Compartilhada pelas Lições de Historia do Brasil, a compreensão analítica da história do país, amparada nas noções de civilização, de progresso e de desenvolvimento, aparentemente fundamentou conteúdos opinativos e críticos em outras publicações de Macedo. Em favor disso, há uma série de evidências registradas em uma amostragem considerável de seus escritos publicados em seguida ao volume único das Lições de 1865:
Apesar de ter procurado despistar a autoria da obra intutulada Mazellas
da Actualidade, publicada em 1867 sob o pseudônimo Minimo Severo, este
escrito contém um quadro de "Explicações" análogo ao das Lições no qual Macedo afirmava que o livro tem "por fim particular atacar a desmoralisação que vai contaminando a nossa sociedade". Na forma de um "romance de improviso", conforme explicava Macedo na pena de seu pseudônimo, a obra seria uma "satyra dos abuzos, dos costumes pervertidos, das mazellas da actualidade". Tratar-se-ia, nas suas palavras, de uma "satyra generosa e nobre" porque não teria direcionamento pessoal e nem escolhia "victima exclusiva", e que seria uma "satyra honesta e util" porque tinha como alvo atacar "de frente o vicio, a prevaricação e o crime". Assim, o objetivo alegado era denunciar a "moralidade publica ultrajada, ferida na corrupção dos costumes, no egoismo e na vilania dos homens politicos", corrompida "nos abuzos e no desvairo do governo e, em uma palavra, no olvido das noções do dever e no desenfreamento de paixões ruins". Como resultado, dizia Macedo que, "em bem fundados receios de completa ruina", a moralidade pública reclamava pelo "soccorro da satyra", chamado ao qual a obra procurava responder: "porque, coitada, se não lhe valer a satyra, quem lhe hade valer a ella?". Apontado o problema, Macedo também
indicava um caminho para a solução: "o seu primeiro e adequado recurso é quem mais incapaz se mostra de acudir-lhe ao soffrimento: o governo para moralisar precisa infelizmente começar por moralisar-se". Nesse cenário, dizia Macedo que, "em taes circumstancias, a satyra, quando não é um remedio, pode ser linitivo e consolação".51
Assim como as Lições de Historia do Brasil, o relatório à Terceira
Exposição Brazileira em 1873, na qual Macedo foi secretário geral do juri,
fundamenta-se na noção de civilização enquanto critério para enumerar louvores, para realizar análises e também para levantar críticas:
Afirmava Macedo que o evento da exposição era um espetáculo da civilização que fazia vitrine para a tecnologia que espelhava o processo da história. Na história da humanidade, desde a Antiguidade, passando pela Idade Média e chegando à época Moderna, explicava Macedo que "as nações manifestam o gráu e as tendencias de sua civilização" por meio da "eloquente natureza de seus espectaculos grandiosos ou tremendos, de suas festas magnificas ou horriveis". Entre as tais tendências da civilização, dizia, "duas avultam pela mais immediata e vulgarisada influencia social e economica", o "vapor força motriz" e a "electricidade correio: um aproximou distancias, a outra revogou-as". Essas tecnologias são descritas por Macedo como "maravilhas do engenho humano" cujas "intelligencias [...] marcam o condão da nova idade por invenções e descobertas sorprendentes, e algumas até inverosimeis até á vespera da evidencia"52:
Nas exposições universaes o apparato, as galas, os ornamentos deslumbradores são de honra e de fausto devidos á magestade da civilisação e do progresso que se representam no producção geral das nações e dos paizes do mundo; mas em seu preciso e imprescindivel fim ellas inventariam as forças productivas naturaes e industriaes de cada paiz, estudam-as, comparam-as, excitam a sua exploração, e sommando todas offerecem em resultado o inventario universal.53
51 MACEDO, Joaquim Manoel de. Mazellas da Actualidade (Romance de Improviso) por Minimo Severo. N. 1. Voragem. Rio de Janeiro: Typographia do Imperial Instituto Artistico, 1867, p. V-VII. Grifo do original.
52 MACEDO, Joaquim Manoel de. Terceira Exposição Brazileira em 1873. Relatório do
Secretario Geral do Jury da Exposição. Rio de Janeiro: Typographia da Reforma, 1875, p. 5-7. 53 MACEDO, Joaquim Manoel de. Op. cit., 1875, p. 8.
