os fortes”. 41
40 EXPEDIENTE. Cidade do Rio. Rio de Janeiro, 8 de julho de 1890, p. 1, 1. col.
41 SIMÕES JR., Alvaro S. A Sátira do Parnaso: estudo da poesia satírica de Olavo Bilac publicada em
Porém, assim como de modo repentino se iniciou também se finalizou essa parceria entre Bilac e a Gazeta. Desta fase, foram pesquisados e localizados apenas 27 textos de autoria do parnasiano. Entre 24 de abril e 1º de julho de 1890, Bilac escreveu e publicou quase diariamente os 27 textos que marcaram definitivamente seu nome na galeria dos grandes colaboradores da Gazeta de Notícias.
O término desta primeira contribuição de Bilac para o jornal que sempre o atraiu teve um motivo palatável: se a Gazeta de Notícias era um sonho realizável dentro dos limites cariocas, seu amigo e grande jornalista José do Patrocínio poderia possibilitar-lhe a realização de um sonho que fugia às fronteiras nacionais: sua viagem a Paris, a cidade- modelo de todos no fim do século XIX.
Em 1890, Bilac abandonou então seu início de carreira na Gazeta de Notícias, e seguiu como correspondente internacional da Cidade do Rio. Da Europa, Bilac enviava, sempre que possível, crônicas acerca do cotidiano europeu; imagens de Londres foram constantemente retratadas nas linhas do “Jornal da Europa”, entre julho de 1890 e março de 1891. A partir de 1890, Paris se tornou o “porto seguro” de Bilac, que para lá seguiu em diversas viagens até seu falecimento em 1918.
Assim se estruturava a vida jornalística do poeta, que já havia colaborado, até este período, regularmente, em vários jornais além da Cidade do Rio, como, por exemplo, na publicação republicana A Rua de Pardal Mallet, Raul Pompéia (1863-1895) e Luiz Murat entre abril e julho de 1889 no Rio de Janeiro.
Como fica evidente, apesar da grande fama da Gazeta de Notícias e de todos os louros que ela proporcionaria para a vida jornalística e literária de Bilac, não foi só ela que possibilitou ao poeta sua ascensão como cronista. Comprova essa afirmação Álvaro Guerra:
A imprensa seduzia-o. Primeiro na Cidade do Rio, com José do Patrocínio, depois na Gazeta de Notícias, com Ferreira de Araújo; mais tarde, na Notícia, com Manoel da Rocha, a seguir, na Cigarra e na Bruxa, com Julião Machado, - foi ele dissipando nababescamente os tesouros do seu privilegiado talento, ora em crônicas literárias, ora em seções humorísticas, ora em deliciosos versos, assinados, quase sempre, com pseudônimos. 42
42 GUERRA, Álvaro. Olavo Bilac. In: Idem. Introdução ao estudo literário. Contendo a biografia e estudo
crítico dos mais notáveis literatos brasileiros representativos de sua época. São Paulo: Melhoramentos, s/d. p. 166.
A rica produção jornalística bilaquiana, espalhada por diversos periódicos da época, fez com que, como comenta Guerra, os pseudônimos tivessem importância fundamental para o sucesso de sua carreira nas publicações do fim do século.
Em grande parte, as crônicas que Bilac publicava tanto no periodismo carioca quanto no paulista viam rubricadas por um dos diversos pseudônimos adotados. Na realidade, o abuso exagerado do falso anonimato proporcionado pelos pseudônimos não era tentativa, por parte do poeta, de se esquivar da responsabilidade sobre o texto, ou mesmo vergonha de produzir material jornalístico. De acordo com Brito Broca, mais do que cautelosos ou envergonhados em assumir a autoria de textos dispersos no jornalismo finissecular, a inclinação ao uso dos pseudônimos não só por Bilac como por grande parte da intelectualidade, foi uma maneira de se separar, em primeiro lugar, a literatura da vida civil do escritor. Até então, a condição burguesa que a intelectualidade mantinha, formada, na sua maioria, por magistrados, não condizia com o trabalho jornalístico, considerado, de certo modo, “frívolo”.
