Um dos eventos que desempenham papel predominante na vida do ho- mem é o que se denomina rito de passagem. Esse evento é o indicativo de que a
131 ELIADE, M. O Sagrado e o Profano, p. 139. 132 Idem., p. 139.
133 Ibidem., p. 139. 134 Ibidem., p. 139. 135 Ibidem., p. 140. 136 Ibidem., p. 141.
vida é divida em etapas e aqui esta a sua importância pois é o que marca, ou se- ja, o fim de uma, início de outra. Assim, a vida do homem passa por uma divisão entre o momento de uma fase de infância para a fase de adolescência e, posteri- ormente para a juventude. Em cada uma dessas fases são “captadas” caracterís- ticas próprias desse momento. Uma vez cumprida essas características o homem passa para a fase seguinte. Essa passagem para a fase seguinte é acompanhada por um rito: rito de passagem. E segundo afirma Mircea Eliade: “Como já obser- vamos, os ritos de passagem desempenham um papel importante na vida do ho- mem religioso”.137
Outros momentos da vida do homem são também preenchidos por ritos de passagem, entre esses o autor cita:
Mas há também ritos de passagem no nascimento, no casamento e na morte, e pode-se dizer que, em cada um desses casos, se trata sempre de uma iniciação, pois envolve sempre a mudança radical de um regime ontológico e estatuto social.138
No caso de uma criança recém- nascida, o que lhe confere o estatuto de “vivo” não é o seu nascimento, mas o rito realizado após o parto. É por esse rito que essa criança é inserida no mundo dos vivos. Sobre isso o autor escreve:
Quando acaba de nascer, a criança só dispõe de uma existência física; não é ainda reconhecida pela família nem recebida na comunidade. São os ritos realizados imediatamente após o parto que conferem ao recém- nascido o estatuto de “vivo”, propriamente dito; é graças a esses ritos que ele se integra à comunidade dos vivos.139
Outro momento que faz parte do desenvolvimento do ser humano é o epi- sódio do casamento. Momento em que deixa de ser celibatário para se juntar ao grupo dos homens chefes de família passando a ter uma vida casta. Pelo fato desse momento ser encarado como um momento de ameaça de rompimento, por- tanto, num momento de situação ou eventualidade em que pode ocorrer um dano, realiza-se então um rito de passagem. Para ilustrar essa afirmação transcrevemos as palavras do próprio autor:
137 ELIADE, M. O Sagrado e o Profano, p. 150. 138 Idem., p. 150.
Por ocasião do casamento, tem lugar também uma passagem de um grupo dos celibatários para participar, então, do grupo dos chefes de fa- mília. Todo o casamento implica uma tensão e um perigo, desencadean- do portanto uma crise; por isso o casamento se efetua por um rito de passagem.140
Possivelmente a circunstância mais complexa na vida do homem é sobre a realidade de sua morte. Complexo porque nesse acontecimento existe, possivel- mente, a presença de uma forte associação no terreno da afetividade e, ao mes- mo tempo, faz o homem pensar na sua pesarosa condição de ser-finito. Esse acontecimento inevitável o arremessa para um valor emocional, produzindo nele uma verdadeira perturbação psicológica. Uma inquietude se interpõe entre ele e a sua ideia de “ser-para-sempre” nesse mundo. Por essa razão a morte acaba “en- trando” na realidade do homem como um acontecimento complexo. O que ainda torna essa complexidade mais grave é o fato de que após ser declarado morto esse homem deverá, então, ser conduzido para a desconhecida comunidade dos mortos. Sobre esse complexo momento na vida do homem o autor escreve:
No que diz respeito à morte, os ritos são mais complexos, visto que se trata não apenas de “fenômeno natural” (a vida, ou a alma, abandonando o corpo), mas também de uma mudança de regime ao mesmo tempo on- tológico e social: o defunto deve enfrentar certas provas que dizem res- peito ao seu próprio destino pós-mortem, mas deve também ser reco- nhecido pela comunidade dos mortos e aceito entre eles. Para certos povos, só o sepultamento ritual confirma a morte: aquele que não é en- terrado segundo o costume não está morto.141
Portanto, para o homem religioso a morte só é considerada autêntica me- diante a realização dos conjuntos de atos formais e solenes de caráter religioso, ou seja, dos ritos prescritos para tal evento. Justificando a ideia da citação acima o autor complementa:
(...) a morte de uma pessoa só é reconhecida como válida depois da re- alização das cerimônias funerárias, ou quando a alma do defunto foi ritu- almente conduzida a nova morada, no outro mundo, e lá foi aceita pela comunidade dos mortos142
.
140 ELIADE, M. O Sagrado e o Profano, p. 150. 141 Idem., p. 150.
Se para o homem religioso os acontecimentos de nascimento, casamento e morte tem uma repercussão religiosa, não se pode dizer o mesmo da forma do homem arreligioso enfrentar essas situações. O que faz com que haja uma consi- derável diferença entre o um e o outro. Segundo o autor para o homem arreligioso esses eventos se apresentam como fatos que dizem respeito ao indivíduo ou co- mo políticos, no caso de chefes de estado ou para os políticos. É o que registra o autor:
Para o homem a-religioso, o nascimento, o casamento, a morte não pas- sam de acontecimentos que dizem respeito ao indivíduo e a sua família; raramente – no caso de chefes de Estado ou políticos – esses aconteci- mentos têm repercussões políticas. Numa perspectiva a-religiosa da existência, todas as “passagens” perderam seu caráter ritual, quer dizer, nada mais significam além do que mostra o ato concreto de um nasci- mento, de óbito ou de uma união sexual oficialmente reconhecida.143
O autor, no entanto, acrescenta ao seu escrito, uma ressalva quanto à questão de uma experiência arreligiosa completamente pura. Afirma que mesmo nas sociedades mais secularizadas esse fato não se torne algo “completamente puro”. Afirma, sobre isso:
Acrescentamos, porém, que raramente se encontra uma experiência completamente a-religiosa da vida total em estado puro, mesmo nas so- ciedades mais secularizadas. É possível que uma tal experiência com- pletamente a-religiosa se torne mais corrente num futuro mais ou menos longínquo; por ora é ainda rara.144
O que se encontra então no mundo profano? Essa questão parece ser per- tinente à reflexão porque se, de um lado, no homem religioso se percebe uma necessidade de um ritual de passagem para cada momento importante da vida, do outro, o homem arreligioso, se encontra uma experiência arreligiosa, mas não de forma completamente pura. Como então traduzir esse “estar aí” no homem a- religioso diante dos eventos importantes na vida? O autor responde a essa ques- tão afirmando:
143 ELIADE, M. O Sagrado e o Profano, p. 151. 144 Idem., p. 151.
O que se encontra no mundo profano é uma secularização radical da morte, do casamento e do nascimento, mas, como não tardaremos a ver, subsistem apesar de tudo vagas recordações e nostalgias de comporta- mentos religiosos abolidos.145
Sobre essa mesma perspectiva o autor completa:
Evidentemente, nas sociedades a-religiosas modernas, a iniciação já não existe como ato religioso (...) contudo (...)embora fortemente dessacrali- zados, os padrões de iniciação ainda sobrevivem no mundo moderno.146