Muito além de ser mera vitrine da tecnologia e da civilização, para Macedo, o evento da exposição seria também "uma fonte de novos melhoramentos", e isto, como tal, imporia à cada nação o "dever, de consiencia e gloria", para que "se empenhe em mostrar-se enriquecida com os therouros da natureza e com a opulencia dos fructos do trabalho de seu povo". Assim, dizia, as "Exposições Nacionais" possuíam a dupla vantagem de, "além de produzir particularmente em cada nação as mesmas consequencias economicas e civilisadoras", apresentavam-se "como zelosas preparadoras da representação condigna nas
Exposições Universaes".54
Ou seja, para Macedo, as exposições possuíam utilidade social e técnica as quais "encerram lições que são caminhos abertos para melhoramento e progresso". Tais eventos, dizia, "não tem por fim principal a ostentação de obras primas", ainda que produzam colateralmente esse efeito, pois "forçosamente promove [...] a emulação productora". No entanto, segundo o relatório de Macedo, "o grandioso objectivo" das exposições seria "a exploração das forças vivas e de todas as industrias de cada nação e de todas as nações em proveito e utilidade comum, em proveito e utilidade de todos os homens", inclusive "a maxima parte dos quaes se compõe de pobres, que quereriam, mas não podem comprar nem luxo, nem promores, nem mesmo mediocres suavidades da vida". Dai, de acordo com Macedo, ter cabido ao próprio imperador D. Pedro II, em visita à exposição universal de Viena em 1873, a tarefa de "historiar esse pleito generoso e civilisador".55
Não surpreende, portanto, que o relatório de Macedo frequentemente destaque o que, em sua avaliação, são manifestações do nível do progresso e da civilização. Isto é patente em várias de suas falas, como ao dizer que o ferro é "a herculea alavanca da civilisação moderna" e o carvão mineral "fumega progresso e industria, e derrama em ondas de vapor a civilisação"56; que alguns dos objetos expostos no setor da "industria dos metaes", embora a concorrência "mesquinha" entre os expositores", teria dado "a doce consolação que provém
54 MACEDO, Joaquim Manoel de. Op. cit., 1875, p. 8. Grifo do original. Cf. PESAVENTO, S. J. Exposições Universais: espetáculo da modernidade do século XIX. São Paulo: Ed. Hucitec, 1997.
55 MACEDO, Joaquim Manoel de. Op. cit., 1875, p. 25-27. 56 MACEDO, Joaquim Manoel de. Op. cit., 1875, p. 14.
do reconhecimento do progresso"57; ou ao apontar que "a tinturaria offereceu especimens merecedores de louvor, mas não brilhou por indicação de melhoramento desenvolvido e assignalador do progresso geral", ou que a exposição de velas e sabão que mostravam "productos de nossa industria" que "bastariam para as necessidades e para a decencia de qualquer nação civilisada".58
Entretanto, após enumerar os louvores à civilização, ao progresso e ao desenvolvimento verificados na exposição, o relatório de Macedo passa a um tom mais reflexivo ao analisar o direito à propriedade de invenções, o fim do tráfico de escravos e o próprio evento da exposição ao qual o relatório se refere, para concluir que a raiz dos problemas verificados é a indolência e a inércia moral no Brasil:
A respeito do "direito constitucional de propriedade das invenções e producção", Macedo descreve um cenário geral no qual "o inventor expõe e desde que expõe, os imitadores copiam, concorrem e vendem", e questiona: "onde está em tal caso o privilegio da invenção?", e, por isso, sustenta que ou se respeita "em todas as producções" os códigos do "direito de propriedade sobre invenções e obras da intelligencia ou da imaginação do homem", ou esse código deve ser banido "em proveito da humanidade e da civilisação", pois "o privilegio e o monopolio são inimigos do progresso".59 Quanto à aprovação da Lei Eusébio de Queirós em 1850, Macedo compreendia que a lavoura sustentada com a mão-de-obra escrava impunha uma rotina "pesada e anti- economica que amesquinhava sua producção por qualidade inferior" e que "a terminação absoluta do barbaro trafico de escravos d'Africa" havia iniciado no Brasil "a éra dos melhoramentos agricolas pela introducção de instrumentos agrarios, de machinas e de processos, que têm modificado muito o trabalho nos campos e nas fabricas", e, como resultado, "o progresso estendeu-se e vai-se dilatando" pelas fazendas.60
57 MACEDO, Joaquim Manoel de. Op. cit., 1875, p. 16. 58 MACEDO, Joaquim Manoel de. Op. cit., 1875, p. 21. 59 MACEDO, Joaquim Manoel de. Op. cit., 1875, p. 17. 60 MACEDO, Joaquim Manoel de. Op. cit., 1875, p. 18.