Porém, ainda segundo Horas de Leitura, com a consolidação da imprensa no Brasil e a remuneração que a modernização do jornalismo possibilitou aos colaboradores de renome, a tendência de disfarçar-se sob a máscara do pseudônimo tornou-se frágil:
[...] o antagonismo entre a literatura e a vida civil começa a diminuir. Bilac, Artur e Aluísio Azevedo, Guimarães Passos e tantos outros da geração naturalista e parnasiana, já não visam, como os românticos – sisudos bacharéis em direito – o êxito social. Não fazem, em geral, um curso superior. Querem, antes de tudo, vencer nas letras, porque, bem ou mal, o jornalismo e a literatura lhe proporcionam recursos para não morrerem de fome. 43
Se a colaboração no periodismo da Belle Époque não mais representava uma mancha na dignidade do autor ou mesmo em sua reputação literária, outro aspecto, agora de caráter estritamente financeiro, mantinha em voga o abuso excessivo de pseudônimos. Ainda é Brito Broca quem elucida a importância da manutenção de tal recurso:
É que obrigados a escrever em várias folhas ao mesmo tempo – já que só assim podiam reunir um ordenado razoável – tinham os escritores de mascarar a personalidade a fim de evitar os possíveis inconvenientes dessa
43 BROCA, Brito. O anônimo e o pseudônimo na Literatura Brasileira. In: Idem. Horas de Leitura. Rio de
atuação simultânea. Os pseudônimos permitiram-lhes até certas mistificações literárias, que lhes revertiam em proveito próprio. 44
Muito mais importante do que criar uma aura de mistério sobre a autoria verdadeira de um texto, se pensarmos na produção de Olavo Bilac, a principal intenção ao recorrer ao pseudônimo era para que se tornasse possível a publicação de diversas crônicas ou versos em vários jornais e revistas ao mesmo tempo. Sendo assim, tentava-se evitar possíveis disparidades de qualidade entre um texto e outro. Até mesmo podemos acrescentar que o pseudônimo possibilitava o reaproveitamento de um texto, com sutis modificações, já publicado em anterior periódico com a assinatura de um pseudônimo e em outro, logo com a assinatura devidamente substituída. A rapidez da literatura publicada no periodismo da época obrigava muitos literatos a recorrer a tais subterfúgios para manter em dia suas publicações e rendimentos.
Sempre foi polêmica, principalmente no meio político, a repercussão gerada pelo uso recorrente do pseudônimo, ou mesmo do anonimato, na imprensa. Em 1897, o Congresso sancionou uma lei proibindo a prática do pseudônimo no jornalismo da época, e Bilac, partidário confesso do recurso, publicou crônica na Gazeta de Notícias defendendo, através de justificativas estéticas, a importância do uso do falso nome pelos escritores:
O uso do pseudônimo não que dizer que o escritor não queira assumir a responsabilidade do que escreve: todo o mundo sabe, por exemplo, que Patrocínio é Proudhomme e que Proudhomme é Patrocínio. Mas, na produção intelectual de um jornalista, como na de um artista, há sempre a parte séria a que o escritor dá o seu verdadeiro nome, e a parte leve, humorística, que bem pode correr por conta de um pseudônimo transparente.
Para cada estilo, cada assinatura. 45
Assim como a Gazeta de Notícias, anteriormente à colaboração de Bilac entre 1897 e 1908 46, muitos outros periódicos acolheram produções bilaquianas assinadas pelos mais diversos pseudônimos. Porém, o amplo uso do disfarce no limiar do século XX, não só por Bilac como por todos os grandes nomes das letras nacionais, acarretou sérias dificuldades à elucidação segura da autoria. A falta de dicionários completos sobre a matéria,
44 BROCA, op. cit., 107.
45 BILAC, Olavo. Crônica. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 15 de julho de 1897. p. 1, 1. col. 46
Olavo Bilac, quando passou a substituir Machado de Assis na coluna “Crônica”, nunca recorreu à pseudônimos. O que é facilmente perceptível é a ausência absoluta de assinatura do autor em seus textos durante o período de 1897 e 1903. A partir de meados de 1903, Bilac passou a assinar, ao final de suas crônicas, apenas suas inicias: O.B.
