À medida que o modelo moderno de infância começava a engatinhar nas sociedades ocidentais entre o século XVII e XIX, várias outras mudanças atingiam um grande número de crianças em diferentes partes do planeta. Stearns (2006) indica três processos históricos que, a partir do século XVI, apresentaram grande impacto sobre a vida de diferentes crianças.
O tráfico negreiro é apontado como um dos primeiros processos. Em seguida, assinala-se a expansão do colonialismo europeu, especificamente nas Américas. E por último, de forma geral, o aumento da produção direcionada a uma economia mundial em crescimento que, consequentemente, acarretou uma intensificação do trabalho para as crianças.
Em relação à escravidão, esse processo trouxe grandes repercussões para a infância, com destaque para a população negra e indígena. Com a ascensão do colonialismo europeu nas Américas o tráfico de escravos da África acarretou para milhões de crianças um processo de privações, humilhações e atrocidades. Os adolescentes eram os mais procurados como escravos pela sua habilidade de trabalho e pelo potencial de reprodução. A infância escrava foi acometida pelo trabalho obrigatório, pela ilegalidade, pelas punições físicas com requintes de crueldade e pelo afastamento da família de origem, ao serem vendidos como objetos. Ao trabalharem no campo, tinham que lidar com uma dura disciplina sob o chicote. Enquanto que alguns segmentos da sociedade enfatizavam a escolarização, a maioria dos proprietários de
escravos vedava qualquer educação da criança escrava (STEARNS, 2006; HEYWOOD, 2004).
A expansão do colonialismo europeu afetou a infância de diferentes formas. Como existia muito trabalho nas colônias, a mão de obra infantil era utilizada em larga escala. Para alguns povos da América, o trabalho já fazia parte do dia a dia das crianças, mas somente com a chegada dos europeus passou a ser compulsório. Em algumas sociedades, como a asteca e a inca, a utilização e a punição de crianças não eram diferentes das realizadas pelos europeus, pois, a partir dos oito anos de idade, as crianças poderiam ser castigadas com tapas, expostas à fumaça de pimenta, chegando à morte.
A infância na América Latina, durante o processo de colonização, apresentou elevado índice de crianças ilegítimas o que se tornou uma particularidade constante da infância nessas sociedades. Inúmeras consequências recaíram sobre essas crianças, como mães criando os filhos sozinhas, crianças encaminhadas para morar com famílias que não tivessem filhos ou que estivessem necessitando de auxiliares para trabalhar. O trabalho, ao qual a maioria dessas crianças era submetida, geralmente vinha seguido de disciplina rigorosa e, em alguns casos, até de crueldade. Muitos orfanatos eram o lar dessas crianças que eram alimentadas por amas de leite e, posteriormente, designadas a trabalharem em outras famílias ou até mesmo, em lavouras brasileiras, como escravos (STEARNS, 2006).
Em relação à “Era Industrial”, esta desenhou noções de indivíduo, individualidade e intimidade que no período do feudalismo não existiam. Com base nesses conceitos desenvolvidos com o surgimento das Ciências Humanas foram desencadeadas reformulações na concepção de família e rearranjos das relações matrimoniais que, nesse momento, eram mais voltadas para a relação com a prole.
Dessa forma, na família burguesa, a função de cada membro era bem definida e expandia-se os sentimentos de ordem, respeito mútuo e afeição entre os membros, compatível ao ambiente ideal e benéfico para o bom crescimento das crianças (CASTRO, 1998; BRUSCHINNI, 2005).
No modelo moderno, a infância conquistou a categoria de sujeito com características psicológicas, o que fomentou o aparecimento de políticas sociais e educacionais para o seu bem-estar, a orientação, o acolhimento das famílias e a correção de irregularidades. Nesse modelo poético, ser criança é ir para escola, brincar e não ter responsabilidades, ficando isenta de atividades como o trabalho (CASTRO, 1998).
Mas o modelo moderno apresenta-se como paradoxal. Ao mesmo tempo em que são desenvolvidos novos sentimentos (ingenuidade, pureza, e fragilidade) e cuidados em relação à
infância, paralelamente desenvolvem-se ações e teorias para governá-las. Nesse período propaga-se o conhecimento de várias áreas do saber (teorias e práticas) para normalizar a infância.
Ademais, a família moderna com seus alicerces na transmissão da herança e na manutenção da propriedade, apoiou-se em novos valores familiares como o casamento, designando ao homem o papel de chefe que precisa defender os bens e as pessoas da família. Coube à mulher a responsabilidade de cuidar dos filhos e administrar o lar. Aos filhos a responsabilidade em dar prosseguimento a tradição familiar e expandir o nome e o patrimônio desse grupo social. Esse novo formato de família provocou mudanças no tratamento concedido aos filhos, a começar por uma reordenação dos espaços internos da casa. Esses espaços foram redistribuídos entre os membros, assim, a casa passou a ser um espaço indispensável a afetos e sentimentos (DORNELLES, 2011).
Entretanto, o gozo de aglomerado de normas e valores foi, com maior facilidade, obtido pelos grupos sociais, cujo poder de compra permitia o acesso aos bens de consumo e serviços. Aos grupos sociais menos privilegiados financeiramente sobraram a marginalização e a submissão às políticas assistenciais que interferiam insuficientemente nas condições materiais e sociais de vida dessas pessoas.
Muitas crianças, principalmente das camadas mais pobres da população, uniram-se aos pais ou a outros membros da família com a função de garantir a reprodução econômica. Sem acesso à escolarização, o que restava à infância da classe trabalhadora era o aprendizado de um ofício e assim dar continuidade ao trabalho desenvolvido pelos próprios pais.
Os valores e normas sociais foram adentrando nas famílias pobres à medida que o Estado e a ciência foram se apropriando da interferência sobre a família. Assim, a família que antes tinha uma identidade de produção passou a ser vista como elemento de consumo.
Nesse sentido, é importante destacar-se o comentário de Dornelles (2011) de que existem diferentes infâncias: pobre, rica, rejeitada, superprotegida, amparada, acolhida, amada, etc. A autora observa que a modernidade ocidental, ao universalizar e naturalizar somente a infância dependente e necessitada de proteção, desconsiderou a diversidade dessa categoria. “Em função disso, acaba-se esquecendo de que as infâncias são múltiplas e inventadas como produtos sociais e históricos” (DORNELLES, 2011, p.77). Interessa-nos pensar que o mote de uma única infância, dependente e necessitada, estava forjado num campo de tensões de normalização, padronização e controle do desenvolvimento infantil.
Cruzamentos de olhares sobre a infância através de diferentes autores nos permite ver a criança como uma representação viva da violência, desde as sociedades coletoras até a modernidade, ao longo dos séculos.