A perspectiva analítica e problematizante alimenta a crítica de Macedo que mira no próprio evento da exposição. Dizia Macedo que "dous caminhos abrem agora diante de nós: um fácil, suave, mas dissimuladamente tortuoso, o da lisonja que sorri a quasi todos; o outro escabroso e difficil, mas recto, o da verdade que desagrada a muitos". Após louvar a exposição enquanto vitrine da civilização, Macedo afirma que no país realmente "ainda não houve Exposição Nacional", considerando que, a despeito de "o empenho patriotico do governo" já por três vezes ter solicitado a "dedicação de espiritos esclarecidos e de civicos paladinos do florescimento e da gloria da patria" para reunir expositores, "apenas e ainda incompletamente algumas provincias do imperio" haviam se dignado a contribuir, e, por isso, lamentava, nas exposições universais "em Londres, em Pariz e em Vienna, o Brasil mostrou-se muito abaixo da sua inexcedivel opulencia natural e no desenvolvimento de sua industria". Além de acusar a baixa adesão das províncias a um evento tido como importante e que deveria ser de alcance nacional, Macedo expõe também a própria desorganização da exposição, a qual dizia constrangê-lo, na posição de secretário geral do juri, a "levantar pobre edificio sem fundamentos", já que sua atribuição exigia o improviso de "escrever um relatorio geral sem informações especiaes e competentes da nossa terceira Exposição Nacional", e por isso acusava: "recebei-o sem ordem, sem nexo, sem respeito ao proprio systema distributivo dos jurys ou das secções da Exposição".61
Macedo analisava se trata de um problema de raízes profundas, cujos sintomas manifestam-se não apenas pontualmente no evento da exposição mas que atingiam o Brasil por inteiro. Seria, em sua concepçào, uma questão de vício moral: "certa indolencia maldita que se afigura indifferença pelos empenhos mais generosos e excellentes; mas que é antes inercia moral, filha de antigos costumes que ainda não se corrigiram". Para Macedo, as "causas geraes de deficiencia das Exposições Nacionais no Brasil" dizem respeito tanto a características gerais do Brasil, entre as quais "territorio do imperio vastissimo, provincias longuinquas, população relativamente diminuta e disseminada no interior por centros muito distanciados, e, emfim, nem em toda parte esclarecido o conhecimento da transcendencia economia e civilisadora
das Exposições", quanto dizem respeito especificamente à população do Brasil, descrita como um "povo do qual todos maldizem da interventora tutela do governo, e muito poucos, bem raros, ousam adiantar algum consideravel melhoramento publico sem ella".62
Além disso, na avaliação de Macedo, o Brasil é incompetente com o cumprimento da obrigação do trabalho:
A falta de braços para o trabalho é explicação que serve a todas as incurias.
Houve no Brasil um estadista, cidadão benemerito a quem accusavam de mania de paradoxos: era o Visconte de Albuquerque, o dizedor de verdades terriveis: no meio de serias difficuldades financeiras do Estado, elle exclamou mais de uma vez no parlamento: <<dinheiro temos nós, o que nos falta é juizo.>>
A imital-o diremos também: braços temos nós, o que nos falta é o cumprimento do dever do trabalho.
Eis o que é verdade: em cada municipio de cada provincia ha centenas de homens robustos; mas ociosos que vivem dos recursos facilimos e naturaes deste paiz prodigoso e da exploração abusiva ou criminosa do trabalho dos visinhos.63
No Brasil, criticava Macedo, há homens "onerosos que se contam por alguns mil em cada provincia populosa e por muitos mil no imperio" que representariam "promptos elementos de desordem" e "forças vivas inuteis". O país, assim, estaria refém de um sistema de "tolerancia de sua ociosidade" que persistia amparado "pela beneficencia que o caracter brasileiro exagera".64
Por tudo isso, parece apropriado observar que, na compreensão compartilhada por Macedo, a ideia de civilização é o fator comum entre a enumeração de destaques da exposição enquanto espetáculo do progresso e a afirmação que o evento poderia trazer contribuições para o desenvolvimento do Brasil. Sob o mesmo fundamento, a perspectiva analítica de Macedo identifica problemas, atribui-lhes adjetivação, frequentemente crítica, e os relacionam a raízes profundas do Brasil de ordem política, econômica e moral. Essa centralidade da noção de civilização como critério de análise e julgamento é compartilhada também no livro Noções de Corographia do Brasil, obra que, segundo Macedo, "pertence de direito á digna <<Comissão Superior da
62 MACEDO, Joaquim Manoel de. Op. cit., 1875, p. 12. 63 MACEDO, Joaquim Manoel de. Op. cit., 1875, p. 23. 64 MACEDO, Joaquim Manoel de. Op. cit., 1875, p. 23.