- apesar dos trabalhos dos professores Antônio Simões dos Reis47 e José Galante de Souza48, - e a variedade incalculável de nomes usados dificultam, ou mesmo impossibilitam, a elucidação certa de grande parte dos disfarces usados nas publicações literárias de nosso periodismo. Somente para Bilac foram sugeridas dezenas de pseudônimos como, por exemplo: B., Bob, Flamínio, Bivar, Asmodeu, Fantasio, Lúcifer, Pulcinello, Pierrô, Puck, O Diabo Coxo; só para lembrar alguns dos mais significativos.
Não obstante, é importante reconhecer que, assumindo ou não a autoria de seus textos, não foram só crônicas que fizeram a fama bilaquiana nos periódicos, principalmente na Gazeta. Segundo Álvaro Guerra, editoriais, traduções, fait divers e, principalmente, anúncios publicitários fizeram Bilac aumentar seus dividendos ao fim do mês:
O grande Bilac não ganha senão 50$000 por crônica, porém, com a sua verve, tira três vezes mais do que isso, por semana. A época é do reclame em verso, como só ele sabe fazer.
Paga-se por uma quadra, em geral, quando bem feita, 20 e 30 mil réis. Por algumas, porém, chega Bilac a receber muito mais.
Cem mil réis pagaram-lhe os industriais dos Fósforos Brilhante, por esta: ‘Aviso a quem é fumante:
Tanto o Príncipe de Gales Como o Dr. Campos Sales, Usem Fósforos Brilhante!’. 49
Além dos reclames em verso, versos e sátiras fizeram parte de sua produção jornalística.
Tão constantes foram as publicações de sátiras bilaquianas na Gazeta de Notícias, que o jornal inaugurou em agosto de 1896 a seção “O Filhote”, na qual os versos cortantes, fesceninos e satíricos de Bilac tiveram espaço até o término da coluna em maio de 1897. 50 Do mesmo modo, nos anos iniciais de parceria com A Notícia sua coluna “Fantasia” (1895), que sairia três vezes por semana na primeira página do diário, também seria usada frequentemente para mostrar sua verve humorística, através das farpas satíricas que iria lançar através de suas inicias O.B. na futura coluna.
47 REIS, Antônio Simões dos. Pseudônimos brasileiros. Rio de Janeiro: Zélio Valverde, 1941.
48 SOUSA. J. Galante de. Machado de Assis e outros estudos. Rio de Janeiro: Editora Cátedra; Brasília: Instituto
Nacional do Livro, 1979.
49
CARVALHO, op. cit., p.66.
50 Sobre a produção satírica de Bilac em periódicos: SIMÕES JR., A Sátira do Parnaso: estudo da poesia satírica
de Olavo Bilac publicada em periódicos de 1894 a 1904. Tese de Doutorado em Letras. Assis: FCL da UNESP, 2001.
Todavia, em 1893, a antiga colaboração do jornalista na Cidade do Rio, - o primeiro grande jornal em que publicou rotineiramente, - vai escasseando:
Por divergências políticas, o poeta deixara a Cidade do Rio, onde o talento de Patrocínio seria colocado a serviço dos projetos golpistas do almirante Custódio José de Melo, ex-ministro da Marinha, que rompera com o presidente Floriano Peixoto. 51
Bilac não aceitaria compactuar em questões políticas. Queria manter sua escrita livre de tomadas de partido, sendo assim, afastou-se, definitivamente, da Cidade do Rio, a “Gazeta de boêmios”, 52 em agosto de 1893.