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De posse de algumas biografias, pode-se, em termos gerais, desenhar as principais adversidades encontradas pelas pioneiras nos cursos teológicos, dificuldades estas que vão além da infra-estrutura dos Seminários. Elas não conseguiram gozar das mesmas vantagens que os alunos homens possuíam. Elizabeth Hewat, a primeira mulher a se graduar em divindades na Universidade

20 É inegável que na história oficial presbiteriana independente, assim como na narrativa histórica

de um modo geral, poucas mulheres são mencionadas, contudo há aquelas que conseguem fissurar as estruturas oficiais e pela sua visibilidade em dado momento histórico são lembradas, ainda que de forma superficial. Sem dúvida, a mulher que mais tem sido citada nesta história é Albina Pires de Campos, até bem pouco tempo atrás considerada a primeira diaconisa desta instituição (novos dados apontam uma ordenação anterior a esta em Minas Gerais). Seria interessante levantar a pergunta por que razão Cesarina Xavier Pinto, cujo trabalho parece ter sido muito mais significativo e abrangente no interior da Igreja, é tão pouco recordada em contraste com aquela considerada a primeira diaconisa, Sra. Albina?

de Edinburgo, Escócia, teve que provar que, como mulher, também possuía qualidades intelectuais, igual ou superior a dos seus colegas homens. Ademais, a Faculdade de Teologia possuía um número de bolsas de estudos, da qual Elizabeth foi excluída, e quando perguntou ao seu professor porque ela não foi contemplada, ele respondeu explicitamente: “Bom, você realmente precisa de uma? Eu não quero te dar uma bolsa somente pra você comprar presilhas para seus cabelos” (Wardlaw, 1996: 52-53). Como se não bastasse, experimentou de perto a exclusão e o descaso. Não era convidada para as aulas atípicas comuns nos finais de semestre, como os cursos ministrados em residência de algum professor – cursos estes que integravam os currículos – e, quando eram convidadas, não recebiam o certificado de participação como os demais alunos homens. Quando perguntava a razão pela qual não havia recebido o seu certificado, ouviu: “você pode receber uma nota e um certificado, oh é verdade! Depois me procure” (Wardlaw, 1996: 53).

Constance Coltman foi a primeira mulher ordenada da Inglaterra e foi uma das três primeiras a concluir o curso teológico. Ela enfrentou de perto o preconceito num momento em que era novidade mulher em curso superior. Mais tarde, ela escrevendo sobre sua experiência, disse: "minha geração foi treinada exclusivamente por escolas teológicas masculinas, foi moldada por um currículo masculino, lecionadas por professores homens" (Kaye, 2004: 57).

As três primeiras mulheres a freqüentar um curso de teologia na Inglaterra foram Margaret Hardy, Constance Clark e Kathleen Hendry. Desde o ano de 1918 o Lancashire Independent College havia concordado em se preparar para receber mulheres como alunas. Mas foi somente em 1924 que Margaret Hardy fez, formalmente, um pedido para se matricular no curso de teologia. Um ano depois Constance Clark (depois Constance Coltman), e Kathleen Hendry tiveram a mesma iniciativa. A Universidade dispunha de internato para o corpo discente, mas o comitê diretor da instituição achava inviável a idéia de morar homens e mulheres no mesmo espaço comum. Portanto, disto resultou que as três estudantes tiveram que arranjar moradia fora dos limites da Universidade. Além disso, a elas não eram permitido fazer parte da "common room", mas podiam participar de reuniões semanais para debater temas como literatura e sociedade. O

espaço onde era realizada as assembléias sofreu algumas modificações para que essas mulheres pudessem participar das reuniões. De acordo com Kaye (2004: 58) as três alunas se destacaram pelas suas qualidades acadêmicas, especialmente nas disciplinas bíblicas de Hebraico e Grego.

O Comitê Diretor da Universidade de Lancashire mostrou-se simpático a entrada da mulher no curso teológico, não obstante os muitos contratempos com as adaptações. Kaye sugere que a presença de Constance Pilkington, única mulher presente neste conselho, foi fator determinante para esta abertura. Apesar disso, a partir de 1930 inicia-se um período mais conservador nesta universidade e no ano seguinte, mais uma vez as portas se fecharam e as mulheres tiveram seu direito de estudar teologia novamente tolhido, subsidiado por três argumentos: primeiro, havia um número muito pequeno de igrejas que aceitavam mulheres como ministras; segundo, faltava às mulheres tempo prático, ou estágio, porque as igrejas não as aceitavam para treinamento; e, por fim, a Universidade percebia nesta permissão um despropósito com a tradição da instituição e com as acomodações (Kaye, 2004: 59). Somente vinte anos depois é que esta Universidade reabriu suas portas para as mulheres.

Montenegro (1988: 130) resume as principais dificuldades encontradas pelas estudantes de teologia no Brasil, há quase duas décadas. Transcrevemos a seguir:

1º - No final do curso teológico, depois de se sentarem nos mesmos bancos que os homens, e muitas vezes de se sobressaírem em relação a eles, só resta a opção de trabalhar com crianças.

2º - Missionárias, em diferentes partes do Brasil, fazem de tudo: organizam de comunidades e igrejas, escolas, postos de saúde, assistência material e espiritual a essas comunidades; mas no momento da celebração eucarística é preciso esperar pelo pastor, mesmo que ele venha de longe.

3º - Proibição de que uma mulher seja oradora da turma de formandos. A direção de determinando Seminário achou que o orador tinha que ser homem.

4º - No 2º Encontro de Teólogas, realizado no Colégio Assunção, foi denunciada a discriminação de mulheres professoras, muitas com mestrado, marginalizadas quando da chegada de um padre professor.

Além destes, outros problemas enfrentados pelas mulheres no cotidiano dos Seminários passavam pelo descaso com as interpretações do texto bíblico feitas a partir da hermenêutica feminista, uma vez que esta denuncia o caráter exclusivista da hermenêutica clássica e propõe olhares diferentes para um mesmo texto; a proibição de estágio para as estudantes mulheres, até o preconceito generalizado por parte dos professores que viam nas alunas uma espécie inferior de discente (Montenegro, 1988: 130-131). Podem-se acrescentar piadinhas jocosas como “a Bíblia da mulher é uma livro de receitas”, “é fácil saber se uma igreja é pastoreada por mulher: ela será cor-de-rosa”, entre muitas outras, proferidas pelos colegas homens e também pelos professores.