Exposição Nacional de 1873>> que a encommendou e pagou", com o objetivo
de levá-la à Exposição Universal de Viena para "divulgarem-se na Europa verdadeiros e precisos conhecimentos do Brazil, considerando politica, moral, economica e physicamente". A primeira parte da Corographia estuda "o Brazil em Geral" dissecando-o por tópicos, tais como: "Produções naturaes do Brazil"; "Industria, Agricultura, Commercio e Progresso material do paiz"; "Civilisação e População"; e "Colonisação e Catechese".65
Antes, no entanto, Macedo oferece ao leitor um "Esboço Historico do Brazil", o qual se trata menos de uma trajetória narrativa e mais de um passeio por assuntos cronologicamente ordenados sobre os quais tece juízos de valor, notadamente fundamentados na ideia de civilização. Isto é evidente quando a
Corographia explica que, "quando se operou em 1640 a revolução regeneradora
de Portugal" contra a ocupação holandesa no Brasil,
para o interesse portuguez no Brasil muito peior que o poder militar hollandez tornara-se o quadro eloquente da sabedoria politica e administrativa e dos consequentes melhoramentos materiaes, das fontes de civilisação e de progresso que começava á observar-se nas capitanias conquistadas, graças ao governo habil e providente do principe Mauricio de Nassau, que era o chefe do Brazil hollandez.66 Isto é evidente também quando avalia que, "de 1750 á 1777, correo notavel periodo de desenvolvimento economico de progresso e de prosperidade do Brasil", período que "comprehende elle todo o reinado de D. José I, no qual se fez sentir o genio politico e administrativo do marquez de Pombal".67 Até mesmo a observação sobre a hidrografia do Brasil leva em consideração, em seu vocabulário, o potencial para a civilização, o progresso e o desenvolvimento:
O rio S. Francisco deve ser mais do que magestoso rio, deve e hade ser o genio, o elemento, o laço da fraternidade e da união commercial, industrial, civilisadora e politica do interior do Sul e do Norte do Imperio.
65 MACEDO, Joaquim Manoel de. Prologo. In:___. Noções de Corographia do Brasil. Primeira Parte: O Brazil em Geral. Rio de Janeiro: Typographia Franco-Americana, 1873a, p. I. Grifos do original. Enquanto a primeira parte faz uma análise do Brasil em geral, a segunda percorre tópicos análogos para analisar cada província, uma por capítulo. Cf. MACEDO, Joaquim Manoel de. Noções de Corographia do Brasil. Segunda Parte: Provincias e Municipio da Corte do Imperio do Brazil. Rio de Janeiro: Typographia Franco-Americana, 1873b.
66 MACEDO, Joaquim Manoel de. Op. cit., 1873a, p. 11. 67 MACEDO, Joaquim Manoel de. Op. cit., 1873a, p. 15.
Os homens forçosamente o hão de fazer assim; porque Deos o fez para que elle fosse assim.
O rio de S. Francisco foi creado e correo obedecendo em seu curso á impulso providencial para, cumprindo seu destino, ser mediterraneo opulento e opulentador do centro do Brazil.68
Além disso, o "esboço historico" caracteriza o tráfico de escravos como prática econômica incivilizada e entrave ao progresso. Dizia Macedo que "a cessação do trafico barbaro de escravos", ocorrida em 1850, "levou a especulação á procurar legitima e honrosa outros horizontes animadores do emprego do capital", e tal redirecionamento de investimentos teria fomentado o desenvolvimento do Brasil. "O primeiro e altamente benefico resultado do exterminio do crime nefando o progresso material", afirmava Macedo, "começou logo á sorrir ao paiz e á felicital-o: as estradas de ferro e o telegrapho electrico estenderão e estendem seus trilhos e seus fios civilisadores dos emporios do litoral para os corações e as amplidões fertilissimas do interior". Nesse cenário de crise de mão-de-obra graças ao fim do tráfico de escravos, conforme entendia Macedo, o sucesso do Brasil seria determinado por "duas questões de cuja solução depende notavelmente o desenvolvimento, a riqueza e o futuro do paiz": pela "emigração europea", para substituir a mão-de-obra na lavoura, e pela "descentralisação administrativa das provincias". Para ambas questões, confiava Macedo que, no foro político, "adianta-se tanto o accordo de todas as intelligencias esclarecidas que bem cedo a acção legislativa satisfará com reformas prudentes e com adequadas leis essas transcendentes necessidades publicas", o que, na sua visão, viria a assegurar "aos emigrantes seus direitos de Deos, de patria e de familia, e ás provincias seus direitos de administração, de economia e de actividade peculiar".69
O capítulo "Produções naturaes do Brazil" observa o potencial dos recursos do país comparando as fases de antes e de depois da colonização: "Quem pudesse imaginar que o Brazil, com toda a sua opulencia nos tres reinos da natureza, revelando-se completamente nos dias de seo descobrimento e conquista pelos portuguezes", dizia Macedo - reiterando uma de suas Lições de
Historia do Brasil, "sem duvida admirado lamentaria o descomedido contraste
68 MACEDO, Joaquim Manoel de. Op. cit., 1873a, p. 121. Grifos do original. 69 MACEDO, Joaquim Manoel de. Op. cit., 1873a, p. 25-26.
