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Ao rememorar os dados da tabela 12, observa-se relativa proximidade entre madrinhas livres 647 (35,7%), escravas 525 (29%) e protetoras 583 (32,2%) 210 na Freguesia de Vitória. A presença das madrinhas em praticamente todos os registros, como colocado anteriormente, com número considerável tanto de livres quanto de escravas, leva a crer que o papel desempenhado pelas mulheres ultrapassava a lógica dos cuidados maternos para com os afilhados e sinaliza a importância política delas na sociedade em questão.

Remetendo novamente às tabelas anteriores (11 e 12), constata-se quando acionado o parentesco entre escravos, uma sutil predominância em fazê-lo com mulheres ao invés de homens. Em Vitória, 29% das madrinhas eram escravas, já os padrinhos cativos o eram em 20,5%. Em Cachoeiro, onde os escravos ensejavam parentesco ritual com escravos, 59% eram mulheres e 55,4% homens.

208 Dos 504 batismos da paróquia curitibana entre 1800 e 1869, 70 por cento tiveram um par de padrinhos livres, menos de 20 por cento tiveram dois escravos como padrinhos, e quando os dois padrinhos tinham status desigual, o afilhado tinha duas vezes mais probabilidade de ter madrinha escrava e padrinho livro do que o contrário.

209O segundo capítulo tratará especificamente sobre a formação de comunidades ensejadas pelo parentesco ritual, portanto, por ora não serão feitas maiores análises sobre o assunto.

Os números revelam uma situação paradoxal: mulheres negras, geralmente vistas com inferioridade revertem suas supostas insignificâncias políticas em poderes e formas de sobrevivência eficazes.211 De acordo com Adriana Dantas Reis Alves,212

em muitas circunstâncias as mulheres escravas adquiriam mais bens e acesso a condições favoráveis de sobrevivência do que os homens. Aloiza Delurde,213ao

trabalhar com autos criminais, observou casos de relações amorosas entre cativas e homens livres como um dos caminhos possíveis de ascensão das escravas na sociedade capixaba Oitocentista. Na mesma região, Geraldo Antonio Soares214 constatou que as mulheres eram alforriadas em maior proporção que os homens. Tal tendência, segundo o pesquisador, também foi verificada em estudos envolvendo relação entre alforria e gênero no Brasil escravista.

Acrescenta-se, tratando de Vitória, o fator mobilidade espacial das mulheres escravas como quesito a mais nas escolhas das cativas como madrinhas. As mulheres representavam praticamente metade da população escrava de Vitória215 e sua participação no trabalho escravo da região era intensa. Os alugueis de mão de obra praticados pelos senhores na Cidade de Vitória e suas adjacências

211 Superado o mito de promiscuidade quando o assunto é família escrava, cabe se pensar nos intercursos sexuais de senhores com suas escravas, em relações que envolvem desejos e prazer, não apenas submissão, mas benefícios. Nesse sentido ver: ALVES, Adriana Dantas Reis. As

mulheres negras por cima, o caso de Luzia Jeje: escravidão, família e mobilidade social - Bahia, c.

1780 – c. 1830. Tese de Doutorado. Programa de Pós Graduação em História da Universidade Federal Fluminense, 2010.

212 Na explicação de Alves, sobre a hierarquia de gênero com referência de poder na escravidão, as disputas principais de poder estavam centradas nos homens proprietários e nos escravos, por isso, em muitas circunstâncias, os homens cativos eram emasculados, enquanto as mulheres escravas adquiriam mais bens e acesso a condições favoráveis de sobrevivência. Nesse sentido, os homens escravizados ocupavam um espaço ambíguo na sociedade escravista, pois, ao mesmo tempo em que eram referência de poder, pelo simples fato de serem homens, também eram escravos e referencia de sujeição. Por isso a esses homens escravizados eram vedadas, sobremaneira, as formas de ascensão social e acesso ao poder. Em contrapartida, as mulheres adquiriam mais bens e acesso a condições mais favoráveis de sobrevivência. (ALVES, 2010, p. 5).

213 JESUS, 2009, p. 150-151.

214 Geraldo Soares constatou em cartas de alforria, entre 1872 e 1887, que num total de 52 alforriados, havia 22 homens e 30 mulheres. Apesar de o pesquisador utilizar Kátia M. Q. Mattoso – que conclui se dever o maior número de mulheres alforriadas ao fato de elas serem consideradas menos produtivas, possuírem menor resistência física e ser menor seu preço que o do escravo do sexo masculino – o autor afirma que com base nas fontes não é possível encontrar nenhuma outra explicação para essa preferência, entretanto, acrescenta o fato de não dispor de elementos objetivos para afirmar que as razões de Vitória são as mesmas daquela levantadas por Mattoso (SOARES, 2006, p.119).

215 Diferentemente de regiões em que os africanos eram a maioria da população e onde dominava a lógica demográfica empresarial, com elevado número de homens e reposição dessa mão de obra, na Cidade de Vitória a sociedade escravista manteve-se com base na reprodução endógena e nos arranjos familiares. Sendo assim é pertinente destacar que as mulheres exerciam papel fundamental nas escravarias.

movimentavam majoritariamente mulheres. Dessa forma, a ampla inserção de escravas no universo livre poderia torná-las mais atrativas que os homens no momento de se eleger padrinhos ou madrinhas dentro das escravarias.

O que dizer em casos como o batismo de Marculina,216 filha de Josefa – escravas de

Francisco Nunes da Conceição – em que foram eleitos como “padrinhos Rita e Nossa Senhora da Vitória”, ou seja, mulher e protetora? Ter infringido as regras colocadas pelas Constituições217 importa menos do que a reflexão que tal atitude impõe: mesmo diante das condições impostas pela escravidão, num mundo dominado por homens, a mãe escrava poderia preferir no ritual de renascimento da criança mantê-la no mundo feminino sem, com isso, deixar de almejar uma condição futura melhor e benefício para seus filhos.

2.6. DA AMPLITUDE DA CONDIÇÃO DE LIVRES EM VITÓRIA: COMPADRES