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A primeira edição da “Copa Rebelde dos Movimentos Sociais” aconteceu no dia 15 de dezembro de 2013. O evento, que durou um dia inteiro, ocupando um terreno público na Av. Duque de Caxias – região da Luz, centro da cidade, foi idealizado por uma jovem liderança do Movimento Moradia Para Todos (que organiza a Ocupação Marconi, no bairro da República, centro de São Paulo) cerca de dois meses antes. Mario151 propôs a ação em uma

das reuniões do Comitê Popular da Copa SP, que aconteciam na Ocupação a cada quinze dias, inspirado no Mondiali Antirazzisti152, evento realizado anualmente na Itália, em que ele havia

participado na adolescência. A proposta era reunir os movimentos sociais da cidade para jogar futebol, ocupando o espaço público de maneira lúdica, algo como uma “Anti-Copa do Mundo” com 32 times (mesmo número de times da Copa 2014) representando as diferentes lutas que tem lugar na cidade, além de apresentações teatrais, música e debates, e assim promover uma crítica à Copa 2014.

Sessão 2.1 A escolha do campo

150 Protestos contra o Mundial contabilizam ao menos 30 detidos em SP. IG São Paulo,

12/06/2014. Disponível em http://copadomundo.ig.com.br/2014-06-12/protesto-contra-copa-do-mundo- comeca-com-confronto-na-zona-leste-de-sp.html Acesso em junho de 2014.

151 Todos os nomes citados são fictícios, para preservar a identidade dos ativistas.

152 Cf. página oficial do Mondiale Antirazzisti disponível em

O local foi definido por sua dimensão política central no contexto das lutas que reivindicam o direito à cidade. Delimitado ao sul pela Avenida Duque de Caxias, a leste pela Alameda Dino Bueno, ao norte pela Rua Helvétia e a oeste pela Alameda Barão de Piracicaba, o terreno faz fronteira com a área de intervenção do Projeto Nova Luz153. O Projeto Nova Luz

foi iniciado em 2005 pela Prefeitura Municipal e atualmente encontra-se arquivado, após decisão judicial154 que interrompeu seu desenvolvimento, fundamentada na ausência de

participação popular, após intensa mobilização de organizações da sociedade civil, comerciantes da região e movimentos populares. O terreno vazio que circunda um posto do Corpo de Bombeiros foi desapropriado e anteriormente pertencia à família Frias (proprietários do grupo Folha de S.Paulo), pelo valor de 34 milhões de reais, em 2010, e hoje pertence ao governo do estado de São Paulo. No espaço do terreno funcionava o antigo Terminal Rodoviário da Luz, que foi demolido para dar lugar ao Complexo Cultural Luz – imponente edificação que abrigaria um Teatro de Dança e Ópera nos moldes da Sala São Paulo (sede da

153 Através do instrumento da Concessão Urbanística (previsto no Estatuto da Cidade – Lei Federal nº 10257/2001) que englobava um perímetro de 45 quadras nos bairros da Luz e Santa Ifigênia, o Projeto Nova Luz consistia em o poder público municipal conceder a exploração comercial do território para a iniciativa privada vencedora de licitação, que poderia instalar ali empreendimentos imobiliários voltados para o capital de grande escala – espaços de cultura suntuosos, escritórios de luxo, hotéis e centros de compra. Como contrapartida, realizaria-se a “reurbanização” da região, por décadas abandonada pelo Estado, de modo que caberiam às empresas desapropriações, intervenções urbanísticas e os lucros advindos da valorização da terra. Projeto Urbanístico Nova Luz (2011) disponível em:

http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/desenvolvimento_urbano/arquivos/nova_luz/2011 08_PUE.pdf Para uma discussão aprofundada sobre o Projeto Nova Luz, processos de gentrificação e organização popular, ver: MELO, José Arnaldo Fonseca de. Cidade & Saúde. Tese de doutorado. FAU- USP: 2014. Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/16/16133/tde-01072014-113510/pt- br.php . Para uma discussão sobre controle social, militarização e guerra às drogas na região da Luz, ver TEIXEIRA, A. e MATSUDA, F. Feios, sujos e malvados. Revista Le Monde Diplomatique Brasil: março de 2012. Disponível em: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1124 Acesso em março de 2012.

154 Justiça de SP determina interrupção do Projeto Nova Luz. Consultor Jurídico, 23/01/2013. Disponível

em: http://www.conjur.com.br/2013-jan-23/justica-determina-interrupcao-projeto-luz-ignorar-opiniao- publica Acesso em fevereiro de 2013.

Orquestra Sinfônica de SP, frequentada majoritariamente pela elite paulistana), que fica a poucos metros dali. Anunciado em 2009 por iniciativa do governo estadual, o projeto está atualmente congelado pela atual gestão do governador Geraldo Alckmin (PSDB). No entanto, até a sua paralisação o projeto já havia consumido uma soma considerável de recursos públicos, conforme reportagem do Portal Aprendiz155 que entrevistou Arnaldo de Melo:

Sem qualquer licitação, o governo do estado contratou o escritório de arquitetura suíço Herzog & De Meuron por 45 milhões de reais – e gastou mais 8 milhões com a Theather Projects Consultants no desenho do projeto que invadiria a região. A forma da contratação, sem concurso internacional, gerou protestos de associações de arquitetos e ações judiciais, que bloquearam a construção. (...) As desapropriações e demolições da área custaram aos cofres públicos 65 milhões de reais. Se levado adiante, consumiriam outras dezenas de milhões, segundo Arnaldo de Melo, para remover e erguer um novo prédio para os Bombeiros. E mais 600 milhões, ao menos, para a construção do complexo de 85 mil metros quadrados.

Assim, a escolha do campo foi permeada pelos processos conflituosos envolvendo o direito à cidade e teve como objetivo ocupar o espaço público para apresentar um contraponto à maneira como a Copa 2014 era organizada. Embora fosse um terreno vazio, o espaço já era ocupado pelos moradores da região para jogar futebol aos finais de semana. Essa ocupação foi considerada na organização da Copa Rebelde, que procurou estabelecer relações com o bairro.