que apresentava a condição mesquinha, a miseria cega do homem, do gentio selvagem", que viveria junto à "immensidade das riquezas e dos thesouros de proporções grandiosas que elle olhava e não via, tocava e não sentia na vastidão da região que dominava".70 Os recursos naturais no território do Brasil representariam um potencial para o estabelecimento da colonização e para o progresso e o desenvolvimento civilizatórios, potencial que teria começado a ser explorado apenas após o Descobrimento em 1500:
Pois bem: tres seculos e mais setenta e dous annos já passarão: ha meio seculo que a colonia portugueza se tornou imperio independente; desde muito antes o indio selvagem cedeu a terra de suas ordas e de suas tabas ás sociedades e ás povoações, ás villas e ás cidades do homem civilisado.71
Esse processo teria se dado porque, no passado, "atrevidos aventureiros devassarão os dezertos" e porque "sabios viajantes e exploradores europeos e brazileiros tem multiplicado dilatadas excursões" graças a "consideraves estudos, comissões do governo desde as mais antigas até recentes datas". Além da participação do governo, Macedo dá destaque também a iniciativas privadas que teriam desempenhado um papel importante na exploração dos recursos naturais, como "companhias industriaes impellidas por calculos de vantagens que, alem de ser legitimos são patrioticos, tem com igual ardor e solicito empenho" realizado a navegação e a exploração de rios, "subido, transposto serras e montanhas, descido aos valles do interior, invadido os seios profundos das florestas, perlustrado planicies e campos de extensão em que os olhos se perdem". Todavia, dizia Macedo que "o homem, embora civilisado e pela civilisação engrandecido, ainda hoje é pequeno e humilde perante a magestade da natureza brazileira, e ainda hoje está longe de sua completa revelação toda a opulencia natural do Brazil".72
O capítulo "Industria, Agricultura, Commercio e Progresso material do paiz", nas palavras de Macedo, é um "estudo sufficiente do progresso material á que tem chegado o Brazil"73, no qual trata dos potenciais e entraves para o
70 MACEDO, Joaquim Manoel de. Op. cit., 1873a, p. 133. 71 MACEDO, Joaquim Manoel de. Op. cit., 1873a, p. 133. 72 MACEDO, Joaquim Manoel de. Op. cit., 1873a, p. 133-134. 73 MACEDO, Joaquim Manoel de. Op. cit., 1873a, p. 172.
progresso do país. Macedo admitia que "por ora a uberdade do solo concentra a maxima parte dos braços na agricultura que prodigamente recompensa o trabalho, e em cujos seios se alimenta com brilhante florescimento o commercio", e que, assim, "o Brazil ainda não é paiz propriamente fabril", mas presumia que o país "hade porém sel-o e em grandissima escala", explicava, "porque alem de ser nelle garantida pela constituição a liberdade plena de todas as industrias, encontrão-se nas producções naturaes do paiz as materias primas de quantas industrias se explorão no mundo civilisado, e todos os agentes que a chimica pode offerecer".74 Além disso, Macedo refletia sobre a questão da imigração de europeus, cuja vinda para o Brasil seria uma contribuição para o progresso, pois sua mão-de-obra seria mais produtiva e "inteligente" que a dos cativos da África:
A emigração europea para o Brazil é infallivel: porque as leis naturaes a obrigão: onde ha, como no Brazil, abastança indefectivel, riqueza