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Para realizar a análise de dados foi considerada a proposta de Delval (2002, p. 170) de começar pela análise qualitativa, porque ao trabalhar com dados obtidos do método clínico, no início, tem-se diante de si uma enorme quantidade de material que parece desconexa e sem sentido. Primeiramente, é preciso descobrir as grandes tendências e os tipos de explicações gerais para depois, na análise quantitativa, ver as mudanças das concepções com mais detalhes, analisá-las e determinar se essas mudanças são significativas.

Portanto, no presente estudo, logo após ter realizado várias leituras das respostas coletadas se tentou definir as grandes tendências para elaborar níveis gerais de crenças. Só depois foi realizada uma análise quantitativa em tabelas de freqüência, calculando as porcentagens (o que resultou útil para determinar se existiam diferenças qualitativas significativas e consistentes nos grupos etários considerados). Os dados foram organizados em quadros divididos por faixa etária (para a análise quantitativa) e por categorias elaboradas

a partir das tendências e elementos comuns que se evidenciaram na análise qualitativa dos relatos das crianças.

Em linhas gerais, a análise das formas e tendências das respostas foi baseada nas características das estruturas intelectuais próprias do pensamento pré-operatório, operatório concreto e da afetividade egocêntrica. Ao mesmo tempo, as formas e conteúdos foram interpretados à luz dos processos primários (condensação, deslocamento, negação, princípio da não contradição), das explicações freudianas para dar conta do conteúdo das teorias sexuais infantis e das características da fase fálica e do período de latência. Ao trabalhar com psicanálise é importante ser prudente para evitar “interpretações selvagens” fora do dispositivo do espaço de análise. Portanto, a abordagem do processo de construção das crenças a partir da coleta de dados focalizou mais as “formas” e mecanismos típicos que o conteúdo específico da fala singular das crianças. Fica a ressalva feita por Piaget de que é muito mais difícil de pesquisar a afetividade que os aspectos cognitivos (e, em parte, por essa razão ele não aprofundou seu estudo).

Em 1926, na introdução do livro A representação do mundo na criança Piaget estabelece cinco grandes categorias para os distintos tipos de respostas registradas nas crianças entrevistadas (só para esse livro foram entrevistadas mais de 600). São as crenças espontâneas, as desencadeadas, as sugeridas, a fabulação e o não-importismo. Piaget (1926/2005) designa o não-importismo como a atitude da criança que está entediada e que responde qualquer coisa. A fabulação é a resposta que a criança formula inventando uma história, mas sem acreditar nela. Se a criança busca agradar ao entrevistador que realizou uma pergunta sugestiva (as quais, segundo Piaget, são difíceis de evitar), surge a crença sugerida. Quando a criança nunca se deparou com a pergunta escutada e responde com reflexão própria há crença desencadeada (pela entrevista). Por último, as crenças espontâneas são aquelas que resultam prontas porque já foram formuladas pela criança anteriormente à entrevista.

A diferença entre as crenças é muito sutil e Delval (2002) adverte que nem sempre é fácil detectá-las. O grande problema com as crianças pequenas, segundo o autor, é que embora tenham algumas idéias sobre os fenômenos de seu entorno, elas não as expressam de maneira organizada ou sistemática porque não têm consciência dessa reflexão. Por isso, quando se pergunta à criança sobre algum assunto é difícil ter segurança do nível de espontaneidade da crença. Contudo, essas considerações evitam distorcer as respostas dos sujeitos tanto durante a entrevista como na sua análise.

Apesar das dificuldades para diferenciá-las, foi importante realizar essa triagem. Discernir o que provém da criança e o que foi inspirado pelo ambiente adulto é um problema

bem complexo. O limite entre as crenças desencadeadas e as espontâneas é difícil de estabelecer, porém não resulta fundamental e as duas são de grande interesse porque nenhuma invenção vem do nada, mas supõe esquemas anteriores. Em resumo, dos diferentes tipos de resposta, Piaget assinala que as crenças espontâneas são as mais interessantes, porém as desencadeadas também nos orientam; a fabulação, se interpretada com cuidado, pode oferecer algumas indicações e por fim, as sugeridas e o não-importismo devem ser “severamente eliminados”. Ou seja, no método clínico é preciso que a criança “autorize” ao entrevistador, portanto, não faz sentido nem resulta ético continuar com uma entrevista na qual a criança manifesta não ter interesse em responder ou se mostra desconfortável.

Durante a coleta de dados as atitudes de não-importismo foram poucas. As entrevistas foram sutilmente suspensas quando foi observado que alguma criança se mostrava incômoda, muito tímida ou desinteressada a partir de manifestações como: silêncio contínuo, começar a cantar depois de escutar a pergunta da entrevistadora ou reperguntar “quê?” sistematicamente, mas sem responder logo após escutar o esclarecimento oferecido. As respostas desencadeadas foram detectadas mais explicitamente nas crianças que já tinham recebido explicações dos pais (acerca da fecundação ou do nascimento da própria criança) ou tinham observado imagens de nascimentos na televisão ou em ultrassom.

Enfim, o vetor que orientou a interpretação das respostas foi a afirmação piagetiana de que “o princípio da interpretação das respostas desencadeadas, e até, em parte, das respostas espontâneas, consiste em considerá-las mais como sintomas do que como realidades” (Piaget, 1926/2005, p 27). Dessa forma, analisar essas crenças implica abordá-las como o produto de uma construção complexa, atravessada por diferentes processos e tendências. Portanto, é preciso ir além do seu conteúdo manifesto e literal e entendê-las como indícios de processos mentais e afetivos (como “a ponta do iceberg”). Na perspectiva psicanalítica, tal concepção remete, em parte, à noção de formação de compromisso entendida como a forma que adotam as produções do inconsciente para ser admitidas na consciência logo após ser deformadas para não ser reconhecidas. A noção de “formação do sintoma”, por exemplo, designa o fato de ser o resultado da elaboração psíquica (Laplanche & Pontalis, 2009). Como já foi assinalado (cf. item 3.2), essa elaboração contempla um aparelho psíquico com sistemas que respondem a legalidades específicas e que apresentam mecanismos típicos na gênese de suas formações. Conseqüentemente, tal como foi reafirmado por Freud com o conceito de realidade psíquica, elas nem sempre se correspondem com a realidade consensual.