A Educação de Jovens e Adultos na Escola professor Manoel Pedro Ferreira passa por problemas que não se difere de outras escolas do campo. A EJA funciona no período noturno, com as aulas iniciando às 18h. A turma tem em média 15 alunos (1ª e 2ª etapa). A educadora de 2010 possui formação no Magistério, com graduação em Pedagogia e concluindo uma especialização. Pertence ao quadro temporário do município. Segundo a professora, a realidade dos alunos trabalhadores da EJA torna-se problema, devido não conseguir avançar o conteúdo, pois sempre tem que repeti-lo aos faltosos. O motivo das faltas se justifica, principalmente, pelo exaustivo trabalho nas olarias, no cultivo da mandioca e outras atividades. Outro sério problema diz respeito ao currículo. Distante da realidade dos educandos, este se materializa por meio do conteúdo programático adotado como padrão da SEMEC. Segundo a fala das educandas de EJA:
A gente sabe que todo mundo precisa trabalhar. A gente respeita. Mas formar turma com professora da cidade é difícil porque elas faltam muito. Tem que viajar, dormir aqui, e vão embora no outro dia. A gente tem dó. Se a professora falta, a gente vai se desanimando. Ai não vem mais. Essa nossa turma a professora é daqui. Ela conhece a gente e se preocupa. (RODRIGUES,2011)
A matéria às vezes fica chata. Tem números que eu não consigo aprender. Às vezes pergunto, mas outras vezes não, o cansaço não deixa. A
professora é boa pessoa. Mas o assunto, sei não, não consegue ficar na minha cabeça. ( SANTOS,M.,2011)
Sobressai nas vozes dos educandos a leitura de que eles precisam ser vistos com seus problemas, seu cansaço, suas dores, suas dificuldades de aprendizagens. No entanto, em se tratando de programa curricular, a turma de EJA recebe livros didáticos encaminhados da SEMEC que não dispõe de material específico para a realidade dos sujeitos ribeirinhos quilombolas.
Ressaltamos que o currículo mencionado até aqui, refere-se ao conteúdo programático indicado pela Coordenação de EJA da SEMEC em 2010. A estrutura do conhecimento oficial se faz no programa imposto, nas bibliografias, aulas expositivas como representantes da autoridade social como formas de conter os educadores e alunos no consenso oficial de ensino.
É pertinente que o educador busque a sensibilidade de olhar a realidade do educando para melhor compreender os sujeitos da EJA, a partir de sua subjetividade que passa a ser construída em interação constante com outros contextos, em sua história, no seu quefazer cotidiano. Freire (1986, p.46) afirma:
[...] o contexto da transformação não é só a sala de aula, mas encontra-se fora dela. Se o processo for libertador, os estudantes e os professores empreenderão uma transformação que inclui o contexto fora da sala de aula.
É notável o reconhecimento do direito dos jovens e adultos à educação, e o dever do Estado em oferecer educação para a população não escolarizada. O campo de atuação da EJA incorpora tanto as perspectivas de Educação Popular e do campo que lida com questões de direitos ao trabalho, à moradia, ao transporte, ao emprego, etc. desenvolvidas nas lutas sociais, quanto às perspectivas da educação escolar.
Reconhecer as especificidades curriculares, as relações espaço-temporais e a necessidade de reformulações curriculares que articulam a EJA com a educação para toda a vida é condição para o reconhecimento do direito a educação de jovens e Adultos. ( ENCONTRO NACIONAL DA EJA,2009).
Neste novo contexto da EJA, as especificidades curriculares voltam-se para a educação para toda a vida favorecendo a participação, a construção histórica dos sujeitos no reconhecimento de seus direitos, diversidade e diferenças na identidade cultural.
Dessa forma, a educação libertadora se firma no momento em que o educador comprometido com a Educação de Jovens e Adultos busca transformar- se constantemente a partir da compreensão do contexto social do ensino nesta realidade singular.
FREIRE (1986) afirma que a postura libertadora exige que os educadores se definam enquanto sujeitos da educação. Tomem uma posição, decidam, sejam coerentes. Pois é inadmissível uma educação neutra. E ao assumir uma postura libertadora, essa vai se construindo numa relação horizontal entre sujeitos através do diálogo.
O processo de conscientização no campo educacional contribui para a leitura de opressão, de dominação que se presencia na sociedade. É a partir da Educação que segundo Freire, pode-se compreender e ter consciência do que é o poder na sociedade. Neste sentido, a crítica de Paulo Freire ao currículo dominante, está sintetizado no conceito que ele abordou sobre “educação bancária.” A educação bancária concebe o conhecimento como sendo constituído de informações e de fatos a serem simplesmente transferidos do professor para o aluno. Dessa forma, o conhecimento que ora é repassado é algo externo e independente das pessoas envolvidas na ação pedagógica de ensino-aprendizagem.
O professor ainda é um ser superior que ensina a ignorantes. Isto forma uma consciência bancária. O educando recebe passivamente os conhecimentos, tornando-se um depósito do educador. Educa-se para arquivar o que se deposita. (FREIRE, 1983, p.38)
Para Freire, a educação visa conscientizar os oprimidos, capacitando-os a refletir criticamente sobre seu contexto, suas responsabilidades e luta contra a miséria e as injustiças sociais. São necessários novos currículos voltados ao saber dos ribeirinhos quilombolas que venham a constituir-se em instrumentos de conscientização e emancipação do oprimido, a partir da situação existencial e concreta de seus sujeitos. A preocupação primordial de Freire é a transformação
radical da realidade social na qual o sujeito está inserido. Reconhece a importância do conteúdo desde que este seja entendido como mediação para o ensino como forma de conhecer, ou seja, para o caminho do conhecimento. Para ele, é inaceitável a transmissão do saber que acontece de maneira mecânica, porque não pode haver separação entre transmissão e produção do saber. Ao separarmos os dois momentos, transformamos a escola em espaço para vender um conhecimento que corresponde a ideologia capitalista, onde o educador exerce sempre um papel ativo, enquanto o educando está limitado a uma recepção passiva.
O conteúdo significativo da EJA na comunidade ribeirinha quilombola( foto16) , por atender jovens e adultos em sua maioria de trabalhadores, torna-se imprescindível que seja constituído da vivência desses sujeitos. Enquanto trabalhadores rurais, segundo Lobato (1990, p.32), a exemplo, esses sujeitos utilizam como matéria prima local:
Cesto: De tala de miriti, arumã ou jupati, serve para guardar roupas, costumes, etc
Paneiro: Feito de tala de miriti serve para embalr mercadorias. Tipiti: De tala de arumã, para expremer mandioca e retirar o tucupi.
Peneira: De tala de arumã, pode ser caroceira e maceira, serve para coar açaí, mandioca.
Rede de maqueira: Feita de fibra tirada do grelo do miritizeiro, é também de Envira, seve para descansar e decorar ambiente.
Esteira:De taboa, serve para colocar assoalho como tapete, decorar paredes e outros aspectos decorativos.
Utensílios: Vasos, panelas, estatuetas, boca de fogão a carvão, potes, alguidar, tigelas, torradores, etc., de barro ou argila. Servem para utilidades domésticas e decoração do lar.(LOBATO,1990, p.32