• No results found

Ao interromper aqui sem concluir, destacamos com maior ên- fase a percepção da inseparabilidade ser/conhecer, pois é nosso ob- jeto central de pesquisa no grupo de investigação ao qual pertence-

mos.7 Para expressar este fenômeno complexo do viver, cunhamos

no grupo o conceito de ontoepistemogênese com a intenção de abordar o ser humano de forma integrada articulando todas as dimen- sões do viver. Temos teorizado no grupo sobre este conceito e socia- lizado através de artigos e apresentação em eventos os frutos destas teorizações. O objetivo mais importante das autonarrativas é a per- cepção desta inseparabilidade.

Uma das primeiras inferências que podemos fazer sobre as narra- tivas e a invenção de si é a implicação de um outro nível de pensamento lógico – a abdução, já mencionado anteriormente – que age juntando dimensões psíquicas e cognitivas fazendo disparar a ação que emergia sob a forma de autoproposição de alternativas de vida e de invenção de novos sentidos. Tudo isso se constitui num emergente processo de com- plexiicação dos sujeitos narradores e na percepção de que somos os autores da nossa vida no sentido da autonomia sugerida pela teoria da Autopoiesis (MATURANA; VARELA, 1980).

Nesse devir, a vida de cada um de nós vai se conigurando com nossas ações, hábitos e pensamentos, pois não nascemos prontos. E, autopoieticamente, precisamos nos construir no luxo do viver ao mesmo tempo em que aprendemos. Um instrumento poderoso de cons- tituição de conhecimento/realidade é a narrativa. Somos seres de lin- guagem. O humano, como airma Maturana, se constitui na linguagem. E, dentro da linguagem, a narrativa é o instrumento poderoso de cons- tituição de si na medida em que é um instrumento complexo, pois leva os sujeitos a perceberem a emergência do conhecer e do ser de forma inextrincável. Somos aquilo que narramos de nós mesmos e, ao fazer isso, vamos nos complexiicando no sentido de maior autonomia e, por- tanto, de autoria de nós mesmos. Nas relexões de Connely e Clandinin:

A razão principal para o uso da narrativa na investigação edu- cativa é que os seres humanos são organismos contadores de histórias, organismos que, individual e socialmente, vivem vidas relatadas. O estudo da narrativa, portanto, é o estudo da forma na qual nós, os seres humanos, experimentamos o mundo (CONNELY; CLANDININ, 1995, p. 11).

Para inalizar, vale lembrar Bergson, que dá uma sustentação inestimável para o nosso trabalho a partir de seu pensamento complexo e recursivo:

Estamos, pois, certos ao dizer que aquilo que fazemos depende do que somos; mas impõe-se acrescentar que somos, até certo ponto, o que fazemos, e que criamo-nos a nós mesmos continu-

amente. Esta criação de si por si é tanto mais completa, aliás, quanto melhor se raciocina sobre o que se faz. Porque a razão não atua no caso como em geometria em que as premissas são dadas para sempre, impessoais, e em que uma conclusão impessoal se impõe. No caso, pelo contrário, as mesmas razões poderão ditar a pessoas diferentes, estados profundamente diferentes, embora igualmente racionais. Na verdade, não se trata das mesmas ra- zões inteiramente, dado que não são as mesmas pessoas, nem do mesmo momento. Eis porque não se pode operar sobre elas in abstracto, de fora, como em geometria, nem resolver por outrem os problemas que a vida suscita (BERGSON, 1979, p. 18).

Referências

ARENDT, Hannah. A condição humana. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

BERSGON, Henri. A evolução criadora. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. BHAGAVAD-GITA. New York: State University of New York Press, 1994. CAPRA, Fritjof. O Ponto de mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergente. 25. ed. São Paulo: Cultrix, 1982.

CERTEAU, Michel; GIARD, Luce; MAYOL, Pierre. A invenção do cotidiano. Petrópolis, RJ: Vozes, 1996. v. 2.

CONNELY, Michael; CLANDININ, Jean. Relatos de experiência e in- vestigación narrativa. In: LARROSA, Jorge. Déjame que te cuente. Barcelona: Laertes, 1995.

CRAGNOLINI, Mónica B. Do Corpo-escrita. Nietzsche, seu “eu” e seus escritos. In: BARRENECHEA, Miguel Angel et al. (Org.). Assim falou Nietzsche III: Para uma ilosoia do futuro. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2001. p. 132-138.

CSIKSZENTMIHALYI, Mihaly. Fluir. Barcelona: Numancia, 2008. ECHEVERRÍA, Rafael. La ontologia del lenguaje. Buenos Aires: Juan Carlos Saez, 2006.

ESPINOSA, Benedictus. Ética. São Paulo: Abril, 1983.

GONÇALVES, Oscar. Psicoterapia cognitiva narrativa. Bilbao: Desclée de Brouwer, 2002.

LARROSA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 19, jan./abr. 2002. ______. Tecnologias do eu e educação. In: SILVA, Tomaz T. O sujeito da educação. Petropolis, RJ: Vozes, 1994.

MATURANA, Humberto; VARELA, Francisco. Biology and cogni- tion. London: Reidel, 1980.

NIETZSCHE, Friedrich. Nietzsche. São Paulo: Abril, 1983.

OLIVEIRA, Clara Costa. Contributos educativos e comunitários do Movimento Epistemológico da Auto-organização: um método auto-or- ganizativo na formação de educadores de adultos. Educação, Porto Alegre, RS, v. 30, n. 1, p. 165-180, jan./abr. 2007.

PEAT, David. A ciência como fonte de histórias. In: SIMPKINSON, Charles, H.; SIMPKINSON, Anne Adamcewicz. Histórias Sagradas: uma exaltação do poder de cura e transformação. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. p. 61. PIAGET, Jean. Epistemologia genética. São Paulo: Abril, 1983. PRIGOGINE, Ilya. Is future given? New Jersey: World Scientiic, 2003. SOARES, Luiz Carlos. A construção do paradigma racionalista-meca- nicista e a hegemonia de um projeto de ciência (1600-1780). In: SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 17., 1996, São Paulo. Anais... São Paulo: Associação Nacional de História, 1996. p. 145-153. Disponível em: <http://anpuh.org/anais/wp-content/uploads/mp/pdf/ ANPUH.S17.13.pdf>. Acesso em: 7 abr. 2014.

VARELA, Francisco. De maquinas y seres vivos. Santiago: Universitária, 1995.

VARELA, Francisco; SHEAR, Jonathan. The view from within. Thorverton: Imprint Academic, 1999.

VON FOERSTER, Heinz. Understanding understanding: essays on cybernetics and cognition. New York: Spring, 2003.